Reinaldo Azevedo Paulo Henrique Amorim, o notório, de braços dados com Mino Carta, da mesma estatura, escreveu ao menos uma verdade na vida para...

Reinaldo Azevedo

Paulo Henrique Amorim, o notório, de braços dados com Mino Carta, da mesma estatura, escreveu ao menos uma verdade na vida para exaltar o seu amigo, a saber:

“Como é de conhecimento do mundo mineral, quem fez a VEJA, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

De fato, nunca houve dúvidas de que era Mino quem mandava. Era Mino quem decidia. A função de patrão, para ele, era pagar as contas de seu brilho incomparável.

Hoje Mino é um “progressista”, um verdadeiro guia a orientar o jornalismo de esquerda. E odeia VEJA, como é sabido. Cumpre, então, deixar claro quais eram as escolhas do chefe inconteste enquanto esteve no comando da revista — aquela na qual ele não deixava Roberto Civita dar palpite. Enquanto escrevo, assobio mentalmente: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei…”.

Na edição de 4 de fevereiro de 1970, a revista publicava uma reportagem, exaltada pelo diretor de Redação na Carta ao Leitor, devidamente assinada, sobre o famoso “roubo do cofre do Adhemar”. Na mesma edição, sob o pulso firme de Mino Carta, um outro texto detalhava os bastidores do desmantelamento dos grupos de esquerda.

Com o seu conhecido porte imperial e a notória intolerância com os que pensam de modo diferente — tanto é assim que não deixava nem mesmo o patrão dar pitaco na revista —, Mino cantou as glórias da Operação Bandeirantes, conhecida por torturar prisioneiros. Seguem alguns trechos verdadeiramente encantadores da obra deste que é hoje um oráculo do jornalismo que se quer “progressista” e de esquerda — desde que devidamente recompensado pelo estado, é claro.

Peço que vocês leiam atentamente estes dois trechos, um sequência do outro, em que Mino Carta exalta a eficiência da Oban. Volto em seguida:

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Voltei
Como este mundo pode ser pateticamente engraçado! Duas das organizações que estão no radar deste Colosso de Rhodes do jornalismo no texto acima são  o Colina e a VAR-Palmares, justamente os grupos a que pertenceu Dilma Rousseff, que havia sido presa 20 dias antes da publicação da reportagem — 16 de janeiro.Em 1970, com Dilma na cadeia, Mino vestia uniforme e batia continência para “tranquilizar a nação”. Quarenta e dois anos depois, com Dilma na cadeira presidencial, Mino põe no peito a estrela do PT e…, bem, continua a bater continência para o poder. Que talento inigualável para servir!

Grave
Não deve lhes escapar um detalhe: Mino elogia a decisão da Oban, conhecida por torturar prisioneiros, de esperar algum tempo para anunciar as detenções. Será que ele não se perguntava por quê? Enquanto as prisões eram mantidas na surdina, o que será que ofereciam aos detidos? Sorvete Chicabon? Vocês merecem ler mais algumas coisas, tudo absolutamente disponível no arquivo digital de VEJA. Era o tempo em que Mino mandava!

Mino ironiza os presos
Leiam estes dois fragmentos na sequência. Na legenda da segunda imagem, explico as circunstâncias.

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Como vocês leram, trata-se do relato de prisão por engano de um tenor. Teve de cantar para provar que falava a verdade. Mino achou a situação espirituosa e a usou como metáfora: afirmou que os presos pela Oban tiveram de “cantar música completamente diferente”. Como ele se acha dono de um humor sutilíssimo, deve ter achado um chiste engraçado. Está na edição de 17 de abril de 1969


Mino faz o elogio da Junta Militar

 

Sempre sem consultar ninguém, na mesma edição de abril de 1969, o hoje principal representante do “progressismo” elogia a Junta Militar e suas graves responsabilidades, inclusive a adoção da pena de morte.Sempre sem consultar ninguém, na mesma edição de abril de 1969, o hoje principal representante do “progressismo” elogia a Junta Militar e suas graves responsabilidades, inclusive a adoção da pena de morte.

Mino faz a apologia da democradura

Leiam os três textos em sequência. Na legenda do terceiro, explico as circunstâncias. Volto em seguida para encerrar.

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Notem que todo o encadeamento dado pelo maior gigante do jornalismo de todos os tempos flerta abertamente com a ideia de que a democracia, nos moldes tradicionais, não é muito adequada à realidade brasileira. Até porque o país tinha outra urgência: combater a subversão. Mino nunca foi partidário da ditamole. Ele gostava mesmo era de uma democradura.

 Voltei

A alguns desses trechos, o jornalista Fábio Pannunzio já deu destaque em seu blogue. A ditadura de Mino Carta em VEJA, felizmente, chegou ao fim nos primórdios de 1976, quando a revista, apesar da censura ainda vigente, inicia seu esforço para exercer a sua vocação original, penosamente distorcida pelo cesarismo cartiano. Refiro-me à defesa dos valores que a transformaram na maior revista do país e numa das maiores do mundo: a defesa da democracia e do estado democrático e de direito.

Algumas pantomimas só prosperam hoje em dia porque o passado de certos gigantes morais fica debaixo do tapete. O arquivo digital de VEJA já está há tempos no ar. O Estadão acaba de lançar o seu. É chegada a hora de revermos o passado de certos “progressistas” que andam por aí. Vocês nem imaginam quantas são as supostas “referências morais do jornalismo” que serviram de escribas entusiasmados do golpe militar de 1964. Alguns deles, ora, ora, pediriam mais tarde indenização ao estado porque supostamente “perseguidos”. E hoje, curiosamente, tentam esconder esse passado defendedo a revisão da Lei da Anistia. Eu, por exemplo, sou diferente: levei borrachada, fui fichado e sou contra a revisão. Mundo engraçado, né?

E para que não reste a menor dúvida: a censura impedia, sim, a publicação de muita coisa, mas não obrigava a publicar elogios. Os feitos por Mino Carta eram coisa de coração, de vocação, de gosto, de adesão a uma causa. E, como ele sempre fez questão de deixar claro, nunca deixou ninguém “dar palpite”. Foi obra de autor, como não cansa de se autoelogiar.

Comentários

  • jony

    26/09/2012 #1 Author

    Não me interessa nenhuma defesa desse tipo de gente, o carcamano Mino, porque o que ele representa hoje em dia, com sua revistinha vendida e vagabunda, todos ja sabemos.
    Eu quero que haja sempre esse tipo de gente, fazendo contraponto a imprensa decente, porque eles servem de parametro, assim como algum governo do pt…pensa-se: o que o pt faz, faça o contrario que voce estará incorrendo no erro de ser honesto.
    Enfim, esse tipo de gente/imprensa de quinta categoria, é sempre bom ter por perto, porque como ja disse, serve pra contrapor as ideias modernas e viaveis.

    Responder

  • LUIZ DE MORAES REGO FILHO

    17/08/2012 #2 Author

    LAMARCA: A TRAJETÓRIA DE UM DESERTOR por F. Dumont

    1.O FIM E O COMEÇO.
    No meio da tarde de uma sexta-feira, sob o ardente calor de 40 graus da caatinga do sertão baiano, uma equipe de agentes, aproximando-se passo a passo, vislumbrou os dois homens que descansavam à sombra de uma baraúna, no lugarejo de Pintada, município de Oliveira dos Brejinhos.
    À voz de prisão, tentaram sacar suas armas. Duas rajadas curtas mataram os dois homens.
    Um deles era José Campos Barreto, o Zequinha, morador da região.
    O outro, também conhecido por “Renato”, “Célio”, “Sylas”, “João”, “César”, “Paulista”, “Cláudio”,
    “Cid” e “Cirilo”, era Carlos Lamarca, ex-Capitão do Exército, ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e da Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR-P), naqueles tempos já militante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) e escondido no interior da Bahia.
    Foi o fim trágico de um desertor.
    Filho de pais pobres, Lamarca nasceu em 27 de outubro de 1937 e viveu, até os 17 anos, no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, com seus irmãos e uma irmã de criação, Maria Pavan, que viria a ser sua esposa.
    Em meados da década de 50, como muitos, entusiasmou-se com a campanha do “O Petróleo é Nosso”, politizando-se com as idéias nacionalistas que o influenciaram a procurar a carreira militar.
    Depois de reprovado por duas vezes nos exames, ingressou, em 1955, como aluno na Escola Preparatória de Cadetes de Porto Alegre. Três anos depois, estava matriculado na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).

    Já como cadete, Lamarca — clandestinamente e fora dos limites da AMAN — participou de grupos de estudo do marxismo-leninismo, tornando-se um simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
    Declarado, em dezembro de 1960, aspirante-a-oficial da Arma de Infantaria, foi designado para servir no quartel do 4º Regimento de Infantaria (4ºRI), em Quitaúna/SP.
    Como tenente, iniciou estudos sobre guerrilha e, em junho de 1962, vislumbrando a possibilidade de integrar a Força Brasileira, em Suez, conseguiu ser transferido para o 2º Regimento de Infantaria, na Vila Militar/RJ, e participou, durante 13 meses, da Força de Emergência da ONU, no Oriente Médio.
    Retornando ao Brasil, foi designado, em outubro de 1963, para a então 6ª Companhia de Polícia do Exército (6ª Cia PE), em Porto Alegre/RS.
    A Revolução de 31 de março de 1964 veio encontrar o Tenente Lamarca na 6ª Cia PE, admirando a tentativa de resistência de Brizola e condenando a atitude de Jango, por ele tachada como uma “fuga covarde”.
    Nesse ano, já transitando com desenvoltura pelas esquerdas, chegou a pedir o seu ingresso no PCB, somente desistindo quando alguns companheiros afirmaram que esse partido, “reformista e traidor, o entregaria à polícia”.
    Na noite de um sábado de dezembro de 1964, quando escalado de oficial-de-dia, Lamarca, deliberadamente, facilitou a fuga do Capitão da Aeronáutica Alfredo Ribeiro Daudt, que estava preso por subversão.
    O inquérito, aberto para apurar o seu primeiro ato de traição ao Exército Brasileiro, não chegou a conclusões definitivas.
    Entretanto, essa fuga inexplicável tornou o ambiente demasiadamente tenso para ele, na PE. Novamente movimentado, apresentou-se, em dezembro de 1965, no seu antigo quartel do 4º RI, em Quitaúna.
    Nesse quartel paulista, reencontrou-se com seu amigo, o Sargento Darcy Rodrigues, com quem, novamente, passou a ter longas conversas sobre a situação brasileira e a realizar um estudo sistemático sobre o marxismo-leninismo.
    Em 1968, várias organizações clandestinas, de linha foquista e militarista, sob o pretexto de livrar o Brasil da ditadura militar, ensangüentavam-no, desencadeando as açõs armadas e terroristas preconizadas por Cuba. Uma delas era a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), criada, em março desse ano, pela fusão do grupo foquista dissidente da Política Operária (POLOP) com os remanescentes do núcleo de São Paulo do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Brizola. Paradoxalmente, uniram-se os “políticos” teóricos com os “militares” práticos.
    Depois de estabelecer conversações com a Ação Libertadora Nacional (ALN) e com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Lamarca decidiu ingressar na VPR, seduzido pela facilidade com que poderia galgar os postos de comando, fazendo valer sua natural ascendência hierárquica sobre os inúmeros sargentos que integravam a organização.
    Assim, em junho de 1968, ingressou na base militar da VPR, levado pelos irmãos de um de seus dirigentes, o ex-sargento Onofre Pinto. De imediato, criou uma célula clandestina da VPR no seu quartel, o 4º RI, composta pelo Sargento Darcy Rodrigues, pelo Cabo José Mariano Ferreira e pelo Soldado Carlos Roberto Zanirato.
    Muito “convenientemente”, Lamarca era, na época, o instrutor de tiro da Unidade.
    Com essa facilidade, cometeu a segunda traição ao Exército, conseguindo desviar 2 mil tiros para municiar os 9 FAL que haviam sido roubados pela VPR, em 22 de junho de 1968, no assalto ao Hospital Geral de São Paulo, no Cambuci.
    Em dezembro desse ano, explodiu a crise latente na VPR, provocada pela contradição entre a prática e a teoria, entre os “militaristas”, oriundos do MNR, e os “políticos” ou “leninistas”, oriundos da POLOP. Numa conturbada reunião realizada no litoral paulista, que ficou conhecida como a “praianada”, os “militaristas”, agora fortalecidos pela adesão do Capitão Lamarca, assumiram a direção da VPR.
    Nesse ínterim, Lamarca vinha ministrando instrução de tiro a funcionárias do Banco Bradesco, ironicamente, para que elas pudessem enfrentar os assaltos a bancos.
    Na sua cabeça, entretanto, fervilhavam as idéias sobre futuras ações armadas, dentre as quais o assalto ao seu próprio quartel, ato que marcaria, publicamente, o seu ingresso na luta armada terrorista e a sua terceira traição ao Exército.
    Apesar do comando militar da área já ter tido conhecimento, desde outubro de 1968, da existência de uma célula comunista no 4º RI e, inclusive, da participação do Capitão Lamarca, as medidas então tomadas — fruto do despreparo em combater ações desse tipo — revelaram-se inócuas e não impediram o assalto.
    Foi intenso e meticuloso o planejamento da ação, prevista para ser realizada nos dias 25 e 26 de janeiro de 1969, um final de semana, inclusive com a especificação detalhada de quem deveria matar quem. Entretanto, a prisão de quatro militantes da VPR, na quinta-feira, e a descoberta, em Itapecerica da Serra, do caminhão que estava sendo pintado com as cores do Exército, a fim de facilitar o roubo do armamento, determinaram a antecipação do assalto.
    Assim, no final da tarde de sexta-feira, 24 de janeiro de 1969, Lamarca entrou no 4º RI com sua própria Kombi e, no paiol, carregou-a com 63 FAL, 3 metralhadoras INA, uma pistola .45 e farta munição.
    Dali, dirigiu-se para a casa de Onofre Pinto, a fim de despedir-se de sua esposa, Maria Pavan, e do casal de filhos que, naquela mesma noite, embarcariam para Cuba, via Roma, junto com a família de Darcy Rodrigues.
    Com 31 anos, Carlos Lamarca desertava do Exército e ingressava na clandestinidade, com seu nome já aureolado pelo ato audacioso. Com a família em segurança, pôde livremente desfrutar da companhia de sua amante Iara Iavelberg, psicóloga casada com um médico, também militante da VPR, e que, desde sua antiga militância na POLOP, colecionava os codinomes de “Leila’, “Norma”, “Rita”, “Leda”, “Cláudia”, “Célia”, “Márcia” e “Mara”.
    Alimentado pelo desejo de logo iniciar as ações violentas, foi planejá-las nos locais secretos da organização, os “aparelhos”. Em pouco tempo, cometeria o seu primeiro assassinato.

