Data Vênia, o povo

Se você está achando que o STF não faz jus ao que o País necessita neste momento, acalme-se. Ele apenas reparou algo que precisava de reparação. Decidiu que Renan Calheiros não é ficha limpa o suficiente para assumir interinamente a Presidência da República, mas não é ficha suja o que baste para ser afastado da presidência do Senado.

Foi uma decisão sábia, à altura do altruísmo e do patriotismo dos nosso ministros. Eles sabem que é melhor ter um ladrão confiável com a pauta do Congresso nas mãos do que permitir que um petista sério tome assento na condução do ajuste fiscal. Ainda que, como disse o próprio réu anistiado ontem, isso viesse a durar apenas nove dias.

Você não entende, mas a Suprema Corte não precisa seguir estritamente o que diz a lei maior para embasar decisões, inclusive as que vão soar como ofensivas ou estapafúrdias aos ouvidos incautos da Nação. Tanto assim que três dos nove ministros que participaram do julgamento de ontem encontraram no mesmo texto que absolveu Renan Calheiros justificativas para votar ao contrário da maioria dos colegas . Mas a decisão era mesmo política, como se viu.

O povo não entende nada mesmo da ética do Poder e não sabe que a Constituição tem um valor meramente referencial quando interesses particulares de quem manda precisam se sobrepor ao desiderato da plebe. Não está, portanto, apto para julgar quem julga por nós. Se você se indignou com o que viu ontem, com certeza é porque não entendeu direito.

Repare como a reação do governo foi diferente da sua. Enquanto você se remoía de ódio, enquanto você era consumido por uma sensação de perda do horizonte, havia festas e mais festas nos gabinetes mais chiques de Brasília. Se eles comandam o País e comemoraram, por que você acha que esse sentimento mesquinho que te corrói é que está certo ?

Pense num Celso de Mello, num Lewandowski. Pense numa Carmem Lúcia, num Luis Fux. Na sabedoria quase adolescente de um Tóffoli. Só de olhar aquele rosto impávido de um Teori, não te dá uma paz interior ? Fique tranquilo e aquiete seu espírito. Nós estamos bem de magistrados e nossa Pátria está salva. Ainda que o roteiro da salvação passe antes pela beatificação de gente como Renan Calheiros vez por outra.

Mais a mais, esse povo gritando impropérios na rua é insaciável. Deveria ter ficado satisfeito com a saída da Dilma, mas parece que isso não bastou. Agora as pessoas andam dizendo que o Supremo é o tribunalzão do jeitinho. Que os ministros têm alma de juizeco. Que não têm altivez porque aceitam a humilhação de ver um mandado recusado sem reagir. Ledo engano.

Você tem que reconhecer ao menos o mérito dessa gente altruísta que abre mão do tal monopólio da última palavra em beneficio do que realmente importa, que é direito dos senadores de escolherem quem bem lhes aprouver para dirigir a Câmara Alta. Isso não é problema seu. A sua parte consiste em dar um voto, apenas um voto, que num enorme oceano de votos vai ajudar a compor o perfil desse universo habitado por figuras como Renan. E eles, por sua vez, vão indicar e aprovar quem os julga — em seu nome.

Data vênia, a sua opinião importa muito pouco. É por isso que ninguém está nem aí para o que você está pensando ou sentindo. Você não manda na República, não entende nada do Poder nem alcança a nobreza escondida por trás de atos e decisões aparentemente incompreensíveis à luz dos seus valores.

Conforme-se. É o que resta a você. Apenas conformar-se.

Acompanhe no blog a sessão do STF que deve afastar Renan Calheiros

O blog transmite ao vivo o julgamento da ADPF impetrada pela Rede Sustentabilidade com o objetivo de afastar Renan Calheiros da presidência do Senado da República em função de o parlamentar alagoano ter se transformado em réu em ação pena perante o Supremo Tribunal Federal. A transmissão é gerada pela TV Justiça.

A flauta de Marco Aurélio

tifaoUm dos mais pavorosos titãs da mitologia grega é Tifão, filho de Gaia e Tártaro. Tinha mil cabeças que podiam tocar as estrelas e braços capazes de abraçar meio mundo.

Veio das profundezas do Hades com o propósito de subjugar o mais poderoso dos deuses. Era tão forte e violento que venceu Zeus uma vez e, ao escalar o Olimpo, expulsou de lá todas as outras divindades.

Foi derrotado por um singelo estratagema executado pelo flautista Cadmo. Ele atraiu a criatura pavorosa e a encantou com sua música. Enquanto isso, Zeus furtava seus raios e poderes de uma caixa onde o monstro os havia escondido. A inteligência do delicado estratagema venceu a brutalidade da besta.

Ontem, o Supremo Tribunal Federal fez soar a flauta mágica. Renan Calheiros, o Tifão contemporâneo, tombou vencido por uma liminar urdida por Marco Aurélio de Mello a pedido da Rede Sustentabilidade, o Cadmo dessa estória.

E foi um tombo tão grande e retumbante que só deixou como alternativa ao poderoso titã do Senado refugiar-se no Monte Nisa de seu mandato parlamentar. Nada, nada, isso ainda lhe garante o privilégio de foro e, quem sabe, mais alguns anos de procrastinação até que a deusa Themis  possa derrotá-lo definitivamente.

Renan não tem futuro, quer na vida política, quer no mundo civil. Seu destino é o mais drástico possível. Mais cedo ou mais tarde, vai ter que se avir com seu passivo judicial. E provavelmente não terá mais sorte do que o colega Eduardo Cunha,  outro demônio que já retornou ao Reino de Hades.

Ocorre que ninguém sabe quantos megatons de energia serão produzidos pela queda desse titã. É provável que a primeira mudança seja a o reconhecimento da inviabilidade do projeto de abuso de autoridade gestado com o objetivo de antecipar a vingança contra os promotores de justiça e juízes que irão condená-lo daqui a pouco.

Mas o calor da luta final pode também fustigar as pretensões de Michel Temer de aprovar a toque de caixa a reforma da Previdência Social, que chega hoje ao  Congresso Nacional. E sem ela, perde completamente o sentido o outro elemento do binômio de contenção fiscal montado pelo Planalto, a PEC 55, que cria um teto para os gastos públicos, com votação marcada para terça da semana que vem.

A indisposição entre os Poderes aos poucos vai tomando os contornos de uma grave crise institucional. O que pode resultar disso, nem Zeus, com todos os seus poderes, sabe.

Alguns projetos caros ao governo já saem dessa batalha bestial condenados. Um deles é a candidatura do senador Eunício Oliveira à presidência do Senado. Na iminência de se tornar réu como Renan, não poderá permanecer na linha sucessória do Presidente da República, o que inviabiliza sua pretensão.

Também está aceso o farol amarelo para áulicos do Planalto como Romero Jucá, cujas menções na Lava Jato não o impediram de assumir o honroso cargo de líder do governo no Congresso, e outros personagens do núcleo do governo Temer enrolados com seu passado criminal.

Se ficar só nisso, já está de bom tamanho. Porque com a economia desgovernada e a política de soerguimento abatida, estaremos a um passo da inviabilidade política do atual governo, que sofre agudamente com sua falta de legitimidade.

O quadro, como se vê por essa fresta, é medonho.

Porque, ao final da história, pode não haver mais um Tifão a derrotar.

Mas pode também não haver mais um Olimpo a restaurar.

 

 

 

 

 

Vai lá, Presidente.

Arena Condá

Daniel Isaia/Agência Brasil

Presidente, se eu fosse o senhor, iria ao estádio de Chapecó. Tem um monte de gente esperando o senhor lá. As pessoas estão precisando que alguém tenha um gesto de grandeza. Pode perfeitamente vir do senhor. Basta ter um pouco de coragem. Medo de tomar uma vaia não justifica sua ausência. O senhor vai ficar com fama de covarde.

É um momento de comoção. As pessoas estão muito tristes com o que aconteceu. Realmente tristes, desoladas. Estão se sentindo como se tivessem perdido um irmão mais novo no auge da vida. Elas se emocionaram com o Ministro José Serra, para o senhor ter uma ideia!

Nós vivemos em 1994 um momento muito parecido com este que estamos atravessando agora. Foi quando Ayrton Senna morreu e deixou o País órfão de um líder. Assim como temos agora o senhor, tínhamos na Presidência da República um vice efetivado no cargo graças a um impeachment.

O Itamar Franco não bateu boca com o pai de ninguém. Ao contrário. Ele mandou uma carta muito respeitosa aos pais do Senna. Não foi uma nota gelada, protocolar. “Peço-lhe receber o abraço de um pai que entende seu sofrimento e do presidente da República que expressa o sentimento de toda a Nação”, escreveu o Presidente de então. A tristeza dele a gente pode sentir até hoje ao reler a frase.

Ele foi ao velório. Enfrentou uma multidão dez vezes maior do que os cem mil que são esperados na arena. Um milhão de pessoas. Se ele encarou um milhão, por que o senhor não encararia cem mil?

Não sei se depois desse bate-boca com o sr. Osmar Machado, pai do Felipe, a coisa vai ser fácil para o senhor. Mas ‘Seu’ Osmar tem razão. O senhor e a sua assessoria não deveriam nem ter cogitado não ir à Arena Condá. Muito menos mandar o porta-voz dar um cala-boca no pai do menino. Foi péssimo aquilo. Por que o senhor mesmo não pegou o telefone e ligou para a família? Custava alguma coisa ?

Deve ter um monte de aspones soprando aí no seu ouvido que o senhor não deve ir, que seria péssimo se fosse admoestado pelo público — ainda mais depois do Serra ter sido ovacionado na Colômbia. Mas se o senhor realmente não for, vai ser pior.

Pense bem. Será que alguém vai se aproveitar de uma hora como esta pra fazer um ato político ? Num velório coletivo ? Eu sou capaz de apostar que não. Seria de muito mau gosto. Ainda que as pessoas estejam irritadas com o senhor, especialmente depois dessa história do apartamento do  Geddel .

