Férias!

De hoje ao dia 6 de fevereiro estarei fora, em um lugar onde o celular não pega, não tem internet e a telepatia não funciona. Férias para descansar o corpo e a cabeça depois de um ano muito conturbado! Quem precisar falar comigo pode por favor me enviar e-mail para pannun@gmail.com. Eventualmente eu vou até uma lan-house para pegar os recados. Espero que o País não se desmanche até a minha volta. E que todos fiquem bem.

Bem-vindo, DDT! E rápido!

Um dos maiores erros da história da humanidade foi o banimento do DDT, o mais eficiente inseticida jamais produzido. Foi graças a ele que o Brasil conseguiu, na década de 50, erradicar o Aedes Aegypti, o mosquito-bomba que nos faz novamente tremer diante de epidemias como  dengue, zyca e chikungunya.

Se o DDT não tivesse sido banido em 1972 por pura implicância de fanáticos religiosos do pior ambientalismo, quase 50 milhões de vidas teriam sido salvas na África e nas Américas, onde a malária é endêmica.

Mas não. Manter a condenação inexplicável de um inseticida barato, de patente livre e eficiência já demonstrada ao longo da história é muito mais fácil, especialmente num mundo guiado pelos preconceitos de uma elite que só se compromete com seu próprio umbigo.

A volta do DDT, sobre o qual jamais se comprovou nada do que lhe foi imputado no passado, poderia acabar com as múltiplas epidemias que nos afligem. Com a vantagem de novamente erradicar o mosquito, como já fizemos duas vezes nos últimos 70 anos. É inacreditável que as nossas autoridades e os nossos cientistas não tenham ainda se manifestado sobre o assunto, que está sendo objeto de acaloradas discussões ao redor do planeta.

A comunidade acadêmica aos poucos vai despertando para a gritante obviedade: meio bilhão de pessoas foram salvas dessas pragas por conta do DDT antes de seu banimento. Por que estamos a sucumbir diante das mesmas doenças se temos esse recurso tão valioso nas nossas prateleiras ?

E creia. Até mesmo entidades tão zelosas da proteção ao meio-ambiente como o Greenpeace já reviram posição. Em um artigo que pode ser lido aqui, o Greenpeace diz que não se pode culpar culpar os ambientalistas pelo banimento, uma vez que o que se propugnava na década de 70 era a suspensão do uso do inseticida e o fim de sua aplicação na agricultura, não no combate a endemias.

Acredite: o Greenpeace admite hoje o uso do DDT para o combate aos focos de malária e outras endemias.

Em 2015, a dengue matou mais de 800 pessoas no Brasil. No ano passado, foram quase 700 morte. Fora os 1750 casos confirmados de microcefalia.

Então, fica a pergunta:  O que o Ministério da Saúde está esperando ? Anos já se passaram desde que o assunto ganhou as dimensões que tem agora. O que falta para trazer de volta o DDT ? Quanta gente mais vai ter que morrer antes que a ciência derrube o preconceito morto do ambientalismo de fancaria ?

Rodrigo Maia cede a lobby da bancada da bala e aborta CPI da Taurus

Sob o argumento de que não há fato determinado a investigar, o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia, atuou em favor do lobby congressual conhecido como Bancada da Bala e livrou empresa Forjas Taurus de ter que responder pela má qualidade das armas que fabrica em uma comissão parlamentar de inquérito. O arquivamento, feito sem alarde, foi determinado no dia 26 de outubro de 2016.
No despacho em que empastelou a investigação, Rodrigo Maia argmentou que os 202 deputados que assinaram o requerimento da CPI “citam casos pontuais, sem demonstrar a repercussão do fato, limitando-se a apontar notícias de televisão  e quatro casos supostamente ocorridos no Distrito Federal e um nos Estados Unidos”.

A argumentação não resiste ao menor questionamento. Um dos “supostos” casos ocorrido no Distrito Federal acaba de ter sua perícia divulgada (baixe a íntegra do documento aqui). E ela é fatal para o único fabricante brasileiro de armamentos leves. Ao analisar o comportamento da pistola Taurus 24/7, que disparou acidentalmente e quase matou agente de polícia civil Luciano Vieira, do Distrito Federal, os peritos brasilienses foram conclusivos: quando a arma cai com a coronha para baixo e o cano para cima, ocorre “o acionamento por inércia da tecla do gatilho, o que permite afirmar que (…) a arma está sujeita à ocorrência de disparos acidentais”.

As reportagens de televisão citadas pelo presidente da Câmara apontam ao menos 44 casos de ferimentos provocados pordisparos involuntários ocorridos em função da queda das pistolas PT 24/7 em vários estados brasileiros. Uma dessas reportagens é de autoria do editor deste blog e pode ser assistida aqui, aqui e aqui. A série Especial Armas, veiculada pelo Jornal da Band em julho do ano passado, não deixa dúvida sobre os problemas de projeto e fabricação das pistolas semi-automáticas que a Taurus fornece para todas as polícias brasileiras.

O caso dos Estados Unidos ao qual o despacho de Rodrigo Maia alude é na verdade a maior mácula comercial da Taurus, que enfrenta mais de 70 processos semelhantes na lerda justiça brasileira. Nos EUA, no entanto, a companha foi obrigada a aceitar um vexaminoso acordo no qual se compromete a recomprar e indenizar todos os consumidores de seus produtos, que lá já provocaram ao menos uma morte e sequelas definitivas em função de seu funcionamento deficiente.

Graças ao lobby poderoso que mantém atuando junto aos Poderes Legislativo e Executivo, a Taurus tem conseguido, a despeito da má qualidade dos produtos que fabrica, manter privilégios que lhe garantem praticamente a exclusividade do mercado de armas leves no Brasil. Isso acontece a despeito de eventos como a vende de seis mil submetralhadoras imprestáveis ao governo do Estado de São Paulo em 2013, o que valeu ao fabricante gaúcho uma penalidade severa e a inabilitação para contratar com as polícia paulistas. Até hoje as armas permanecem encaixotadas nos paióis da PMSP.

Mas para Rodrigo Maia, um parlamentar que cada dia mais demonstra sua vocação para o pequeno e o injustificável, mais vale atender aos interesses do fabricante do que escancarar as mortes e ferimentos que a empresa tem provocado com seus produtos e projetos de baixa qualidade.

Em 2016, clima seguiu contrariando milenarismo ambiental.

Se para a população em geral o ano de 2016 é para ser o mais rapidamente possível esquecido, para os milenaristas do clima, que vivem a apregoar o colapso ambiental do globo terrestre, os legados do ano fatídico não poderiam ser piores. O último relatório mensal da NOAA, a agência governamental norte-americana que monitora os oceanos e o clima, registrou em novembro de 2016 a quarta maior área coberta de gelo no  Hemisfério Norte em toda a história. O relatório completo pode ser acessado aqui. Usualmente, o NOAA é a Meca dos ambientalistas.

De acordo com a agência americana, a área recoberta com gelo no Norte do planeta foi de 36,93 milhões de km² no penúltimo mês do ano passado,  2,97 milhões de km² (8,7%) acima da média histórica, que é calculada entre 1981 e 2010. Ou seja: a cobertura de gelo no Ártico, Eurásia e América do Norte está aumentando, e não decrescendo, como previam os modelos climáticos que orientam as previsões catastróficas do ambientalismo milenarista.

No Hemisfério Sul, ainda que os satélites da NOAA tenham registrado a primavera mais quente da história, o verão polar antártico ficou muito distante dos níveis de 2012, o ano mais crítico para o continente austral. No dia mais quente no ano na Antártica, a cobertura de gelo chegou a 4,13 milhões de km². A marca não é novidade e nem de longe ameaçou o recorde negativo de 2012, quando a cobertura de gelo ao redor do Polo Sul chegou a 3,41 milhões de km² (17,43% menor). O nível foi o mesmo registrado em 2007.

