Na noite da última terça-feira, o STF foi palco de uma cena de constrangimento como há muito não se via. O protagnosita — vítima...

Miro, PHA, e Klouri com Ayres Britto: jornalista precisa de advogado para ir ao STF?

Na noite da última terça-feira, o STF foi palco de uma cena de constrangimento como há muito não se via. O protagnosita — vítima — dessa cena foi o festejado ministro Carlos Ayres Britto, que abriu uma brecha em sua tumultuada agenda para receber uma entidade que supostamente atuaria em defesa da liberdade de imprensa. A tal entidade solicitara o encontro para entregar-lhe pessoalmente um “honroso” convite para participar da abertura de um evento que acontecerá em Salvador, no dia 25 de Maio. É o terceiro encontro dos autoproclamados “blogueiros progressistas”.

A solicitação foi encaminhada por um nome conhecido entre os jornalistas brasileiros: Paulo Henrique Amorim.  Consultada, a assessoria de imprensa do STF aquiesceu. A defesa da liberdade de expressão e de imprensa tem sido a pedra angular a orientar as posições de Ayres Britto no curso de processos históricos. Portanto, pelo menos em tese, não haveria nenhum inconveniente em ceder 30 minutos do tempo do magistrado ao presidente da tal entidade.

As surpresas começaram quando, às sete e meia da noite, a porta do gabinete se abriu para a entrada dos solicitantes da audiência. Além de  Miro Borges, presidente do Instituto Barão de Itararé (o braço institucional da BESTA [Blogosfera Estatal]), estavam com ele o próprio Paulo Henrique Amorim e seu advogado, Marcos Cesar Klouri. O encontro foi registrado por um fotógrafo. A foto, que reproduzo acima, foi estampada na capa do Conversa Afiada, o blog de PHA.

A primeira pergunta que ocorreu a alguém que testemunhou a cena: por que um jornalista, ao se encontrar com um ministro do STF, se faria acompanhar por um advogado ?

Não é difícil saber a resposta. Ela pode ser encontrada no post escrito por Paulo Henrique Amorim sobre a reunião (no pé desta página. Se quiser ampliar, clique sobre a imagem). “No encontro , (…) Miro foi acompanhado deste ansioso blogueiro e seu advogado para causas cíveis – são umas 40 – Cesar Marcos Klouri”. Ou seja: PHA levou seu advogado para fazer lobby junto a Ayres Britto, antecipando teses que serão discutidas durante o julgamento de questões envolvendo seu notório cliente.

Recorro uma vez mais ao texto do Conversa Afiada para demonstrar como isso aconteceu. “Sobre a crescente judicialização da censura à liberdade de expressão, Britto acredita que o próprio STF já se pronunciou em diferentes decisões – inclusive dele, Britto – de forma a assegurar a liberdade”. E quem apresentou o problema da “judicialização” (eufemismo para introduzir a discussão das “mais de 40 ações” contra o blogueiro) ao ministro ?

Ao post:

“Klouri lembrou que, em recente vitória do ansioso blogueiro na Justiça do Rio contra Daniel Dantas, corajosa decisão da Juiza se baseou em muitos pontos em decisões de Britto. O Judiciário progressivamente entenderá inclusive a linguagem irreverente – à la Itararé – e crítica da Internet, observou Klouri: que precisa ser diferente da linguagem da mídia tradicional, inclusive por seu caráter interativo”. O ministro desconversou: “É uma questão de tempo”, disse ele, que não estava disposto a debater a tese do advogado de defesa de um réu contumaz.

É possível que Ayres Britto tenha ficado confuso com o paradoxo dos argumentos que seus visitantes foram defender. Por um lado, o convite tinha como objetivo conseguir que o ministro levasse sua credibilidade para abrilhantar o evento da BESTA em Salvador. O foco do evento, no entanto, estava centrado na “luta pelo Marco Regulatório da Comunicação e a crescente censura a blogueiros pela Justiça”.

Traduzindo: ao mesmo tempo em que pugna pela nova censura para a imprensa convencional, rotulada agora como “Ley de Medios”, PHA pretende obter da Justiça o reconhecimento de que a internet pode ser utilizada como um octágono de vale-tudo, selva sem normas em que até injúrias raciais, como as de que ele lançou mão para ofender o colega Heraldo Pereira, da Globo, poderiam ficar imunes a qualquer sanção.