    2. O 1º ASSASSINATO

    Depois de um Congresso realizado em abril de 1969, numa casa em Mongaguá, cidade do litoral paulista, entre Praia Grande e Itanhaém, no qual Lamarca foi eleito um dos cinco membros do Comando Nacional (CN), a VPR reiniciou as ações armadas.
    Na tarde de 09 de maio, Lamarca comandou o assalto simultâneo aos bancos Federal Itaú Sul-Americano e Mercantil de São Paulo, na Rua Piratininga, bairro da Moóca, cujo gerente, Norberto Draconetti, foi esfaqueado e o guarda-civil, Orlando Pinto Saraiva, morto com dois tiros, um na nuca e outro na testa, disparados por Lamarca, que se encontrava escondido atrás de uma banca de jornais. No final da ação, disparou uma rajada de metralhadora para o ar, como a marcar, ruidosa e pomposamente, o seu primeiro assalto a banco e o seu primeiro assassinato.
    Os primeiros meses de 1969, entretanto, foram marcados pelas prisões de dezenas de militantes da VPR e do Comando de Libertação Nacional (COLINA), organização criada em junho do ano anterior por dissidentes da Política Operária (POLOP) em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Debilitadas, ambas buscaram, na fusão, um modo de rearticularem-se, formando uma única organização, mais poderosa e de âmbito quase nacional. Dessa forma, no início de julho de 1969, surgiu a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-P), com Lamarca integrando, com mais cinco membros, o seu Comando Nacional (CN).
    Nessa época, Lamarca já era um dos comunistas mais procurados. O roubo das armas, a deserção e o primeiro assassinato levaram os órgãos de segurança a efetuarem esforços especiais para a sua captura. O Exército, particularmente, sentindo-se traído, colocara como ponto de honra o fim dos seus atos terroristas. No entanto, ele não era mais um subversivo desconhecido, que necessitava ser identificado. Sua fama e sua origem o qualificavam como extremamente perigoso e sua fotografia atualizada era guardada no bolso de muitos agentes. Sua aparência física e, principalmente, seu rosto cadavérico, tornavam-no um alvo fácil de ser reconhecido. Lamarca sabia disso e resolveu mudar.
    Em julho de 1969, dois médicos militantes da Base Médica da VPR, Almir Dutton Ferreira (“Augusto”, “Cesar”, “Ivo”, “João”) e Germana Figueiredo (“Júlia”), incumbiram-se da tarefa.
    Almir convocou seu amigo de infância, o dentista Rogério Iório, que, em quatro consultas em seu consultório na Avenida Nelson Cardoso, em Jacarepaguá, trocou todos os dentes superiores de Lamarca.
    Quinze dias depois, já em agosto, Almir procurou um outro amigo, o médico Milton Nahon, que conseguiu os serviços do também militante comunista Afrânio Marciliano Freitas Azevedo, cirurgião mineiro do Hospital Gaffrée Guinle, que, com o auxílio do médico cearense Amauri Luzardo Santiago de Almeida e do anestesista Luiz Alves, realizou a operação plástica na Clínica São João de Deus, na Rua Almirante Alexandrino, em Santa Tereza.
    Lamarca foi internado com o nome de “Paulo Cesar de Castro” e chegou na clínica estranhamente vestido de mulher, com trejeitos para se passar por cabelereiro e homossexual. Durante as 24 horas da cirurgia, dois militantes da VPR, Sonia Eliane Lafoz e Wellington Moreira Diniz – este escondido no armário, permaneceram no seu quarto, como seguranças armados.
    Logo depois, já com o nariz reduzido e sem os marcantes sulcos da testa e da face, Lamarca tirou fotografias para a nova identidade e viajou para São Paulo, numa caravana composta por seguranças e pelo médico da VPR Luiz Roberto Tenório, que a capitaneava num Gordini.
    Entretanto, se a cirurgia deu certo e tínhamos um novo Lamarca, o mesmo não ocorria com a fusão que dera origem à VAR-PALMARES. Se, por um lado, os “marxistas” oriundos do COLINA, melhor preparados politicamente, criticavam os “militaristas” da VPR pelo “imediatismo revolucionário”, por outro, os oriundos da VPR sentiam-se moralmente fortalecidos pelo que levavam para a nova organização: 55 milhões de cruzeiros e um grande arsenal de armas, munições e explosivos.
    Nem a “Grande Ação” — assalto ao cofre de Anna Benchimol Capriglione, amante de Adhemar de Barros, ex-Governador de São Paulo, e que proporcionou à VAR-P cerca de 2 milhões e 800 mil dólares — conseguiu acalmar os conflitos entre os dirigentes.
    Entre agosto e setembro de 1969, uma casa em Teresópolis abrigou 33 militantes que, depois de 20 dias, transformaram aquilo que seria o I Congresso Nacional da VAR-P num festival de bebedeiras, drogas e sexo, recheado por acirradas discussões político-ideológicas que, por pouco, não degringolaram em agressões físicas e tiros.
    Ao final, concretizou-se um “racha” na VAR-P, surgindo o “Grupo dos 7” — dentre os quais, Lamarca — que foi reestruturar a VPR.
    No início de outubro, no bar do Hotel das Paineiras, na Floresta da Tijuca, representou a VPR num encontro com dirigentes da VAR-P para a partilha dos bens das duas organizações.
    Apesar de ser membro do CN, ele delegou aos demais a burocrática tarefa de organizar o Congresso da nova VPR, realizada na Barra da Tijuca, e foi orientar seus militantes que se exercitavam no tiro e em marchas tipo guerrilha, num sítio em Jacupiranga, próximo ao Km 234 da BR-116. Observou, no entanto, que esse local, demasiado próximo de uma rodovia e de regiões urbanas, não oferecia boas condições de segurança.
    Assim, já como Comandante-em-Chefe da VPR, Lamarca determinou a desmobilização dessa área e a ativação de uma outra, em Registro, no Vale do Ribeira/SP.

    3. A ÁREA DE REGISTRO

    No feriado da Proclamação da República, Lamarca e Iara Iavelberg foram apanhados de carro por Joaquim dos Santos, num “ponto” junto ao Forte de Copacabana, na então Guanabara, e levados para São Paulo. No dia seguinte, chegavam na nova área de treinamento, localizada no Sítio Palmital, com 40 alqueires de terra, na região de Barra do Azeite, na altura do Km 254 da BR-116, antiga BR-2, rodovia que liga São Paulo a Curitiba, 30 Km ao Sul do município de Jacupiranga.
    O ex-Capitão – agora utilizando o codinome de “Cid” – e mais quatro militantes permaneceram no sítio, realizando exercícios de tiro, marchas e reconhecimento das áreas adjacentes. Observaram que a área também não era a ideal: além de ser pequena, a excessiva proximidade da rodovia e a constante presença de caçadores aumentavam a sua vulnerabilidade, inviabilizando-a como área de treinamento apta a receber mais “guerrilheiros”.
    No início de dezembro, a VPR adquiriu um outro sítio, de 80 alqueires, situado um pouco mais ao Norte, distante 4 quilômetros da BR-116. A primeira área foi desmobilizada e seu material transferido para a nova, denominada de Área 2, considerada pronta antes do Natal.
    A partir de janeiro de 1970, os militantes foram chegando para o treinamento e, em março, a Área 2 contava com um total de 18 “guerrilheiros”, dentre os quais Lamarca e duas mulheres, uma delas, sua companheira Iara.
    Mas as coisas começaram a se complicar.
    Em 27 de fevereiro, foi preso Chizuo Ozawa, o “Mário Japa”, que sabia a localização da área. Se falasse, tudo estaria perdido. Preocupado em libertá-lo, Lamarca exigiu, em caráter de urgência, o seqüestro de um diplomata.
    Em 11 de março de 1970, foi seqüestrado o Cônsul do Japão, Nobuo Okuchi, posteriormente trocado por cinco presos, dentre os quais “Mário Japa”. A localização da Área 2 permanecia secreta.
    Mas as dezenas de prisões de dirigentes e militantes da VPR, ocorridas no início de abril, viriam, novamente, comprometer a segurança da área de treinamento. Os depoimentos dos presos confirmaram que Lamarca havia feito, no ano anterior, uma operação plástica e Maria do Carmo Brito, membro do CN, presa no Rio de Janeiro, apontara a localização da área.
    Em meados de abril de 1970, sentindo-se seguro, Lamarca convocou uma reunião ampliada do CN/VPR, numa casa da Rua Estância, em Peruíbe, cidade do litoral sul paulista. Aventurou-se a deixar a área de treinamento – relativamente próxima ao local – e encontrou-se com Ladislas Dowbor, membro do CN e Cmt da Unidade de Combate (UC) de São Paulo, e com Maria do Carmo Brito, membro do CN, além dos dois Cmt/UC da Guanabara, Juarez Guimarães de Brito e José Ronaldo Tavares de Lira e Silva. O Cmt da UC/RS, Felix Silveira Rosa Neto, também previsto para comparecer à reunião, não foi encontrado por Joaquim dos Santos, que o fora buscar de carro em Porto Alegre (ninguém sabia que Félix já havia sido preso em 12 de abril). Ainda na casa, estavam presentes Iara Iavelberg, Maria Barreto Leite Valdez, que iria cumprir missão no Sul, e Tercina Dias de Oliveira, a “Tia”, retirada da área de treinamento no início de março. As informações ainda obscuras sobre as quedas dos militantes da VPR não permitiram que essa reunião do CN decidisse ações de importância.
    Entretanto, na noite de 18 de abril de 1970, já alertado sobre as prisões, Lamarca decidiu desmobilizar a área e evacuar os militantes em três grupos. Dois dias depois, quando chegaram as primeiras tropas da “Operação Registro”, 8 militantes já haviam fugido.