O comportamento das áreas cobertas com gelo não guarda relação com a concentração de CO₂ na atmosfera. De acordo com dados Organização Meteorológica Mundial  (WMO, órgão das Nações Unidas), há hoje 400 partes de gás carbônico dispersas por milhão de moléculas de outros gases na atmosfera. Isso representa um incremento de 144% em relação à composição presumida da última década do século XVIII, precursora da Revolução Industrial, quando o planeta tinha uma atmosfera ainda livre da interferência massiva de gases provenientes da queima de combustíveis  fósseis.

De acordo com as previsões dos milenaristas climáticos, o aumento da concentração deCO₂ e outros gases-estufa na atmosfera deveria estar provocando um aumento da temperatura média da Terra. E esse aumento traria como primeira consequência a redução da área recoberta por gelo, o que efetivamente não está ocorrendo.

E por que não está ocorrendo ? De acordo com teóricos céticos do clima, como o professor Luis Carlos Molion, não é o C0₂ o responsável pela regulação da temperatura e muito menos do clima no planeta. Molion e outros estudiosos que divergem dos milenaristas asseguram que a temperatura da atmosfera é regulada exclusivamente pelo Sol. “O ar é aquecido por contato e não por radiação”, assegura o especialista, para quem o mundo está na iminência de iniciar um novo ciclo de resfriamento — uma nova glaciação.

A ausência de relação entre a concentração de gás carbônico, a temperatura da Terra, a cobertura de gelo e o nível das geleiras, no entanto, não deve significar que nosso planeta não merece ser tratado com muito mais zelo e carinho do que temos historicamente dispensado a ele. O lixo que entope a superfície, as chuvas químicas despejando milhares de toneladas de produtos tóxicos nos oceanos, as ilhas de sacos e garrafas plásticas, o assoreamento das nascentes são razões mais do que fundadas para a adoção de medidas preservacionistas drásticas e urgentes.

O aquecimento global não vai acabar com a vida humana na Terra. Mas o lixo que empesta o solo, a água e o ar, este sim pode envenenar definitivamente o planetinha azul.

Os tolos e a ironia

Escrevo este textículo (ops!) porque recebi uma ligação de uma das minhas filhas. Ela é feminista roxa (ops!) e estava apavorada com a repercussão de uma frase que eu realmente disse ontem no começo da Jornal da Noite, da Band: “lugar de mulher é na cozinha”.

“Nossa, mas o cara ainda tem a pachorra de admitir que disse uma bobagem dessa!…”, espantar-se-hão todos os tolos,  imbecis, os mal-intencionados e sociopatas que buscam apenas um pretexto para estigmatizar gente, que é o que mais se faz nesse Reino de Hades da internet.

Sim, eu disse isso mesmo. E reitero, ressalvado o contexto. Antes, porém, eu havia dito que a campeã do MasterChef venceu uma conspiração machista que tinha por objetivo tirá-la daquela cozinha — a do MasterChef. Ou será que esse bando de gralhas eletrônicas só ouviu a segunda parte ? Ou será que não viram as sacanagens que foram feitas com a Dayse Paparoto para tirá-la daquela cozinha cenográfica ?

Em homenagem a essa gente que não consegue fazer o “O” sem um copo, deixo uma frase que ouvi do Fernando Mitre há algum tempo. Divirtam-se com ela, ainda que não consigam entender seu sentido:

A ironia morre nos ouvidos do tolo.

Agora podem voltar a me odiar.

 

 

 

 

#foratodos!

O sentido que emana da primeira das quase 80 propostas de delação da Odebrecht é um só: estamos nas mãos de uma organização que, a partir do PMDB, com a deposição de Dilma Rousseff, se mudou para a Presidência da República para assaltar o País.

Uma organização que opera de maneira hierarquizada e organizada, com um ‘know-how’ muito bem sistematizado, cuja expertise vai se reproduzindo em analogias facilmente verificáveis em dois dos três Poderes
.

Na linha de frente estão os operadores mais atrevidos. No Senado, Romero Jucá; na Câmara, Eliseu Padilha. Eles atuam em sintonia com outros operadores/distribuidores de dinheiro de propina como Moreira Franco, Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha, que agiam em seu próprio nome e também em nome de terceiros.

Secundados por estes estavam os grandes chefes do esquema, que segundo o delator Cláudio Filho eram Renan Calheiros, Eunício Oliveira e Michel Temer. Este último chegou a usar as instalações do Palácio do Jaburú para, num jantar de ricos esmoleres, solicitar R$ 10 milhões ao denuciante.

Sobre isso, Cláudio Filho afirma o seguinte: “Claramente, o local escolhido para a reunião foi uma opção simbólica voltada a dar mais peso ao pedido de repasse financeiro que foi feito naquela ocasião”.

Ele também voltaria à residência do então vice-presidente para relatar que Graça Foster havia indagado sobre a distribuição de dinheiro da empreiteira para gente do PMDB.

Os detalhes escabrosos do esquema explicam por que Temer tem tanta dificuldade em se livrar das más companhias de Jucá, que foi banido do Ministério do Planejamento para reaparecer na liderança do governo no Senado, e Geddel, cujo comportamento em relação ao prédio embargado de Salvador chegou a ser considerado mera questiúncula pelo núcleo do governo.

Com os papéis de cada um dos membros dessa organização bem definidos pelo relatório quase literário do ex-lobista da Odebrecht, é imperativo dar ao problema o tratamento que ele merece. É imperativo iniciar os procedimentos para afastar essa gente do Poder.

Atolado até a medula na corrupção a na falta de legitimidade, o governo provisório dá sobejos sinais de fraqueza política. O Presidente da República viu sua escassa popularidade ser corroída pela crise enquanto sua debilidade para organizar o próprio gabinete vai ficando mais evidenciada a cada nomeação desfeita, a cada demissão vexaminosa que Michel Temer é obrigado a aceitar.

O País está quebrado. A crise política está a exigir o restante de energia institucional, que vai sendo drenada a cada hora por episódios estranhos como o atrito entre o Legislativo e o Judiciário. Não sobra nada para o soerguimento da economia, que está comatosa. Por esta razão os resultados não aparecem.

O nível de entropia interna no Palácio do Planalto chegou ao ponto máximo. Sem a condição moral mínima para iniciar a restauração da imagem do governo perante a população, e dependendo apenas de relações de natureza pouco republicana para se sustentar no Congresso, é de se supor que o governo Temer vai entrar em colapso, se que isso ja não se verifica.

É preciso isolar essa elite corrupta que manda no País, afastá-la do Poder e acelerar o ajuizamento das ações penais para punir exemplarmente quem tiver culpa por esse descalabro. É preciso sepultar a cultura do jeitinho, da esperteza e do patrimonialismo.

O Brasil já não aguenta mais essa gente sórdida a assaltar as esperanças da Nação e tem mecanismos de superação dentro de suas instituições. Com a palavra o STF e o TSE, que tem nas mãos a ferramenta adequada para resolver o problema com a cassação da chapa Dilma/Temer.

Se isso não for feito logo, não será apenas a economia que restará destroçada. O que está em risco hoje é o esgarçamento das nossas instituições.

Data Vênia, o povo

Se você está achando que o STF não faz jus ao que o País necessita neste momento, acalme-se. Ele apenas reparou algo que precisava de reparação. Decidiu que Renan Calheiros não é ficha limpa o suficiente para assumir interinamente a Presidência da República, mas não é ficha suja o que baste para ser afastado da presidência do Senado.

Foi uma decisão sábia, à altura do altruísmo e do patriotismo dos nosso ministros. Eles sabem que é melhor ter um ladrão confiável com a pauta do Congresso nas mãos do que permitir que um petista sério tome assento na condução do ajuste fiscal. Ainda que, como disse o próprio réu anistiado ontem, isso viesse a durar apenas nove dias.

Você não entende, mas a Suprema Corte não precisa seguir estritamente o que diz a lei maior para embasar decisões, inclusive as que vão soar como ofensivas ou estapafúrdias aos ouvidos incautos da Nação. Tanto assim que três dos nove ministros que participaram do julgamento de ontem encontraram no mesmo texto que absolveu Renan Calheiros justificativas para votar ao contrário da maioria dos colegas . Mas a decisão era mesmo política, como se viu.