Duvido que alguém vá transformar este momento tão triste numa manifestação. Mas vai que…

Imagino que tem muito conselheiro soprando no seu ouvido que o senhor não está aí para ser popular, que a sua função é consertar a economia. Vão dizer ao senhor que essa comoção daqui a pouco passa, e que na verdade isso não importa muito porque o senhor é o cara da objetividade, que vai devolver a nossa dignidade debelando essa crise medonha.

Só que não está funcionando desse jeito. Talvez porque essa gente aí na rua com os olhos merejados também precise de atenção. De um afago. Por isso, aceito que há uma possibilidade de que vaiem o senhor no velório. Uma possibilidade, ok ? Mas há uma certeza absoluta: vão crucificá-lo se o senhor não for.

Lembra que o Lula jamais apareceu na cena do último acidente da TAM ? Pois isso provocou um estrago enorme na reputação dele. Ele mandou o Nelson Jobim com um delay gigantesco a São Paulo: Dez dias depois! Ficou para sempre com fama de covarde.

O Obama, em compensação, lustrou sua biografia quando desembarcou em Orlando para abraçar as vítimas da tragédia da boate gay. Ele se encontrou com os parentes dos mortos num ginásio, numa situação bem parecida com essa que o senhor não quer enfrentar.

Percebe a diferença ?

Pois é isso. Eu, se fosse o senhor, não deixaria as famílias enlutadas esperando no velório. Vá entregar essas medalhas lá. Vai ser bem melhor se for assim.

Se for vaiado, paciência.

O que Renan tem contra a Justiça ?

A pressa do senador Renan Calheiros em votar o Pacote Pró-Corrupção só tem uma explicação. Ciente de que logo se tornará réu, o poderoso chefão do Senado arrasta a instituição que preside para uma guerra fratricida contra o Judiciário e o Ministério Público que brevemente irão julgá-lo.

renan-calheirosA tentativa de acumpliciar os colegas com seu extenso passivo criminal, no entanto, encontrou finalmente um limite. Nem os partidos tradicionalmente aliados do PMDB querem se associar a essa empreitada. Daí os 44 votos que ele obteve contra si na triste sessão desta quarta-feira.

Renan Calheiros, que parecia estar imune a pressões dessa natureza, perdeu a racionalidade. Age como um Tifão ensandecido que pensa que pode derrotar o Zeus da Justiça antes de ser por ele aprisionado.

Agora é uma questão de horas.

Por enquanto, Renan luta para salvaguardar os poucos dias que lhe restam na presidência do Congresso. Quer ser poupado do vexame de se ver banido de sua condição de substituto eventual do Presidente da República pela desairosa condição de réu em processo.

Mas seu olhar está fixado num horizonte muito mais distante. E o cenário é aterrador. Renan sabe que tem 12 espadas de Dâmocles pendendo sobre sua cabeça.

Qualquer uma delas pode lhe valer, mais do que o vexame, a liberdade, e por muito e muitos anos.

Deu Trump! Porrada nela!!!

face_punchEram 5h39 quando o mundo ficou sabendo. Deu Trump. Não havia mais o que fazer.

O sujeito olhou para a mulher. Faltavam ainda alguns minutinhos para o despertador tocar. Cutucou-a com brutalidade e, assim que ela se levantou, desferiu-lhe uma bolacha na têmpora. E disse:

— O Trump ganhou a eleição. Acabei de ver na internet. A partir de hoje, acabou o feminismo. Agora vai ser porrada na cara todo dia!

 

 

O juizeco e o senadorzinho

policiasenadoRenan Calheiros é o presidente de uma instituição que um dia decidiu criar uma guarda para… Para que mesmo ?

De acordo com a Resolução nº 59/2002, para cuidar da segurança do presidente da Casa e dos demais senadores “nas dependências do Senado Federal”. Ou ainda, “em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal“.

Renan acha que um “juizeco de primeira instância” não tem a prerrogativa de molestar policiais do Senado que exorbitam o limite legal de sua atuação ao desarmar grampos determinados por algo como a Operação Lava Jato.

Ou seja: o juizeco não pode parar o processo de obstrução judicial patrocinado pelo senadorzinho. Mas o senadorzinho pode tudo. Inclusive mandar varrer a casa de um deputado que todos sabem quem é e podem imaginar por que foi destinatário de tão dileto favor.

Não importa que a proteção da guarda pretoriana de Renan Calheiros se estenda para muito além dos detentores de mandato senatorial, como José Sarney, ou alcance até quem jamais tenha sido integrante da Câmara Alta, caso de Cunha. A guarda é de Renan, o dono do Senado, que faz dela o que bem entender. E ai de quem reclamar.

Se alguém como o ministro da Justiça ousa defender a legalidade e a legitimidade da atuação da outra polícia, esta sim uma polícia de verdade, a Polícia Federal, então não será mais ministro pleno, e sim um ministro eventual, temporário, prestes a ser derrubado pelo Comandante-em-Chefe da Polícia do Senado. Hoje, para ser ministro no Brasil, é preciso ter o aval de Renan Calheiros, e também obedecê-lo. Só a vontade do Presidente da República não é suficiente.

José Eduardo Cardozo resistiu durante anos ao mesmo tipo de campanha coativa. O PT queria derrubá-lo porque não controlava a Polícia Federal, que seguia engaiolando petistas. Agora é a vez do PMDB de Renan assacar contra a corporação, ou quem supostamente está ali para controlá-la e livrar a ele e aos companheiros em perigo do risco iminente da prisão e do vexame das conduções coercitivas. Sinal de que os peemedebistas estão pestes a tomar o lugar desonroso dos petistas nas próximas etapas da Lava Jato ?

Deve ser uma perspectiva realmente assustadora. Ocorre que, para defender seus arroubos napoleônicos, o General das Alagoas acha que pode dispor de suas tropas como bem lhe aprouver, sem limites de nenhuma natureza. É o que Renan gostaria que o Ministério da Justiça fizesse por ele e seus companheiros em dificuldade perante o Poder de juizecos como Sérgio Moro, que também é um reles magistrado de primeira instância.

Mas o que Renan consegue no comando de sua pequena guarda pretoriana, nenhum ministro da Justiça conseguiria da PF. Até porque aquela é uma instituição do Estado, não um apêndice de um governo. Ou: A Polícia Federal não é a Polícia Legislativa que está sob ordens de Renan.

E os súditos devem entender o faniquito do conterrâneo de Deodoro e Teotônio como normal porque, dentro de seu sistema de valores, o Estado é para isso mesmo — para ser usado e usurpado por quem tem poder político, caso de Renan Calheiros. É a isso que alguns recalcados chamam de patrimonialismo.

Ocorre que esse padrão de comportamento desprovido de limites, que leva alguém a se julgar dono de guardas pretorianas, de polícias federais inteiras, do Estado e do dinheiro de todos os cofres púbicos está em franco declínio, como nos lembra Curitiba diariamente. Não fosse pela resistência de áulicos das práticas passadas como o senadorzinho, o dono do mundo, o General da polícia legislativa, ninguém mais neste País iria ouvir falar em tentar controlar a PF ou a guarda do Senado, em proteger de grampos legais gente como o próprio Napoleão do Senado ou seus acólitos.

Infelizmente o passado teima em não passar. A não ser pelo histrionismo das reações, pouco se pode perceber algum avanço no campo que deveria estar a pautar as relações da República — o da ética, da moralidade e da impessoalidade. Mas esse é um mundo completamente novo para gente como o senadorzinho da Polícia do Senado. E talvez eles tenham mesmo dificuldade em entender o que está acontecendo ao seu redor.

Pelo visto, os apuros de Lula, que outro dia mesmo era santo, e a longa prisão de Marcelo Odebrecht ainda não produziram todos os seus efeitos.

Mas eles virão, queira Renan ou não, queira Sarney ou não, queira Eduardo Cunha — ou não!

 

TJ de São Paulo libera o massacre policial

massacre-carandiru-facebook-infoEstou passado com a decisão de três desembargadores da Quarta Câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo de anistiar os serial killers do presídio do Carandiru. Limito-me a citar apenas um deles — o mais contundente na defesa da barbárie: Ivan Sartori, que até há pouco presidia o colendo TJ.

Pois bem. O digníssimo desembargador, com 24 anos de atraso, melou as sentenças exaradas em cinco julgamentos diferentes contra os 74 assassinos que promoveram o chamado Massacre do Carandiru. E foi além: recomendou enfaticamente a absolvição dos assassinos, liberando a execução sumária em série para a PM, que sem isso já é uma das mais violentas do planeta.

A decisão de Sartori justifica e explica o péssimo conceito de que a Justiça goza em nosso Estado. E amplia e muito a desconfiança que a sociedade nutre pelas razões que animam a cabeça sempre misteriosa dos nossos surpreendentes magistrados. Ela simplesmente conspurca o processo civilizatório.

O prejuízo que será legado para o futuro pela decisão de Sartori e seus colegas de toga é imensurável. A começar pelo sentido de falência do sistema judicial, que permite a assassinos de farda julgar, condenar e executar a pena capital, que os homens com assento no TJ estão impedidos de aplicar por uma clara vedação constitucional. Ou seja: com ela, os desembargadores de SP provam sua desnecessidade, já que coonestam os julgamentos sumários feitos por carrascos de farda.

É graças a homens como Sartori que nos encontramos onde estamos.

E também é graças a gente como ele, tão desconectada da realidade, que talvez estejamos condenados a permanecer onde estamos.

Prisões demais

prisaoVou ser curto e grosso.

Com base naquilo que o Ministério Público reuniu de provas contra Antônio Palocci, acredito que ele mereça anos e anos de cadeia. É o mínimo que se espera para alguém que fazias as vezes de articulador do propinoduto que ligava a Odebrecht e o PT.

Ocorre que Antônio Palocci não foi ainda julgado. Muito menos condenado. Então, não deveria estar na cadeia.

O MP pediu a prisão preventiva dele porque não conseguiu encontrar as contas onde era depositada a dinheirama que a empreiteira provinha para o PT e os bandidos que a legenda reunia diante da boca do cofre da PETROBRAS.

