Vi muitas coisas estranhas, tristes e constrangedoras lendo os Arquivos Digitais da Revista Veja dos anos 60 e 70. Mas nada parecido com o...

Vi muitas coisas estranhas, tristes e constrangedoras lendo os Arquivos Digitais da Revista Veja dos anos 60 e 70. Mas nada parecido com o que vocês vão ler abaixo.

Aqui, não se trata de fulanizar a crítica, voltando a responsabilizar o editor da publicação na primeira metade dos anos 70, o jornalista Mino Carta, pelo alinhamento da publicação com o regime militar. Esse atrelamento ficou bem descrito e demonstrado nos posts anteriores que compõem a série Especial Ditadura. Como esses posts já foram igualmente objeto de critica e de uma explicação do editor, darei agora um passo adiante.

Passo a contar duas histórias muito diferentes acerca de um mesmo personagem que teve um fim trágico, o militante da VPR Massafumi Yoshinaga, jovem guerrilheiro que virou uma espécie de prenda involuntária do regime militar à custa de muita humilhação e torturas. Uma pertence ao campo do jornalismo. Outra, ao da História.

Em 15 de julho de 1970, o rosto desse jovem foi exibido na capa de Veja ao lado da manchete “Terror Renegado”, reproduzida no alto desta página.

A reportagem foi apresentada em editorial assinado por Mino com a seguinte justificativa: “alguns moços, ex-integrantes de bandos terroristas, descobriam e declaravam que o caminho da subversão não leva ninguém a nada”.

A reportagem, que começa na página 16, recebeu o título “Autocrítica do Terror”. Começa descrevendo a alegria do ditador Médici com as menções elogiosas do ex-militante da VPR à Transamazônica, a suas incursões pelo Nordeste e à extensão do mar territorial brasileiro para 200 milhas.

Detalhe da reportagem de capa: a prenda e o júbilo do regime

“À primeira vista, seria apenas a satisfação do comandante supremo da Revolução, e portanto o mais alto responsável pelo combate à subversão, pelo arrependimento de um jovem inimigo do regime, de repente ressurgido à razão pelos acertos do próprio governo que combatia”, diz o texto da crédula reportagem.

A revista não atentou para o fato de que não fazia sentido, naquele momento da história, que um ex-guerrilho, sob custódia dos militares, tecesse loas às obras do “Brasil Grande”. A exposição de seu rosto na capa era a foto de um troféu que a ditadura obteve com suas maquininhas de provocar arrependimento de alta voltagem — e os socos e pontapés com que os jagunços dos quartéis e da polícia costumavam brindar quem se insurgia contra o regime.

O curioso é que a semana anterior havia sido pródiga em arrependimentos públicos de presos políticos. Que o diga o jornalista Celso Lungaretti, outra prenda colocada na mesma cesta servida pela ditadura à opinião pública por intermédio de Veja. Traído pelos próprios companheiros, foi obrigado a exortar os jovens brasileiros a não se deixarem seduzir pela impaciência na luta em prol das reformas — e a apoiar os projetos do governo de então. “O Brasil ingressa num período durante o qual as conquistas nacionais vão, pouco a pouco, se afirmando, abrindo para a Nação um caminho de esperanças”. Ninguém desconfiou que essa frase soava estranho na boca de um ex-guerrilheiro.

Lungaretti consumiu 34 anos de sua vida para se reabilitar. Só conseguiu isso em 2004, depois de lançar o livro “Náufragos da Utopia”. Logrou resistir ao patrulhamento e à perseguição implacável, primeiro do regime, depois dos ex-companheiros que falsamente lhe atribuíram a denúncia de um campo de treinamento da VAR-Palmares.

Um amigo seriíssimo, pautado por sua revista para a apresentação dos “arrependidos”, se lembra muito bem do dia em que os “terroristas” concederam a estranha entrevista na sede do Segundo Exército. “Minha impressão era a de que haviam feito uma lavagem cerebral com eles”, relembra o repórter 42 anos depois. “Eles pareciam dopados”.