O povo não entende nada mesmo da ética do Poder e não sabe que a Constituição tem um valor meramente referencial quando interesses particulares de quem manda precisam se sobrepor ao desiderato da plebe. Não está, portanto, apto para julgar quem julga por nós. Se você se indignou com o que viu ontem, com certeza é porque não entendeu direito.

Repare como a reação do governo foi diferente da sua. Enquanto você se remoía de ódio, enquanto você era consumido por uma sensação de perda do horizonte, havia festas e mais festas nos gabinetes mais chiques de Brasília. Se eles comandam o País e comemoraram, por que você acha que esse sentimento mesquinho que te corrói é que está certo ?

Pense num Celso de Mello, num Lewandowski. Pense numa Carmem Lúcia, num Luis Fux. Na sabedoria quase adolescente de um Tóffoli. Só de olhar aquele rosto impávido de um Teori, não te dá uma paz interior ? Fique tranquilo e aquiete seu espírito. Nós estamos bem de magistrados e nossa Pátria está salva. Ainda que o roteiro da salvação passe antes pela beatificação de gente como Renan Calheiros vez por outra.

Mais a mais, esse povo gritando impropérios na rua é insaciável. Deveria ter ficado satisfeito com a saída da Dilma, mas parece que isso não bastou. Agora as pessoas andam dizendo que o Supremo é o tribunalzão do jeitinho. Que os ministros têm alma de juizeco. Que não têm altivez porque aceitam a humilhação de ver um mandado recusado sem reagir. Ledo engano.

Você tem que reconhecer ao menos o mérito dessa gente altruísta que abre mão do tal monopólio da última palavra em beneficio do que realmente importa, que é direito dos senadores de escolherem quem bem lhes aprouver para dirigir a Câmara Alta. Isso não é problema seu. A sua parte consiste em dar um voto, apenas um voto, que num enorme oceano de votos vai ajudar a compor o perfil desse universo habitado por figuras como Renan. E eles, por sua vez, vão indicar e aprovar quem os julga — em seu nome.

Data vênia, a sua opinião importa muito pouco. É por isso que ninguém está nem aí para o que você está pensando ou sentindo. Você não manda na República, não entende nada do Poder nem alcança a nobreza escondida por trás de atos e decisões aparentemente incompreensíveis à luz dos seus valores.

Conforme-se. É o que resta a você. Apenas conformar-se.

Acompanhe no blog a sessão do STF que deve afastar Renan Calheiros

O blog transmite ao vivo o julgamento da ADPF impetrada pela Rede Sustentabilidade com o objetivo de afastar Renan Calheiros da presidência do Senado da República em função de o parlamentar alagoano ter se transformado em réu em ação pena perante o Supremo Tribunal Federal. A transmissão é gerada pela TV Justiça.

A flauta de Marco Aurélio

tifaoUm dos mais pavorosos titãs da mitologia grega é Tifão, filho de Gaia e Tártaro. Tinha mil cabeças que podiam tocar as estrelas e braços capazes de abraçar meio mundo.

Veio das profundezas do Hades com o propósito de subjugar o mais poderoso dos deuses. Era tão forte e violento que venceu Zeus uma vez e, ao escalar o Olimpo, expulsou de lá todas as outras divindades.

Foi derrotado por um singelo estratagema executado pelo flautista Cadmo. Ele atraiu a criatura pavorosa e a encantou com sua música. Enquanto isso, Zeus furtava seus raios e poderes de uma caixa onde o monstro os havia escondido. A inteligência do delicado estratagema venceu a brutalidade da besta.

Ontem, o Supremo Tribunal Federal fez soar a flauta mágica. Renan Calheiros, o Tifão contemporâneo, tombou vencido por uma liminar urdida por Marco Aurélio de Mello a pedido da Rede Sustentabilidade, o Cadmo dessa estória.

E foi um tombo tão grande e retumbante que só deixou como alternativa ao poderoso titã do Senado refugiar-se no Monte Nisa de seu mandato parlamentar. Nada, nada, isso ainda lhe garante o privilégio de foro e, quem sabe, mais alguns anos de procrastinação até que a deusa Themis  possa derrotá-lo definitivamente.

Renan não tem futuro, quer na vida política, quer no mundo civil. Seu destino é o mais drástico possível. Mais cedo ou mais tarde, vai ter que se avir com seu passivo judicial. E provavelmente não terá mais sorte do que o colega Eduardo Cunha,  outro demônio que já retornou ao Reino de Hades.

Ocorre que ninguém sabe quantos megatons de energia serão produzidos pela queda desse titã. É provável que a primeira mudança seja a o reconhecimento da inviabilidade do projeto de abuso de autoridade gestado com o objetivo de antecipar a vingança contra os promotores de justiça e juízes que irão condená-lo daqui a pouco.

Mas o calor da luta final pode também fustigar as pretensões de Michel Temer de aprovar a toque de caixa a reforma da Previdência Social, que chega hoje ao  Congresso Nacional. E sem ela, perde completamente o sentido o outro elemento do binômio de contenção fiscal montado pelo Planalto, a PEC 55, que cria um teto para os gastos públicos, com votação marcada para terça da semana que vem.

A indisposição entre os Poderes aos poucos vai tomando os contornos de uma grave crise institucional. O que pode resultar disso, nem Zeus, com todos os seus poderes, sabe.

Alguns projetos caros ao governo já saem dessa batalha bestial condenados. Um deles é a candidatura do senador Eunício Oliveira à presidência do Senado. Na iminência de se tornar réu como Renan, não poderá permanecer na linha sucessória do Presidente da República, o que inviabiliza sua pretensão.

Também está aceso o farol amarelo para áulicos do Planalto como Romero Jucá, cujas menções na Lava Jato não o impediram de assumir o honroso cargo de líder do governo no Congresso, e outros personagens do núcleo do governo Temer enrolados com seu passado criminal.

Se ficar só nisso, já está de bom tamanho. Porque com a economia desgovernada e a política de soerguimento abatida, estaremos a um passo da inviabilidade política do atual governo, que sofre agudamente com sua falta de legitimidade.

O quadro, como se vê por essa fresta, é medonho.

Porque, ao final da história, pode não haver mais um Tifão a derrotar.

Mas pode também não haver mais um Olimpo a restaurar.

 

 

 

 

 

Vai lá, Presidente.

Arena Condá

Daniel Isaia/Agência Brasil

Presidente, se eu fosse o senhor, iria ao estádio de Chapecó. Tem um monte de gente esperando o senhor lá. As pessoas estão precisando que alguém tenha um gesto de grandeza. Pode perfeitamente vir do senhor. Basta ter um pouco de coragem. Medo de tomar uma vaia não justifica sua ausência. O senhor vai ficar com fama de covarde.

É um momento de comoção. As pessoas estão muito tristes com o que aconteceu. Realmente tristes, desoladas. Estão se sentindo como se tivessem perdido um irmão mais novo no auge da vida. Elas se emocionaram com o Ministro José Serra, para o senhor ter uma ideia!

Nós vivemos em 1994 um momento muito parecido com este que estamos atravessando agora. Foi quando Ayrton Senna morreu e deixou o País órfão de um líder. Assim como temos agora o senhor, tínhamos na Presidência da República um vice efetivado no cargo graças a um impeachment.

O Itamar Franco não bateu boca com o pai de ninguém. Ao contrário. Ele mandou uma carta muito respeitosa aos pais do Senna. Não foi uma nota gelada, protocolar. “Peço-lhe receber o abraço de um pai que entende seu sofrimento e do presidente da República que expressa o sentimento de toda a Nação”, escreveu o Presidente de então. A tristeza dele a gente pode sentir até hoje ao reler a frase.

Ele foi ao velório. Enfrentou uma multidão dez vezes maior do que os cem mil que são esperados na arena. Um milhão de pessoas. Se ele encarou um milhão, por que o senhor não encararia cem mil?

