ELIANE CANTANHÊDE Como escrito nas estrelas desde o encontro nada institucional entre Lula e Gilmar Mendes, Gilmar destrambelhou e se jogou no centro de...

ELIANE CANTANHÊDE

Como escrito nas estrelas desde o encontro nada institucional entre Lula e Gilmar Mendes, Gilmar destrambelhou e se jogou no centro de uma fogueira que não era dele, enquanto Lula faz o caminho inverso: assume a condição de vítima, com direito a homenagem de Dilma em palácio, vídeo do presidente do PT e guerrilha da “militância abnegada” na internet.

Antes que o grave erro de Lula passe a contar a favor e não contra ele, registre-se que o fim do poder lhe fez muito mal. Desde que desceu a rampa do Planalto, Lula vem pisando em falso e botando os pés pelas mãos.

Impôs unilateralmente Haddad ao PT-SP, assim como impusera Roseana Sarney para o PT-MA. São Paulo, porém, não é o Maranhão e Marta Suplicy não é Domingos Dutra.

Haddad é, de fato, um bom produto eleitoral e, se ganhar, será um fenômeno à la Dilma. Mas, por enquanto, patina e custa cada vez mais caro na negociação com os aliados.

Lula também atropelou Dilma, o Congresso e meia bancada do PT ao exigir a criação de uma CPI que só interessava à sua sanha contra a oposição e para embaçar o mensalão.

Do ponto de vista prático, Cachoeira e seus comparsas já estavam presos, Marconi Perillo já tinha caído nos grampos da PF e Demóstenes já estava na lona. Agora, com a quebra de sigilo da Delta, muitos aliados e muitas obras do governo federal podem entrar na dança.

E, enfim, nada pode ser mais “faca no pescoço” do Supremo (como temem os advogados dos réus do mensalão) do que a pressão, orientação ou insinuação de um ex-presidente tão popular e que indicou 8 dos 11 ministros da corte. O que mais Lula pretenderia ao procurar Toffoli e Lewandowski diretamente e outros ministros via seus padrinhos?

Se despreza as regras republicanas, ele deveria ao menos usar sua intuição brilhante e sua habilidade política invejável para imaginar o estrago que Gilmar faria. Como fez.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Abstinência de poder – 31/05/2012.

Comentários

  • Jotavê

    31/05/2012 #1 Author

    Aos poucos, a reação de juízes e colegas vai evidenciando aquilo que deveria ser claro para todos desde o primeiro instante: a insensatez de se tomar as acusações de Gilmar Mendes pelo seu valor de face e de instrumentalizar o encontro entre ele e Lula no sentido de produzir – a qualquer custo – uma arma na guerra partidária. Todos os que avançaram demais agora serão obrigados a recuar, subtraindo-se à gritaria orquestrada e devolvendo-se à análise sóbria dos fatos.

    Quando reconhece, num artigo recheado de críticas ao presidente Lula, que o ministro Gilmar Mendes “destrambelhou”, Eliane Cantanhede está dando o tom desse recuo obrigatório. Nem mesmo pessoas que, como ela, se opõem visceralmente ao comportamento geral do ex-presidente estão dispostas a subscrever a postura claramente “recomendada” (digamos assim) aos colegas de profissão por destacados jornalistas da revista Veja. Lula errou ao propor um encontro com o ministro? Segundo Cantanhede, errou, sim, mas (repito suas palavras) por “não imaginar o estrago que Gilmar faria”. Lula errou, segundo ela, por não antever que Gilmar Mendes faria uso político do episódio, por não perceber, enfim, que Gilmar Mendes é um “player” da política com enorme poder de fogo, dadas suas conexões com figuras de proa da imprensa, capazes de repercutir as coisas destrambelhadas que ele diz como se fossem a mais pura expressão da verdade.

    O recuo é oportuno, para que possamos recuperar um mínimo de racionalidade nesse debate. Em primeiro lugar, o ministro, como qualquer cidadão, não deve ser condenado sem provas. No entanto, suas relações com o senador Demóstenes Torres e com Carlinhos Cachoeira exigem, no mínimo, explicações detalhadas, dado o cargo que ele ocupa. Por que marcou encontro na Europa com Demóstenes Torres? Que assunto tão urgente (ou tão secreto) tinham eles para discutir por lá, que não pudesse esperar pela volta de ambos ao Brasil, alguns dias depois? O que aconteceu exatamente no episódio do “grampo sem áudio”, no qual ele, Demóstenes Torres e a revista Veja acabaram criando um fato político que culminou com a destituição e posterior “exílio” do delegado Paulo Lacerda, um dos delegados mais íntegros e eficientes que a Polícia Federal já teve? Quem lhe recomendou esse Jairo Não-Sei-das-Quantas, pertencente à quadrilha de Carlinhos Cachoeira, e que Gilmar Mendes empregou como seu “personal araponga”? A proximidade entre o juiz e a quadrilha pode ser ocasional, e não envolver nenhum tipo de comprometimento inadequado ao cargo. Mas o Brasil, que lhe paga os polpudos salários mensais, tem o direito de obter respostas para questões como essas que acabei de formular.

    Em segundo lugar, é preciso devolver ao episódio do encontro entre Lula e Gilmar Mendes suas devidas proporções. Gilmar Mendes não é pária. Gilmar Mendes não é leproso. Gilmar Mendes não é tabu. Ninguém está impedido de conversar com Gilmar Mendes. Não é crime fazer isso. Num encontro dele com Luiz Inácio da Silva, esperava-se que falassem a respeito de quê? De receitas de bolo? Falaram do mensalão, falaram da CPMI, falaram inclusive (ao que tudo indica) das conhecidíssimas suspeitas de que o ministro e Demóstenes Torres tenham relações mais próximas do que seria recomendável. Alguma surpresa? Se eu tenho falado disso com quem me encontro, por que é que Lula e Gilmar Mendes haveriam de ignorar tais assuntos?

    Houve chantagem? Só Gilmar Mendes, ao que parece, viu as coisas dessa forma. Se acha que houve, que processe o ex-presidente, ora, essa. O que não podemos é comprar o pacote que ele marotamente encaminha à sociedade por intermédio dos estafetas de praxe como se fosse a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. É uma versão dos fatos – como bem diz Eliana Cantanhede, uma versão dada por um homem que “destrambelhou”. Que seus aliados em tramoias passadas destrambelhem juntamente com ele não é surpresa. Costumam destrambelhar por conta própria, sem pedir ajuda a seus sobrinhos servis. Que a imprensa toda repercuta esses destrambelhados é algo que não se entende, mas que precisa começar a ser entendido. Por todos nós: pelos que produzem notícias e comentários, e também por nós, que lemos os textos por eles produzidos.

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    • Sandra

      31/05/2012 #2 Author

      Jotavê,

      Parabéns, concordo inteiramente com você.
      Você falou tudo o que eu não consigo expressar.

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