Com sua morte precoce, ocorrida de maneira trágica seis anos depois, Massafumi entrou para o rol dos renegados e esquecidos até ser resgatado por Pérsio Arida. Ele escreveu um lindo artigo para a edição 55 da Revista Piauí contando o que, salvo dentro de seu ambiente familiar, pouca gente sabia: seu envolvimento com a VPR aos 18 anos de idade.

Arida revelou que participou de um único ato “revolucionário” — a colocação de uma faixa na boca do Tunel da Avenida 9 de Julho, em São Paulo, com um bordão contra os patrões e o capitalismo. Caçado como um terrorista de alta periculosidade, escondeu-se numa garçonnière que o pai mantinha em conjunto com um amigo.

Antes desse ato, por uma única noite, abrigou um militante a pedido de sua organização. Era Massafumi. Pérsio Arida descreve assim o encontro de ambos:

“Foi-me pedido que desse guarida, por uma noite apenas, a um homem da pesada, procurado. Era um revolucionário de verdade, que andava armado e fazia ações revolucionárias. Concordei relutantemente – uma noite apenas, ele tem que ir embora no dia seguinte pela manhã, bem cedo, antes das empregadas ou meus pais acordarem.

Ele chegou na hora combinada e entrou na casa rapidamente, como que fugindo de uma perseguição. Para minha surpresa, estava visivelmente amedrontado. Não largava a arma. Um nissei mirrado e com rosto de criança, nervoso e inseguro, completamente diferente dos revolucionários de verdade que imaginava existirem. Temeroso de qualquer envolvimento maior, expliquei onde eram o banheiro e a cozinha, dei boa-noite e foi só”.

O próximo encontro entre ambos ocorreu nas instalações da OBAN e é descrito desta forma na entrevista à Piauí:

Todos fomos reunidos sem aviso no pátio para ouvirmos a preleção de dois ex-terroristas. Por um instante sequer entendi a expressão – se haviam sido presos, eram ex-terroristas por definição. Outro, no entanto, era o significado – eram terroristas arrependidos.

Massafumi Yoshinaga, disse um dos militares. Um patriota que se arrependeu dos assaltos a bancos e da guerrilha. Ele, que conhece o terror por dentro, quer transmitir a vocês uma mensagem importantíssima. Ouçam e meditem. É um pregador que presta um serviço à pátria, alertando a juventude brasileira para os riscos do comunismo e as ilusões da luta revolucionária.

Fiquei branco. Era o nissei da pesada que se hospedara na minha casa. Estava exatamente na minha frente. Impossível que não me tivesse reconhecido”.

Pérsio Arida temia que o japonês arrependido o delatasse. Conseguira ler trechos de um relatório policial que estava sobre a mesa de um delegado. E conduzira suas respostas aos interrogatórios para a confirmação de informações que os militares já conheciam. Até então, havia sido bem-sucedido em sua estratégia de dissimulação . Diante da troca de olhares com Massafumi, passou a esperar o pior:

“Passei aquela noite em claro, esperando o momento em que fossem me chamar para uma sessão de torturas, de vingança. Havia escondido um terrorista em minha casa, portanto era cúmplice do terror, e não havia dito nada sobre o nissei no meu depoimento. Os caras iriam me bater para saber quem mais se escondera na minha casa.

O dia raiou, mais um dia inteiro se passou e outro e outro. Nada. Reinterpretei a situação: Massafumi Yoshinaga deve ter sido barbaramente torturado, pensei, faz esse papel de arrependido só para se livrar dos suplícios. É tudo fingimento. Por isso não me denunciou, por isso não nos permitiram conversar com ele a sós. Aquele discurso tinha sido um vexame público, vergüenza ajena, expressão concisa e intraduzível do espanhol, mas nada além de um vexame, uma estratégia de sobrevivência”.

Arida ainda se depararia com Massafumi duas outras vezes. Foram encontros indiretos, por intermédio das páginas de veíuclos da chamada grande imprensa.