Não sei se depois desse bate-boca com o sr. Osmar Machado, pai do Felipe, a coisa vai ser fácil para o senhor. Mas ‘Seu’ Osmar tem razão. O senhor e a sua assessoria não deveriam nem ter cogitado não ir à Arena Condá. Muito menos mandar o porta-voz dar um cala-boca no pai do menino. Foi péssimo aquilo. Por que o senhor mesmo não pegou o telefone e ligou para a família? Custava alguma coisa ?

Deve ter um monte de aspones soprando aí no seu ouvido que o senhor não deve ir, que seria péssimo se fosse admoestado pelo público — ainda mais depois do Serra ter sido ovacionado na Colômbia. Mas se o senhor realmente não for, vai ser pior.

Pense bem. Será que alguém vai se aproveitar de uma hora como esta pra fazer um ato político ? Num velório coletivo ? Eu sou capaz de apostar que não. Seria de muito mau gosto. Ainda que as pessoas estejam irritadas com o senhor, especialmente depois dessa história do apartamento do  Geddel .

Duvido que alguém vá transformar este momento tão triste numa manifestação. Mas vai que…

Imagino que tem muito conselheiro soprando no seu ouvido que o senhor não está aí para ser popular, que a sua função é consertar a economia. Vão dizer ao senhor que essa comoção daqui a pouco passa, e que na verdade isso não importa muito porque o senhor é o cara da objetividade, que vai devolver a nossa dignidade debelando essa crise medonha.

Só que não está funcionando desse jeito. Talvez porque essa gente aí na rua com os olhos merejados também precise de atenção. De um afago. Por isso, aceito que há uma possibilidade de que vaiem o senhor no velório. Uma possibilidade, ok ? Mas há uma certeza absoluta: vão crucificá-lo se o senhor não for.

Lembra que o Lula jamais apareceu na cena do último acidente da TAM ? Pois isso provocou um estrago enorme na reputação dele. Ele mandou o Nelson Jobim com um delay gigantesco a São Paulo: Dez dias depois! Ficou para sempre com fama de covarde.

O Obama, em compensação, lustrou sua biografia quando desembarcou em Orlando para abraçar as vítimas da tragédia da boate gay. Ele se encontrou com os parentes dos mortos num ginásio, numa situação bem parecida com essa que o senhor não quer enfrentar.

Percebe a diferença ?

Pois é isso. Eu, se fosse o senhor, não deixaria as famílias enlutadas esperando no velório. Vá entregar essas medalhas lá. Vai ser bem melhor se for assim.

Se for vaiado, paciência.

O que Renan tem contra a Justiça ?

A pressa do senador Renan Calheiros em votar o Pacote Pró-Corrupção só tem uma explicação. Ciente de que logo se tornará réu, o poderoso chefão do Senado arrasta a instituição que preside para uma guerra fratricida contra o Judiciário e o Ministério Público que brevemente irão julgá-lo.

renan-calheirosA tentativa de acumpliciar os colegas com seu extenso passivo criminal, no entanto, encontrou finalmente um limite. Nem os partidos tradicionalmente aliados do PMDB querem se associar a essa empreitada. Daí os 44 votos que ele obteve contra si na triste sessão desta quarta-feira.

Renan Calheiros, que parecia estar imune a pressões dessa natureza, perdeu a racionalidade. Age como um Tifão ensandecido que pensa que pode derrotar o Zeus da Justiça antes de ser por ele aprisionado.

Agora é uma questão de horas.

Por enquanto, Renan luta para salvaguardar os poucos dias que lhe restam na presidência do Congresso. Quer ser poupado do vexame de se ver banido de sua condição de substituto eventual do Presidente da República pela desairosa condição de réu em processo.

Mas seu olhar está fixado num horizonte muito mais distante. E o cenário é aterrador. Renan sabe que tem 12 espadas de Dâmocles pendendo sobre sua cabeça.

Qualquer uma delas pode lhe valer, mais do que o vexame, a liberdade, e por muito e muitos anos.

Deu Trump! Porrada nela!!!

face_punchEram 5h39 quando o mundo ficou sabendo. Deu Trump. Não havia mais o que fazer.

O sujeito olhou para a mulher. Faltavam ainda alguns minutinhos para o despertador tocar. Cutucou-a com brutalidade e, assim que ela se levantou, desferiu-lhe uma bolacha na têmpora. E disse:

— O Trump ganhou a eleição. Acabei de ver na internet. A partir de hoje, acabou o feminismo. Agora vai ser porrada na cara todo dia!

 

 

O juizeco e o senadorzinho

policiasenadoRenan Calheiros é o presidente de uma instituição que um dia decidiu criar uma guarda para… Para que mesmo ?

De acordo com a Resolução nº 59/2002, para cuidar da segurança do presidente da Casa e dos demais senadores “nas dependências do Senado Federal”. Ou ainda, “em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal“.

Renan acha que um “juizeco de primeira instância” não tem a prerrogativa de molestar policiais do Senado que exorbitam o limite legal de sua atuação ao desarmar grampos determinados por algo como a Operação Lava Jato.

Ou seja: o juizeco não pode parar o processo de obstrução judicial patrocinado pelo senadorzinho. Mas o senadorzinho pode tudo. Inclusive mandar varrer a casa de um deputado que todos sabem quem é e podem imaginar por que foi destinatário de tão dileto favor.

Não importa que a proteção da guarda pretoriana de Renan Calheiros se estenda para muito além dos detentores de mandato senatorial, como José Sarney, ou alcance até quem jamais tenha sido integrante da Câmara Alta, caso de Cunha. A guarda é de Renan, o dono do Senado, que faz dela o que bem entender. E ai de quem reclamar.

Se alguém como o ministro da Justiça ousa defender a legalidade e a legitimidade da atuação da outra polícia, esta sim uma polícia de verdade, a Polícia Federal, então não será mais ministro pleno, e sim um ministro eventual, temporário, prestes a ser derrubado pelo Comandante-em-Chefe da Polícia do Senado. Hoje, para ser ministro no Brasil, é preciso ter o aval de Renan Calheiros, e também obedecê-lo. Só a vontade do Presidente da República não é suficiente.

José Eduardo Cardozo resistiu durante anos ao mesmo tipo de campanha coativa. O PT queria derrubá-lo porque não controlava a Polícia Federal, que seguia engaiolando petistas. Agora é a vez do PMDB de Renan assacar contra a corporação, ou quem supostamente está ali para controlá-la e livrar a ele e aos companheiros em perigo do risco iminente da prisão e do vexame das conduções coercitivas. Sinal de que os peemedebistas estão pestes a tomar o lugar desonroso dos petistas nas próximas etapas da Lava Jato ?

Deve ser uma perspectiva realmente assustadora. Ocorre que, para defender seus arroubos napoleônicos, o General das Alagoas acha que pode dispor de suas tropas como bem lhe aprouver, sem limites de nenhuma natureza. É o que Renan gostaria que o Ministério da Justiça fizesse por ele e seus companheiros em dificuldade perante o Poder de juizecos como Sérgio Moro, que também é um reles magistrado de primeira instância.

Mas o que Renan consegue no comando de sua pequena guarda pretoriana, nenhum ministro da Justiça conseguiria da PF. Até porque aquela é uma instituição do Estado, não um apêndice de um governo. Ou: A Polícia Federal não é a Polícia Legislativa que está sob ordens de Renan.

E os súditos devem entender o faniquito do conterrâneo de Deodoro e Teotônio como normal porque, dentro de seu sistema de valores, o Estado é para isso mesmo — para ser usado e usurpado por quem tem poder político, caso de Renan Calheiros. É a isso que alguns recalcados chamam de patrimonialismo.

Ocorre que esse padrão de comportamento desprovido de limites, que leva alguém a se julgar dono de guardas pretorianas, de polícias federais inteiras, do Estado e do dinheiro de todos os cofres púbicos está em franco declínio, como nos lembra Curitiba diariamente. Não fosse pela resistência de áulicos das práticas passadas como o senadorzinho, o dono do mundo, o General da polícia legislativa, ninguém mais neste País iria ouvir falar em tentar controlar a PF ou a guarda do Senado, em proteger de grampos legais gente como o próprio Napoleão do Senado ou seus acólitos.