    4. O ASSASSINATO DO TENENTE MENDES

    Na noite do Dia das Mães, 08 de maio, depois de mais de duas semanas ainda cercados na área, Lamarca e mais 6 militantes emboscaram cerca de 20 homens da Polícia Militar de São Paulo, chefiados pelo Tenente Alberto Mendes Júnior – o “Berto”, como era chamado por sua família, que decidiu se entregar como refém, desde que seus subordinados, feridos, pudessem receber auxílio médico.
    Na noite seguinte, os 7 guerrilheiros ficaram reduzidos a 5, pois 2 haviam se extraviado na refrega da noite anterior.
    Conduzindo o Ten Mendes como refém, prosseguiram na rota de fuga.
    Depois de andarem um dia e meio, os 5 guerrilheiros pararam para um descanso, no início da tarde de 10 de maio de 1970.
    Lamarca disse que o Ten Mendes os havia traído, causando a morte de dois companheiros (não sabia que eles estavam, apenas, desgarrados) e, por isso, teria que ser executado.
    Nesse momento, enquanto Ariston Oliveira Lucena e Gilberto Faria Lima vigiavam o prisioneiro, Carlos Lamarca, Yoshitane Fujimore e Diógenes Sobrosa de Souza afastaram-se e, articulando-se em um “tribunal revolucionário”, condenaram o Ten Mendes à morte.
    Poucos minutos depois, Yoshitane Fujimore, acercando-se por trás do Tenente, desferiu-lhe, com a coronha do fuzil, violentos golpes na cabeça. Caído e com a base do crânio partida, o Ten Mendes gemia e contorcia-se em dores. Diógenes Sobrosa de Souza desferiu-lhe outros golpes na cabeça, esfacelando-a.
    Lamarca, perante os 4 terroristas, responsabilizou-se pelo assassinato.
    Ali mesmo, numa pequena vala e com seus coturnos ao lado da cabeça ensangüentada, o Ten Mendes foi enterrado.
    Alguns meses mais tarde, em 08 de setembro de 1970, Ariston Oliveira Lucena, que havia sido preso, apontou o local onde o Tenente Mendes estava enterrado. As fotografias tiradas de seu crânio atestam o horrendo crime cometido. Sua mãe entrou em estado de choque e ficou paralítica por quase três anos.
    Ainda nesse mês de setembro, descoberto o crime, a VPR emitiu um comunicado “Ao Povo Brasileiro”, onde tenta justificar o frio assassinato, no qual aparece o seguinte trecho:
    “A sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O Tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado.”
    Os dirigentes da VPR não só eram os donos da verdade, como arvoravam-se em senhores da vida e da morte!
    Na tarde de 31 de maio de 1970, Lamarca e os 4 militantes seqüestram uma viatura do 2º Regimento de Obuses 105 e conseguem romper o cerco, largando o veículo já na cidade de São Paulo, na marginal do rio Tietê, perto do bairro da Vila Maria, com os militares amarrados à carroceria, sem roupas.
    O segundo assassinato cometido por Lamarca e a fuga bem sucedida, ludibriando e humilhando os militares, serviu para aumentar a lenda e o mito.

    5. O SEQÜESTRO DO EMBAIXADOR DA SUÍÇA

    Lamarca encontrou a VPR em situação caótica, em face das numerosas “quedas” de abril e de maio de 1970. Em 03 de junho, cobriu um ponto com Ariston Oliveira Lucena na Avenida Ipiranga e reassumiu a sua função de Comandante-em-Chefe, rearticulando o Comando Nacional (CN) com Inês Etienne Romeu e com o homossexual ainda não assumido Herbert Eustáquio de Carvalho, o “Daniel”, que com ele estivera na área de Registro. Ao mesmo tempo, foi morar com Iara num “aparelho” do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).
    Em meados de junho, Lamarca, em reunião com Joaquim Câmara Ferreira (“Toledo”), da ALN, e Devanir José de Carvalho (“Henrique”), do MRT, estabeleceu a lista dos 40 prisioneiros que seriam trocados pelo Embaixador alemão, seqüestrado em 11 de junho de 1970.
    Reestruturada e com o moral fortalecido pelo sucesso alcançado no seqüestro, a VPR ingressou no 2º semestre de 1970 disposta a incrementar as ações violentas.
    Contudo, o seu Comandante-em-Chefe continuava enclausurado em “aparelhos” de outra organização, o diminuto mas violento MRT, por falta de uma conveniente infra-estrutura em São Paulo, até que, no início de outubro, os três membros do CN foram transferidos para o Rio de Janeiro, sendo que o casal Lamarca e Iara foi descansar, durante dois meses, numa casa alugada pelo militante Walter Ribeiro Novaes – nomeado “infra” do Comando – em Rio D’Ouro, pequeno lugarejo situado entre Piabetá e Santo Aleixo, na entrada de Imbariê, estrada Rio-Teresópolis.
    Com tranqüilidade, Lamarca pôde, nesses dias, escrever vários documentos teóricos de orientação à VPR e, à revelia da “frente” composta com a ALN, o PCBR, o MR-8 e o MRT, decidiu executar o seqüestro do Embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.
    A ação desencadeou-se na manhã de 07 de dezembro de 1970, na Rua Conde de Baependi, uma rua estreita, de mão única, que liga o bairro de Laranjeiras ao Flamengo.
    Depois de bloqueado o Buick azul do Embaixador, Lamarca, de cavanhaque, terno e gravata, bateu no vidro da janela onde estava o segurança, o Agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo. Abriu a porta e disparou dois tiros com um revólver “Smith & Wesson” calibre .38, cano longo, a uma distância de um metro: o 1º tiro atingiu o teto do carro e o 2º, as costas do Agente que, por instinto, se virara. Com a medula totalmente seccionada pelo projetil, o Agente viria a falecer três dias depois, no Hospital Miguel Couto.
    Consumado o seqüestro e o seu 3º assassinato, Lamarca levou o Embaixador para uma casa da Rua Tacaratu, uma ladeira que começava em Rocha Miranda e terminava em Honório Gurgel.
    Nessa casa, durante os 40 dias de cativeiro, junto com quatro outros militantes, Herbert Eustáquio de Carvalho, Gerson Theodoro de Oliveira, Tereza Ângelo e Alfredo Hélio Sirkis, Lamarca viu, por diversas vezes, ameaçada a sua autoridade, na polêmica sobre se matavam ou não o suíço.
    Num rompante de democracia, Lamarca determinou que os militantes da VPR enviassem, por escrito, as respectivas posições.
    No documento de Adair Gonçalves Reis, datado de 24 de dezembro, aparece:
    “Propomos a marcação imediata da data e horário para o justiçamento, com comunicado à ditadura. Prazo mínimo de 48 horas e máximo de 72 horas, tomando as 18 horas da tarde como horário básico.”
    Dois dias depois, Zenaide Machado afirma:
    “A saída é pagar o preço alto e carregar um defunto que irá muito nos incomodar.”
    Ubajara Silveira Roriz (“Otávio”, “Nando”, “Paulo”, “Salomão”), militante que já defendera a idéia de sabotar as indústrias siderúrgicas soltando milhares de ratos nas cidades próximas, propugnava:
    “… fazer a ditadura levar o cadáver do embaixador atravessado na garganta, nas suas andanças pelo mundo.”
    Nas respostas, somente Alfredo Hélio Sirkis e José Roberto Gonçalves de Rezende não viram dividendos políticos na morte do Embaixador. Dentre os 5 militantes confinados no “aparelho” da Tacaratu, inicialmente, Sirkis ficou isolado, numa posição absolutamente minoritária.
    Com as respostas e o passar dos dias, Lamarca mudou a sua posição. Mesmo assim, eram cerca de 15 votos contra 3, esmagadora maioria a favor da execução. Lamarca, como comandante-em-chefe da VPR, exerceu o seu poder de veto e a sustou.
    Sem o saber, Bucher nunca estivera tão perto da morte como naqueles dias de Natal.
    À meia-noite de 13 de janeiro de 1971, 70 presos, escoltados por 3 agentes da Polícia Federal, decolavam do Galeão num Boeing da Varig, com destino a Santiago do Chile.
    No dia 15, um dia antes do Embaixador ser libertado, Lamarca abandonou o “aparelho” e foi matar as saudades de Iara, que viera de São Paulo.

