Resenha produzida pelo leitor Big Head sobre as edições de Veja que Mino Carta cita para provar que não houve atrelamento da revista aos...

Resenha produzida pelo leitor Big Head sobre as edições de Veja que Mino Carta cita para provar que não houve atrelamento da revista aos governos militares.

Crescimento econômico alicerçado na explosão do consumo e na fartura do crédito.

 Copa do Mundo.

 Críticas virulentas à imprensa por parte do governo.Anestesia ufanista.

Pra frente, Brasil!

Quem reclama “se volta contra sua pátria, na estratégia do quanto pior melhor”, diz o presidente.

 “Mino, o chefe quer uma imprensa livre, mas com responsabilidade” – diz um assessor.

Não, não estou a falar sobre os tempos lulistas. Retrocedam, por favor. Mais precisamente até a década de 70. O chefe do proto-Franklin Martins que proferiu traiçoeira frase acima deu nome a um dos bois cantados pelos Titãs, quase vinte anos depois: Emílio Garrastazu Médici.

“Veja não receia cometer um grande engano ao acreditar que não se trata de limitação alguma, mas apenas justa referência, de oportuno lembrete, de um generoso pedido de colaboração – a imprensa não pode e não deve esquecer suas responsabilidades” – aquiesceu o editor de Veja.

Qualquer semelhança entre este diálogo e o discurso que hoje sai da boca dos apoiadores do controle “social” da imprensa não é mera coincidência.    

Corte para hoje.

Consumismo insuflado e crédito expandido são os pilares da economia.  

Copa do Mundo e Olimpíadas.

Ataques à imprensa, que teria se juntado à zelite para tramar um golpe contra o Governo Operário e seu projeto de Brasil Gigante.

Torpor patriótico.

Nunca-antes-na-história-deste-país!

Quem critica o governo é direitista, reacionário, entreguista, elitista, fascista, preconceituoso, anti-isso, anti-aquilo.

Mais uma vez, de que lado está o Mino?

Com a comprovação de que sua sabujice atual remonta ao século passado, vitimizando-se, aponta a capa da edição número 1 da revista como prova de não alinhamento. Por exibir uma foice e um martelo? Não julguemos um livro pela capa. Lá dentro apenas uma reportagem descrevendo as fissuras do monólito comunista, como se isso não fosse do conhecimento geral pelo menos desde Kruschev, mais de uma década atrás. A propósito, por que isso incomodaria os milicos?

Ah, mas tem a corajosa edição de nº 66, recheada de denúncias! Como é que é? Como bem reconhece a reportagem, os rumores sobre tortura no Governo Médici – talvez o mais emblemático representante da ditadura – já ultrapassavam o sussurro das alcovas e partiam de todos os lados, órgãos da imprensa e da sociedade civil. O servilismo altivo de Mino Carta entrou no debate mais para abrir as páginas da revista para a versão governista e, obliquamente, rebater a tese de que a prática estaria institucionalizada, não passando de desvios pontuais e indesejáveis, que seriam combatidos pelo Governo Revolucionário (sic).

“A tortura constitui uma prática intolerável pelos homens de bem do mundo moderno”, disse o chefe do 3º Governo da Revolução.

Médici queria construir e não reprimir, e teria iniciado uma campanha contra tais práticas condenáveis. O problema é que não poderia as extinguir por decreto, tendo que lutar contra campos férteis e contra sementes prontas para a tortura.

Sei…

Folheando a edição mais para frente, nais uma coincidência, topo com  uma reportagem sobre mais que emprestou o nome para os bois titânicos: Antônio Delfim Netto. Ministro da Fazenda de então, hoje guru do governo em temas econômicos, espécie de ministro sem pasta e, não pasmem!, atual colunista do panfleto minocartiano.

 Até a schadenfreude com os problemas econômicos dos Istêites está lá, igualzinha a de hoje?  Quanta coincidência, não?

 Aristóteles afirmou que alguns homens são escravos por natureza, pois nasceram com espírito servil e nada poderá curá-los.

 Marx, por sua vez, tem uma frase que já virou clichê: a história se repete como farsa.

 Só mesmo o Mino Carta, com sua epopeia de operador de países baixos de inúmeros governos, conseguiria juntar estes dois pensamentos, afinal sua trajetória de servilismo ao Governo Lula nada mais é do que a reencarnação farsesca de sua atuação como jornalista nos tempos de Médici.

 Brasil, ame-o ou deixe-o. 

Comentários

  • Fernando

    14/06/2012 #1 Author

    Valeu Bug Head, de fato um cabeçudo!

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  • Marcelo G

    07/06/2012 #2 Author

    Big Head, cirurgicamente preciso!!

    Parabéns pelo texto!