“Os diálogos interceptados mostram existência de contas secretas no Exterior ainda não identificadas ou bloqueadas. Enquanto não houver tal identificação, há um risco de dissipação do produto do crime, o que inviabilizará a sua recuperação”, alegaram os Procuradores Federais para fundamentar o pedido de prisão preventiva. Ou seja: Não sabemos onde esta o bereré, portanto vamos prendê-lo.

Errado!

O Ministério Público é parte no processo. Compete a ele acusar. Quem faz justiça é o juiz (óbvio!). Por isto, tomar como verdade (ou como sentença) as alegações do MP é uma temeridade.

O que muda com Palocci preso ? Nada! As provas que surgiram até agora foram coletadas com ele soltinho da Silva. E, na minha modestíssima opinião, servirão sobejamente para condená-lo a anos e anos de cadeia ao final do processo.

Mas o réu (nem sei se ele é formalmente réu a esta altura do processo) tem que conhecer as imputações que tem contra si e a ele o Estado deve facultar o direito à ampla defesa. Antes disso, botar na cadeia é autoritarismo injustificável, ainda que purificado pela água-benta da Operação Lava Jato.

Ainda mais que o outro argumento alinhavado pelos Procuradores é uma falácia. Trata-se da presunção de que ele pode fugir para o exterior, uma vez que teria meios para isso(o dinheiro que ninguém sabe onde Palocci enfiou). Pergunto a mim mesmo se suposições atualmente são motivo suficiente para tirar alguém de circulação e metê-lo no xadrez.

Hoje eu disse isso no Jornal Gente da Rádio Bandeirantes. Fui praticamente trucidado pela audiência. Dos 84 comentários feitos no Facebook sobre o assunto, em 82 eu fui criticado, xingado e até amaldiçoado. Uns trogloditas da internet desfiaram palavrões que eu nem sabia que existiam.

Pois eu quero que se danem. É o que penso e vale para todo mundo — inclusive para os bobões que me xingam.

Reiterando o que tenho dito: é pela defesa do Estado de Direito que manifesto minha posição. Tirar e liberdade de alguém é algo extremamente grave e penoso. E só pode ser feito dentro do que está prescrito no Artigo 312 do Código de Processo Penal.

Ele estabelece  que “a prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria”. Ou seja: se Palocci estivesse tentando ocultar provas, constranger testemunhas ou fugir do País para sair do alcance da Justiça.

Não parece ser o caso.

Eu quero ver o Palocci preso por tudo o que ele fez. Mas somente depois que ele for condenado por um colegiado, como bem manda a lei processual penal.

A flor e o pântano da política

Ingrid Betancourt, a flor no pântano congressual colombiano

Ingrid Betancourt, a flor no pântano congressual colombiano

Na Colômbia dos cartéis de Cali e Medellín era um pouco pior.

Os traficantes mandavam na economia, na política e também nos costumes. Eram os donos do País.

Tal como no Brasil de hoje, o Congresso era muito sensível ao desiderato das organizações criminosas. Com a diferença de que lá os corruptores não eram grandes empreiteiros, eram grandes traficantes de cocaína.

A certa altura, em 1997, com os irmãos Orejuela presos e Pablo Escobar já morto, 119 dos 184 deputados colombianos aprovaram uma lei que tinha por objetivo impedir a extradição dos capos cocaleiros presos em La Picota. Dentro do presídio houve um verdadeiro carnaval para comemorar a decisão dos obsequiosos deputados.

Aqui no Brasil, deu-se algo parecido na noite desta segunda-feira. O Congresso se reuniu para, sorrateiramente, criar mecanismos que objetivam livrar a cara de políticos corruptos que receberam propina disfarçada de doações eleitorais. Pelo que se espera da sempre anunciada, mas jamais vista delação premiada da Odebrecht, seriam cerca de 200 os parlamentares comprometidos com a propinocracia petroleira.

Se o dado estiver correto, por pior que possa parecer, restarão na Câmara Federal 313 deputados livres para iniciar a deputação da política. Mas onde eles estão ?

O número é alentador. Na homóloga Colômbia, uma única voz se levantou para animar a faxina. Foi a da jovem deputada Ingrid Betacourt, que se elegeu em 1998 e logo fez uma longa greve de fome para denunciar a atuação criminosa dos colegas de parlamento.

Fica a pergunta: Nascerá uma Ingrid no pântano congressual dos nossos dias ?

 

 

 

 

Hoje não quero falar de política. Vou ensinar uma receita italiana

pizzaDepois de ver Lula se comparando a Tiradentes, Jesus Cristo, JK e Getúlio acordei com vontade de escrever sobre outra coisa que não política. Porque ninguém merece perder tempo com tanta verborragia, com tanta falta de humildade. Maior ícone da política contemporânea, Lula construiu uma narrativa digna dos grotões. Decidi que não iria me ocupar disso.

Hoje quero falar de gastronomia. Para poupar seu tempo e a sua dignidade. Afinal, legumes, peixes e temperos cheiram muito melhor e dão muito menos trabalho do que a falastronice de certos políticos. Especialmente daqueles que se julgam melhores do que os garotos dos concursos, que cultivam a antiintelectualidade como um valor e que acham que os políticos são honestos porque renovam seu “emprego” a cada eleição.

Talvez fosse mais adequado nominar a prostituição como a mais pura das profissões, uma vez que as profissionais desse ramo renovam seus empregos a cada programa — um ritmo de purificação muito mais intenso, portanto, do que os concursos eleitorais quadrienais.

A comida tem uma relação com a estética e a arte. A política, não, porque as conspurca com o grotesco e o mau-gosto. Dela dependem também nossa disposição e nosso preparo físico. Digo isso porque Lula prometeu ir a pé para a prisão caso a Lava Jato comprove que ele é corrupto. Se entendesse de nutrição, eu poderia indicar a ele alimentos saudáveis e adequados para enfrentar a pé os 400 quilômetros que separam São Bernardo do Campo de Curitiba, onde ele irá cumprir pena caso seja condenado. Mas não sou especialista nem em preparação de atletas, nem em nutrição. Então, recolho-me à insignificância dos meus parcos conhecimentos gastronômicos.

Comer alegra e faz bem ao espírito. Faria muito bem a Lula, sob esse aspecto, comer para afastar a tristeza que tantas lágrimas produziu durante seu comício de ontem. Lágrimas que enterneceram o País — as mesmas que brotaram dos olhos do ex-senador Gim Argello quando teve de se defrontar com o juiz Sérgio Moro para explicar seus malfeitos.

Mas não quero falar de lágrimas, e sim de alegria. Daí a minha preferência por um mote gastronômico no post de hoje. Alegria como a dos procuradores da Lava Jato que, após produzirem uma acusação desprovida de provas, viram no ex-presidente uma defesa igualmente desprovida de argumentos jurídicos.

É o típico caso da emenda que desqualifica o soneto — o que explica minha recusa em tratar de política neste post, e minha preferência pela gastronomia como tema para orientar estas linhas. Posso dizer que uns e outros se mereceram — e que a defesa articulada por Lula fez jus à alegada falta de provas da acusação. Assim, está tudo justo e ajustado.

Voltando à gastronomia, quero falar do orgulho que toma conta do cozinheiro quando seus comensais, ao final de um lauto almoço ou jantar, elogiam a comida. Orgulho parecido com o que o nosso imenso ex-presidente se referiu à sua grande obra — o Partido dos Trabalhadores, descrito por ele como o maior partido de esquerda da Confederação das Galáxias. Uma obra memorável.

Faltou apenas dizer que esse mesmo partido foi o patrono do maior escândalo de corrupção de toda a Via Láctea nos últimos 14 bilhões de anos. Lula não criou apenas o maior partido de esqueda do sistema solar — criou também a maior máquina de corromper a política desde o Big Bang. Mas disso não se deve falar, assim como não se deve falar do cabelo encontrado adornando a obra de arte culinária de um grande chef de cozinha.

Em função disso tudo, decidi que vou revelar a receita do prato que meus amigos mais admiram na minha cozinha. É uma receita herdada dos meus bisvós italianos que vem sendo passada de geração em geração. Trata-se de uma autêntica pizza napolitana.

Para produzí-la basta ter farinha de trigo, água, fermento, sal, tomates e algum recheio.

Misture a água, a farinha e o sal ao fermento e sove até desgrudar das mãos. Divida a massa em quatro bolas para cada quilo de farinha e deixe fermentar até dobrar de tamanho. Bata os tomates crus no liquidificador. Quando a massa estiver fermentada, abra-a em formato de disco, espalhe o molho e sobre ele ponha o recheio. Asse em forno de lenha a 400 graus de temperatura.

O processo todo leva umas três ou quatro horas. Se você achar que é muito tempo e trabalho, há duas alternativas. Chame um delivery ou preste atenção ao noticiário político.

Pizzas são uma especialidade do reino da gastronomia, mas não faltam, no campo da política, especialistas na mais italiana de todas as iguarias.pizza

MP ficou devendo as provas. Não é assim que vão botar Lula na cadeia

lulampPode ser que você estranhe ler neste espaço uma opinião favorável a Lula. Se você se der ao trabalho de reler o que tenho publicado aqui desde 2009, pode se sentir tentado a pensar que eu capitulei ou fui abduzido pelo lulopetismo. E não é nada disso.

Acompanhei com estranheza a entrevista coletiva dos procuradores federais que tocam a Lava Jato na tarde desta quarta-feira. Impressionaram-me os arroubos e as afirmações que foram feitas em tom cabal. Assim como me impressionou a ausência de provas à altura da retórica dos acusadores. Falaram grosso com a opinião pública, mas falaram fino onde realmente importa — no corpo do processo que embasou a denúncia contra Lula, Dona Marisa e os outros implicados nas investigações sobre o suposto patrimônio oculto do ex-presidente da república.

É preciso mais do que tergiversações verossímeis sobre supostas propinas. É preciso prová-las, sob pena de se promover a desmoralização de um trabalho brilhante (até aqui) e necessário (desde sempre).