    6. A SAÍDA DA VPR E O INGRESSO NO MR-8

    Se o seqüestro do Embaixador suíço proporcionou, por um lado, a libertação de 70 militantes, por outro, demonstrou ser uma “vitória de Pirro”, abalando a liderança de Lamarca e iniciando o que viria a ser a desestruturação da VPR.
    Em 10 de janeiro de 1971, ainda no “aparelho” da Tacaratu, Lamarca redigiu o documento “Os Mesmos Problemas da Propaganda Armada”, no qual, num desabafo, revela as incertezas que lhe corroíam o espírito:
    “Estamos nos esvaziando, não conseguimos recuperar o terreno perdido, os companheiros no exterior estão sendo transformados em tábuas de salvação enquanto aqui não conseguimos criar condições para recebê-los, não admitimos fazer trabalho político e ficamos impossibilitados de penetrar no campo, aprofundamos o nosso isolamento político, afundando cada vez mais na marginalidade, ignoramos a história, preocupamo-nos mais com o que o MR-8 vai dizer do que significam as nossas ações, transformamos as nossas discussões em afirmação pessoal (encenações de marxismo), deturpamos tudo para demonstrar que a nossa linha é a correta quando estamos num impasse histórico, esquecemos as discussões, a maioria silencia aguardando não sabemos o que, desgastamo-nos no cri-cri-cra-cra da política burguesa, não criamos nada. A discussão é decisiva.”
    Dez dias depois de escrever uma “Carta Aberta a Toda a ORG”, Zenaide Machado escreveu em 25 de janeiro, em parceria com Adair Gonçalves Reis, um documento no qual analisa os fenômenos existentes na esquerda, dentre os quais o voluntarismo, o espontaneísmo, o individualismo, o personalismo e a autoafirmação, concluindo:
    “Toda a esquerda sofre na carne a presença destes fenômenos que têm atravancado o seu desenvolvimento. Se não vencermos o desafio que esta realidade nos impõe, se não tivermos a combatividade necessária para fazermos uma profunda autocrítica e revolução interna não passaremos do que somos hoje: um tumor dentro da realidade política brasileira.”
    O ponto alto das discussões, entretanto, pelo caricato que se revestiu, foi a polêmica entre Lamarca e o estranho militante de codinome “Otávio”, Ubajara Silveira Roriz, o mesmo dos “ratos” e do cadáver “atravessado na garganta”. Depois de escrever, em 27 de outubro de 1970, um documento sobre a moral revolucionária, Ubajara, em 19 de dezembro, redigiu o “Libelo contra os Apóstolos do Laissez-Faire ou Abaixo o Positivismo Anti-Revolucionário”, usando termos nunca sonhados no hermético discurso marxista-leninista, tais como “pitecantropus erectus”, “primatas”, “português do bar da esquina”, etc.
    Foi, no entanto, a crítica aos que estavam no Comando que provocou a irritação em seus companheiros, agravada por dois novos documentos datados de 02 e 05 de janeiro, respectivamente, uma “Carta Aberta ao Comando Nacional” e um “Balanço da Situação”, nos quais reputa o seqüestro do embaixador suíço como uma derrota política e disserta sobre a “volúpia do poder” e a “completa ausência de companheirismo revolucionário” que havia, no seu entender, na VPR.
    Até aquele momento, o ex-Capitão não havia recebido nenhum desses documentos, pois os comandantes das Unidades de Combate (UC) e das bases estavam considerando que era melhor preservar o comandante-em-chefe da leitura das diatribes de Ubajara. O último documento, entretanto, foi recebido por Lamarca em 14 de janeiro e, dois dias depois, enviava uma “Resposta Sintética ao Companheiro Otávio”, afirmando que seu balanço havia sido superficial e incompleto, caindo num “desvio ideológico”. Ao final, uma advertência: “Nós devemos é ser mais sérios em nossas análises.”
    Em 23 de janeiro, Ubajara responde com o documento que mexeu com toda a organização, o “Quem é Carlos Lamarca ?”, no qual levanta dúvidas sobre a lealdade revolucionária do “ex-capitão do Exército” e afirma estranhar o mito que se havia criado em torno do seu nome.
    Quase uma dezena de documentos sobre a polêmica Lamarca x “Otávio” circularam entre os militantes da VPR nesses dois primeiros meses de 1971, demonstrando a fragilidade do Comando, tendo em vista, particularmente, que tudo acabou em nada.
    O mês de março de 1971 ficou marcado pelas ásperas discussões travadas entre Lamarca e Inês Etienne Romeu, que redundaram no desligamento desses dois membros do triunvirato que compunha o Comando Nacional da VPR.
    Em 22 de março de 1971, Lamarca, através do documento “Ao Comando da VPR”, apresentou o seu “pedido de desligamento em caráter irrevogável”, fundamentado por:
    “1) divergir da linha política da VPR, conforme coloquei em diversos documentos internos;
    2) ter constatado os desvios ideológicos da VPR e a deformação que acarreta em muitos dos seus quadros;
    3) não ter conseguido levar a luta interna que iniciei há um ano com a devida serenidade;
    4) não conseguir romper com o culto ao sectarismo existente na VPR;
    5) discordar do método de direção (apesar de ser Cmt-em-Chefe); a Org impede a liberação de potencial, não forma quadros, aliena militantes, deforma dirigentes, elimina a criatividade, impede a prática leninista — tudo como já coloquei em documentos internos.”
    Em 27 de março, logo depois de escrever o documento “Congresso: Salvação Política e Não de Honra”, Lamarca, conduzido por Alex Polari de Alverga num Volks bege, foi passado para o MR-8 num “ponto” na Rua Vilela Tavares, no Méier, onde o aguardavam Carlos Alberto Vieira Muniz e Stuart Edgard Angel Jones, num Volks vermelho. Ao mesmo tempo, Iara era trazida a esse ponto por Alfredo Hélio Sirkis. Nesse final de março, Lamarca e Iara iniciavam a trajetória que os levaria à morte na Bahia.
    No dia 11 de abril, um recém-formado Comando Nacional Provisório (CNP) emitiu o documento “Sobre o Problema do Desligamento do Companheiro Cláudio”, no qual o tachava de “personalismo”, “oportunismo” e possuidor de um “idealismo ingênuo” e afirmava que essa atitude havia sido de “fuga à responsabilidade”, “a partir de um profundo emocionalismo”, denotando uma “fraqueza ideológica”. A propósito dos numerosos documentos escritos por Lamarca, o CNP não esqueceu-se de criticá-los, afirmando que eram “somente algumas frases feitas (e ainda por cima mal feitas)” e não passavam de “mero exercício de caligrafia”, referindo-se à sua escrita perfeita, redondinha, estranhamente feminina.
    Ao final, o CNP concluía que não aceitava o seu desligamento enquanto que não ficassem claras as divergências e que ele não poderia “assumir militância em outra organização até a decisão final da questão”.
    Mero exercício de retórica. Lamarca já estava no MR-8.

    07. A MORTE NO SERTÃO DA BAHIA

    À primeira vista, parecia que o MR-8 se fortalecia com a vinda do “Cid” ou “Cláudio”, aumentando o seu prestígio junto às esquerdas. Na realidade, a organização recebia, mais do que um militante, um verdadeiro “elefante branco” e a responsabilidade de mantê-lo na absoluta clandestinidade. Para Lamarca, o ingresso no MR-8 representou, nada menos, que o início do seu fim.
    Carlos Lamarca e Iara Iavelberg passaram os meses de abril, maio e junho de 1971 escondidos de “aparelho” em “aparelho”, dentre os quais o de Renato Perrault de Laforet (“Zé”), em Botafogo, e o de José Gomes Teixeira (“P1”).
    A prisão deste último, em 11 de junho, que veio a se somar a uma série de prisões de militantes e dirigentes do MR-8, precipitou a decisão de levar o casal para o sertão da Bahia, junto ao trabalho de campo na região do Médio São Francisco. Para o transporte, conseguiu-se um Volks e uma Kombi, cujos proprietários e também motoristas eram, respectivamente, Rui Berford Dias (“Aguiar”) e Waldir Fiock da Silva (“Dirceu”, “Pantera”, “Gota Serena”, “Roberto”).
    No início da noite de 25 de junho, os quatro encontraram-se, junto ao BOB’S da Avenida Brasil, com José Carlos de Souza, que viera especialmente para buscá-los. No Volks, seguiram Lamarca, Iara e José Carlos. Um pouco mais à frente, para verificar as barreiras policiais, a Kombi com Waldir e Rui.
    No dia seguinte, ao chegarem em Vitória da Conquista, Rui retornou com seu Volks e os outros quatro seguiram com a Kombi até Jequié. Depois de pernoitarem, o casal se separou: Iara e Waldir foram de ônibus para Salvador, enquanto Lamarca e José Carlos dirigiram-se para Itaberaba e Ibotirama. Ao chegarem na ponte da BR-242 sobre o Rio Paramirim, encontraram-se, no fim da tarde de 27, com José Campos Barreto, o “Zequinha”. Depois de dormirem numa pensão no início da estrada que demanda a Brotas de Macaúbas, chegaram nessa cidade na tarde de 28 e, no dia seguinte, Lamarca e Zequinha foram a Buriti Cristalino, enquanto José Carlos seguia com a Kombi para Salvador, a fim de encontrar-se com Iara e Waldir. Sem o saber, Lamarca, acobertando-se como o “geólogo Cirilo”, chegara em sua penúltima morada.
    Na tarde de 06 de agosto, encontraram-se, no centro de Salvador, César de Queiroz Benjamin (“Menininho”) e José Carlos de Souza. Como assunto principal, estabeleceram que Iara seguiria para Feira de Santana, onde havia melhores condições de segurança, e ele, José Carlos, incorporar-se-ia ao trabalho de campo, em Brotas. Há algum tempo na vigilância, policiais deram voz de prisão aos dois militantes. O “Menininho” atracou-se com os agentes, chegou a atirar e conseguiu fugir (pela 2ª vez) ao cerco, dirigindo-se para a então Guanabara. Menos feliz, José Carlos foi preso e começou a denunciar diversos companheiros.
    A partir de 17 de agosto, Iara Iavelberg, agora com os novos codinomes de “Gil”, “Liana” e “Leila”, passou a residir no apartamento 201, do Edifício Santa Terezinha, na Rua Minas Gerais, 125, na Pituba, com Jaileno Sampaio da Silva e sua companheira Nilda Carvalho Cunha, além da irmã desta, Lúcia Bernardeth Cunha.
    No dia 20 de agosto de 1971, através das declarações de José Carlos, a polícia cercou o Edifício Santa Terezinha e exigiu a rendição dos ocupantes do apartamento 201. Após terem sido presos Lúcia, Jaileno e Nilda, Iara Iavelberg foi encontrada no apartamento vizinho, o 202, onde se escondera no início do cerco. Não vendo possibilidades de fuga e assolada por bombas de gás lacrimogênio, a amante de Lamarca suicidou-se com um tiro no coração.
    No dia seguinte, um sábado, às 19:00 horas, logo depois de passar um telegrama do Rio de Janeiro para Iara (sem saber que ela já estava morta), o “Menininho”, num Volks com Ney Roitman, Alberto Jak Schprejer (“Souza”, “Beto”) e sua amante Teresa Cristina de Moura Peixoto (“Tetê”), é detido por uma “Operação Pára-Pedro”, na Avenida Vieira Souto, na altura do Jardim de Alá. Ao serem solicitados os documentos, o “Menininho” saiu rapidamente do carro, fugindo correndo entre os transeuntes. Pela 3ª vez, conseguia escapar de um cerco policial. No veículo, ficaram o diário de Lamarca e cartas para Iara, escritas de 29 de junho a 16 de agosto, que forneceram, aos órgãos de segurança, a certeza de onde deveriam procurar e concentrar esforços a fim de capturá-lo.
    Enquanto isso, as declarações de José Carlos de Souza ajudavam a colocar mais dirigentes do MR-8 na cadeia. Em 27 de agosto, foi a vez de Diogo Assunção de Santana e Milton Mendes Filho.
    No dia seguinte, a polícia chegou em Buriti Cristalino, dando voz de prisão aos ocupantes da casa dos irmãos Campos Barreto, que reagiram com intenso tiroteio. Ao final, Olderico foi preso, ferido no rosto e na mão direita, enquanto Otoniel foi morto, quando tentava a fuga. Dentro da casa, o cadáver de Luiz Antônio Santa Bárbara, que se matara com um tiro na cabeça. Era o 3º suicídio de militantes do MR-8 para não denunciarem Lamarca que, acampado a poucos quilômetros do lugarejo de Buriti Cristalino, ouvira os tiros e fugira, internando-se com Zequinha mata a dentro.
    Sem saber do acontecido e sentindo-se “queimado” no Rio de Janeiro, César de Queiroz Benjamin retornou a Salvador, sendo preso em 30 de agosto, num “ponto” delatado por Jaileno, no Rio Vermelho. Após longa série de assaltos e ter escapado de três choques com a polícia, o “terrível Menininho”, com apenas 17 anos, mostrou-se extremamente dócil nos interrogatórios. Suas extensas declarações, todas de próprio punho, desvendaram a linha política e as ações do MR-8. Muitos militantes foram, então, identificados. Chegou, inclusive, a fazer uma análise dos métodos de interrogatório aplicados, declarando-se surpreso com o bom tratamento recebido e com o nível de seus interlocutores.
    Com essa nova e importante fonte, os órgãos de segurança, que já haviam retirado boa parte de seus efetivos da região de Brotas de Macaúbas, retornaram ao local, iniciando-se nova caçada a Lamarca e a Zequinha.
    No meio da tarde de 17 de setembro de 1971, uma equipe de agentes, integrantes da Operação Pajussara, localizou os dois militantes, que descansavam à sombra de uma árvore, perto do arruado de Pintada, município de Oliveira dos Brejinhos. À voz de prisão, tentaram sacar de suas armas. Uma série de tiros pôs fim ao ex-Capitão comunista – que deixara um rastro de sangue atrás de si – e a José Campos Barreto.

