Márcio Peixoto, do blog Oraite nos Isteits Semana passada foi recorde. Recebi dois convites para o Twitter, quatro para o Facebook e um para...

Márcio Peixoto, do blog Oraite nos Isteits

Semana passada foi recorde.

Recebi dois convites para o Twitter, quatro para o Facebook e um para aderir ao UNYK. Esse último não faço a mínima idéia do que seja. 

Eu acho o máximo receber os convites. É prova de que ainda lembram de mim. Sim, porque o blog é o meio de comunicação mais falho que existe. A informação só vai, não tem feedback. Ou melhor, de vez em quando alguém põe um comentário, mas como o Oraite peca por liberdade (é aberto, sem moderação, sem contador, permite comentário anônimo) não tenho como saber quem manda a mensagem e sequer se alguém o lê. A não-resposta me consome. Fico com medo de estar perdendo tempo de estudo do mestrado para escrever aqui e ninguém ler. Mas isso é assunto para o divã da dona Isabelita. Consultas das 23h30 à meia noite. Preço a combinar. Em geral, pago em serviço (doméstico, não sexual como você pensou).

Os convites. Recebo-os todos com carinho, mas nunca aceito. O que não entendem é que eu só fisicamente estou na primeira década do século 21. Minha mente está lá, parada e pairando na década de 80. Antes até, nos anos 60. Eu tenho de confessar que até hoje não comprei a ida do homem à lua. Meu cunhado na adolescência fazia uns videozinhos com uma câmera JVC super peba tão ruins quanto aquele. De mais a mais, vê lá se Neil Armstrong é nome de astronauta? Se o Neil Armstrong tivesse participado da mítica formação que gravou Kind of Blue teria meu crédito. É uma boa alcunha para um pioneiro do Jazz, mas jamais para alguém que seria o primeiro a pisar na lua. Aliás, eu mesmo já pisei na Lua diversas vezes, sem querer, registre-se. É uma cadelinha poodle que seu Fernando e dona Nilma paparicam em um dois quartos com reversível na Nossa Senhora da Saúde. Foi comprada por mim e meu irmão há uns 15 anos. A gente queria uma poodle branca para presentear mainha. Vimos os anúncios do A Tarde e fomos até a casa da dona-me-esquece ver a ninhada. Era uma casa na Pituba, se não me engano. Na época, Pituba era em Salvador um bairro de gente honesta e distinta. Lindos todos os filhotes, mas eram meio amarelados. Dona-me-esquece, doida para se livrar dos 214 cagões, garantiu: é só a primeira penugem, depois ela vai ficar branquinha, branquinha. E está lá a Lua tão branca quanto o cavalo de Napoleão. 

Eu sou fã de tecnologia, só não consigo acompanhá-la. Até entrei no Orkut uma vez. Durou uma semana. Na época eu dava aulas em faculdade e se um professor quer perder a privacidade basta oferecer uma ferramenta virtual de comunicação a alunos na casa dos 20 anos. Levei dois meses para conseguir o orkuticídio. Esse sites são ótimos para te aceitar, mas não querem te deixar sair por nada. Tecnologicamente eu estou na era do fax. Que aparelho fantástico, que invenção maravilhosa. O cara que inventou o fax tinha de ganhar o Nobel, ser nomeado Sir pela rainha, jantar com o Barackão, churrasco com o Lula, pudim de leite na casa de vovó Maria. E-mail é fácil, não existe fisicamente. Mas o fax, pense bem, o fax! Eu penso no fax e fico deslumbrado. Você manda um papel daqui e ele se materializa do outro lado. Em qualquer lado, dá para mandar um fax até para Feira de Santana, onde até hoje o gerador movido a querosene é desligado às 22h00. E você ainda fica com o original, ou seja, o fax transmite e duplica a mensagem. Para mim, parou no fax. Tudo que veio ou vier depois perdeu o sentimento de novo.

Quer me irritar? Me manda uma mensagem de texto no celular que exija uma resposta. C-A-R-A-L-H-O, como é que alguém consegue escrever no celular? O meu telefone é moderno. Tem cartão de memória, toca MP3, tira fotos com qualidade e o diabo aquático. Ganhei no dia em que desembarquei na terra-da-galinha-que-põe-ovo-em-caixa. Eu fiz curso de datilografia em máquina manual lá na Comercial Norte de Taguatinga, no Sarmento, pelamordedeus, como é que eu vou digitar mensagem em telefone? É como escrever à máquina só com dois dedos, porque com os outros você tem de segurar a Remington. Você já tentou datilografar com os dois polegares? Faça a imagem mental, porque é essa a sensação toda vez que tenho de responder a uma mensagem de texto.

Tenho aqui uma amiga alemã. Nos conhecemos no curso de inglês, que acabou no começo deste mês. Na minha turma nosso país já está no primeiro mundo. Brasil, Suécia e Alemanha formavam um trio que mais perturbava as aulas do que estudava. Ao menos éramos obrigados a falar inglês, então, objetivo cumprido. Mexicanos também se agruparam, latinos em geral formaram seu coletivo assim como os não-acidentais, exceção para os vietmanitas, que ficaram juntos em um quinto grupo. Como entrei no curso depois de 10 dias de iniciado e ainda cheguei atrasado na primeira aula, dei uma escaneada geral e percebi as panelas já montadas. Fiz a opção que me pareceu mais sensata: sentei ao lado da mulher mais bonita. Era a Alemanha de Claudia Schiffer.

O fato é que virei conselheiro da alemanzinha. Ela mal completou 20 anos e quando perguntou quantos anos eu tinha fui logo dizendo “tenho idade para ser seu pai”. Pingo no i que eu sou casado e a patroa lê o Oraite. Pois sim, ela me pede dicas nas abordagens aos rapazolas daqui, mas sempre via texto de celular. Caramba. Ela me manda uma pergunta. Eu tô tentando terminar a segunda palavra da resposta, letra por letra, cada tecla tem várias opções de letras – fora os números e outros símbolos, uma novela. Chega outra mensagem. Quando eu consigo terminar uma frase inteira já tem mais quatro perguntas! Envio a resposta e, acreditem, em 30 segundos chega a resposta com mais de 20 palavras. E umas abreviações loucas que eu tive de entrar no Google para entender. Eu levei oito minutos para digitar cinco palavras… Desisto e disco para ela. Meu celular é tão moderno que até faz ligações.

 

Márcio era editor e professor universitário em Brasília. Mas decidiu abandonar tudo para viver como marido e dono de casa em  Asheboro, Carolina do Norte, EUA, onde a mulher dele, Isa, dá aulas e paga as contas da família. Atualmente, embora faça um freela fixo numa loja da Wal-Mart, a função de Márcio é cuidar da casa e da filhinha Marisa. E é sobre essa nova vida de “homem do lar” que ele costuma escrever em seu blog.

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