“Um dia encontrei, largada num canto e amarelada pelo passar do tempo, uma Veja com Massafumi Yoshinaga na capa e o título “O terror renegado”. A reportagem contava que o presidente Emílio Garrastazu Médici expressara, em audiência com dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil, sua satisfação com o depoimento público e espontâneo do ex-terrorista. (…)

Li depois num jornal que terminou se suicidando. Suicídio de vergonha, de culpa e arrependimento, haraquiri de uma alma que não encontrava mais lugar neste mundo. Terrível como todo suicídio. Mas quem chora a morte de um traidor? Da minha parte, prefiro guardar dele apenas a memória daquele encontro furtivo de olhos no qual, mesmo tendo me reconhecido, nada revelou ao militar que com tanto orgulho o apresentou como um verdadeiro patriota”.

Eis o que aconteceu a Massafumi Yoshinaga. Seis anos depois, devastado pela vergonha e pela depressão, pôs fim à própria vida após duas tentativas de suicídio malsucedidas. As declarações públicas de arrependimento, que segundo Veja causaram tanto júbilo ao governo militar, foram obtidas mediante a utilização dos mais cruéis e abjetos métodos de tortura. Deixaram nele uma ferida profunda e mortal, algo como um cancer que vai fincando tentáculos em todos os tecidos e órgãos para, ao final, matar o hospedeiro. A vergonha pela falsa confissão do arrependimento que não lhe restituiu a vida — apenas adiou a morte por alguns anos de muito sofrimento.

É impossível saber quanto o relato de Veja, que mimetizava a grande conquista do regime, teve responsabilidade sobre o quadro mental que se instalou no ex-guerrilheiro arrependido. Mas pode-se imaginar o estrago que essa exposição provocava à época.  Afinal, que espaço vital teria restado ao militante Massafumi Yoshinaga depois de ser apresentado ao País como um dos trunfos do regime dos quartéis, um caso de conversão quase religiosa ?

Ao forjar um depoimento público para se livrar das sevícias e do suplício, não restou a Massafumi alternativa a não ser, como na letra de Cazuza, encontrar abrigo no peito de seu traidor. Apesar de ter tido sua pena anulada, o ex-guerrilheiro permaneceu em poder dos torturadores — não mais porque representasse uma ameaça ao regime, e sim para protegê-lo da sanha do justiçamento dos próprios ex-companheiros no tribunal sumário da insurreição.Apanhando da direita, perseguido pela esquerda, envergonhado pelo que fora forçado a fazer, o ex-militante buscou no suicídio a redenção de uma honra aviltada pelas sevícias morais e físicas que lhe haviam sido impostas.

Outros tiveram altivez para enfrentar o legado daquela execração. Aí está o combativo Celso Lungaretti como testemunha das dores provocadas primeiro pelas pancadas, depois pela estigmatização e patrulhamento, que entregou metade de sua vida à busca da reabilitação moral — porque delatar companheiros é uma acusação que se inscreve mais no campo da moral do que no pragmatismo da política e da ideologia, onde produz seus efeitos.

Entre o relato comprometido de Veja, o suicídio de Massafumi Yoshinaga e o testemunho de Pérsio Arida há uma larga zona de fronteira que separa o jornalismo da História. A visão míope do jornalista está conformada pelo pensamento hegemônico que determina a linha editorial. A História, muito mais ampla, repõe, com elementos de lucidez ausentes na interpretação parcial e apressada dos fatos transformados em notícia, algo que se aproxima da verdade. É o caso da desventura narrada neste post.

Como se vê, entre a verdade cristalizada num fotograma da factualidade política e o filme todo da História há uma distinção abissal. A profundidade desse abismo pode ser depreendida da releitura dos textos produzidos à época.  Este blog, que não descontextualiza declarações para construir a crítica, tem como política fornecer a íntegra dos  originais referidos para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Para os que quiserem se dar ao trabalho de fazer esse exercício de prospecção, reproduzo abaixo a íntegra da reportagem de Veja. O download do material em formato PDF pode ser feito aqui.

O artigo de Pérsio Arida pode ser lido diretamente no site da Revista Piauí. Para chegar a ele, basta clicar aqui.