    08. TRAIDOR DO EXÉRCITO BRASILEIRO

    Essa é a verdadeira história de Carlos Lamarca, a qual poucos conhecem, pois sempre foi contada por só um dos lados.
    Mais de 28 anos após sua morte, os tempos mudaram.
    Os militantes comunistas que ensangüentaram o País em nome de uma revolução — hoje, por eles mesmos vista como equivocada –, não mais matam, seqüestram ou roubam e nem mais descansam nas enxêrgas dos “aparelhos” ou da selva. Beneficiados pela anistia, seus crimes foram esquecidos. Seus atos ensandecidos foram transformados em heróicos e seus passados são avaliados pelas maiores ou menores “perseguições políticas” que, supostamente, teriam sofrido.
    Em contrapartida, aqueles que lutaram contra a luta armada, ao lado da Lei e a Ordem, são tachados de torturadores, de opressores e de reacionários. Listados nos livros vermelhos elaborados por esquerdistas, são marcados durante toda a vida, ao arrepio da Justiça, pelos intolerantes derrotados.
    Enquanto uns ganham homenagens, monumentos, nomes em logradouros públicos e filmes patrocinados pelo dinheiro público, outros são acusados, perseguidos, destituídos de suas funções e convocados a pseudas “comissões de inquérito”.
    Para os primeiros, os derrotados na luta armada, a anistia de 1979 não serviu para sepultar as idéias exacerbadas e conduzir a Nação para o caminho do entendimento mas, apenas, para conceder-lhes a liberdade de atacar seus antigos inimigos e de praticar o revanchismo.
    Para os segundos, a vitória na luta armada foi o estopim da derrota política e amargam um compulsivo silêncio, patrulhados pela mídia ideológica.
    Assim é com Carlos Lamarca.
    Há mais de 16 anos, em 25 de agosto de 1983, um desses ex-terroristas, Liszt Benjamim Vieira, então Deputado Estadual pelo PT do Rio de Janeiro, pronunciou um discurso na Assembléia Legislativa, no qual fez a seguinte assertiva sobre o ex-Capitão:
    “Senhor Presidente, Senhores Deputados, hoje, 25 de agosto, Dia do Soldado, queremos homenagear um herói brasileiro. (…) Cursou a Escola Militar, onde foi o primeiro aluno. Seguiu brilhante carreira militar.”
    Por ser “herói”, sua viúva, desde 1984, recebe pensão do Exército. Por ser “herói”, sua família também recebeu, por decisão da Comissão dos Desaparecidos, em 11 de Setembro de 1996, a quantia de R$ 100 mil de indenização.

    Na realidade, em torno de Lamarca construíram-se muitas lendas.
    À lenda de que foi primeiro aluno da AMAN, opõe-se a realidade de que saiu Aspirante-a-Oficial classificado em 46º lugar numa turma de 57 cadetes.

    À lenda de que era brilhante atirador, opõe-se a realidade de que nunca conseguiu, com revólver calibre .38, média maior do que 78 no tiro de precisão e, apenas, usava a sua condição de “atirador” para roubar munição e entregá-la para as organizações comunistas.

    À lenda de que era um exemplar marido e chefe de família, opõe-se a realidade de que foi obrigado a se casar, ainda como cadete, por ter engravidado sua própria irmã de criação, Maria Pavan, e que a enviou para Cuba com um casal de filhos — o menino viria a ser tenente do exército cubano — não por temer por sua segurança, mas para desfrutar do convívio com sua já amante, Iara Iavelberg.

    À lenda de que era um Oficial com brilhante carreira militar, opõe-se a realidade de que desertou do Exército Brasileiro. Ao divergir, não pediu sua saída conforme os princípios de ética e de moral que lhe foram ensinados na caserna. Usando a própria farda, roubou e traiu seu sagrado juramento de Oficial do Exército, demonstrando não possuir a lealdade que caracteriza o soldado.

    À lenda de que era um herói, “libertador da Pátria”, opõe-se a realidade de suas ações terroristas: assaltos a bancos, seqüestros de embaixadores, assassinatos, incentivador de guerrilhas urbana e rural, roubo de armamento e aliciador de outros militares para a causa comunista.

    Insuspeitas são as opiniões de Ariston Oliveira Lucena sobre Lamarca – que com ele participou do assassinato do Tenente Mendes em Registro, publicadas em entrevista no “Jornal do Brasil” de 22 de setembro de 1988: “… era teoricamente despreparado e politicamente sem experiência … tinha frieza e intuição … era autoritário e não gostava de ser contrariado …”

    Também insuspeitas são as declarações de José Araújo da Nóbrega, ex-sargento do Exército e militante da VPR, que, em maio de 1970, escreveu de próprio punho:
    “O Cap Lamarca não possui um QI satisfatório, à altura de ser um líder revolucionário.
    É um elemento de caráter volúvel, não tem posição definida, suas decisões são tomadas seguindo suas tendências emocionais.
    Suas qualidades militares são limitadas, tem limites de aproveitamento prático do conhecimento técnico que possui.

    É pouco engenhoso. O valor político que possui para ser um líder de esquerda lhe foi dado pela imprensa (interessada ou não).

    Na realidade, apesar da audácia, da lenda e do mito, Lamarca foi um desertor e um traidor do Exército Brasileiro.


    Antes de falar, escute. Antes de escrever, pense. Antes de gastar, ganhe. Antes de julgar, espere. Antes de rezar, perdoe. Antes de desistir, tente.!

    Responder

  • marcelo junqueira

    29/05/2012 #3 Author

    tava ate começando a gostar daqui, mas como meu primeiro e unico comentario – que nao continha nenhuma ofensa ou acusação infundada – foi “moderado”, já dá pra perceber que isso aqui é um proto-blog-de-pensamento-unico ao melhor estilo reinaldo azevedo.

    adeus.

    Responder

  • Marcia dos Santos Portero Simon

    28/05/2012 #4 Author

    Pergunta que não quer calar: por que nas cópias das matérias antigas atribuídas a Mino Carta não aparece seu nome? Os textos estão sem autoria. Por quê?

    Responder

    • Fábio Pannunzio

      28/05/2012 #5 Author

      Só ele assinava por toda a sua equipe. Assumia, desta forma, a responsabilidade editorial sobre todo o material. Os nomes dos jornalistas da equipe, na maior parte das vezes, aparecem apenas no expediente da revista.

    • Marcia dos Santos Portero Simon

      28/05/2012 #6 Author

      Então ele assumia a responsabilidade pela publicação mesmo os textos não sendo es
      critos por ele? Sim, porque os textos são muito lineares, fugindo totalmente do estilo mordaz, às vêzes até rebuscado do
      Mino. Rigorosamente não tem nada mesmo a ver. Sinto, mas estes textos, da
      forma como são apresentados, não comprovam nenhuma das acusações aqui
      feitas. Talvez os leitores de Veja que engo
      lem (sem mastigar) tudo o que ela publica, engulam isso também.

    • Fábio Pannunzio

      28/05/2012 #7 Author

      É mais fácil, Márcia. Basta ler o expediente da revista. Ali está tudo explicado.

    • Marcia dos Santos Portero Simon

      28/05/2012 #8 Author

      Ah! obrigada pela sugestão! Mas não creio que seja esclarecedor já que pra mim a Veja não tem nenhuma credibilidade. Espero sim,
      explicações do próprio Mino.

  • Alex

    26/05/2012 #9 Author

    A César o que é de César: na verdade, quem acompanha aqui o Pannunzio sabe que o Reynaldo apenas repercutiu o que saiu aqui, o Fabio já tinha detonado o Mino igualzinho. O crédito do levantamento é do Fábio.

    E já que a Veja felizmente não puxa mais o saco do governo – e esse é democrático – cabe ao Reynaldo explicar o porque da blindagem pela revista do governo tucano de São Paulo e a absoluta falta de discussão sobre o livro ” A Privataria Tucana”, nem que seja para achincalhá-lo ( como se achincalha documentos?)

    E encerrando: toda a vez que eu escrevo ao PHA lá nos comments do Conversa Afiada para que ele explique aos leitores a posição dele na época da ditadura Médici como editor de economia da Veja e subordinado do Mino, ele censura minha pergunta. E desanda a falar em liberdade de expressão.

    Coloque-se Reynaldo Azevedo e Augusto Nunes no mesmo balaio, tentem discordar deles em seus blogs na Veja e serão chamados de vigaristas, petralhas, vagabundos ou milicianos e insultados por seus constantes bate-paus.

    Responder

    • Fábio Pannunzio

      26/05/2012 #10 Author

      Alex, o Reinaldo não se defende aqui. Acho que vcs poderiam criticá-no blog dele.

    • Jotavê

      27/05/2012 #11 Author

      Não tem jeito, Fábio. O texto é dele, e pode ser submetido a crítica como qualquer outro. Se ele quiser, pode perfeitamente se defender aqui. Nós é que não podemos fazer críticas a ele por lá. A posição é assimétrica. Mas em favor DELE.

  • Ricardo

    26/05/2012 #12 Author

    Bem, acho que não podemos colocar Reinaldo Azevedo e o pessoal da BESTA no polo inverso.

    Eu particularmente gosto de ler o blog do Reinaldo. Além de escrever com desenvoltura, ele mostra coerencia. Sim, sua linha é centro-direita, católico-conservador.

    Não concordo com tudo o que ele escreve. Mas o acho válido.

    Como Pannunzio, defende aquilo em que acredita, e não uma linha editorial determinada por um partido como vemos por exemplo no Conversa Afiada, Carta Capital e Blog da Cidadania.

    Exemplo ? Demostenes. Sim, Reinaldo saiu, de inicio, prontamente em sua defesa. Mas quando ficou bem claro do que se tratava, Reinaldo desceu-lhe o sarrafo. E continua descendo, sem dó.

    Como Reinaldo também vergasta o PSDB, volta e meia.

    E como também é nitidamente anti-PT.

    Ao ponto de um conhecido politico petista, questionado sobre a oposição, responde “que oposição ? Reinaldo Azevedo ?”

    A principal diferença: se Demostenes fosse do PT, a BESTA teria deflagrado uma campanha contra o MP, contra a tal imprensa golpista, etc, etc, etc.

    E não teria CPI coisa nenhuma, pois como diria PHA, “o Reino Mineral sabe que a oposição é raquitica”.

    Outro exemplo ? A desocupação do Pinheirinho: Foi truculenta ? Sim, foi. Podes ser questionada ? Obvio …

    Mas para a BESTA foi um massacre, que chegou até a contar os mortos. A BESTA (como assim determinou os seus patrões do PT) tentou a todo custo transformar Pinheirinho em um Sharpeville, Soweto ou Amistar.

    Apareceu até um acessor de um certo ministério com uma bala de borracha que supostamente o alvejou.

    Tirou fotos com a bala de borracha na mão, com uma cara de quem estava gozando nas proprias calças de tanta felicidade pelo suposto tiro que levou.

    Amplamente divulgado pela BESTA. PHA usou e abusou de suásticas no seu folhetim. Colocou capacete de
    SS na cabeça do Alckmin.

    Paulo Henrique Amorim é o pior. Tão pior que leva processo nas costas a torto e a direita. Não pelos absurdos que diz, mas pelo forma escrota como os diz.

    Mino Carta por exemplo subestima a inteligencia das pessoas. Quando ele fala que o unico erro do PT foi a Copa do Mundo, demonstra não ter senso de ridículo. Quando afirma que o “mensalão ainda está a se provar”, chama todos os brasileiros de burro.

    Tentem encontrar alguma critica ou no mínimo uma análise razoável do governo do PT na Carta ou no Conversa Afiada que eu dou um doce …

    Pudera: PHA e Mino Carta foram bem treinados no seu passado a só elogiar governo. Como Pannunzio já provou.

    Responder

  • Marcelo G

    26/05/2012 #13 Author

    Sinceramente, não entendi todo o debate que está rolando aqui sobre o Reinaldo Azevedo. Sou seu leitor e fã sim, mas, o tema aqui é outro. Mino Carta possui uma revista de opinião abertamente governista, se diz um “progressista”, defende ardorosamente a Comissão da Verdade e, no entanto, seus editoriais da época da ditadura, quando já era um homem maduro e jornalista importante no cenário nacional, defendem abertamente o regime militar!!
    O tema aqui é o Mino Carta, que parece mudar de opinião, não como um garoto trotskista se transforma num adulto de direita. Sua opinião muda, já na figura de um jornalista maduro, de acordo com os interesses do governo de ocasião.

    Responder

    • Big Head

      26/05/2012 #14 Author

      É isso, Marcelão. O servilismo minocartiano é indefensável. Outro dia ele descia o sarrafo em Lula… O grande problema dos corediros da Besta é a falta de memória.