Lula não vai para a cadeia porque os representantes do Ministério Público que estão em seu encalço estão convencidos de que ele recebeu benefícios da OAS. É preciso apresentar provas, não apenas indícios. Ainda que provas indiciárias tenham sido suficientes para botar atrás das grades gente como Zé Dirceu, o chefe do Mensalão. Lula não é Dirceu. É muito maior e mais importante do que ele.

Não que a dimensão política do ‘General do Petrolão’ lhe confira qualquer tipo de privilégio. É que ele merece de quem o acusa e julga o mesmo tratamento conferido pela Constituição a qualquer cidadão comum: que se respeite o devido processo legal. E, principalmente que se individualizem as condutas.

Não pode o MP afirmar que ele era o arquiteto da malfeitoria e esquecer de acusá-lo de formação de quadrilha. Ora, é muito difícil entender por que o grande capo da máfia petroleira não pode ser formalmente acusado de chefiar a organização criminosa, ao passo em que os procuradores se sentem à vontade a ponto de lançar mão dessa suspeita para detratar um investigado, impondo-lhe a execração como pena moral para um processo que não admite a mesma afirmação na seara judicial.

Não é por Lula que escrevo essas considerações. É por mim e por você. E pela defesa do Estado de Direito e do devido processo legal — prerrogativas das quais não se pode abrir mão numa democracia que se preza.

Temer: Ao vencedor, o Largo da Batata

batatasO presidente Temer poderia ter escolhido a outra maneira de começar.

Escolheu a errada.

Sua primeira providência foi constituir um governo reaça, branco e misógno. Sem mulheres, sem negros, sem nada de contemporaneidade. Cheiro de mofo e teia de aranha. Um governo novo que já nasceu com as rugas de um ancião cansadíssimo.

Que foi buscar seus primeiros auxiliares nas listas de investigados da Operação Lava Jato. Teve que demitir três ministros recém-contratados.

Demitiu um amigo que pretendia fazer ministro da Justiça antes de nomeá-lo. Na AGU, colocou um advogado que perde prazos. Teve que trocar, abrindo finalmente espaço para a primeira mulher em sua equipe (Dona Marcela ainda não conta).

Aí começaram os protestos de rua. Lógico. As pessoas não queriam mais do mesmo. Botaram a Dilma para fora porque ela fechou os olhos para a roubalheira. E o que fez Michel Temer ? Chamou a rua para a briga: viu só quarenta pessoas na Paulista.

“Ao vencedor, o Largo da Batata”, diria Machado de Assis. No dia seguinte, lá estavam cem mil — ou quinze mil, como queira, porque só 40 é que não eram. E aí veio a polícia black-bloc do Alckmin e baixou a borracha. Arruaça de farda.

Tá querendo o quê, meu ?

Quando a gente pensa que o estoque de cagadas acabou, aparece um sujeito aí, um tal Ronaldo Nogueira, e faz um estrago gigantesco naquilo que deveria ser uma das grandes bandeiras do governo. Trata-se do ilustríssimo e desconhecidíssimo ministro do Trabalho. O que ele disse ? Que o governo Temer iria propor a volta da escravidão.

Bem, não foi exatamente isso o que ele anunciou. Mas falar em aumento da jornada de trabalho para 12 horas por dia em meio a tanta desconfiança, é certo que não ajuda.

Olha, eu torço para que esse governo tampão consiga encaminhar soluções para aquilo que se propôs e prometeu ao País: resolver a crise da economia.Senão, estamos bem f…

Mas do jeito que vai, já começo a duvidar.

Porque não é lícito supor que um cidadão medianamente esclarecido possa ter complacência ilimitada, admita tantas besteiras, tantos erros crassos, ainda que em nome do soerguimento da Pátria arrasada.

E já começo a temer, não pelo Temer, mas por todos nós que esperamos do comandante segurança no timão (estou falando do “volante” do barco, e não do Coringão).

Se já não era mais possível conviver com a falta de massa crítica da Dilma, o mínimo que se pode exigir do governo é que pare com essas temeridades que têm pautado os dias dos tementes ao Temer.

Tem que mudar um monte de coisas.

 

Porque, se não mudar, o povo volta pra rua e faz mudar tudo de novo.

 

É preciso terminar a faxina

eduradocunha_alvoEm duas semanas provavelmente o Brasil estará sendo governado diretamente pelo PMDB. O partido manda nas duas casas legislativas e mandará também no Executivo. Sem intermediários.

O Brasil terá Michel Temer na Presidência, Eduardo Cunha e Renan Calheiros na sua linha sucessória. E, comenta-se nos bastidores de Brasília, todos conspirando pela salvação recíproca.

Eduardo Cunha é réu desde o dia 3 de março, quando o STF aceitou denúncia contra ele. De acordo com o Art. 86 da Constituição, está impedido de assumir a Presidência na ausência de Temer.

Renan Calheiros ainda não é formalmente réu. Beneficia-se da suprema lerdeza do STF, o tribunalzão que odeia condenar — mesmo investigar — políticos.

É provável que defenestrar Eduardo Cunha não esteja entre as prioridades de Michel Temer. O presidente da Câmara controla uma bancada três vezes maior do que a do PT. São cerca de 200 votos certos em benefício de tudo o que Cunha deseje: da deposição de uma Presidente da República à absolvição sumária do patrono do impeachment.

Se Cunha não deixar a Presidência da Câmara (o que hoje constitui uma hipótese plausível) e conseguir chegar incólume ao fim de seu mandado, em fevereiro do próximo ano, estará provado que a faxina iniciada com a deposição de Dilma não era para valer.

A biografia do presidente da Câmara, sua folha corrida, não enaltecem nem honram uma Nação enfarada da corrupção. O recado dados pelas ruas é claro: o Brasil não tolera mais o roubo deslavado.

Cunha é o símbolo máximo da corrupção na política. As evidências que se amontoam contra ele demonstram de maneira cabal 0 gosto do deputado carioca pelo alheio.

O conjunto de malfeitos já descobertos, o volume de contas no exterior, a quantidade de dinheiro bloqueada em paraísos fiscais dão ao Congresso um mote para cassar seu mandato muito mais consistente do que as pedaladas fiscais no processo que rapidamente correu contra Dilma Rousseff.

A manipulação de expedientes parlamentares para chantagear empresários, a desfaçatez nababesca na distribuição familiar do butim, as contas caríssimas de seus parentes e agregados pagas com dinheiro da PETROBRAS, tudo isso o coloca na linha de tiro da opinião pública.

Resta ao congresso demonstrar que é capaz que de algo que até o momento não está claro: que também age movido por algum altruísmo ou patriotismo. O que se viu até agora foi apenas a demonstração cabal de que Eduardo Cunha consegue o que quer dos colegas.

Quem abriu o caminho para afastar Dilma Rousseff deve demonstrar agora que tudo o que aconteceu não trata apenas de uma vingança pessoal. Que era uma necessidade do País em benefício da moralização da política, e não apenas a consecução de uma vingança.

Mas isso ainda está para ser provado.

O que se viu até agora é que, se Eduardo Cunha quer, acontece.

Ministro Miojo pede demissão do Min. da Integração

Durou um átimo a carreira de ministro do ex-secretário nacional de Irrigação do Ministério da Integração. Indicado pela ala recalcitrante do PP, que quer permanecer no governo a despeito da orientação em contrário da bancada, José Rodrigues Pinheiro Dória foi levado a declinar da indicação. Não será mais ministro.

Além disso, o assédio do Planalto em busca de votos na legenda surtiu efeito contrário. Amanhã o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, vai reunir a Executiva para fechar questão a favor do voto pelo impeachment de Dilma Roussef.

Eis a carta sucinta em que Dória se desculpa e pede a conta (antes de lhe servirem o ragabofe):

Carta_PP

PTB, PSD e PRB fazem a extrema-unção do governo Dilma

Acabou.

Dilma Rousseff perdeu a última esperança de salvar seu governo do inferno do impeachment que se avizinha. Com a debandada do PRB, PTB e PSD não resta nenhuma chance de trazer de volta à vida o paciente moribundo que agoniza na Praça dos Três Poderes.

“Para que isso aconteça é preciso um Milagre de Lázaro, mas aí já não é com a gente”, dizia ontem um aliviado político da base governista. “Mas o santo que poderia operar esse milagre não dá mais o ar de sua graça”, lamentava, em uma referência ao sumiço de Lula do ambiente das negociações. “Melhor chamar logo um padre para ministrar a Oração dos Enfermos. Nós estamos conformados”, dizia o parlamentar.

Somente nesta quarta-feira Dilma perdeu 15 dos 19 votos do PTB, 26 dos 36 do PSD e todos os 22 votos do PRB. No total, a drenagem, ao menos no campo simbólico, foi de 63 votos. Some-se a isso a perda de 60 votos da véspera e você terá em quadro desalentador para o governo.

Mas hoje o PMDB também vai desembarcar do Titanic governamental. E isso representa a perda de ao menos 60 dos 69 votos da bancada controlada por Michel Temer. Assim, chega-se a 180 votos de prejuízo para a finada base aliada em apenas três dias.

Entender o tamanho da perda não é difícil. Basta lembrar que somente esses votos, caso tivessem sido mantidos pela Presidente, poderiam salvar-lhe o mandato, visto que com apenas 172 parlamentares contrários ao impeachment o processo seria arquivado e Dilma seguiria governando até fim de 2018.

O quadro, alentador para a oposição, também chama a atenção para a desnecessidade de iniciativas como o estabelecimento de regras casuísticas pelo presidente da Câmara Federal para amplificar o efeito-manada. Trata-se da ordem de chamada para a votação do impeachment.

Eduardo Cunha vai iniciar a votação pelos parlamentares do Sul, Centro-Oeste e Sudeste, onde a tese do impeachment tem mais acolhida, para só depois chamar os deputados nordestinos e nortistas. É uma deliberação antipática e desprovida de razão. Serve apenas para ressaltar o ânimo vingativo do presidente da Câmara Federal.