Infelizmente o passado teima em não passar. A não ser pelo histrionismo das reações, pouco se pode perceber algum avanço no campo que deveria estar a pautar as relações da República — o da ética, da moralidade e da impessoalidade. Mas esse é um mundo completamente novo para gente como o senadorzinho da Polícia do Senado. E talvez eles tenham mesmo dificuldade em entender o que está acontecendo ao seu redor.

Pelo visto, os apuros de Lula, que outro dia mesmo era santo, e a longa prisão de Marcelo Odebrecht ainda não produziram todos os seus efeitos.

Mas eles virão, queira Renan ou não, queira Sarney ou não, queira Eduardo Cunha — ou não!

 

TJ de São Paulo libera o massacre policial

massacre-carandiru-facebook-infoEstou passado com a decisão de três desembargadores da Quarta Câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo de anistiar os serial killers do presídio do Carandiru. Limito-me a citar apenas um deles — o mais contundente na defesa da barbárie: Ivan Sartori, que até há pouco presidia o colendo TJ.

Pois bem. O digníssimo desembargador, com 24 anos de atraso, melou as sentenças exaradas em cinco julgamentos diferentes contra os 74 assassinos que promoveram o chamado Massacre do Carandiru. E foi além: recomendou enfaticamente a absolvição dos assassinos, liberando a execução sumária em série para a PM, que sem isso já é uma das mais violentas do planeta.

A decisão de Sartori justifica e explica o péssimo conceito de que a Justiça goza em nosso Estado. E amplia e muito a desconfiança que a sociedade nutre pelas razões que animam a cabeça sempre misteriosa dos nossos surpreendentes magistrados. Ela simplesmente conspurca o processo civilizatório.

O prejuízo que será legado para o futuro pela decisão de Sartori e seus colegas de toga é imensurável. A começar pelo sentido de falência do sistema judicial, que permite a assassinos de farda julgar, condenar e executar a pena capital, que os homens com assento no TJ estão impedidos de aplicar por uma clara vedação constitucional. Ou seja: com ela, os desembargadores de SP provam sua desnecessidade, já que coonestam os julgamentos sumários feitos por carrascos de farda.

É graças a homens como Sartori que nos encontramos onde estamos.

E também é graças a gente como ele, tão desconectada da realidade, que talvez estejamos condenados a permanecer onde estamos.

Prisões demais

prisaoVou ser curto e grosso.

Com base naquilo que o Ministério Público reuniu de provas contra Antônio Palocci, acredito que ele mereça anos e anos de cadeia. É o mínimo que se espera para alguém que fazias as vezes de articulador do propinoduto que ligava a Odebrecht e o PT.

Ocorre que Antônio Palocci não foi ainda julgado. Muito menos condenado. Então, não deveria estar na cadeia.

O MP pediu a prisão preventiva dele porque não conseguiu encontrar as contas onde era depositada a dinheirama que a empreiteira provinha para o PT e os bandidos que a legenda reunia diante da boca do cofre da PETROBRAS.

“Os diálogos interceptados mostram existência de contas secretas no Exterior ainda não identificadas ou bloqueadas. Enquanto não houver tal identificação, há um risco de dissipação do produto do crime, o que inviabilizará a sua recuperação”, alegaram os Procuradores Federais para fundamentar o pedido de prisão preventiva. Ou seja: Não sabemos onde esta o bereré, portanto vamos prendê-lo.

Errado!

O Ministério Público é parte no processo. Compete a ele acusar. Quem faz justiça é o juiz (óbvio!). Por isto, tomar como verdade (ou como sentença) as alegações do MP é uma temeridade.

O que muda com Palocci preso ? Nada! As provas que surgiram até agora foram coletadas com ele soltinho da Silva. E, na minha modestíssima opinião, servirão sobejamente para condená-lo a anos e anos de cadeia ao final do processo.

Mas o réu (nem sei se ele é formalmente réu a esta altura do processo) tem que conhecer as imputações que tem contra si e a ele o Estado deve facultar o direito à ampla defesa. Antes disso, botar na cadeia é autoritarismo injustificável, ainda que purificado pela água-benta da Operação Lava Jato.

Ainda mais que o outro argumento alinhavado pelos Procuradores é uma falácia. Trata-se da presunção de que ele pode fugir para o exterior, uma vez que teria meios para isso(o dinheiro que ninguém sabe onde Palocci enfiou). Pergunto a mim mesmo se suposições atualmente são motivo suficiente para tirar alguém de circulação e metê-lo no xadrez.

Hoje eu disse isso no Jornal Gente da Rádio Bandeirantes. Fui praticamente trucidado pela audiência. Dos 84 comentários feitos no Facebook sobre o assunto, em 82 eu fui criticado, xingado e até amaldiçoado. Uns trogloditas da internet desfiaram palavrões que eu nem sabia que existiam.

Pois eu quero que se danem. É o que penso e vale para todo mundo — inclusive para os bobões que me xingam.

Reiterando o que tenho dito: é pela defesa do Estado de Direito que manifesto minha posição. Tirar e liberdade de alguém é algo extremamente grave e penoso. E só pode ser feito dentro do que está prescrito no Artigo 312 do Código de Processo Penal.

Ele estabelece  que “a prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria”. Ou seja: se Palocci estivesse tentando ocultar provas, constranger testemunhas ou fugir do País para sair do alcance da Justiça.

Não parece ser o caso.

Eu quero ver o Palocci preso por tudo o que ele fez. Mas somente depois que ele for condenado por um colegiado, como bem manda a lei processual penal.

A flor e o pântano da política

Ingrid Betancourt, a flor no pântano congressual colombiano

Ingrid Betancourt, a flor no pântano congressual colombiano

Na Colômbia dos cartéis de Cali e Medellín era um pouco pior.

Os traficantes mandavam na economia, na política e também nos costumes. Eram os donos do País.

Tal como no Brasil de hoje, o Congresso era muito sensível ao desiderato das organizações criminosas. Com a diferença de que lá os corruptores não eram grandes empreiteiros, eram grandes traficantes de cocaína.

A certa altura, em 1997, com os irmãos Orejuela presos e Pablo Escobar já morto, 119 dos 184 deputados colombianos aprovaram uma lei que tinha por objetivo impedir a extradição dos capos cocaleiros presos em La Picota. Dentro do presídio houve um verdadeiro carnaval para comemorar a decisão dos obsequiosos deputados.

Aqui no Brasil, deu-se algo parecido na noite desta segunda-feira. O Congresso se reuniu para, sorrateiramente, criar mecanismos que objetivam livrar a cara de políticos corruptos que receberam propina disfarçada de doações eleitorais. Pelo que se espera da sempre anunciada, mas jamais vista delação premiada da Odebrecht, seriam cerca de 200 os parlamentares comprometidos com a propinocracia petroleira.

Se o dado estiver correto, por pior que possa parecer, restarão na Câmara Federal 313 deputados livres para iniciar a deputação da política. Mas onde eles estão ?

O número é alentador. Na homóloga Colômbia, uma única voz se levantou para animar a faxina. Foi a da jovem deputada Ingrid Betacourt, que se elegeu em 1998 e logo fez uma longa greve de fome para denunciar a atuação criminosa dos colegas de parlamento.

Fica a pergunta: Nascerá uma Ingrid no pântano congressual dos nossos dias ?

 

 

 

 

Hoje não quero falar de política. Vou ensinar uma receita italiana

pizzaDepois de ver Lula se comparando a Tiradentes, Jesus Cristo, JK e Getúlio acordei com vontade de escrever sobre outra coisa que não política. Porque ninguém merece perder tempo com tanta verborragia, com tanta falta de humildade. Maior ícone da política contemporânea, Lula construiu uma narrativa digna dos grotões. Decidi que não iria me ocupar disso.

Hoje quero falar de gastronomia. Para poupar seu tempo e a sua dignidade. Afinal, legumes, peixes e temperos cheiram muito melhor e dão muito menos trabalho do que a falastronice de certos políticos. Especialmente daqueles que se julgam melhores do que os garotos dos concursos, que cultivam a antiintelectualidade como um valor e que acham que os políticos são honestos porque renovam seu “emprego” a cada eleição.