Não é demais lembrar que o “ansioso” blogueiro, quando acuado por seus contendores, ameaça processar em série quem o critica, “judicializando” as contendas sempre que está em desvantagem — como estava quando foi obrigado a se retratar diante de Heraldo Pereira e a indenizá-lo com R$ 30 mil por tê-lo qualificado como “negro de alma branca”. O próprio editor deste Blog está na relação de 15 veículos, blogues e jornalista que ele anunciou que irá processar. Assim, PHA reivindica para si algo que quer suprimir dos outros: o direito à crítica.

Voltemos à reunião com Ayres Britto.

Lá pelas tantas, o ministro tentou explicar cordialmente por que não iria ao encontro da BESTA. “Ayres Britto informou que aceitará o convite, desde que não haja um impedimento técnico: assunto correlato estar em julgamento no Supremo”, diz o post do Conversa. Ou seja:  recusou o convite.

O “assunto correlato em julgamento no Supremo” atende pelo número AI 770191 (clique para consultar) no protocolo do STF. Trata-se de um Agravo de Instrumento em processo de indenização por danos morais movido por PHA contra Diogo Mainardi e a Editora Abril.

Paulo Henrique e Miro fingiram que não entenderam a recusa. Pediram ao ministro pelo menos para  “enviar mensagem que possa ser lida como abertura oficial do evento” que discutiria a nova censura proposta dentro do cavalo-de Tróia da “Ley de Medios”, a despeito de o juiz da corte suprema ter afirmado que “não vê necessidade de qualquer lei que regule a liberdade na Comunicação, porque a Constituição regula tudo”.

E foram além. Diante da resistência de Ayres Britto,  “Miro informou que o Encontro reproduzirá o que fez no I Encontro Nacional de Blogueiros Sujos, em São Paulo, dois anos atrás: colocar um banner acima da mesa de abertura, com uma frase do Ministro”.

Ayres Britto reagiu sugerindo duas frases, ambas filosoficamente contrárias ao tal controle social da mídia que a BESTA pretender ver implantado no País: “’A liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade’;  e  ‘os excessos da liberdade se corrigem com mais liberdade “, assinaladas no post de PHA .

Para o fim a que se propunha, o resultado da reunião foi catastrófico. Ayres Britto decidiu que não vai ao encontro da BESTA. Desta forma, os blogueiros “sujos”, como eles se autodefinem, vão ter que encontrar outro patrono para abrilhantar sua festa. Não vai ser fácil, a julgar pelo que promete o próprio Paulo Henrique Amorim em seu blog para a abertura do evento: “um ato solene na Praça Castro Alves, em que este  ansioso blogueiro, com voz de locutor de baile de debutante, lerá trechos do poema ‘O livro e a América'”.

Comentários

  • João Carlos da Silva Moreno

    01/06/2012 #1 Author

    Todos os veiculos que se dizem contra o marco regulatório se recusaram a participar dos foruns propostos para ouvir todos os lados e sugestões. Fazem questão de misturar alhos e bugalhos, censura e regulação, direito de resposta e propriedade. Ah, a desculpa pra não participar é que seriam usados só pra legitimar a censura que já esta decidida pelo governo.

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  • João Telésforo

    07/05/2012 #2 Author

    Pannunzio:

    Censura, nunca mais.

    Porém, por que você não comenta o fato de que dispositivos constitucionais sobre rádio e tv restam letra morta? Por exemplo, a proibição de que parlamentares sejam proprietários de concessões, e também a vedação ao monopólio e ao oligopólio.

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  • André

    11/04/2012 #3 Author

    O que me pergunto é:Por que?Por que?Por que um sujeito se preta ao papelões que o PH se preta?Será que dinheiro compra decência?

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  • marco

    09/04/2012 #4 Author

    só uma dúvida, então este blog não aceita anunciantes?

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    • Fábio Pannunzio

      09/04/2012 #5 Author

      Não, Marco, não aceita. Como eu sou repórter da TV Bandeirantes, aceitar patrocínio criaria um impedimento ético insanável. O jornalista não pode receber dinheiro de suas fontes. Eu prezo muito a minha carreira e o meu emprego. Por esta razão, não aceito patrocínio.

  • Airton

    08/04/2012 #6 Author

    E pro Bobinho , os posts do Pannunzio sobre a publicação do PHA contra Heraldo é que gerou (?) o suposto processo do PHA contra ele .

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  • Airton

    08/04/2012 #7 Author

    O PHA poderia ter explicado no seu blog se carrega o advogado a todos os seus encontros ?