 

 

 

 

Comentários

  • Rose Ane Silveira

    06/08/2012 #1 Author

    Obrigada Fábio pelo belo material. Texto interessantíssimo e de sua parte, imparcial. Importante para mim, neste texto, no entanto, é a retirada do véu de vestal que Mino Carta se travestiu no comando de sua “intocável” Carta Capital. Com certeza os erros pululam na imprensa, há 40, 30 anos e agora. O duro é ver repórteres e editores de um veículo se sentirem no direito de atacarem os demais veículos como se nunca tivessem errado na vida, como se vê atualmente com os profissionais da Carta Capital.

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  • Jotavê

    12/06/2012 #2 Author

    Big Head,

    Se temos que “louvar” espaços pluralistas, suponho que haja algo de ETICAMENTE condenável na atitude de quem se escudaem sua ideologia para banir de seu espaço elementos dissonantes.

    Há, sim, uma ÉTICA da argumentação, e a imprensa deveria estar submetida a essa ética. É uma ética que a Folha de São Paulo segue, por exemplo, mas a revista Veja, não. Ninguém está preconizando a presença de censores nas redações, ou a criação de uma comissão não sei das quantas para dizer quem segue preceitos habermasianos e quem não segue. Estou dizendo que nós, leitores, temos o direito (e até a obrigação) de condenar veículos e jornalistas que atentem contra a ética do discurso, louvando os que argumentam com honestidade intelectual. É exatamente isso que estou fazendo aqui.

    A Folha de São Paulo é um jornal honesto. A revista Veja é intelectualmente DESONESTA.

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    • Big Head

      12/06/2012 #3 Author

      Olha, você usa termos, a meu ver, descabidos. “Condenar”, “ética do discurso”, “desonesto” e por aí vai. No espaço do debate há lugar para todos, assim como há o direito dos leitores de fazer suas escolhas. Você nunca vai me ver “condenando” a Carta Capital , apesar de que, pela régua jotaveana, ela sem dúvida se incluiria nos veículos “intelectualmente desonestos”, não? Meu único problema com a Besta é o fato de eu ter que arcar com aquilo, sacô? Até porque não os leio. Concordo quando você cita a Folha como um bom exemplo de espaço que prima pela pluralidade, apesar de ser taxada pelos incautos de PIG, pensamento único e outras baboseiras. Mas me diga então qual veículo que faz crítica à grande imprensa que prima por isso. Caros Amigos? O panfleto minocartiano? A Besta? O Portal 247? De minha parte, vou sempre procurar visões mais matizadas, nuances, tons de cinza. Mas não “condeno” alguém por ler outras coisas ou acho anti-ético espaços onde o pensamento seja monolítico. Procuro apenas contrapor argumentos. Só isso.

    • sergio collinett

      31/07/2013 #4 Author

      Não entendi . A Folha é um jornal honesto?
      Tu precisas revisar seu conceito de honestidade.

  • maisvalia

    11/06/2012 #5 Author

    Então você nunca assistiu a Fox meu caro, só ouviu falar.
    Os dois lados debatem lá e quebram o pau ao vivo e em cores.
    Assista primeiro e critique depois.
    E não junte o escândalo do Murdoch na Inglaterra com a TV nos EUA.
    O contraponto da Fox, como eu disse, é a MSNBC.

    Responder

  • Lúcio Wanderley

    11/06/2012 #6 Author

    O post é sobre a Veja ou sobre a Globo? Criticar a Globo vai melhorar em que a imagem do Editor da Veja à época?

    Responder

    • justo

      11/06/2012 #7 Author

      Realmente não é sobre a rede globo, nem tampouco sobre a Veja, mas sim sobre Mino Carta. Acabo notando aqui também, assim como os petistas vem fazendo, que há uma tentativa de nivelar todos por baixo para justificar os delitos.
      Assim é que hoje se busca desqualificar o STF como julgador do mensalão, parece que se busca desqualificar todos os outros jornais e jornalistas com a finalidade de justificar o ilicito de alguns.