Sem PP, PRB e PMDB Governo Dilma entra na fase terminal

rembrandt-caravaggioDois partidos que integram a base aliada decidiram romper com o governo, entregar cargos e votar a favor do impeachment da Presidente Dilma Rousseff. O PP, que tem 47 deputados, reuniu sua bancada e vai encaminhar o voto pelo impedimento. O PRB, que tem 22 deputados e um senador, fechou questão — contra Dilma Rousseff.

Hoje será a vez do PMDB trilhar o mesmo caminho. De acordo com articuladores da Frente do Impeachment, apenas 5 dos 69 deputados peemedebistas ainda declaram que pretendem votar contra o impeachment. Todos os demais estão comprometidos com o vice-presidente Michel Temer.

Se decidir mesmo fechar questão, todos estarão obrigados a votar de acordo com a orientação da liderança — a favor do impedimento. Inclusive o líder Leonardo Picciani, um dos maiores defensores do Planalto no Congresso Nacional.

A corrosão da base de apoio do governo na Câmara é nítida. Somente entre esses três partidos Dilma Rousseff perde cerca de 120 votos — 64 no PMDB, 22 no PRB e ao menos 33 no PP. O problema é que todos esses parlamentares vão engrossar o cacife da oposição, que já conta certo com ao menos 370 votos favoráveis à deposição do governo petista.

Os coordenadores da Frente do Impeachment monitoram cada um dos parlamentares. De acordo com Paulinho da Força, do Solidariedade, o placar final do impeachment deve chegar aos 380 votos. A contabilidade anima a oposição e desanima os governistas.

Se estiver correta — e tudo indica que está — o governo Dilma já entrou em sua fase terminal. Está em coma profundo, respira por meio de aparelhos e não há registro de atividade cerebral.

Falta agora apenas decretar o óbito no próximo domingo.

Governo perde o PP. São 40 votos a menos para o Planalto.

O PP vai se reunir daqui a pouco para abandonar o Planalto.

A reunião vai acontecer no Plenário 14 da Câmara Federal. O partido vai fechar questão a favor do impeachment.

Vai ser um balde de água gelada nas pretensões do governo. O presidente do partido, senador Ciro Nogueira, prometeu dar à presidente Dilma Rousseff 40 dos 50 votos da bancada na Câmara. Agora não vai poder entregar nenhum.

A bancada não vai decidir nada sobre sair ou ficar no governo. Vai apenas definir como seus parlamentares vão votar.

Assim a frente do impeachment avança mais uma quadra em direção à destituição de Dilma. E não é uma quadra pouco importante.

Enquanto isso, deputados do PMDB colhem assinaturas para convocar uma reunião da bancada na Câmara Federal. O objetivo é o mesmo: fechar questão a favor do impeachment.

O líder do partido, o governista Leonardo Picciani, vai sair chamuscado. Era o queridinho do governo. Foi eleito no curso de uma intervenção branca do Palácio do Planalto do diretório do Rio de Janeiro.

Agora está virando pó.  Como Ciro Nogueira virou.

Perdeu, PT!

proibidoptO PMDB vai reunir a bancada nesta quarta-feira e deve fechar questão a favor do voto pelo impeachment.

O PSB vai votar contra a Presidente Dilma Rousseff.

Ciro Nogueira  prometeu ao Palácio do Planalto entregar 40 dos 50 votos da bancada do PP. Não vai entregar nem 15.

No PR, o líder, Maurício Quintella Lessa, se demitiu da liderança para votar contra Dilma Rousseff. Leva ao menos meia bancada com ele.

O PRB já desembarcou.

No PDT, que fechou questão a favor do governo, há um movimento de insurreição de parlamentares que não querem ir para o sacrifício para salvar um cadáver insepulto. Julgam que o preço a pagar é alto demais. Querem debandar.

Na Rede, uma certa esquizofrenia toma conta de um dos parlamentar mais jovem do Congresso. O deputado Aliel Machado gravar uma manifestação que seria distribuída às rádios de seu estado, o Paraná, com a definição de seu voto. Feita a gravação, não levou cinco minutos a se arrepender e mudar de ideia. Ele, que figurava como indeciso nos placares do impeachment, decidira-se finalmente por votar contra o impeachment.

Aliel mandou chamar de volta o assessor, a quem determinou que destruísse a gravação porque havia novamente retornado à condição de indeciso. Tarde demais. A informação já estava em todos os sites de Ponta Grossa, sua base eleitoral. É provável que hoje o parlamentar novamente mude seu voto. A conferir.

O placar do Estadao já registra 299 votos a favor do impeachment. Os deputados contrários são apenas 123. Para cada parlamentar que se define em favor do Planalto, 12 assumem o voto contra a Presidente e a favor do Impeachment.

Se o efeito manada continuar e os 91 votos remanescentes entre indecisos forem distribuídos na proporção em que têm acontecido as definições, o governo conseguirá mais sete ou oito votos, chegando a cerca de 130. A oposição poderá chegar a 38o.

Só há uma tradução para o que acontece neste momento:

Perdeu, PT! Perdeu, Dilma!

Você, que diz que não há crime, já leu a Lei do Impeachment ?

bilheteazulTecnicamente, ela se chama LEI Nº 1.079, DE 10 DE ABRIL DE 1950. 

Vulgarmente, é conhecida como Lei do Impeachment.

É a lei que define o que é crime de responsabilidade, quais as condutas que se enquadram nesse tipo penal, quem está sujeito a ela.

É uma lei enorme. Tem 82 artigos. E antiga. Passou a vigorar há 66 anos.

O Artigo 2º estabelece que nem é preciso praticar efetivamente o crimes. Basta tentar.  A pena aplicada é de “perda do cargo, com inabilitação, até cinco anos, para o exercício de qualquer função pública”.

E quem está sujeito a essa lei ? Apenas o Presidente da República, Ministros de Estado,  Ministros do Supremo Tribunal Federal e o Procurador Geral da República. Governadores, prefeitos, vereadores, caixeiros viajantes, físicos nucleares, pipoqueiros etc. não estão incluídos na clientela da lei.

Quem julga é o Senado Federal.

Mas o que é o tal crime de responsabilidade ?

Vamos lá. “São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra (…) a lei orçamentária”. É o que diz o Artigo 4º em seu sexto inciso.

A Lei do Impeachment trata sobejamente desse assunto. Tem um capítulo inteiro, o de número VI, de Crimes Contra a Lei Orçamentária, para descrever as condutas que constituem o que deve ser punido com a perda do mandato. E ele estabelece o seguinte:

“São crimes de responsabilidade contra a lei orçamentária: (…)

2 – Exceder ou transportar, sem autorização legal, as verbas do orçamento;

4 – Infringir , patentemente, e de qualquer modo, dispositivo da lei orçamentária.

6 – ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou na de crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal;

9 –  ordenar ou autorizar, em desacordo com a lei, a realização de operação de crédito com qualquer um dos demais entes da Federação, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que na forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente; ”

Como se vê, há previsão legal para enquadrar a Presidente Dilma Rousseff em crime de responsabilidade. As pedaladas fiscais, ao contrário do que o governo pretende fazer crer, dão sim o mote para o impedimento. Não são apenas um problema contábil, ainda que haja outros crimes muito mais graves pesando sobre a cabeça de Dilma Rousseff – notadamente o descalabro representado pela arrecadação de propina para financiar a última campanha.

Se você ainda tem alguma dúvida, consulte o texto da lei no site da Presidência da República. Basta clicar sobre o link no início deste post.impeachment,

Começou o efeito manada

estoromanadaNove diretórios estaduais do PP decidiram fechar questão a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff: RS, SC, PR, SP, MG, ES, GO, DF e AC.

As decisões regionais afrontam a posição do presidente da sigla, senador Ciro Nogueira, que na semana passada deu um passa-moleque na bancada. Ele anunciou que partido iria permanecer no governo sem consultar ninguém. Vinte e dois deputados pepistas haviam solicitado uma reunião do diretório para deliberar sobre o afastamento do governo, mas  foram aconselhados por Ciro Nogueira a desistir da reunião para que o assunto fosse debatido em outras instâncias partidárias.

Ciro “acolheu”a desistência, desconvocou a reunião e foi ao Palácio do Planalto entregar 40 votos que não tem. Antes concedeu uma coletiva. Teve seu Dia do Fico.

A liderança do PP distribuiu uma nota antecipando que o que os diretórios estaduais decidiram afeta também a bancada federal. Quer dizer: se o Piauí decidir que os parlamentares do partido devem votar favoravelmente ao impeachment, Ciro Nogueira ficará impedido de entregar seu próprio voto.

É interessante observar a movimentação no placar do Estadão. De ontem para hoje, três deputados se definiram favor do impeachment: Lúcio Mosquini (PMDB/RO), Hiran Gonçalves (PP/RR) e Carlos Gomes (PRB/RS).

Pelo que se tem notícia em Brasília, a pressão na base está horrível. Os eleitores vêm cobrando que seus representantes votem contra o governo. Também há pressão de sindicatos e movimentos sociais no sentido contrário.

A vida dos indecisos definitivamente não está fácil.

O que será da palavra “presidenta” depois do impeachment ?

presidentaDepende.

Se Michel Temer assumir o Poder, os atos oficiais voltam a ser assinados por um “presidente”.

Vamos supor que a Nação prefira um banho de urna para restaurar a legitimidade corroída pela crise política. Aí tudo pode acontecer.

Vai que ganha um Bolsonaro, um Marco Feliciano, um Malafaya. Todos eles igualmente machistas – misóginos, eu diria.

Pode ser que exijam que a palavra ‘presidente’ seja flexionada para o gênero masculino — presidento. Pode ser que queiram também trocar Vossa Excelência por Vosso Excelêncio — para deixar claro que o Brasil é um reino dirigido por espadas.

Seus interlocutores do sexo masculino seriam “Vosso Senhorio”. Mulheres não seriam nem recebidas em palácio. E quando o Papa vier ao Brasil ? Seu Santidado!

Mas e se Marina Silva vencer o banho de urna ? Optará ela por presidente ou presidenta ? Presidento é que não vai ser.