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  • Bobinho

    06/04/2012 #8 Author

    Pannunzio, discordo de muitas coisas que voce escreveu aí. A ley a qual vc se refere e uma forma de democratizar as concessões que estão nas mãos de 11 grandes famílias desde os tempos imemoriais. Entendo a sua bronca com PHA, afinal, vc sofre processo dele, como ele do Heraldo. Por isso, essa caçada junto a ele! Por fim, se o Ministro Gilmar Mendes, que frege ser o seu predileto no STF, pode ir a Folha, por que o Ayres nao poderia ir a este encontro?

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    • Fábio Pannunzio

      06/04/2012 #9 Author

      Gilmar Mendes não é o meu predileto. O meu predileto é mesmo Ayres Britto. Não tenho nada contra ele ir onde bem entender. Só noticiei que ele não vai a esse encontro.

    • Bobinho

      07/04/2012 #10 Author

      Gostei da sua resposta! Parabéns! Mas que tal falarmos do caso veja. Só quem toca no assunto e o site Brasil247! Vc nao se sentiu enganado pela revista?

    • Fábio Pannunzio

      07/04/2012 #11 Author

      Já escrevi sobre isso. Aqui: http://www.pannunzio.com.br/archives/10094

    • alexandre pereira

      07/04/2012 #12 Author

      Não é muito pouco para o tamanho do escândalo? Não é bem menor do PHA? Ficaria mais claro para nós se soubéssemos de fato o que ocorre entre vocês dois.

    • Fábio Pannunzio

      07/04/2012 #13 Author

      Não há nada entre mim e ele. Há, sim, algo como questionamentos à ética e ao respeito humano. Leia aqui que você vai entender: http://www.pannunzio.com.br/archives/112 e http://www.pannunzio.com.br/archives/137.

    • Big Head

      07/04/2012 #14 Author

      Ao que se sabe, o Pannunzio ainda não foi processado pelo Sabujo-Mor. Estranha essa lógica essa dos comentaristas: mesmo que um dia o PHA processe o Pannunzio isto não os iguala, tampouco os torna antípodas. Não cusata nada lembarar que o dono deste blog paga suas contas sem precisar servir de moleque de recado nem de tarefeiro de governo algum. Aí já vai uma distância enorme. Além disso, o histórico governista de PHA, desde os tempos dos milicos, também demonstra que são feitos de matérias completamente distintas. Quanto ao temo do post em si, claro que o sevidor de Edir Macedo foi fazer lobby junto ao Ayres Brito. Que bom que se deu mal. Já a tal Ley de Medios, não passa mesmo de uma Cavalo de Tróia que, sob um chantilly de boas intenções, esconde a vontade de (vá lá, vou relevar a mentira do Bobinho) passar as rédeas da imprensa das mão de um punhado de famílias para as garras de um partido que se pretende hegemônico. Só não vê isso quem não quer e o embrião é justamente a tal “blogoseira pogreçista”, cujo único progresso que se vê é na conta bancária, à custa dos desdentados que não os lêem e repudiam seus valores.

    • Big Head

      07/04/2012 #15 Author

      Moderação, os vários erros de digitação não ponha na conta do Papa e sim da Heineken! kkkkkk Já no clima do Lolapalloza, lá vai, em homenagem a PHA e seus tolos seguidores:

      “What if I say I’m not like the others

      What if I say I’m not just another one of your plays

      You’re the pretender

      What if I say that I’ll never surrender”

    • Big Head

      07/04/2012 #16 Author

      Só sendo mesmo Bobinho para tentar consolidar argumentos citando como fonte confiável Portal do Daquele Consultor de Empresas Privadas…

  • Big Head

    06/04/2012 #17 Author

    A “Blogoseira Pogreçista”, o rentável Armazém de Secos e Mohdaos gerenciados por ex-jornalistas, é mesmo suja, afinal ninguém costuma rastejar tanto ante o poder de turno. Pra não falar nos zilhões de litros de baba que costumam inundar o sacos governamentais… Como diria o grande Nélson Rodrigues: “dinheiro compra até amor sincero”. Quanto mais petismo tardio! – digo eu. A piada grotesca, contada na novilíngua orwelliana, é ver essa gente se autointitular como paladina da liberdade de expressão, sendo tão, mas tão livres, que ousam incensar o governo que lhes paga os vinhos caros e as óperas em Nova York. Pense numa liberdade! hehehe

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