Talvez fosse mais adequado nominar a prostituição como a mais pura das profissões, uma vez que as profissionais desse ramo renovam seus empregos a cada programa — um ritmo de purificação muito mais intenso, portanto, do que os concursos eleitorais quadrienais.

A comida tem uma relação com a estética e a arte. A política, não, porque as conspurca com o grotesco e o mau-gosto. Dela dependem também nossa disposição e nosso preparo físico. Digo isso porque Lula prometeu ir a pé para a prisão caso a Lava Jato comprove que ele é corrupto. Se entendesse de nutrição, eu poderia indicar a ele alimentos saudáveis e adequados para enfrentar a pé os 400 quilômetros que separam São Bernardo do Campo de Curitiba, onde ele irá cumprir pena caso seja condenado. Mas não sou especialista nem em preparação de atletas, nem em nutrição. Então, recolho-me à insignificância dos meus parcos conhecimentos gastronômicos.

Comer alegra e faz bem ao espírito. Faria muito bem a Lula, sob esse aspecto, comer para afastar a tristeza que tantas lágrimas produziu durante seu comício de ontem. Lágrimas que enterneceram o País — as mesmas que brotaram dos olhos do ex-senador Gim Argello quando teve de se defrontar com o juiz Sérgio Moro para explicar seus malfeitos.

Mas não quero falar de lágrimas, e sim de alegria. Daí a minha preferência por um mote gastronômico no post de hoje. Alegria como a dos procuradores da Lava Jato que, após produzirem uma acusação desprovida de provas, viram no ex-presidente uma defesa igualmente desprovida de argumentos jurídicos.

É o típico caso da emenda que desqualifica o soneto — o que explica minha recusa em tratar de política neste post, e minha preferência pela gastronomia como tema para orientar estas linhas. Posso dizer que uns e outros se mereceram — e que a defesa articulada por Lula fez jus à alegada falta de provas da acusação. Assim, está tudo justo e ajustado.

Voltando à gastronomia, quero falar do orgulho que toma conta do cozinheiro quando seus comensais, ao final de um lauto almoço ou jantar, elogiam a comida. Orgulho parecido com o que o nosso imenso ex-presidente se referiu à sua grande obra — o Partido dos Trabalhadores, descrito por ele como o maior partido de esquerda da Confederação das Galáxias. Uma obra memorável.

Faltou apenas dizer que esse mesmo partido foi o patrono do maior escândalo de corrupção de toda a Via Láctea nos últimos 14 bilhões de anos. Lula não criou apenas o maior partido de esqueda do sistema solar — criou também a maior máquina de corromper a política desde o Big Bang. Mas disso não se deve falar, assim como não se deve falar do cabelo encontrado adornando a obra de arte culinária de um grande chef de cozinha.

Em função disso tudo, decidi que vou revelar a receita do prato que meus amigos mais admiram na minha cozinha. É uma receita herdada dos meus bisvós italianos que vem sendo passada de geração em geração. Trata-se de uma autêntica pizza napolitana.

Para produzí-la basta ter farinha de trigo, água, fermento, sal, tomates e algum recheio.

Misture a água, a farinha e o sal ao fermento e sove até desgrudar das mãos. Divida a massa em quatro bolas para cada quilo de farinha e deixe fermentar até dobrar de tamanho. Bata os tomates crus no liquidificador. Quando a massa estiver fermentada, abra-a em formato de disco, espalhe o molho e sobre ele ponha o recheio. Asse em forno de lenha a 400 graus de temperatura.

O processo todo leva umas três ou quatro horas. Se você achar que é muito tempo e trabalho, há duas alternativas. Chame um delivery ou preste atenção ao noticiário político.

Pizzas são uma especialidade do reino da gastronomia, mas não faltam, no campo da política, especialistas na mais italiana de todas as iguarias.pizza

MP ficou devendo as provas. Não é assim que vão botar Lula na cadeia

lulampPode ser que você estranhe ler neste espaço uma opinião favorável a Lula. Se você se der ao trabalho de reler o que tenho publicado aqui desde 2009, pode se sentir tentado a pensar que eu capitulei ou fui abduzido pelo lulopetismo. E não é nada disso.

Acompanhei com estranheza a entrevista coletiva dos procuradores federais que tocam a Lava Jato na tarde desta quarta-feira. Impressionaram-me os arroubos e as afirmações que foram feitas em tom cabal. Assim como me impressionou a ausência de provas à altura da retórica dos acusadores. Falaram grosso com a opinião pública, mas falaram fino onde realmente importa — no corpo do processo que embasou a denúncia contra Lula, Dona Marisa e os outros implicados nas investigações sobre o suposto patrimônio oculto do ex-presidente da república.

É preciso mais do que tergiversações verossímeis sobre supostas propinas. É preciso prová-las, sob pena de se promover a desmoralização de um trabalho brilhante (até aqui) e necessário (desde sempre).

Lula não vai para a cadeia porque os representantes do Ministério Público que estão em seu encalço estão convencidos de que ele recebeu benefícios da OAS. É preciso apresentar provas, não apenas indícios. Ainda que provas indiciárias tenham sido suficientes para botar atrás das grades gente como Zé Dirceu, o chefe do Mensalão. Lula não é Dirceu. É muito maior e mais importante do que ele.

Não que a dimensão política do ‘General do Petrolão’ lhe confira qualquer tipo de privilégio. É que ele merece de quem o acusa e julga o mesmo tratamento conferido pela Constituição a qualquer cidadão comum: que se respeite o devido processo legal. E, principalmente que se individualizem as condutas.

Não pode o MP afirmar que ele era o arquiteto da malfeitoria e esquecer de acusá-lo de formação de quadrilha. Ora, é muito difícil entender por que o grande capo da máfia petroleira não pode ser formalmente acusado de chefiar a organização criminosa, ao passo em que os procuradores se sentem à vontade a ponto de lançar mão dessa suspeita para detratar um investigado, impondo-lhe a execração como pena moral para um processo que não admite a mesma afirmação na seara judicial.

Não é por Lula que escrevo essas considerações. É por mim e por você. E pela defesa do Estado de Direito e do devido processo legal — prerrogativas das quais não se pode abrir mão numa democracia que se preza.

Temer: Ao vencedor, o Largo da Batata

batatasO presidente Temer poderia ter escolhido a outra maneira de começar.

Escolheu a errada.

Sua primeira providência foi constituir um governo reaça, branco e misógno. Sem mulheres, sem negros, sem nada de contemporaneidade. Cheiro de mofo e teia de aranha. Um governo novo que já nasceu com as rugas de um ancião cansadíssimo.

Que foi buscar seus primeiros auxiliares nas listas de investigados da Operação Lava Jato. Teve que demitir três ministros recém-contratados.

Demitiu um amigo que pretendia fazer ministro da Justiça antes de nomeá-lo. Na AGU, colocou um advogado que perde prazos. Teve que trocar, abrindo finalmente espaço para a primeira mulher em sua equipe (Dona Marcela ainda não conta).

Aí começaram os protestos de rua. Lógico. As pessoas não queriam mais do mesmo. Botaram a Dilma para fora porque ela fechou os olhos para a roubalheira. E o que fez Michel Temer ? Chamou a rua para a briga: viu só quarenta pessoas na Paulista.

“Ao vencedor, o Largo da Batata”, diria Machado de Assis. No dia seguinte, lá estavam cem mil — ou quinze mil, como queira, porque só 40 é que não eram. E aí veio a polícia black-bloc do Alckmin e baixou a borracha. Arruaça de farda.

Tá querendo o quê, meu ?

Quando a gente pensa que o estoque de cagadas acabou, aparece um sujeito aí, um tal Ronaldo Nogueira, e faz um estrago gigantesco naquilo que deveria ser uma das grandes bandeiras do governo. Trata-se do ilustríssimo e desconhecidíssimo ministro do Trabalho. O que ele disse ? Que o governo Temer iria propor a volta da escravidão.