Num mundo multideverso, poliafetivo e de identidades fragmentadas, é provável que surja uma turba de pós-filólogos e proto-gramáticos advogando o uso de neologismos complexos como presidentoa ou presidentao, uma vez que a pessoa que ocupa a posição mais proeminente do universo da política é representante de toda a poli-Nação e não deve permitir a segregação de todos os gêneros em função da escolha arbitrária de um único.

Mas pode ser que surja alguém com uma dúvida quase filosófica: Se é pra abarcar todos os gêneros, que tal não explicitar nenhum ?

Aí é capaz de aparecer alguém lúcido propondo uma solução salomônica revolucionária: a reabilitação de uma palavra que entrou em desuso em 2011, que tem a universalidade contida em si mesma. Algo bem simplesinho, quase brejeiro:

Presidente.

Cala a boca, Zé de Abreu!

estupidezO ator e detrator Zé de Abreu perdeu mais uma oportunidade  de ficar de boca fechada. Sem ter mais a quem atacar, decidiu investir contra a memória do jornalista Sandro Vaia, que faleceu no último fim-de-semana. Do nada, o troglodita global saiu-se com a seguinte pérola no Twitter: “Vaia morreu de entupimento das veias biliares! A vida vale o ódio ? Ou o ódio vale mais que a vida ? Para mim, não”.

Sandro Vaia era um dos jornalistas mais respeitados da geração que chega agora à maturidade. Era um democrata, defensor incansável dos valores republicanos.

Zé de Abreu, ao contrário,  é um sujeito pernicioso. Defensor declarado de gente da laia de um Zé Dirceu, um Delúbio.

Os dois ocupam patamares morais tão distinto que um não poderia mesmo enxergar o outro. Sandro Vaia, pela sua grandiosidade. Zé de Abreu, pela pequenez dos seus valores e inteligência e pelas dimensões avantajadas de sua estupidez.

estupidez2As 23 palavras que o troglodita global escreveu no microblog geraram como resposta uma única interjeição da filha de Vaia, Giuliana. Ao que o gladiador da internet redarguiu, com a vileza que lhe é peculiar: “A morte não purifica as pessoas. Jamais o perdoarei pelo comportamento na ditadura”.

Não se sabe a que alude Zé de Abreu. Ninguém sequer imagina que comportamento do digno Sandro Vaia possa ser motivo de vergonha, reprovação ou opróbrio. Ao contrário. Os colegas de redação se lembram de um altivo jornalista que ia além da defesa da restauração da democracia em seu ofício para ajudar pessoas que se encontravam na clandestinidade ao tempo em que Vaia editava o Jornal da Tarde.

Zé de Abreu é um analfabeto político. Um animal peçonhento que usa seu veneno para enxovalhar um morto. Em defesa de sua última vítima, restaram as palavras da doce Giuliana Vaia, jornalista como o pai, em uma terna carta aberta: “Se é como você me disse ‘a morte não purifica a pessoa’, pois então vamos esperar sua próxima vida. Quem sabe deus te presenteie com um coração”, escreveu Giuliana.

A filha de Sandro Vaia também fez um pedido ao detrator do pai. “Sabe, nem to pedindo pra respeitar a memória do meu pai, porque sei que você não alcançaria tamanha iluminação, mas seria polido da sua parte respeitar o luto da família ao menos”.

Como resposta, Zé de Abreu teve a atitude que se espera dos covardes: cancelou sua conta twitter e foi se esconder da enorme repercussão negativa que suas 23 odientas palavras despertaram.

Fez o que deveria ter feito antes de assacar contra um morto: calar a boca!

Leia abaixo a carta aberta de Giuliana Vaia a Zé de Abreu.

Caro zé, (assim com minúscula) 
Preciso te confessar uma coisa. Quando eu era mais nova, eu era sua fã. Não tenho vergonha de admitir isso, por mais vergonhoso que seja. Eu assistia a todas as suas novelas; era quase um amor platônico, tamanha minha admiração. Acredite. Hoje custo a acreditar.
O tempo foi passando, cresci e eu fui conhecendo, através de seus escritos, o homem zé de abreu, não mais o ator. E assim fui me decepcionando e meu castelinho de areia, ruindo.
Atrás das cortinas apareceu uma pessoa feia. Uma pessoa desrespeitosa, desumana que coloca a divergência política (e a ignorância, diga-se de passagem) acima do respeito pelo ser humano.  
Confesso que quando li aquele tuíte senti um misto de raiva e nojo. A que ponto chega a escrotidão de uma pessoa? Mas aí vi que não vale a pena sentir raiva de uma alma tão pobre de espirito. No fim, senti pena. Que coisa não? De uma admiração fervorosa, surgiu um sentimento de pena. E não tem coisa mais triste que isso.
Sabe, nem to pedindo pra respeitar a memória do meu pai, porque sei que você não alcançaria tamanha iluminação, mas seria polido da sua parte respeitar o luto da família ao menos. Embora você se auto intitule comediante não é legal sair fazendo ‘piada’ com sentimentos tão doloridos nesse momento delicado pelo qual estão passando os familiares de seu desafeto. No caso eu, minha mãe e minha filha. 
E olha, nem to entrando no mérito politico aqui. To falando de respeito, humanidade e de caráter, coisa que infelizmente teu pai não te ensinou a ter. Ao contrário do meu. 
Um abraço, 
Giuliana.

Ps: Se é como você me disse “a morte não purifica a pessoa”, pois então vamos esperar sua próxima vida. Quem sabe deus te presenteie com um coração.

(Em tempo: seu post desapareceu misteriosamente depois que conversamos e sua conta foi removida. Acovardou-se?)

Giuliana Vaia.

 

Matem o mensageiro!

Mate o mensageiro!Parece ser uma unanimidade.

Dez em cada dez defensores do modo petista de governar clamam pela destruição da “velha mídia”, da “imprensa golpista”. O “golpe” que se trama contra os anjos imaculados que mandam hoje no País seria uma “conspiração midiática” de cinco famílias de oligarcas que controlariam a opinião pública.

A ladainha tem sido repetida como um mantra a cada manifestação, em cada post, reunião partidária ou conversa de boteco dessa pretensa esquerda analfabeta e corrupta que infestou nossas instituições — dela ou de seus prepostos.

Para quem trabalha em veículos de comunicação de massa o efeito que isso traz é evidente. Há um claro mal-estar em relação a qualquer profissional da imprensa. Manifestações de hostilidade vão da invasão do set onde um repórter tenta fazer uma transmissão ao vivo até a agressão vil e covarde de jornalistas. Passam pela pichação de prédios que abrigam sedes dos conglomerados de comunicação e por atos de vandalismo explícito.

A onda de ódio à imprensa faz sucesso entre os idiotas, que passam a repetira ladainha do golpe midiático como se ela fosse curar as chagas que a roubalheira espalhou pela administração da coisa pública.

Matem o mensageiro!, bradam os acólitos dos mais vorazes corruptos que o Brasil já teve em toda a sua história. É este o remédio ministrado aos incautos, uma vez que nossa jovem democracia ainda não permite a volta da censura prévia que essa fauna pretende ver restaurada.

Pouco importa que se tungue descaradamente o erário. Pouco interessa se o furto qualificado levou à lona uma estatal do porte da PETROBRAS. O que  irrita mesmo é ver as notícias sobre a tunga nas página nas páginas dos jornais, das revistas e no noticiário das rádios e da televisão.

A que leva isso ? Leva à criminalização da atividade da imprensa. Leva, em última instância, a um modelo de sociedade totalitária, objetivo final dos falsos democratas que antipatizam com a liberdade de expressão. Leva à destruição da instituições republicanas. Leva às ditaduras e ao colapso do processo civilizatório.

São gravíssimas as consequências das hostilidades que abertamente se pregam contra os jornais e os jornalistas — a “mídia”. Basta perceber que não existe no mundo, nem nunca existiu, nem existirá uma sociedade democrática que prescinda de uma imprensa livre e vigorosa. De uma imprensa que não se dobre aos poderosos, não fique de joelhos diante dos governantes.

Assim como não existe, nem nunca existiu, nem nunca existirá uma ditadura que tolere minimamente o fluxo livre de informações. Liberdade de expressão e democracia são gêmeas siameses. Uma não existe sem a outra. Há aí uma clara relação de simbiose.

Essa relação remonta ao século XVIII e à criação de uma esfera pública a partir da crítica literária feita por uma imprensa incipiente no Iluminismo. Foi esse espaço realmente público que criou as condições da superação da nobreza pela burguesia e do feudalismo pelo capitalismo, como muito bem demonstrou Jürgen Habermas no início dos já distantes anos de 1960.

Mesmo quem nunca ouviu falar de Habermas pode compreender a importância da Imprensa para as democracias ocidentais. Richard Nixon foi levado à renúncia graças ao trabalho dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post. O fascismo italiano teve a cerrada oposição de jornalistas liberais. Entre eles Mario Pannunzio, primo distante do autor deste texto.

A restauração da democracia brasileira teve como ponto de partida a morte de Vladimir Herzog. E a derrocada de Collor deveu-se às reportagens investigativas de Veja e Isto É. O Mensalão saiu dos escaninhos da baixa política também pelas páginas de Veja e da Folha de São Paulo, que publicou a histórica entrevista de Roberto Jefferson dando o caminho para a investigação judicial que revelou a face oculta do petismo.

Os anti-mídia devem ter já entabulado a pergunta: quer dizer que o jornalismo praticado no Brasil é perfeito ? A resposta é, definitivamente, não! Há sempre um esqueleto insepulto a justificar as suspeitas. O caso da Escola de Base, por exemplo, ainda assombra o público leigo e os próprios jornalistas.

A Rede Globo, velha aliada dos militares durante a ditadura, protagonizou o Caso Proconsult e fraudou a edição do debate ente Collor e Lula em 1989 para ampliar a vantagem de seu candidato, o ex-governador de Alagoas. Também ocultou os comícios das Diretas-Já e apresentou o maior deles, em São Paulo, como uma festa em homenagem ao aniversário da cidade.