  • José do Cerrado

    26/05/2012 #15 Author

    Caro Panuzio,

    Repondo a verdade, com a palavra o caluniado pelo Sr. Azevedo, e endossado por este blog:

    “A mídia implorava pela intervenção militar”

    Entrevista com Mino Carta. Por Adriana Souza Silva, da Redação AOL, abril de 2004

    No momento em que a Ditadura completa 40 anos e os meios de comunicação vão veicular muita bobagem – sobretudo toda a bobagem suficientemente interessante e capaz de excluir suas mãos do sangue que correu – nada melhor que a palavra de um jornalista que não tem medo dos jornais e que sabe exatamente qual foi o papel da mídia antes e depois de 1964.

    Na semana em que o golpe militar de 1964 faz 40 anos, o jornalista Mino Carta, que viveu na imprensa as tensões da ditadura, fala à reportagem da AOL. “Os jornais que hoje dizem ter sido censurados, na verdade serviam ao regime”, diz ele.

    Leia os destaques:

    “A mídia vinha invocando o golpe há muito tempo. O Brasil tem a pior mídia do mundo. Ela é muito ruim, incompetente, priva pela ignorância, pela vulgaridade, pelo distanciamento e pela falta de responsabilidade.”

    “A Folha de S. Paulo nunca foi censurada. Até emprestou a sua C-14 [carro tipo perua, usado na distribuição do jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante].”

    “Os senhores Civita não entendiam nada de Brasil. Aliás, acho que continuam não entendendo. O rapaz Roberto Civita, que é um outro idiota… Entre o Otavio e o Roberto é um páreo duro para ver quem é o mais imbecil…”

    Ele é referência para a imprensa brasileira. Aos 70 anos, o jornalista Mino Carta fez por merecer esta definição. Criou o Jornal da Tarde, em São Paulo, e as revistas Veja, Quatro Rodas, IstoÉ e, sua menina dos olhos, a Carta Capital, que em junho completará 10 anos. Vem daí a legitimidade para bater duro na mídia brasileira. “É a pior do mundo”, costuma repetir. Faz pose de herói da resistência, sobretudo quando revela que até hoje usa a boa e velha Olivetti para escrever. E se você o elogia pela fidelidade à maquina antiga, dispara: “Não sei nem ligar um computador, sou um pobre velhinho”.

    Na semana em que o Golpe Militar faz 40 anos, a reportagem da AOL correu atrás desse “pobre velhinho” – a bem da verdade, um charmoso italiano de Gênova. A censura no período militar foi um tema que despertou sua ironia machadiana. A entrevista aconteceu na redação da Carta Capital, no bairro paulistano Cerqueira César. Aos donos da Editora Abril e da Folha de São Paulo sobraram críticas ferinas. Mino Carta diz que quem sofreu com a censura foram os jornais alternativos. Da grande imprensa – eis um termo que ele detesta -, apenas os jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde tiveram de substituir artigos proibidos por poemas de Camões e receitas de bolo, expediente adotado na época para alertar os leitores dos expurgos de texto indicados pelos censores. Assim mesmo, segundo ele, porque havia uma briga interna entre os militares e a família Mesquita, dona do jornal, por cargos do regime. “Os editoriais da Folha, de O Globo e do Jornal do Brasil clamavam pela intervenção”, afirma.

    Nascido em data incerta – entre 6 de setembro de 1933 e 6 de fevereiro de 1934 -, Demétrio Carta chegou ao Brasil aos 12 anos de idade. Começou no jornalismo em 1950, cobrindo a Copa do Mundo como correspondente de um jornal romano Il Messaggero. Instalou-se de vez no Brasil em 1960, ano em que fundou a revista Quatro Rodas. As décadas seguintes seriam dedicadas ao
    jornalismo. A estréia como escritor foi em 2000, com o romance O castelo de âmbar (Editora Record) no qual destila o sarcasmo genovês em prestado ao personagem Mercúcio Parla, o pseudônimo escolhido para contar suas andanças pela profissão e sua relação com o poder. Na entrevista que segue, Mino Carta passa em revista o período em que o Brasil ficou na mãos dos
    militares, revela sua experiência com a censura e detalhes sobre personagens da época. Confira:

    AOL – Como os jornais trataram a notícia do Golpe Militar?
    Mino Carta – Golpe?! Imagina se alguém iria usar este termo. Os jornais sempre falaram em Revolução. Até hoje, muita gente ainda diz que foi uma “Revolução”. O uso indiscriminado desta palavra é uma coisa que me dói. Tenho muito respeito pelas palavras, acho que cada uma tem seu peso, seu valor… Mas, voltando a sua pergunta, a mídia brasileira, desde aquela época, servia ao poder. Digo que o Brasil tem a pior mídia do mundo. Ela é muito ruim, incompetente, priva pela ignorância, pela vulgaridade, pelo distanciamento e pela falta de responsabilidade. A mídia vinha invocando o golpe há muito tempo. Isso é o que mais me lembro dos editoriais de O Globo, do Estadão, do Jornal do Brasil. Nesse tempo, a Folha de São Paulo não tinha o peso que adquiriu depois. Mas esses três jornais soltavam editoriais candentes, implorando a intervenção militar para impedir o caos. Era o caos que estava às portas!

    AOL – Então, o golpe era previsível?
    Carta – Era claro que o golpe estava em movimento e logo também foi claro que não haveria qualquer tipo de resistência, a não ser uma ou outra coisa isolada que não adiantaria, naturalmente, para coisa alguma. Quando recebi essa notícia – nesse período, eu dirigia a redação da revista Quatro Rodas -fiquei estarrecido. Mas, ao mesmo tempo, não fui surpreendido. Aquilo
    estava engatilhado há muito tempo. De resto, há o fato de que essa tragédia teve um lado – não diria cômico porque foi uma tragédia baseada na costumeira hipocrisia e prepotência da elite brasileira, insuflada pelos Estados Unidos -, mas eu posso dizer que houve um lado irônico. Tudo foi feito em nome de uma ameaça, do comunismo, que não existia. O Brasil estava em processo de industrialização. E isso traria certas conseqüências inevitáveis, como por exemplo, o surgimento de sindicatos fortes e o nascimento de um partido de esquerda de verdade, capaz de chegar ao povo, ao contrário do que a esquerda brasileira tem conseguido até hoje. Tudo isso, que iria acontecer mais cedo ou mais tarde, representou, naquele momento, uma justificativa para aqueles que queriam dar o golpe. Aquilo era, evidentemente, previsível. Até porque não houve qualquer tipo de resistência, não foi derramada uma única e escassa gota de sangue pelas calçadas brasileiras.

    AOL – E se tivesse havido sangue?
    Carta – Se tivesse havido sangue, teríamos a prova de que havia algum a coisa encaminhada, que o Brasil tinha uma resistência organizada. O fato de não ter havido reação alguma prova, de uma forma clamorosa, que não havia nada que justificasse o golpe. Na verdade, havia sim um estudante que sonhava com um Brasil melhor, um ou outro intelectual que achava que a coisa poderia ter tomado um outro rumo e até alguns políticos dignos que gostariam de viver em um País mais justo socialmente.

    AOL – O senhor diz que a mídia implorava pela intervenção militar. Mas os donos dos jornais citados pelo senhor falam que foram perseguidos.
    Carta – Eles falam isso a custo da destruição da memória. Primeiro, destrói-se a memória. Esse é o processo. Em cima da escuridão, inventa-se qualquer coisa, e os leitores engolem tranqüilamente porque o trabalho é eficaz. A destruição da memória é algo que aqui se pratica com extrema habilidade. Assim como o chute no cadáver, a destruição da memória é um dos esportes nativos do Brasil, praticado com extrema competência. Em cima da destruição da memória, alguns jornais inventam que sofreram censura. O Jornal do Brasil nunca foi censurado. A Folha de São Paulo nunca foi censurada.

    AOL – Nunca?
    Carta – A Folha de São Paulo não só nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 [carro tipo perua, usado para transportar o jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]. Isso está mais do que provado. É uma das obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira [Carlos Caldeira Filho], que era sócio do senhor Frias [Octavio Frias de Oliveira], tinha relações muito íntimas com os militares. E hoje você vê esses anúncios da Folha – o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] – esses anúncios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal. Digo que foi a “mínima pressão” porque o sr. Frias estava envolvido na pior das candidaturas possíveis, na sucessão do general Geisel. A Folha estava envolvida com o pior, apoiava o Frota [general Sílvio Frota, ministro do Exército no governo Geisel]. O Claudio Abramo foi afastado por isso . O jornal O Globo também não foi censurado. Isso é uma piada. Mas o Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde, sim, esses dois foram censurados. Mas a censura veio porque havia uma briga interna deles.

    AOL – Como assim?
    Carta – Se houve um jornal que apoiou o golpe, foi O Estado de São Paulo. O Estado, assim como o Carlos Lacerda, que acabou caçado três anos depois que a “Redentora” se abateu pelo País. Essa gente aspirava a um papel que não tiveram. Então, começaram a brigar entre eles. O jornal Estado tinha uma profunda antipatia pelo Castello Branco porque ele não aceitou as sugestões do jornal na composição de seu primeiro governo. E aí começou essa briga interna que desaguou numa censura que era praticada na redação do jornal. O Estado tinha de publicar versos de Camões nos trechos das reportagens retiradas na redação. E no Jornal da Tarde eles tinham de colocar receitas de bolo nesses espaços.

    AOL – Quem foi, de fato, censurado?
    Carta – A revista Veja sofreu uma censura duríssima. Começou depois de 1969, depois de várias apreensões em bancas. A censura só acabou quando saí da revista [Mino Carta criou e dirigiu a revista Veja de setembro de 1968 até 1976].

    AOL – A Veja nasceu três meses antes do AI- 5. Não havia esse receio?
    Carta – Os senhores Civita não entendiam nada de Brasil. Aliás, acho que> continuam não entendendo. O rapaz Roberto Civita, que é um outro idiota… Entre o Otavio e o Roberto é um páreo duro para ver quem é o mais imbecil… Mas, de qualquer maneira, a revista foi censurada duramente, por muitos anos até 1976. E informo que, a partir de um certo momento, a partir de abril de 1974, ela passou a ser censurada nas dependências da Polícia Federal. Até então, a Veja tinha sido censurada na redação. Os censores iam até lá e liam. Mas quando entrou a Polícia Federal, a Veja passou a ser levada à casa dos censores.

    AOL – E como foi aquele episódio em que o senhor teve de desligar os telefones da revista?
    Carta – Nós iríamos sair com uma matéria sobre tortura. Era uma grande matéria comandada pela equipe de Raimundo Pereira. A equipe levantou mais de 150 casos de tortura e havia três casos contados em detalhe. Uma semana antes, nós tínhamos saído com uma capa sobre a posse do Médici (1969-1974) dizendo que ele não queria tortura. Fizemos uma puxação de saco com ele e, é lógico, já sabendo que viria em seguida a matéria com os casos de tortura. Queríamos só preparar o caminho. Mas aconteceu que a imprensa da época foi atrás da capa da Veja e começaram a dizer, durante toda aquela semana, que o Médici realmente não queria tortura. Por causa disso, saiu uma ordem, numa quinta-feira, de que o regime militar proibia qualquer referência ao assunto. E na sexta-feira [risos], eu mandei desligar os telefones da redação para não chegar essa ordem até nós. A revista saiu, mas foi recolhida nas bancas. Naquele tempo, não havia assinaturas. Ela ia para a banca e a censura passava recolhendo.

    AOL – Como foi sua saída da Veja?
    Carta – Havia uma pressão muito grande dos militares para que eu saísse. E a Editora Abril tinha uma dívida fora do Brasil, de 50 milhões de dólares. Eles pediram um empréstimo à Caixa Econômica Federal, mas era um empréstimo dentro da normalidade, eles o fereceram garantias suficientes. Só que era um pedido, evidentemente, que vinha de uma editora e, portanto, tinha conotações políticas. A Caixa Econômica aprovou o pedido, mas precisava do aval do ministro da Fazenda. Mas o ministro da Fazenda falou que precisava da permissão do ministro da Justiça e a coisa acabou na mão do Falcão [Armando Falcão, ministro da Justiça]. E o Falcão falou: “Nós vamos dar dinheiro para aqueles inimigos do governo, que publicam a revista Veja?” Então começou essa pressão.