Bem, não foi exatamente isso o que ele anunciou. Mas falar em aumento da jornada de trabalho para 12 horas por dia em meio a tanta desconfiança, é certo que não ajuda.

Olha, eu torço para que esse governo tampão consiga encaminhar soluções para aquilo que se propôs e prometeu ao País: resolver a crise da economia.Senão, estamos bem f…

Mas do jeito que vai, já começo a duvidar.

Porque não é lícito supor que um cidadão medianamente esclarecido possa ter complacência ilimitada, admita tantas besteiras, tantos erros crassos, ainda que em nome do soerguimento da Pátria arrasada.

E já começo a temer, não pelo Temer, mas por todos nós que esperamos do comandante segurança no timão (estou falando do “volante” do barco, e não do Coringão).

Se já não era mais possível conviver com a falta de massa crítica da Dilma, o mínimo que se pode exigir do governo é que pare com essas temeridades que têm pautado os dias dos tementes ao Temer.

Tem que mudar um monte de coisas.

 

Porque, se não mudar, o povo volta pra rua e faz mudar tudo de novo.

 

É preciso terminar a faxina

eduradocunha_alvoEm duas semanas provavelmente o Brasil estará sendo governado diretamente pelo PMDB. O partido manda nas duas casas legislativas e mandará também no Executivo. Sem intermediários.

O Brasil terá Michel Temer na Presidência, Eduardo Cunha e Renan Calheiros na sua linha sucessória. E, comenta-se nos bastidores de Brasília, todos conspirando pela salvação recíproca.

Eduardo Cunha é réu desde o dia 3 de março, quando o STF aceitou denúncia contra ele. De acordo com o Art. 86 da Constituição, está impedido de assumir a Presidência na ausência de Temer.

Renan Calheiros ainda não é formalmente réu. Beneficia-se da suprema lerdeza do STF, o tribunalzão que odeia condenar — mesmo investigar — políticos.

É provável que defenestrar Eduardo Cunha não esteja entre as prioridades de Michel Temer. O presidente da Câmara controla uma bancada três vezes maior do que a do PT. São cerca de 200 votos certos em benefício de tudo o que Cunha deseje: da deposição de uma Presidente da República à absolvição sumária do patrono do impeachment.

Se Cunha não deixar a Presidência da Câmara (o que hoje constitui uma hipótese plausível) e conseguir chegar incólume ao fim de seu mandado, em fevereiro do próximo ano, estará provado que a faxina iniciada com a deposição de Dilma não era para valer.

A biografia do presidente da Câmara, sua folha corrida, não enaltecem nem honram uma Nação enfarada da corrupção. O recado dados pelas ruas é claro: o Brasil não tolera mais o roubo deslavado.

Cunha é o símbolo máximo da corrupção na política. As evidências que se amontoam contra ele demonstram de maneira cabal 0 gosto do deputado carioca pelo alheio.

O conjunto de malfeitos já descobertos, o volume de contas no exterior, a quantidade de dinheiro bloqueada em paraísos fiscais dão ao Congresso um mote para cassar seu mandato muito mais consistente do que as pedaladas fiscais no processo que rapidamente correu contra Dilma Rousseff.

A manipulação de expedientes parlamentares para chantagear empresários, a desfaçatez nababesca na distribuição familiar do butim, as contas caríssimas de seus parentes e agregados pagas com dinheiro da PETROBRAS, tudo isso o coloca na linha de tiro da opinião pública.

Resta ao congresso demonstrar que é capaz que de algo que até o momento não está claro: que também age movido por algum altruísmo ou patriotismo. O que se viu até agora foi apenas a demonstração cabal de que Eduardo Cunha consegue o que quer dos colegas.

Quem abriu o caminho para afastar Dilma Rousseff deve demonstrar agora que tudo o que aconteceu não trata apenas de uma vingança pessoal. Que era uma necessidade do País em benefício da moralização da política, e não apenas a consecução de uma vingança.

Mas isso ainda está para ser provado.

O que se viu até agora é que, se Eduardo Cunha quer, acontece.

Ministro Miojo pede demissão do Min. da Integração

Durou um átimo a carreira de ministro do ex-secretário nacional de Irrigação do Ministério da Integração. Indicado pela ala recalcitrante do PP, que quer permanecer no governo a despeito da orientação em contrário da bancada, José Rodrigues Pinheiro Dória foi levado a declinar da indicação. Não será mais ministro.

Além disso, o assédio do Planalto em busca de votos na legenda surtiu efeito contrário. Amanhã o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, vai reunir a Executiva para fechar questão a favor do voto pelo impeachment de Dilma Roussef.

Eis a carta sucinta em que Dória se desculpa e pede a conta (antes de lhe servirem o ragabofe):

Carta_PP

PTB, PSD e PRB fazem a extrema-unção do governo Dilma

Acabou.

Dilma Rousseff perdeu a última esperança de salvar seu governo do inferno do impeachment que se avizinha. Com a debandada do PRB, PTB e PSD não resta nenhuma chance de trazer de volta à vida o paciente moribundo que agoniza na Praça dos Três Poderes.

“Para que isso aconteça é preciso um Milagre de Lázaro, mas aí já não é com a gente”, dizia ontem um aliviado político da base governista. “Mas o santo que poderia operar esse milagre não dá mais o ar de sua graça”, lamentava, em uma referência ao sumiço de Lula do ambiente das negociações. “Melhor chamar logo um padre para ministrar a Oração dos Enfermos. Nós estamos conformados”, dizia o parlamentar.

Somente nesta quarta-feira Dilma perdeu 15 dos 19 votos do PTB, 26 dos 36 do PSD e todos os 22 votos do PRB. No total, a drenagem, ao menos no campo simbólico, foi de 63 votos. Some-se a isso a perda de 60 votos da véspera e você terá em quadro desalentador para o governo.

Mas hoje o PMDB também vai desembarcar do Titanic governamental. E isso representa a perda de ao menos 60 dos 69 votos da bancada controlada por Michel Temer. Assim, chega-se a 180 votos de prejuízo para a finada base aliada em apenas três dias.

Entender o tamanho da perda não é difícil. Basta lembrar que somente esses votos, caso tivessem sido mantidos pela Presidente, poderiam salvar-lhe o mandato, visto que com apenas 172 parlamentares contrários ao impeachment o processo seria arquivado e Dilma seguiria governando até fim de 2018.

O quadro, alentador para a oposição, também chama a atenção para a desnecessidade de iniciativas como o estabelecimento de regras casuísticas pelo presidente da Câmara Federal para amplificar o efeito-manada. Trata-se da ordem de chamada para a votação do impeachment.

Eduardo Cunha vai iniciar a votação pelos parlamentares do Sul, Centro-Oeste e Sudeste, onde a tese do impeachment tem mais acolhida, para só depois chamar os deputados nordestinos e nortistas. É uma deliberação antipática e desprovida de razão. Serve apenas para ressaltar o ânimo vingativo do presidente da Câmara Federal.

Sem PP, PRB e PMDB Governo Dilma entra na fase terminal

rembrandt-caravaggioDois partidos que integram a base aliada decidiram romper com o governo, entregar cargos e votar a favor do impeachment da Presidente Dilma Rousseff. O PP, que tem 47 deputados, reuniu sua bancada e vai encaminhar o voto pelo impedimento. O PRB, que tem 22 deputados e um senador, fechou questão — contra Dilma Rousseff.

Hoje será a vez do PMDB trilhar o mesmo caminho. De acordo com articuladores da Frente do Impeachment, apenas 5 dos 69 deputados peemedebistas ainda declaram que pretendem votar contra o impeachment. Todos os demais estão comprometidos com o vice-presidente Michel Temer.

Se decidir mesmo fechar questão, todos estarão obrigados a votar de acordo com a orientação da liderança — a favor do impedimento. Inclusive o líder Leonardo Picciani, um dos maiores defensores do Planalto no Congresso Nacional.