    Abs
    Marcelo

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  • Alex

    05/06/2012 #3 Author

    Cinismo do Médici e do Mino, 1970: “A tortura constitui uma prática intolerável pelos homens de bem do mundo moderno”, disse o chefe do 3º Governo da Revolução.

    Realidade brasileira, 2011:”47% dos brasileiros apoia tortura em interrogatório”, segundo pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), grupo de pesquisa da Universidade de São Paulo.

    Nó somos um povo de quarto mundo, sem edução, ignorante, primitivo e primata, essa é a pura verdade.

    E com esse povo nada mais natural termos os governos e as elites que temos.

    É só.

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  • Osvaldo

    05/06/2012 #4 Author

    Parabens pelo excelente texto Big Head, claro, objetivo, e direto quanto ao que pensava e queria dizer o Mino Carta. Bem diferente do ‘malabarismo interpretativo’, necessário por quem tenta a sua defesa.
    Mas o que de fato achei extremamente importante foi sua explanação das políticas econômicas adotadas naquele período e de hoje, deus do céu são as mesmas. Se de fato a história se repete, podemos esperar um fututo próximo bem problemático, se é que já não começou.

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  • Francisco

    05/06/2012 #5 Author

    Não li as revistas, li as duas resenhas. Achei a sua simples e completa quando comparada à do seu “antagonista”, pois, o Mino era editor de toda a revista. Para quem “tem realmente capacidade de pensar” deve ver o todo ou a obra completa.
    Belo texto. Ajudou entender mais Mino Carta, enquanto que, o outro texto ajudou a reforçar a idéia de como nossos atuais esquerdistas gostam de viajar nas idéias para confundirem o foco e assim fixar a idéia deles, ou, não se chegar a conclusão nenhuma.

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  • Ricardo

    05/06/2012 #6 Author

    Big Head,

    Muitíssimo bem estruturado seu texto, concordo contigo.

    Interessante, porque eu cometi o erro de debater politica com um dirigente do PT em minha cidade, lá por agosto/2010, ou seja, a ante-sala da eleição.

    Tudo porque eu disse que era mentira termos pago a divida externa, que a nossa politica externa era totalmente equivocada por inumeros motivos, e porque eu disse que o Estado não deveria ser proprietario nem operador de meios de produção … perguntei “Por que o Estado brasileiro tem que fabricar aço ou energia ?”

    Pronto …

    O cidadão diz, rispidamente e em tom de censura: “você é contra o Brasil ? ” em outro, mais ameaçador “você é contra o Estado ?”

    Este é o modus operandis do PT atualmente, que ironicamente, nos remete a fase mais dura da ditadura, onde criticas ao governo eram encaradas como criticas a nação.

    Parabéns também ao Pannunzio, que abriu este espaços aos leitores.

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  • Sergio Canella

    05/06/2012 #7 Author

    Big Head, seu texto parece com os dos jornalistas que comentei do artigo do Jotavê. Você elenca, seletivamente, trechos da VEJA daqueles tempos e os usa como slogans para acusar o Mino. Não tenta analisar o texto integral e o contexto em que as reportagens foram produzidas.
    Foi uma boa tentativa. O seu texto é bem feito. Mas não me convenceu.
    Abraços

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    • Big Head

      05/06/2012 #8 Author

      Valeu, Sérgio. É como disse ao Emílson, só de você ter lido, e elogiado a forma!, já me sinto grato.