    AOL – E por isso Roberto Civita despediu o senhor?
    Carta – Não, eu é que fui ao Civita. Além de dirigir a revista, eu era do conselho editorial da Abril, fazia parte do “board”, como diziam eles. Bom, participava das reuniões e sabia de tudo. Nesta altura, fiquei penalizado com a situação deles. Em julho de 1975, falei para o Civita: “Eu saio. Durante dois ou três meses, fico por trás do pano, até as coisas ficarem bem. Depois, posso chefiar as sucursais da editora Abril na Europa. Para mim está ótimo”.

    AOL – E qual foi a resposta?
    Carta – Ele não quis. Então, depois de uma semana, voltei a falar com ele: “Bem, se é para eu ficar aqui na Veja, vou continuar fazendo meu papel. Não vou ceder [à censura]”. Ele respondeu que tudo bem. Então, como primeira medida, eu chamei o Plínio Marcos para fazer uma coluna de esportes, na qual você pode imaginar o que ele falava. É isso. Depois ofereci emprego a uma
    pessoa que fazia parte do grupo do Vladimir Herzog. E voltei a falar com o Civita, que me perguntou o porquê de eu não tirar férias. Eu disse: “Está bem, eu tiro”. E durante as minhas férias, eles se animaram. Quando eu voltei, o Civita me disse que eu tinha de mandar embora o Plínio Marcos. Eu respondi: “Não mando. Se tiver de mandar embora o Plínio Marcos, você manda
    me manda embora junto com o Plínio”. E ficou aquele “mando”, “não mando” até que eu saí.

    AOL – E com o Millôr Fernandes, foi a mesma coisa?
    Carta – Ah, isso foi antes. Na época do Geisel, eu tinha negociado com o Falcão o fim da censura. Disse a eles: “Vocês querem fazer a abertura lenta, gradual, porém segura, então, tira a censura”. O plano deles, teoricamente, era esse. O Golbery [do Couto e Silva] me disse isso. E, de fato, quatro dias depois que o Geisel tinha tomado posse, o Falcão me chamou até Brasília e disse que a censura sairia. Eu disse: “Tudo bem, mas isso não me implica nenhum tipo de compromisso?” Ele respondeu que não. Eu voltei e já saímos com uma capa sobre os exilados. Isso causou certos problemas. Depois trouxemos uma matéria sobre os 10 anos do Golpe, o que nos trouxe mais problemas ainda. Até então não havia a censura. Mas aí veio uma charge do Millôr, que tinha uma seção na Veja. A censura voltou com tudo e, a partir daquele momento, veio aquela época a qual me referi antes, de precisar mandar a matéria para a Polícia Federal.

    AOL – O Roberto Civita chegou a mandar o Millôr Fernades embora por conta disso?
    Carta – Não. Imagine: ele ofereceu a cabeça do Millôr Fernandes ao Golbery. O Golbery disse a ele: “Não. Eu não estou te pedindo isso”. Esse era o Roberto. O Golbery não conhecia que… Isso eu contei muito no meu primeiro livro [O castelo de âmbar, Editora Record]. Está lá, está tudo lá. E nunca foi desmentido porque não há como desmentir. Aquilo lá é a sacrossanta verdade factual.

    AOL – Uma das coisas que o sr. conta no livro é de que foi o general Golbery quem o avisou que o ministro da Justiça Silvio Frota iria cair no dia 12 de outubro de 1977. O sr. Já conseguiu descobrir o porquê desta data?
    Carta – Não. Até hoje nunca descobri. Mas só voltando à questão da censura, isso é um assunto que sempre mexe comigo. Pior do que Veja, foi a situação dos alternativos. Veja certamente foi censurada de uma forma duríssima. Pior ainda foi com os alternativos. Os jornais alternativos, digo, o Opinião -aliás, naquele tempo já era o Movimento -, o Pasquim, o jornal do D. Paulo (Evaristo Arns), da Cúria de São Paulo, enfim… Todo esse tipo de publicação tinha de mandar o material para Brasília. Nós, na Veja, mandávamos para a rua Xavier de Toledo, de segunda à sexta-feira, e para casa dos censores, aos sábados. Mas os donos dos jornais alternativos tinham de mandar para Brasília. Todo o material. Então, alguém pegava uma pasta, levava até Brasília, entregava. Aí, os caras faziam mil sacanagens, devolviam o material e alguém colocava no avião e voltava para o Rio, ou para São Paulo. Era ainda pior. Eu não conheço censura deste tipo, na história do século passado, em nenhum lugar assim. No tempo do fascismo e do nazismo não era assim. Os censores iam para as redações.

    AOL – A impressão que dá é que, apesar de toda a censura, naquele tempo o jornalismo era mais crítico.
    Carta – Sem dúvida. A busca da entrelinha era real. Havia muitos jornalistas que tentavam enfiar nas entrelinhas algumas coisas. Às vezes, era algo que só a mãe dele percebia, mas não tem importância. Havia pelo menos esse esforço. Diria que era um jornalismo melhor do que hoje.

    AOL – O sr. fala como se tivesse perdido o idealismo daquela época.
    Carta – Não. Eu sou muito otimista na ação. Tanto que temos aqui a melhor redação que eu dirigi na vida. Sou otimista na ação, sou otimista em todas as bolas, mas não deixo de ser muito cético em relação ao País. Porque há uma sociedade ruim, má e um povo resignado. Então, é difícil você tirar disso alguma esperança para o atual futuro.

    AOL – Afinal, os militares da época não tinham contas nas ilhas Cay man.
    Carta – Evidentemente, havia gente corrupta. Mas era gente menos voltada para este aspecto, para essa questão. Neste aspecto, a culpa deles foi ter protegido muitos corruptos. O Golbery, que certamente teve um papel muito importante para o bem e, sobretudo, para o mal, ele é um homem que morreu pobre, que nunca teve nada. Não era esse o ponto. Agora, ele tinha uns amigos do capeta. É muito simbólica essa maneira de ver as coisas. O Andreazza [general Mario Andreazza] também é outro acusado de não sei o quê. Pois morreu e os amigos tiveram de fazer uma vaquinha para o enterro. Mas, certamente, ele tinha uma tranca de amigos muito perigosos.

    AOL – E quais são os nomes desses amigos perigosos?
    Carta – É melhor silenciar… Há referências a todos em O castelo de âmbar.

    Responder

    • Big Head

      26/05/2012 #16 Author

      Zé do Cerrado, calúnia é uma falsa imputação de crime. Pelo que sei, ser lambe-botas de governos, qualquer deles, não torna alguém criminoso, mas o distancia daquilo que é fundamental para a atividade jornalística, que é a busca sincera pela verdade. O fato é que o Mino Carta, dono de um semanário chapa-branca, uma espécie de Diário Oficial só que mais coloridinho, vive a bajular quem está no poder, desde os tempos dos milicos! Sua pose altaneira mal consegue disfarçar a sabujice. Divergências ideológicas são salutares. Respeito um Clóvis Rossi, apesar de divergir, e muito!, de suas ideias. O que a Besta faz, no entanto, é algo bem distinto, pois o debate pressupõe liberdade de espírito, coisa que eles resolveram trocar pelo conforto de garantir o sustento ecoando o oficialismo.

    • Marcelo G

      27/05/2012 #17 Author

      Eu não entendi…
      Ocupou um espaço enorme da pagina de comentários com essa entrevista que nao diz nada sobre o tema colocado pelo Pannunzio, prá que? Aonde o sr. Mino Carta comenta esses editoriais pró-ditadura que ele escrevia à época?
      É sempre o mesmo papo de PIG, só muda a roupagem. Esse sr e seu papagaio de pirata, PHA, levaram um passa-moleque da imprensa séria há umas 3 décadas e seguem com essa dor de cotovelo sem fim. Um é chamado de imbecil, o outro de idiota, a Folha emprestava o carro prá tortura, a Globo apoiava não-sei-quem…só não comenta o que ele mesmo escrevia à época.
      Sinceramente, existem charlatões melhores em qualquer tenda de cartomante de circo de bairro.

      Abs
      Marcelo

  • L.F.Pereira – SP

    25/05/2012 #18 Author

    Leio Nassif, Noblat, Observatório e Reinaldo diariamente. De uns tempos pra cá comecei a fazer sala no Pannunzio e confesso, estou gostando. Ah! tem mais: leio a Folha, Estadão, Veja e, acreditem, até o jornal da Igreja do Bispo Macedo. Frequento TODOS os canais de TV. Rádio? Só Bandeirantes; um vício saudável adquirido na infância, quase 50 anos atrás. Sou fã da turma do Jornal Gente.
    Às vezes passo pelo o Azenha e também bisbilhoto o PHA. Cada um tem seu estilo e todos puxam a brasa pra sua sardinha. Também lia o Blog do Mino. Parece que desistiu, cansou. Admirava seu estilo, nem sempre sua linha.
    Todos me ajudam. Concordo e discordo. Sem alinhamento ideológico. É o bom senso que me atrai ou conquista.
    Não tinha nada a comentar. Só queria parabenizar o Fabio Pannunzio (que conheço da TV) pela qualidade das matérias, pelo equilíbrio nas opiniões e sutileza na réplica a comentários indelicados. Boa sorte e longa vida ao Blog.

    Responder

    • Flavio F Farias

      25/05/2012 #19 Author

      Gostei de seu comentário.

    • Fábio Pannunzio

      25/05/2012 #20 Author

      Eu também gostei muito.

    • Big Head

      26/05/2012 #21 Author

      L.F Pereira, esse ecumenismo é sempre benvindo, desde que saibamos separar o joio do trigo, como bem ensinou o Pannunzio uns tempos atrás. Leio repitosamente gente de opiniões tão díspares quanto Clóvis Rossi e Reinaldo Azevedo, porque sei que ambos são intelectualemente honestos e tem estofo, conteúdo. O comentarista se equivoca neste trecho: ” às vezes passo pelo o Azenha e também bisbilhoto o PHA. Cada um tem seu estilo e todos puxam a brasa pra sua sardinha”. Jornalismo e Besta não são intercambiáveis, pois são feitos de matérias completamente distintas. É aquela coisa de dois corpos que não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, sacô? Ou se é jornalista ou se é propagandista do regime. Tertium non datur. Outra coisa, não há problema algum em se ter alinhamehto ideológico. Todos nós, em certa medida, seguimos alguma ideologia. O problema justamente é falta de ideologia, ou melhor, é seguir a ideologia que lhe seja financeiramente mais conveniente e que possa lhe conferir status junto ao poder de turno. Este é o caso de quem faz a Besta.

  • Jose Almeida

    25/05/2012 #22 Author

    Belo Trabalho Pannuzio. Pra que aquela frase “não descontextualizamos….”.?
    O que significa a frase”Os números sobre a distribuição de renda indicam que o Brasil está apenas pagando o preço do seu desenvolvimento”. Pra mim é uma critica e concorda que há sim concentração. A China tem distribuição de renda? Os EUA hoje estão distribuindo renda?

    “Não seria justo exigir uma distribuição melhor de uma economia que cresce tanto?” Como vc faria essa pergunta ao MF da ditadura?

    E o Brasil não estva crescendo a 7%? Quem que tenha mais de 40 não repete a frase “Na minha época a escola era melhor”. Certamente não era suficiente pra todos.

    Vou dar uma dica melhor que a Veja. Procure nos arquivos da Globo as reportagens do PHA como correspondente em NY e editor de economia. Ele acaba com o Lula.

    A diferença é que alguns fazem o caminho de lá pra cá, outros fazem de cá pra lá.

