Fernando Rodrigues Atire a primeira pedra quem nunca cometeu um erro de português ao escrever uma mensagem no celular. Não é esse o ponto...

Fernando Rodrigues

Atire a primeira pedra quem nunca cometeu um erro de português ao escrever uma mensagem no celular. Não é esse o ponto principal no curioso torpedo redigido pelo deputado federal Cândido Vaccarezza, do PT de São Paulo, para o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, do PMDB.

Na sessão de anteontem da CPI do Cachoeira, quando foram engavetados vários pedidos de convocação de gatos gordos da política, Vaccarezza enviou o seguinte SMS para Cabral: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe você é nosso e nós somos teu (sic)”.

O petista poderia muito bem ter escrito “é nóis, mano” ou “tá tudo dominado”. Seria o mesmo. A relação de compadrio deletério revelada só escancara o que todos já sabem, mas nunca custa dizer de novo: o PT protege o PMDB e recebe em troca blindagem equivalente.

Partidos aliados se comportam assim desde que a política é política. Continuará sendo desse modo em todas as CPIs, como no passado recente também o PSDB protegia o PFL (hoje DEM) e vice-versa.

Graças à imagem mostrada pelo telejornal “SBT Brasil”, a operação abafa na CPI do Cachoeira perdeu a ambiguidade. Ontem, Vaccarezza explicou sua mensagem: “O Cabral não é investigado, não é citado, [eu] não poderia estar blindando. O que o blinda é a inocência dele”.

Sérgio Cabral é amigo do dono da empreiteira Delta, Fernando Cavendish. Ambos aparecem se refestelando num restaurante no exterior. Essa empresa tem contratos com governos pelo país inteiro. Nos inquéritos do caso Cachoeira, a Delta aparece como peça vital do esquema.

Nada disso seria indício suficiente para convocar Cabral. A CPI só tem uma regra de ouro, expressa no solecismo de Vaccarezza: “Você é nosso e nós somos teu”. E os brasileiros que pagam impostos e os salários dessa turma? Estamos à deriva. Nós não somos de ninguém.

viaFolha de S.Paulo – Opinião – “Nós somos teu” – 19/05/2012.

Comentários

  • Jotavê

    19/05/2012 #1 Author

    Vacarezza não fez mais do que explicitar em mau português a posição do PT nesse episódio. Sérgio Cabral é um aliado precioso do partido neste momento, e não seria mesmo de se esperar que fosse jogado na fogueira. Abundam os indícios de que a Delta mamou e mama nas tetas do Rio de Janeiro. Uma quebra do sigilo telefônico e bancário de Cabral, Cavendish e de seus auxiliares mais próximos evidenciaria a atuação da quadrilha no estado, liquidando de vez com a imagem pública do Governador. Feitas as contas, a cúpula do partido concluiu que não vale a pena. Como a turminha do outro lado chegou a conclusões semelhantes no que diz respeito a Marconi Perillo, ficaram quites, e nós ficamos órfãos.

    Não é apenas nesse episódio que Vacarezza tem atuado no sentido de transformar a CPI em pizzaria. Ontem mesmo, líamos suas declarações defendendo a atuação do presidente da Comissão, quando este não pôs em votação o pedido do senador Fernando Collor para que a PF disponibilizasse todo o material referente a Policarpo Jr. Vacarezza argumentou que o pedido não tinha sentido, pois que o material pedido JÁ ESTARIA DISPONÍVEL. Ora, se é verdade, como pretende Vacarezza, que TODO o material referente a Policarpo Jr. já está disponível, então a história dos 200 telefonemas é uma tremenda lorota. O militante petista está, portanto, diante da necessidade de fazer uma escolha amarga. Ou bem Vacarezza é um mentiroso, e nem todo o material em poder da PF está em mãos da CPI, ou então são mentirosos os que divulgaram a notícia de que, no material ainda não divulgado, haveria 200 telefonemas trocados por Policarpo Jr. com membros da quadrilha, não sei quantos diretamente com Carlinhos Cachoeira.

    Esteja ou não mentindo NESSE episódio, Vacarezza já se transformou há pelo menos uma década num político indistinguível de um Roberto Jefferson, ou de um Paudernei Avelino. Não existe vestígio, nele, dos sonhos que movem a militância do partido a que pertence. Faz o que todos fazem, como dizia Lula, e o faz pelos mesmos motivos que muitos (não todos!) o fazem. Seria interessante se, um dia, alguma CPI revelasse a respeito DELE os dados que ele não quer que sejam revelados a respeito de seu comparsa Sérgio Cabral.

    Tristes tempos estes, em que um homem honrado como José Genoíno vai para o ostracismo, empurrado em grande parte pela vergonha na cara que nunca perdeu, e homens como Cândido Vacarezza ganham cada vez mais fama, prestígio e poder. Durante o episódio do “mensalão”, Genoíno sangrou até morrer politicamente, mas não denunciou o esquema de financiamento e distribuição de verbas a aliados que o PT, a seu próprio modo, havia montado. Carregou nos ombros cada milímetro da culpa que era de todos – a começar do presidente da República – num escândalo que apenas exibia em cores vivas e berrantes as engrenagens que movem TODA a política nacional – toda, absolutamente toda, sem exceção alguma, conforme sabemos todos nós, e conforme teriam a OBRIGAÇÃO de saber os jornalistas incumbidos de transmitir à sociedade um quadro minimamente realista daquilo que o convívio diário com o Congresso Nacional permite enxergar com a mais absoluta clareza. Honrado como é, Genoíno absorveu o impacto dos golpes mais fortes, enquanto figuras grotescas, como esse Vacarezza iam galgando postos mais altos no partido. O mundo definitivamente não é justo.

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