Veja chegou a elogiar a Operação Bandeirante em editoriais antes de se engajar em uma campanha pelo restabelecimento das liberdades civis (leia mais sobre isso clicando aqui).

Os fatos pretéritos servem sim como uma espécie de alerta para o público. Deve-se acreditar piamente, cegamente, em tudo que sai nos jornais ? Não, é claro que não. Mas a desconfiança sistemática e apriorística certamente não representa solução para o problema da confiabilidade. Apesar de seus erros — involuntários e dolosos — a imprensa é um dos pilares sobre os quais se sustenta a nossa jovem democracia.

Boa parte das suspeitas sobre a atividade da “mídia” brota das tintas de um tipo curioso de jornalista — aquele que esta serviço de uma causa, ou que alugou sua pena a a uma causa qualquer. Esse jornalista é aquele que conspurca a liberdade, matéria-prima de seu trabalho, porque está preocupado em construir ou legitimar uma farsa para amealhar o apanágio.

Esses tipos constróem ficções simbólicas e estereótipos como o tal PIG, que vem a ser o Partido da Imprensa Golpista. Enquanto avacalham veículos onde eles mesmos trabalhavam até serem banidos do mercado, dão-se ao desplante de generalizar as suspeitas em troca de um bererê de alguma estatal federal.

Os penas-alugadas trabalham para desacreditar o jornalismo formal. O trabalho deles é preparar o terreno para o triunfo de iniciativas fascistas como o tal “controle social da mídia”, eufemismo para mascarar o que realmente se pretende, a volta da censura. Ou devolver ao Estado a condição de delimitador da liberdade editorial com excrescências como a tal “Ley de Medios”, que a Argentina acaba de colocar em desuso.

O modelo ideal de comunicação, para os grupos que tentam criminalizar a “mídia”, é o da Venezuela, onde a pauta é dada pelo governo, o tom é dado pelo governo, o papel é dado pelo governo e a posição editorial é dada pelo governo. Concretamente, o que se tem é um jornalismo de fachada, que só pode tecer loas ao governo — ou não existe porque governo não lhe permitirá.

Se você está engrossando a cantilena dos chorosos que querem a destruição da mídia, faça as contas. Imagine uma sociedade ideal como a que você está ajudando a construir, sem imprensa, sem liberdade de expressão e sem a possibilidade de divergir. Pense bem antes de hostilizar o repórter, de tocar fogo na revista, de demonizar o telejornal. Esse mundo sem liberdade de expressão é um péssimo negócio até para você, que quer acabar com ela apenas para ver o triunfo dos que vêm sendo denunciados no noticiário cotidiano.

Muito melhor do que queimar carros de reportagem é parar de ler a publicação que lhe incomoda. Se você acha que determinado jornal não é honesto, que está manipulando a informação, troque pelo concorrente. É você quem financia a atividade da “mídia”. Não adianta jogar pedra no carro de link do Jornal Nacional e correr para casa para assistir ao Big Brother. Melhor do que chutar o repórter da Globo é parar de ver a novelinha das oito.

Por fim, quero apenas lembrar que governantes geralmente não gostam de jornalistas. Salvo aqueles que costumam chamar presidente de presidentA, numa semântica que explicita uma indigente condição de subserviência. Não é por acaso que o direito à informacão, a liberdade de expressão e o instituto da inviolabilidade da fonte são cláusulas pétreas, estão inscritos no Artigo 5º da Constituição.

Pergunte ao Fernando Henrique Cardoso o que ele pensava dos setoristas que cobriam o Palácio do Planalto. E pergunte a esses setoristas o que escreviam de FHC nos anos de seu governo. Saiba que onde houver um governante e um jornalista honesto, eles provavelmente estarão às turras por quase todo o tempo.

É preciso uma certa iconoclastia. É preciso algum atrevimento. É necessário exercitar os sentidos. É imperativo manter a vigilância. É assim que a imprensa cumpre seu papel.

Que certamente não é o de puxar o saco de quem está no Poder. Muito menos o de esconder o que lhe parece feio apenas porque atinge a facção com a qual você se identifica.

Não vai ter golpe. Talvez nem impeachment constitucional

Vai ter golpe ?

Vai ter golpe ?

Mudou o ânimo no Congresso Nacional em relação ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ninguém mais é capaz de apostar alto no resultado do julgamento político que se avizinha. E os governistas estão mais animados do que os oposicionistas.

Qual o placar hoje ? O Deputado Darcísio Perondi (PMDB/RS), um dos coordenadores da Frente do Impeachment, acaba de tabular um levantamento feito por quarenta parlamentares com os colegas de plenário. Foram encontrados, segundo ele, 346 votos certos a favor do impeachment — apenas quatro além do mínimo necessário para encerrar o governo Dilma.

Ocorre que a cooptação de apoios entre o chamado baixo clero parlamentar não para. A campanha tem tido êxito. Note-se as dificuldade no PMDB para reaver os cargos ocupados por seus quadros no primeiro escalão da República. Acrescente-se a isso a volúpia exercida por promessas de verbas e cargos feitas a parlamentares que antes não passavam da portaria do Palácio do Planalto.

“A Presidente está se desmoralizando”, diz o senador Cristovam Buarque (PPS/DF). “Os deputados que vêm sendo cooptados no varejo vendem, mas não costumam entregar a mercadoria”, diz o experiente senador. Mas a pergunta é inevitável: Porque não entregariam ?

O senador por Brasília desconfia que a tática do governo pode não ter como fulcro a aquisição do voto do parlamentar, e sim a sua ausência no momento da votação em plenário. A rigor, quem tem que conseguir votos é a oposição — e são 342.

Por via das dúvidas, a oposição faz o possível para assegurar os votos contados como certos e a influência de deputados que são formadores de opinião. É o caso de Roberto Freire (PPS/SP), que quase volta para a suplência por causa da chamada janela partidária que se abriu para trocas de legenda entre fevereiro e março. Isso só não aconteceu graças a um arranjo levado a efeito pelo governador Geraldo Alckmin para mantê-lo no Congresso.

Os governistas também ganharam um discurso. Centrar o impeachment na discussão da legalidade apenas das pedaladas fiscais parece bem pouco diante do mar de acusações em que se afoga a política brasileira. Diante da corrupção deslavada, condenar Dilma por ter gerido temerariamente o orçamento parece mesmo golpismo deslavado para uma parte susceptível da opinião pública.

Além disso, há gente nas ruas gritando “não vai ter golpe, vai ter luta!”. A multidão vermelha, ainda que não seja muito numerosa, serve para demonstrar que não existe conexão possível entre quadro atual e aquele que se criou na véspera da deposição de Collor.

 

Há algo errado com a Lista do Apocalipse da Odebrecht

Uma análise rápida dos dados contidos na contabilidade paralela da Odebrecht coloca mais dúvidas do que certezas. Quero compartilhar com vocês algumas poucas observações que demonstram a dificuldade de se encontrar lógica em algo aparentemente incompleto e ilógico.

Os papéis apontam doações de R$ 216 mil para Aécio Neves. Consultando os registros do TSE, fica patente que o senador mineiro recebeu muito mais do que isso. Foram R$ 3 milhões em três operações distintas. A construtora Norberto Odebrecht doou R$ 1 milhão no dia 14 de agosto de 2014. A Braskem doou R$ 1 milhão na mesma data e fez outro aporte de R$ 1 milhão em 26 de setembro.

A anotação da planilha vazada pela Polícia Federal, portanto, não faz nenhum sentido. Os valores expressos nela correspondem a apenas 28% do que entrou ‘legalmente’ na campanha do candidato tucano.

Pergunto: o que justificaria essa subnotificação ? Não serve para nada, nem do ponto de vista legal, nem do ponto de vista político. E por mais que os adversários de Aécio queiram, a planilha da contabilidade paralela  não serve também para equipará-lo aos nababos petistas que se refestelaram com o dinheiro da PETROBRAS.

Agora vamos pegar um caso inverso, o do petista Fernando Haddad.

Com é notório, a administração de Haddad não pode ser confundida com a clepto-república criada pelo PT em Brasília. Por mais que se critique a gestão do prefeito paulista, não há registro de nenhum escândalo que possa equipará-lo a gente como Zé Dirceu, Vaccari etc., desafortunadamente seus colegas de partido.

Pois há uma divergência importante entre a contabilidade paralela e a oficial no que diz respeito à campanha em que Haddad se elegeu prefeito de São Paulo.

Na planilha do TSE, a Braskem aparece como doadora de R$ 100 mil para o diretório municipal do PT.  Na planilha paralela da Odebrecht, no entanto, há duas anotações. Haddad teria recebido, no total, R$ 3 milhões da Braskem, trinta vezes mais do que os recursos integralizados pelo caixa-um.

A planilha do TSE: R$ 100 mil da Braskem

À luz do que aconteceu desde que Haddad assumiu a prefeitura, a contabilidade paralela parece não fazer sentido. Salvo em relação à Lei das Sacolinhas (lei sobre isso aqui), as empreiteiras enroladas na Lava Jato não tiveram nenhuma facilidade nos últimos três anos em São Paulo.

A Camargo Corrêa e a Andrade Gutierrez tiveram um prejuízo de R$ 105 milhões com o fim da Controlar. As chamadas Sete Irmãs da Lava Jato, consórcio de todas as empreiteiras castigadas pelo juiz Sérgio Moro, perderam a obra do túnel da avenida Águas Espraiadas,  estimada em R$ 2 bilhões.

E há um episódio especialmente interessante nesse momento em que as desconfianças parecem nivelar ao rés da lama todos os políticos: a construção do Itaquerão. Fernando Haddad se desentendeu feio com a diretoria da Odebrecht quando um de seus diretores, Luis Bueno, foi ao gabinete do prefeito para tentar forçá-lo a recomprar os Certificados de Investimento e Desenvolvimento (CIDs)  emitidos pela Prefeitura para a construção do estádio.