    PS esse post serve pra todo o seu acervo “Quem foi quem na ditadura”. Essa é a melhor lista que vc pode fazer? Se vc estiver certo a comissão da verdade terá pouco trabalho. Basta convocar 2 meliantes.

    Responder

  • Bruno Amaro

    25/05/2012 #23 Author

    Estou adorando essa briga de jornalistas, e principalmente quando elas vem assim, com dados e fatos incontestes!
    Fica óbvio que Mino Carta foi um adorador da ditadura militar e um capacho dos milicos.
    Agora, querer dizer que a Veja e o Civita foram vítimas do jornalismo do Mino é ridículo, não é porque o Paulo H. Amorin diz que o Carta não deixava o Civita palpitar que realmente não deixava, se não vamos considerar o PHA um mentiroso só quando interessa? O Civita aprovava cada editorial, é óbvio.
    O que fica para nós leitores? Um recado. vamos ler todos os veículos, todos os blogs, sem acreditar em nenhum! Temos que saber que o que existe hoje é uma briga de jornalistas e mais ainda, de empresários da mídia que não tem lado bom, é tudo ruim.
    O Reinaldo era trotskista, virou direitista. O Mino era bajulador de milico, virou petista apoiava um governo criminoso, hoje apoia o crime organizado. Tudo uma grande porcaria.

    Responder

    • Fábio Pannunzio

      25/05/2012 #24 Author

      Bruno, concordo com a parte final do seu comentário. Antes de formar opinião, é fundamental compulsar todas as fontes. Mas não sei de onde vocÊ tirou essa idéia de que o Reinaldo apoia o crime organizado. Essa afirmação constitui calúnia porque é desprovida de fundamento e verdade factual.

    • Cesar

      25/05/2012 #25 Author

      Fabio, eu não entendi que o comentario do nobre leitor faça a referencia do Reinaldo como um apoiador de um governo criminoso. Pelo meu entendimento este comentário se refere ao Mino. Mas uma coisa que me deixa irritado é que parece que só existem 2 lados que nos podemos aderir, ou a direita ou a esquerda. Será que não da pra ser respeitado que existe também o centro?, e que também existem muitas nuances até chegar a um dos extremos. Ou o PT é esquerda e o PSTU é o que?

    • nemo

      25/05/2012 #26 Author

      Fábio, leia com calma, o Bruno não disse que o Reinaldo apoia o crime organizado. Ele se referiu aos governantes como crime organizado.

    • Argos

      26/05/2012 #27 Author

      Fábio, você interpretou errado. É claro que ele se referiu ao Mino como apoiador do crime organizado. Agora você poderia defender o Mino, pois a mim também me parece que tal “afirmação constitui calúnia porque é desprovida de fundamento e verdade factual”. Ou não???

    • Big Head

      26/05/2012 #28 Author

      Costumo chamar essa postura “fodam-se todos” do Bruno Amaro de niilismo de resultados. Como parece não ter a cara-de-madeira de defender a Besta, aposta na tese da vala comum para tentar pegar incautos, a fim de que, caso caiam na lábia, passem a igualar o jornalismo sério e independente ao “Armazén de Secos e Molhados” do chapabranquismo. Nesse joguinho, quem sairia ganhando? Lógico que os sabujos, pois a lama é seu habitat por excelência.

  • Jotavê

    25/05/2012 #29 Author

    Esse tipo de jornalismo empobrece o debate. Refiro-me àquele que é praticado tanto por Mino Carta quanto por Reinaldo Azevedo. O que o caracteriza é o partidarismo descarado, sem limites, disposto a qualquer contorcionismo verbal para fazer com que a realidade caiba ma opção partidária que o orienta.

    É mentira que Mino Carta assumiu essas posições? Não, não é mentira. O jornalismo característico de Mino Carta e de Reinaldo Azevedo não se define pela mentira, mas pela seleção malandra da verdade. O que o texto não diz é que praticamente TODA grande imprensa do Brasil comportava-se EXATAMENTE do mesmo modo por uma decisão DE SEUS CONTROLADORES. Essa mesma linha porca de defesa mal disfarçada da tortura podia ser encontrada nos jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão controlados pela família Civita, pela família Bloch, pela família Marinho, pela família Frias, e assim por diante. (A família Mesquita foi uma HONROSA exceção. Você não era nascido, Fábio, mas deveria procurar saber o que se passou de fato.) Não é um problema que diga respeito a Mino Carta especificamente. É um problema que dizia respeito à quase TOTALIDADE da imprensa brasileira. Havia jornalistas que se recusavam a fazer o trabalhinho sujo? Havia, é claro. Alguns pagaram com a vida por isso. Mas Mino Carta não foi o único nem o principal exemplo desse tipo de atitude.

    A decisão sobre a linha editorial de uma revista é tomada em última instância PELOS DONOS dessa revista. É deles o poder de contratar e demitir. E é deles também a responsabilidade. Ou se fala tudo, por extenso, ou melhor não falar nada. Selecionar a verdade é a forma mais covarde de se dizer uma tremenda mentira.

    Reinaldo Azevedo não é jornalista. É publicitário.

    Responder

    • Fábio Pannunzio

      25/05/2012 #30 Author

      Jotavê, concordamos em quase tudo. Mas não posso deixar de dizer que não há nenhum elemento que leve à possibilidade de que Reinaldo Azevedo seja publicitário, e não jornalista. Ele vive, pelo que me consta, exclusivamente do salário que recebe da editora Abril. É muito diferente de uma certa estirpe de achacadores que vive bajulando o governo pra pegar uma verbinha aqui, outra verbinha ali de alguma estatal.
      Goste-se ou não do que ele escreve, não se pode negar legitimidade a Reinaldo Azevedo. É por ter certeza das motivações que o animam que eu republico posts dele aqui neste espaço. Até mesmo quando divirjo dele. Se fosse um picareta, ele jamais frequentaria minhas páginas. Eu costumo poupar meus leitores dos textos de encomenda.

    • Vinícius Jadyr

      25/05/2012 #31 Author

      Certo ou errado o Reinaldo Azevedo acredita no que escreve. Disto eu não duvido.

    • Jotavê

      25/05/2012 #32 Author

      O problema, a meu ver, não é ele acreditar ou não no que escreve. Há maneiras intelectualmente honestas de se defender um ponto de vista, e maneiras intelectualmente desonestas. Ele tem todo o direito de escrever como escreve. Mas eu também tenho o direito de criticar esse estilo MANIPULATIVO de escrever que se propagou pelo mundo. É como se o modelo stalinista tivesse vencido, APESAR da diversidade. Cada torcida tem o seu Pravda, digamos assim. Um manipula de cá, o outro manipula de lá. Chega, poxa… É muito pedir à imprensa que tome a Economist, e não a Fox News como modelo? É o que este humilde leitor está pedindo…

    • Jotavê

      25/05/2012 #33 Author

      Foi bom você ter feito esse comentário, para que eu possa desfazer um mal-entendido. Quando digo que Reinaldo Azevedo é publicitário, e não jornalista, não quero dizer que ele seja pago por políticos para fazer propaganda. Quero dizer que ele escreve COMO um publicitário escreveria: seleciona elogios e denúncias tendo em vista unicamente a “venda” de um produto. A Economist assume posições políticas explícitamente. O New York Times, idem. Você imagina um artigo nesse estilo figurando nas páginas de um deles, ou mesmo num blog sediado por um deles? É manipulação em estado bruto. Os leitores se revoltariam. Defender posições é do jogo. Mas com honestidade intelectual. Se ele quer mesmo falar a respeito do comprometimento da grande imprensa com o governo Medici, que fale. E cite o caso do Mino Carta no meio disso. É básico, né?

    • Airton

      25/05/2012 #34 Author

      Quais são os assuntos que ele vende ?

    • Mona

      25/05/2012 #35 Author

      JV,
      o ponto que o Reinaldo enfatiza, segundo entendi, é que não há qualquer ideologia nas intenções de jornalistas do estirpe de PHA, Mino Carta e alguns outros que estão por aí, a não o ser o de se alinhar com o governo de plantão e assim continuar vivendo. Acrescento eu, a la Freddy Mercury: “the things we have to do for money…” Mas creio que isso vale para todos, não? afinal, temos de defender o leite das crianças.

    • Flavio F Farias

      25/05/2012 #36 Author

      Pannunzio, tenho certeza que você entendeu o que o Jotavê escreveu. Nem foi tão sutil. Dá pra entender perfeitamente.
      Leia novamente.
      Quanto a publicar e divergir dele é meio complicado, porque você não faz comentários em cima do que repercute quando é do Reinaldo. Você fez uma notinha para o que disse o ex. deputado Medeiros, mas não faz notinhas para o que diz o Reinaldo em caso de divergência. Portanto, entende-se que nestes casos, concorda.

    • Airton

      25/05/2012 #37 Author

      Alguém obrigava o Mino Carta a escrever o que escreveu ?

    • Big Head

      26/05/2012 #38 Author

      Seja benvindo de volta, Jotavê! Estava com saudades. Cordeirinho, na época do golpe, salvo engano, o RA era um menino. O assunto do post é esse, não tergiverse. o problema da imprensa não é ter ideologia, isso é normal, aqui e alhures. Problema mesmo é o apartidarismo de ex-jornalistas que mudam de opinião como mudam de roupa. Você pode criticar tudo em RA, eu mesmo tenho vários pontos de divergência, principalmente nos assuntos religião e costumes, afinal sou ateu e ultraliberal, mas respeito sua cioerência e sua honestidade intelectual. O partidarismo também não é condenável, e o exemplo do NYT, sempre citado por você, é mais que esclarecedor. Jornalista não são seres extraterrenos, que analisam o mundo desde uma posição superior e afastada de nós reles mortais. São sim parte do jogo político e isso está dentro das condições normais de temperatura e pressão. O problema é justamente o apartidarismo aproveitador de quem aprioristicamente não tem lado só para estar do lado dos vencedor. Deu pra entender ou quer que eu desenhe?

    • Jotavê

      27/05/2012 #39 Author

      Eu acho normal que jornalistas tenham opiniões, preferências políticas e que as expressem. Isso é diferente, a meu ver, de um jornalismo produzido a partir de uma perspectiva partidária, em que você fala a partir da perspectiva do político. Sua bússola passa a ser o efeito que seu discurso pode surtir. Você passa a esconder o que é ruim e a sublinhar o que é bom: é o soldado de um partido, ou de uma corrente política. O resultado final é uma peça de propaganda, e não um texto de reflexão. No caso de um jornalista articulado e culto como Reinaldo Azevedo, é claro que existe um saldo positivo – assim como existe um saldo positivo no discurso partidário de qualquer político articulado e culto. Só que, enquanto jornalismo, o texto é pobre, e a perspectiva é perigosa.

      Ele é pobre porque faz a opção do jornalista parecer mais fácil do que ela de fato é: a metade dos fatos que nos obrigaria a raciocínios mais sofisticados simplesmente não está ali. Foi malandramente sonegada ao leitor. (É graças a isso que o tom EXALTADO dos seguidores de Reinaldo Azevedo e de Paulo Henrique Amorim se torna possível. Ninguém se “exaltaria” diante de um texto de Elio Gaspari, por exemplo. Você concorda, ou discorda.)

      O jornalismo partidarizado é, finalmente, perigoso. Por quê? Porque funciona na base do princípio segundo o qual o inimigo de meu inimigo é meu amigo. Se Carlinhos Cachoeira tem boa munição contra José Dirceu, ele se torna automaticamente meu aliado. Mesmo sabendo que o senador Demóstenes Torres é financiado pelo bicheiro, mesmo sabendo que pertence à sua quadrilha, eu lhe dou primeira página e trajes de mosqueteiro, pois ele está “do lado certo”.

      Jornalista pode ter posição política, como todo mundo tem. Mas tem que ter simancol. E tem que manter um saudável pé atrás. Sem isso, vira publicitário – seja ele pago, ou não para fazer isso. O resultado final é exatamente o mesmo.

    • Francisco Lima

      29/05/2012 #40 Author

      Parabéns pelo texto!

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