O Congresso deve formalizar hoje a CPI Mista para investigar as ramificações do crime organizado nos vários níveis de governo a partir do esquema...

O Congresso deve formalizar hoje a CPI Mista para investigar as ramificações do crime organizado nos vários níveis de governo a partir do esquema de contravenção do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Até agora, as investigações da Polícia Federal já revelaram a contaminação de praticamente todo o governo tucano de Goiás, apontaram para a antessala do gabinete do petista Agnelo Queiróz e destroçaram a carreira política de Demóstenes Torres, um dos principais pilares da oposição no Senado da República.Também há vínculos de suspeição dentro da Casa Civil da Presidência da República e rastros que levam a outras esferas da administração de outras unidades da federação. Por todos esses fatores, a instalação da comissão que vai promover a investigação parlamentar era um dever ao qual a Câmara e o Senado não poderiam se furtar, pois o absenteísmo congressual beiraria a prevaricação.

Como em todo processo político, sabe-se o início mas não se conhecem o enredo e, principalmente, o final dessa trama. As incógnitas que se apresentam não são um privilégio brasileiro. Na década de 80, a greve de fome de uma determinada deputada do Partido Liberal colombiano desatou um processo que culminou com a prisão dos principais chefes dos cartéis de drogas no país vizinho. A deputada ficaria mundialmente conhecida quando, anos depois, foi sequestrada pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) enquanto disputava a presidência da república. Seu nome: Ingrid Bettancourt.

A campanha de Ingrid pela moralização da política colombiana teve como efeito desatar um processo ao final do qual restou comprovado que 100 dos 166 deputados federais estavam de alguma forma comprometidos com o narcotráfico. A greve foi um protesto vigoroso contra a absolvição sumária do então presidente Ernesto Samper, cuja campanha havia sido financiada pelos irmãos Orejuela, os chefões do Cartel de Cali.

Entre a Colômbia dos anos 1990 e o Brasil de hoje há muitas semelhanças. Como as investigações da PF evidenciaram, aqui, como lá, as instituições estão vulneráveis ao assédio do crime organizado. Os instrumentos de correição, que deveriam proteger o sistema da atuação deletéria de criminosos organizados, são calados pelo corporativismo. Acuados, os políticos, sobre quem pairam suspeitas que beiram a generalização, muitas vezes atuam defensivamente no afã de ocultar suas mazelas e manter longe da ribalta ligações espúrias com patrocinadores escusos.

A dinâmica da CPI dos negócios de Carlinhos Cachoeira vai determinar até que ponto o parlamento brasileiro está disposto a olhar criticamente para os tentáculos da contravenção  e de suas conexões com o mundo da política. Em 2006 e 2007, quando as CPIs do Mensalão e dos Sanguessugas foram instaladas, o Congresso contribuiu para deslindar a atuação de uma máfia do colarinho branco que tinha como fim a compra de votos sobre a qual Lula assentou sua “governança” a partir dos esquemas subterrâneos engendrados por seu ministro da Casa Civil, José Dirceu. Naquele momento da história, um em cada cinco parlamentares estava, de alguma forma, comprometido com quadrilhas que transacionavam almas congressuais no varejo e no atacado da baixa política.

Com a oposição esfacelada e o PT animado por um espírito de revanche para vingar o mensalão, a CPI que será instalada esta semana tem todos os ingredientes para revelar até que ponto Poder e crime se misturam no Brasil. A julgar pelo que se conhece até agora, a investigação parlamentar tem tudo para fulminar dois governadores (Goiás e DF) e pelo menos meia dúzia de deputados e senadores, do PT ao DEM, passando pelo PSDB, PTB e PPS. Além disso, terá o condão de decifrar quais são os mecanismos que permitem a associação criminosa entre contraventores e políticos corruptos, bem como trazer à luz os efeitos gerados por essas quadrilhas nas Instituições brasileiras. Mas também pode enveredar para o nada, que é o que geralmente ocorre quando o processo de depuração passa a incomodar os próprios investigadores.

Com relação à situação de Demóstenes Torres no Conselho de Ética, vale a pena prestar atenção à atuação do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), que preside o colegiado. O passado o recomenda. Menos pelo que fez do que pelo que foi impedido de fazer. Em agosto de 2009, indicado para presidir a investigação do escândalo dos Atos Secretos, foi defenestrado por uma articulação levada a efeito por José Sarney, supostamente seu aliado, e Renan Calheiros, que o substituíram no Conselho de Ética pelos servis Ideli Salvatti e Paulo Duque.

Comentários

  • jose carlos arana

    11/04/2012 #1 Author

    Caro Airton, a defesa do senador baseia-se no fato de que o sigilo telefonico só poderia ser quebrado através do STF, esta estratégia não dará certo, pois não era ele que estava sendo investigado. Você está corretíssimo, o feitiço virou contra o feiticeiro.
    O artigo é muito bom, mas penso que a CPI tambem deveria investigar o papel da imprensa. Até que ponto ela não foi, como diz o Fabio, pautada pelo contraventor, se é que foi. Mas como em conversa anterior com o Fabio, devemos aguardar novos esclarecimentos.

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  • Airton

    11/04/2012 #2 Author

    É interessante hoje ver a defesa do senador Demóstenes pedir o cancelamento das provas , com a alegação de que foi ilegal e lembrar das vezes que o senador foi a tribuna pra dizer que a comissão de ética não julga por provas concretas mas por intenções .Hoje o feitiço virou contra o feiticeiro.

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