Os CIDs foram emitidos pela municipalidade em benefício do Corinthians, que deveria vender os títulos no mercado para arrecadar R$ 420 milhões a serem empregados na construção da arena. Só que o clube não conseguiu comercializar os papéis. E quando o executivo da Odebrecht foi devolver o mico a Haddad, acabou sendo expulso do gabinete pelo prefeito.

Haddad nega, por meio de sua assessoria, que tenha recebido o dinheiro que aparece na contabilidade paralela da Odebrecht. É plausível a negativa. Mas uma fonte do blog na Prefeitura, com amplo conhecimento da estrutura que dá suporte à atividade política de Fernando Haddad, admite que o dinheiro da Odebrecht pode sim ter ingressado indiretamente na campanha — ainda que sem o conhecimento do então candidato.

O problema, segundo a fonte, é que a legislação praticamente obriga os candidatos a esse tipo de situação. A lei manda declarar todo o dinheiro que ingressa por meio de doações legais. Mas as campanhas são invariavelmente deficitárias. A de Haddad teria fechado com um prejuízo de cerca de R$ 30 milhões.

Feitas as contas, declarados os ingressos, o remanescente segue para o Diretório Nacional dos partidos. É nessa instância que são feitos os acertos para quitar débitos. E é justamente aí que reside o problema.

Não é necessário descer às minúcias para saber o que se passava nas instâncias superiores do PT. A Lava Jato já descreveu em detalhes como o partido operava na boca do cofre da PETROBRAS. E os diretórios nacionais estavam desobrigados de relacionar o dinheiro destinado a cada candidato depois do fechamento das contas.

Feitos estes apontamentos, resta apenas dizer que essa lista, que os políticos estão chamando de Lista do Apocalipse,  serve sim para ajudar a dimensionar o poder desse império do crime chamado Norberto Odebrecht. Um organização que foi além da ética e muito além da lei para se estabelecer com tanta proeminência no mundo das obras estatais.

Fora isso, talvez os dados vazados pela Polícia Federal sirvam também para esclarecer o tipo de relação quer certos políticos mantinham com esse conglomerado. Mas para que se chegue a isso vai ser preciso investigar cada caso para, como mandam os axiomas do direito penal, individualizar as condutas.

Até que isso seja feito, tudo o que se disser sobre essa lista não passa de especulação. Que, no limite, se presta apenas para generalizar suspeitas e ampliar o fosso em que jaz a política brasileira.

Carta aberta do crime organizado ao governador do estado

jailCaro governador ,

Vimos respeitosamente à sua presença com o intuito de denunciar a situação de penúria em que se encontra o crime organizado.

A crise pegou os assaltantes em cheio. O valor do butim-médio recuou para níveis do início da década porque ninguém tem dinheiro para nada.

Nas biqueiras só se vende crack e maconha. A cocaína, que agrega maior valor ao comércio de substâncias psicoativas, ninguém quer saber de comprar. O dólar subiu demais e os traficantes não conseguiram repassar o aumento para o consumidor final. Isso fez com que muitos empresários do setor de estupefacientes fossem obrigados a batizar ainda mais o pó, aumentando o impacto que a adição de certos produtos tem na saúde pública.

A extorsão está pela hora da morte. O suborno cobrado pela PM subiu muito acima da inflação. E nas delegacias, então, nem se fala. Hoje, um ladrão tem que fazer três ou quatro assaltos só pra pagar o pedágio. Ou seja: tem gente assaltando 20 horas por dia em condições insalubres apenas pra garantir os custos fixos. No final do expediente, não sobra nem para a cachacinha das crianças.

Aproveitamos a oportunidade para chamar a a atenção de Vossa Excelência para o fato de que tais impactos deletérios podem provocar inclusive a desorganização do crime organizado, o que traria consequências imprevisíveis principalmente para o bem-estar e a paz social dos presídios.

Além disso, a concorrência com o pessoal de Brasília é desleal. O crime do colarinho branco hoje não deixa espaço para a atividade dos pequenos criminosos, que são responsáveis por mais de 90 por cento dos BOs registrados no País. A dispersão de recursos é enorme. Tem gente desistindo da profissão de punguista para tentar um mandato de deputado federal.

Sugerimos que o governo crie mecanismos de compensação para amparar o criminoso em situação de risco social. Tomamos a liberdade de propor que seu governo crie a Bolsa-Crime ou algum outro subsídio social do gênero.

Caso isso não ocorra, alertamos para a iminência da deflagração de uma greve geral nos próximos dias. A categoria dos criminosos vai demostrar que segue unida na defesa de seus interesses e confiante no futuro do Brasil.

A solução drástica, que não desejamos, decorre da falta de condições econômicas que ameaça a instituição do crime organizado, tão importante para a nossa economia.

Porque além de oferecer à população a mais variada seleção de crimes, também cria mercado de trabalho para policiais militares, delegados, investigadores, escrivães e principalmente apresentadores e repórteres de programas vespertinos de televisão.

Atenciosamente,

PCC/CV/ CUC (Central Única do Crime).

Confusões do governo Dilma produzem o primeiro órfão da crise política

Certidão de nascimento: sem a assinatura do suposto pai.

Ele já vinha sendo sangrado a ponto de ficar esquálido. Nem de longe lembrava a figura vigorosa e impressionante sobre a qual um dia estiveram depositadas todas as esperanças dos circundantes. Mas jamais alguém chegou a supor que pudesse ser abandonado e esquecido pela própria família, que antes lhe parecia tão devotada.

No passado, sua força foi motivo de orgulho do pai e trouxe muitas alegrias à mãe. Todos reconheciam nele qualidades incríveis. Não por acaso, foi durante muitos anos o tema de praticamente todas as conversas nas rodas que só falavam em prosperidade, abastança e fartura. Era redentor do futuro, a esperança de sua gigantesca família.

Os tempos mudaram. O vigor foi rapidamente se perdendo. Ficou praticamente irreconhecível entre a primavera passada e o último verão.  Logo a musculatura flácida criou uma figura horrenda sobre ossos que vergavam e se partiam. O que ninguém esperava era vê-lo abandonado pelos próprios genitores.

Mas aconteceu.

Foi na tarde de 17 de março, a mais agitada dos últimos anos. Em Brasília, autoridades corriam atrás de jornalistas sempre apressados para revelar a confirmação de que o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva iria reassumir o governo pela via da Casa Civil. O zum-zum agitava os bastidores da política.

Assessores da presidente comemoravam precocemente o fim da crise política que a volta de Lula prenunciava. No Congresso, aliados do governo festejavam a manobra política e a oposição lamentava.  A crise política parecia caminhar para o fim — para o júbilo de uns e o desgosto de outros .

A tarde ainda não havia terminado quando os ânimos se inverteram. Uma notícia bombástica chegou de Curitiba dando conta de que o juiz Sérgio Moro decidira revelar ao País que havia um grampo captando conversas insidiosas no primeiro escalão da República.

Como toda a movimentação governamental tinha como objetivo trasladar o passivo judicial do ex-presidente da Justiça Federal do Paraná para o STF, onde ele nomeou 8 dos 11 ministros, o governo começou uma sucessão de manobras atabalhoadas. O objetivo era tornar juridicamente sustentáveis atos que deveriam permanecer na gaveta caso a Polícia Federal não consumasse a tentativa de prender Lula.

Mas o habeas corpus preventivo concedido a Lula por Dilma só teria efetividade caso já tivesse sido publicado no Diário Oficial da União. A primeira-mandatária mandou então rodar o D.O. de afogadilho. A edição extra saiu por volta de 19 horas, quando o País já pegava fogo.

Nela havia meia dúzia de atos. Três páginas e meia das oito da edição esquálida foram preenchidas com propaganda por falta de conteúdo editorial. Um dos decretos, publicado na terceira página, definiu o regime de orfandade daquele que havia sido o filho pródigo da Nação: o PAC — Programa de Aceleração do Crescimento.

“Fica transferido do Ministerio do Planejamento, Orçamento e Gestão para a Casa Civil da Presidência da República a Secretaria do Programa de Aceleração do Crescimento”, estabelecia o primeiro artigo do decreto presidencial. Traduzindo: Dilma Rousseff, que se elegeu presidente como Mãe do PAC, passou a tutela do programa a seu antecessor (e agora, se a jogada desse certo, funcionário) Luis Inácio Lula da Silva, que o decreto transformou em pai do PAC.

Mas as coisas começaram a se complicar. O pai presumido teve problemas com a Justiça. A transferência da tutela não se consumou porque Lula não estava ali para receber o rebento eleitoreiro. E, por mais que a ex-mãe e seu time de advogados tentassem, os juízes teimaram em não permitir.

Resultado: o PAC, cuja mãe abdicou da maternidade para cuidar de assuntos mais graves, agora também está sem pai. Agoniza solitário nas gavetas de um gabinete que é pouco mais do que uma mesa, uma cadeira e uma caneta. A Casa Civil não tem estrutura administrativa. E o filho pródigo agora é um pobre arrimo de família.

Enquanto isso, o Ministério do Planejamento, por determinação do mesmo decreto, continua cuidando do rebento enjeitado no que concerne aos problemas burocráticos. Isso também estava previsto no decreto.

Neste momento, ninguém sabe o que fazer do PAC. A solução óbvia seria produzir um decreto anulado o primeiro. Mas isso equivaleria a passar um recibo incrível das derrotas sofridas no Supremo, uma vez que o sonho de transformar Lula em pai do PAC acaba de se transformar em pesadelo por força da decisão de Gilmar Mendes, Luiz Fux e Rosa Weber.

Incrível. O filho enjeitado tem mais dotes do que supõe a maior parte da população. Ele é o rico detentor de uma fortuna avaliada em R$ 40 bilhões. Representa praticamente tudo o que o governo vai e não vai investir nos próximos meses. Dinheiro capaz de fazer a festa de dez entre dez corruptos e de eleger até postes à Presidência da República. Dinheiro capaz de fazer a diferença entre a paralisia da crise econômica atual e a retomada do crescimento.

Pobre PAC. Tão rico, tão poderoso, tão abandonado.