A pancadaria desta quinta-feira foi um dos espetáculos mais covardes e anrtidemocráticos da história do Senado. Trinta seguranças truculentos, agindo sob as ordens diretas...

A pancadaria desta quinta-feira foi um dos espetáculos mais covardes e anrtidemocráticos da história do Senado. Trinta seguranças truculentos, agindo sob as ordens diretas do diretor da Polícia Legislativa, distribuíram mata-leões e chaves de braço para conter meia dúzia de estudantes inofensivos na entrada da Tribuna de Honra do plenário do Senado.

Enquanto o pau comia no Salão Azul, Sarney presidia a sessão. Minutos depois, instado por um repórter, Sarney se recusou a comentar a selvageria de sua guarda pretoriana. “Eu não vi nada, não sei do que você está falando”, respondeu, como se não fosse ele o responsável pela transformação da Casa do povo num bunker pessoal. Repetiu a velha cantilena que vem desfiando a cada nova acusação.

O espírito antidemocrático do atual presidente do Senado e sua aversão à imprensa construíram marcos físicos, evidentes demais para não serem notados, no espaço que deveria abrigar a pluralidade e a tolerância.

O primeiro deles foi um “curralzinho” para isolar os repórteres,  um corredor articial entre a saída do gabinete da presidência e a entrada do plenário. Assim ele se livra do contato físico com os jornalistas e se desobriga de ouvir as perguntas que lhe são incômodas — e para as quais invariavelmente não há resposta.

Na semana passada, o Senado decidiu trancar suas portarias para o público. A primeira justificativa foi a gripe suína. Tão frágil que basta transitar do Salão Azul do Senado para o Salão Verde da Câmara para que se perceba seu verdadeiro propósito. O objetivo foi mesmo conter eventuais manifestações.

Esta semana, o coronel Sarney destituiu a secretária de comunicação social e nomeou um antigo funcionário para enquadrar a rádio e a TV Senado. Não suportou ver o registro de um protesto contra ele, promovido pelos mesmos manifestantes que seus jagunços espancaram nesta quinta-feira, na página eletrônica da Agência Senado.

Fernando César Mesquita, o novo diretor, é um jornalista tarimbado. Ocupou posições importantes ao longo de sua vida profissional e merece o respeito dos colegas que têm convivido com ele ao longo das últimas três décadas.

O que importa, nesse caso, não é o curriculum do novo diretor, e sim o propósito de sua nomeação — a tentativa de transformar os veículos de comunicação do Senado em um simulacro do sistema Rede Mirante/jornal O Estado do Maranhão, com o qual Sarney manipula descaradamente a opinião pública em seu feudo, o estado do Maranhão.

Os súditos do império midiático de Sarney noticiam a crise pelo reverso. Transformam em vantagem para o patrão tudo o que aparece como negativo em outros veículos respeitáveis. É o contrário do que fazem os repórteres que cobrem o Congresso ao demonstrar os vícios patromonialistas que pautaram suas sucessivas administrações do Senado e pontuaram toda a sua vida pública.

A aversão de Sarney à independência dos jornalistas que não estão sob suas ordens ficou clara em dois episódios graves: a censura ao jornal O Estado de São Paulo e a acusação leviana contra o repórter Andrei Meirelles que, segundo ele, teria invadido o escritório de um de seus laranjas e roubado documentos — fato desmentido de pronto pela gravação que ele próprio brandiu da tribuna do Senado.

José Sarney também tentou forjar uma imagem que não cabe no seu figurino mentindo descaradamente sobre algo facilmente veirificável. Ao enumerar “feitos históricos” que poderiam caracterizá-lo como um verdadeiro democrata, afirmou no mesmo discurso que jamais processara um jornalista. Mentira desfeita com uma simples consulta aos sites dos tribunais, que revelou que Sarney é um algoz contumaz dos que o criticam — e não se acanha em usar a justiça para calar a liberdade de imprensa.

Quando faltam os argumentos, começa a brutalidade. Foi o que aconteceu quando a guarda pretoriana de Sarney decidiu distribuir sopapos em adolescentes indefesos que faziam um protesto inofensivo ao lado da sala do trono, marcando esse momento de agonia da tolerância e do respeito democrático do nosso deplorável parlamento.

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