A corrosão da base de apoio do governo na Câmara é nítida. Somente entre esses três partidos Dilma Rousseff perde cerca de 120 votos — 64 no PMDB, 22 no PRB e ao menos 33 no PP. O problema é que todos esses parlamentares vão engrossar o cacife da oposição, que já conta certo com ao menos 370 votos favoráveis à deposição do governo petista.

Os coordenadores da Frente do Impeachment monitoram cada um dos parlamentares. De acordo com Paulinho da Força, do Solidariedade, o placar final do impeachment deve chegar aos 380 votos. A contabilidade anima a oposição e desanima os governistas.

Se estiver correta — e tudo indica que está — o governo Dilma já entrou em sua fase terminal. Está em coma profundo, respira por meio de aparelhos e não há registro de atividade cerebral.

Falta agora apenas decretar o óbito no próximo domingo.

Governo perde o PP. São 40 votos a menos para o Planalto.

O PP vai se reunir daqui a pouco para abandonar o Planalto.

A reunião vai acontecer no Plenário 14 da Câmara Federal. O partido vai fechar questão a favor do impeachment.

Vai ser um balde de água gelada nas pretensões do governo. O presidente do partido, senador Ciro Nogueira, prometeu dar à presidente Dilma Rousseff 40 dos 50 votos da bancada na Câmara. Agora não vai poder entregar nenhum.

A bancada não vai decidir nada sobre sair ou ficar no governo. Vai apenas definir como seus parlamentares vão votar.

Assim a frente do impeachment avança mais uma quadra em direção à destituição de Dilma. E não é uma quadra pouco importante.

Enquanto isso, deputados do PMDB colhem assinaturas para convocar uma reunião da bancada na Câmara Federal. O objetivo é o mesmo: fechar questão a favor do impeachment.

O líder do partido, o governista Leonardo Picciani, vai sair chamuscado. Era o queridinho do governo. Foi eleito no curso de uma intervenção branca do Palácio do Planalto do diretório do Rio de Janeiro.

Agora está virando pó.  Como Ciro Nogueira virou.

Perdeu, PT!

proibidoptO PMDB vai reunir a bancada nesta quarta-feira e deve fechar questão a favor do voto pelo impeachment.

O PSB vai votar contra a Presidente Dilma Rousseff.

Ciro Nogueira  prometeu ao Palácio do Planalto entregar 40 dos 50 votos da bancada do PP. Não vai entregar nem 15.

No PR, o líder, Maurício Quintella Lessa, se demitiu da liderança para votar contra Dilma Rousseff. Leva ao menos meia bancada com ele.

O PRB já desembarcou.

No PDT, que fechou questão a favor do governo, há um movimento de insurreição de parlamentares que não querem ir para o sacrifício para salvar um cadáver insepulto. Julgam que o preço a pagar é alto demais. Querem debandar.

Na Rede, uma certa esquizofrenia toma conta de um dos parlamentar mais jovem do Congresso. O deputado Aliel Machado gravar uma manifestação que seria distribuída às rádios de seu estado, o Paraná, com a definição de seu voto. Feita a gravação, não levou cinco minutos a se arrepender e mudar de ideia. Ele, que figurava como indeciso nos placares do impeachment, decidira-se finalmente por votar contra o impeachment.

Aliel mandou chamar de volta o assessor, a quem determinou que destruísse a gravação porque havia novamente retornado à condição de indeciso. Tarde demais. A informação já estava em todos os sites de Ponta Grossa, sua base eleitoral. É provável que hoje o parlamentar novamente mude seu voto. A conferir.

O placar do Estadao já registra 299 votos a favor do impeachment. Os deputados contrários são apenas 123. Para cada parlamentar que se define em favor do Planalto, 12 assumem o voto contra a Presidente e a favor do Impeachment.

Se o efeito manada continuar e os 91 votos remanescentes entre indecisos forem distribuídos na proporção em que têm acontecido as definições, o governo conseguirá mais sete ou oito votos, chegando a cerca de 130. A oposição poderá chegar a 38o.

Só há uma tradução para o que acontece neste momento:

Perdeu, PT! Perdeu, Dilma!

Você, que diz que não há crime, já leu a Lei do Impeachment ?

bilheteazulTecnicamente, ela se chama LEI Nº 1.079, DE 10 DE ABRIL DE 1950. 

Vulgarmente, é conhecida como Lei do Impeachment.

É a lei que define o que é crime de responsabilidade, quais as condutas que se enquadram nesse tipo penal, quem está sujeito a ela.

É uma lei enorme. Tem 82 artigos. E antiga. Passou a vigorar há 66 anos.

O Artigo 2º estabelece que nem é preciso praticar efetivamente o crimes. Basta tentar.  A pena aplicada é de “perda do cargo, com inabilitação, até cinco anos, para o exercício de qualquer função pública”.

E quem está sujeito a essa lei ? Apenas o Presidente da República, Ministros de Estado,  Ministros do Supremo Tribunal Federal e o Procurador Geral da República. Governadores, prefeitos, vereadores, caixeiros viajantes, físicos nucleares, pipoqueiros etc. não estão incluídos na clientela da lei.

Quem julga é o Senado Federal.

Mas o que é o tal crime de responsabilidade ?

Vamos lá. “São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra (…) a lei orçamentária”. É o que diz o Artigo 4º em seu sexto inciso.

A Lei do Impeachment trata sobejamente desse assunto. Tem um capítulo inteiro, o de número VI, de Crimes Contra a Lei Orçamentária, para descrever as condutas que constituem o que deve ser punido com a perda do mandato. E ele estabelece o seguinte:

“São crimes de responsabilidade contra a lei orçamentária: (…)

2 – Exceder ou transportar, sem autorização legal, as verbas do orçamento;

4 – Infringir , patentemente, e de qualquer modo, dispositivo da lei orçamentária.

6 – ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou na de crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal;

9 –  ordenar ou autorizar, em desacordo com a lei, a realização de operação de crédito com qualquer um dos demais entes da Federação, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que na forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente; ”

Como se vê, há previsão legal para enquadrar a Presidente Dilma Rousseff em crime de responsabilidade. As pedaladas fiscais, ao contrário do que o governo pretende fazer crer, dão sim o mote para o impedimento. Não são apenas um problema contábil, ainda que haja outros crimes muito mais graves pesando sobre a cabeça de Dilma Rousseff – notadamente o descalabro representado pela arrecadação de propina para financiar a última campanha.

Se você ainda tem alguma dúvida, consulte o texto da lei no site da Presidência da República. Basta clicar sobre o link no início deste post.impeachment,

Começou o efeito manada

estoromanadaNove diretórios estaduais do PP decidiram fechar questão a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff: RS, SC, PR, SP, MG, ES, GO, DF e AC.

As decisões regionais afrontam a posição do presidente da sigla, senador Ciro Nogueira, que na semana passada deu um passa-moleque na bancada. Ele anunciou que partido iria permanecer no governo sem consultar ninguém. Vinte e dois deputados pepistas haviam solicitado uma reunião do diretório para deliberar sobre o afastamento do governo, mas  foram aconselhados por Ciro Nogueira a desistir da reunião para que o assunto fosse debatido em outras instâncias partidárias.

Ciro “acolheu”a desistência, desconvocou a reunião e foi ao Palácio do Planalto entregar 40 votos que não tem. Antes concedeu uma coletiva. Teve seu Dia do Fico.

A liderança do PP distribuiu uma nota antecipando que o que os diretórios estaduais decidiram afeta também a bancada federal. Quer dizer: se o Piauí decidir que os parlamentares do partido devem votar favoravelmente ao impeachment, Ciro Nogueira ficará impedido de entregar seu próprio voto.

É interessante observar a movimentação no placar do Estadão. De ontem para hoje, três deputados se definiram favor do impeachment: Lúcio Mosquini (PMDB/RO), Hiran Gonçalves (PP/RR) e Carlos Gomes (PRB/RS).

Pelo que se tem notícia em Brasília, a pressão na base está horrível. Os eleitores vêm cobrando que seus representantes votem contra o governo. Também há pressão de sindicatos e movimentos sociais no sentido contrário.

A vida dos indecisos definitivamente não está fácil.