      Abraço

  • Emilson Werner

    05/06/2012 #9 Author

    Por acaso o “Cabeção” (traduzi seu apodo) aprendeu a escrever com Guattari? Nunca vi estilo mais entrecortado e frenético. Isso não quer dizer que o ache coerente, escorreito ou sequer inteligível. Mesmo porque ele não gostará dessa comparação de estilos. Nem eu concordo com ela: Guattari e Delleuze, quando escrevem freneticmente assim, o fazem com uma meta, com ideia coerente e final. Não juntam uma série de impressões e as colam por seus vértices. o que parece, é que na colagem do estilo, persiste uma colagem de ideias, sem sentido, sem meta. A crítica, que foi o que buscou, resumiu-se aos fragmentos que sua leitura tendenciosa destacou na revista (na revista toda, e não na manifestação do Mino). Exemplo de tendenciosidade: não leu a capa da revista, não deu atenção a sua quase-censura, não viu a foice, não leu o martelo, e não os ligou a uma crítica velada à ditadura.
    Repito, Pannunzzio: não se devem buscar nos veículos contrários à ditadura, da época, o enfrentamento desabrido, o confronto final; a desigualdade de forças e de riscos sempre seria e será muito grande entre o poder instituído e o homem só; entre uma força, armada ou não, e a pena, mesmo que afiada.
    É isso que não se acostumaram a ler: a entrelinha, o entredito, a crítica velada, a ironia sutil.
    E cobram de Mino carta o peito aberto, a testa no cano do fuzil.
    Nunca, em nenhum momento, os que realmente enfrentaram a ditadura sem autoexilar-se nos confortos de Paris e Santiago, poderão satisfazer essa sede de combate que vocês estão lhes cobrando hoje.
    O diagnóstico desse problema está na incapacidade de ler a metáfora, a sutil ironia, a metonímia bem colocada. Quer ver? Nem esses detratores são capazes de dizer que Chico Buarque é um mal poeta ou compositor. As metáforas de Chico, que preconizam a revolução, a mudança de costumes, hoje são conhecidas: A Banda, sua primeira música, é a revolução alegre, a substituição de um mundo pelo outro, novo e revolucionário.
    Outra: sua Carolina, metáfora da classe média cega e cooptada pelas grandezas que vê, não vê o tempo a passar em sua janela. Poderia discorrer aqui ainda horas sobre essas metáforas.
    Outro caso bem conhecido é o dos cartunistas: Solda ou Henfil: suas metáforas, ironias são finas, no momento mais delicado da luta não se podia atacá-los por irônicos demais.
    Então, credito essa “cobrança” que o lado direito do jornalismo está fazendo ao Mino Carta a um déficit de leitura. Apegam-se ao explícito, sem olhar para o mais belo, lido na entrelinha, lido no significado mais profundo e mais correto por causa disso: não leem o fundo, por isso repetem a leitura dos censores, que liberaram todos esses textos maravilhosos para que ainda nos aproveitemos deles.

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    • Big Head

      05/06/2012 #10 Author

      Valeu, Emílson. Só de ter tido a paciência de ler, e comentar!, já está de bom tamanho. Pô, e ainda levei de graça uma compaçãozinha de estilos que, devo confessar, gostei bastante. Lógico que vi a foice, já “ler” o martelo fugiu das minhas capacidades. Se quiser, ajuda esse MOBRAL aqui a ler aquilo… Agora o que me intrigou mesmo foi este trecho aqui ó:

      ” E cobram de Mino carta o peito aberto, a testa no cano do fuzil”.

      Onde você leu isso? Ninguém cobrou heroísmo do Minhocarta. Leia as caixas de comentários anteriores, só achamos que a proibição de criticar não implica na necessidade de bajular, sacô? Não cobramos peito aberto, tampouco aceitamos boca escancarad a babar poderosos. Só pra lembrar: todos os excertos do meu texto que fazem menção ao Médici ou a seus assessores foram tirados da revista, inclusive o diálogo do início foi imaginado com base em trechos da Carta do Editor, subscrita pelo próprio Mino Carta. E é que ficaram de fora, por limitação de espaço, algumas coisinhas mais, como uma mátéria cujo headline era TERRORISMO, sobre a atuação dos grupos que combatiam o regime. Quanto ao Chico Buarque, aprecio, e como!, suas metáforas e críticas veladas, mas nunca o vi puxar o saco dos milicos, nem velada nem muito menos explicitamente. Se encontrar alguma estrofe dele nesse sentido, a comparação com o Mino passará a ser válida, tá?

      Abraço e obrigado

    • Big Head

      05/06/2012 #11 Author

      Emílson, altruisticamente, como forma de contribuir estimular ainda mais com o debate e também egoisticamente tentando diminuir o meu déficit de leitura, quem sabe, estimulando você a compartlihar a sua leitura do martelo, digo que até gostei e muito da capa, uma vez que antecipava claramente o que o leitor iria encontrar no corpo da matéria, pois ao mostrar a foice e o martelo empunhados em pose de luta simbolizou, através de uma imagem, a luta intestina no ventre da Cortina de Ferro, ou, como diria um marxista amigo meu, o acirramento das contradiçoes no seio do comunismo sob a influência soviética.

      Abraço

  • Sol

    05/06/2012 #12 Author

    Gostei muito da comparação, reconheço que não me ocorreria fazê-la, mas é um ponto de vista interessante.

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  • Lúcio Wanderley

    05/06/2012 #13 Author

    Brilhante, Big Head! Conseguiu sintetizar com perfeição seus argumentos (compartilho do mesmo pensamento). Sua comparação é simples e irrefutável. Aqueles que hoje se afirmam críticos do regime (sem tê-lo sido à época) assumiram o mesmo comportamento (ou até pior) dos criticados.

    Parabéns!

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    • Big Head

      05/06/2012 #14 Author

      Valeu, Lúcio.

  • Flávio Furtado de Farias

    05/06/2012 #15 Author

    Constatei o que já esperava.

    Responder

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