    • Big Head

      11/06/2012 #8 Author

      Lúcio, este é o terceiro segredo de Fátima…

  • rends

    11/06/2012 #9 Author

    é realmente intrigante a veemência com que JV defende MC….

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  • pinna

    11/06/2012 #10 Author

    Não sou prevalecente. Mas, já sabia. O que continua a me intrigar são as estórias/histórias de Genoíno e Zé Dirceu – aquele das , apenas, 1000 faces.

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  • Alex

    11/06/2012 #11 Author

    Putz, tentei de todas as maneiras trazer essa capa da Veja pra cá para mostrar como a Veja e toda a grande imprensa chamava então os que chama de “guerrilheiros” hj. Era o “Terror”. Estou tentando colocar ela aqui desde que li os posts do Pannunzio sobre a Veja aí do lado.

    Queria meter ela lá no blog do PHA também haha

    Não conseguia pegar de lá, porque não tem como salvar a imagem, no sistema deles. Pannunzio conseguiu.

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  • Jotavê

    10/06/2012 #12 Author

    Justo,

    Há menos diferença entre o Mino Carta de hoje e aquele da época da ditadura do que entre a Rede Globo de hoje e aquela da época da ditadura.

    Mino Carta, hoje, representa um pensamento de linhagem “social-democrata”, bastante afinada com aquela defendida pelo PT a partir de 2002, quando chegou ao poder. O PT pós-2002 não tem nenhum horizonte de ruptura, ou de superação do modo capitalista de produção. Não há nem sequer a vocalização (vazia) desse ideal, ao estilo de um Chávez. A idéia é utilizar uma boa parte da arrecadação em programas de redistribuição direta da renda, e de enfatizar políticas sociais que corrijam as distorções induzidas pelo capitalismo. Mino Carta sempre teve como modelo a esquerda moderada italiana, que tinha exatamente esse horizonte de atuação. Fernando Henrique e José Serra pertencem exatamente à mesma tradição. O PSDB, você deve se lembrar, foi criado com esse horizonte. Pretendia ser (como já vem dito no seu nome) o partido da SOCIAL-DEMOCRACIA brasileira. Os acidentes que o conduziram a uma variante do neoliberalismo, podemos examinar uma outra hora. Mas o projeto original era esse.

    A Globo, desde que patrocinou a candidatura de Fernando Collor, adotou uma postura fortemente liberal, que se choca até certo ponto com o modelo social-democrata defendido pelo PSDB de FHC, Serra e Covas, de um lado, e o PT de Lula, de outro. A oposição entre esse modelo liberal de gestão do país e o modelo preconizado pelos militares durante a ditadura é TOTAL. Os militares defendiam um modelo fortemente estatizante, com o Estado comandando o processo de desenvolvimento, investindo pesado em infra-estrutura e controlando diretamente porções estratégicas da economia (aí incluído uma parte substancial do setor financeiro). Os militares brasileiros estavam muito mais próximos de Chávez do que de FHC, por mais que isso pareça estranho. E estavam a QUILÔMETROS de distância do liberalismo defendido pela Globo de hoje.

    Mino Carta está mais ou menos onde sempre esteve, enfim: um social-democrata no velho estilo. Combatia a luta armada (e continua a combatê-la até hoje – veja a posição que assumiu no caso de Cesare Battisti, por exemplo), mas também combatia a tortura. Já a Rede Globo, não. Defendeu o modelo estatizante dos militares, e foi conivente com a repressão. Após a redemocratização, muda da água para o vinho. Isso é ruim? Não acho. Mudar faz parte da vida, e o que é bom num período pode não ser bom em outro. O ponto não é esse. O que estou dizendo é algo muito mais simples. É mentira dizer que Mino Carta defendeu a tortura. Ao contrário da Rede Globo, atacou-a como pôde quando pôde. E é mentira dizer que ele tenha mudado. Defende hoje basicamente a MESMA visão de mundo que defendia na década de 60.

    Responder

    • justo

      11/06/2012 #13 Author

      Realmente ele não mudou. Continua a puxar o saco de quem esta no poder.

    • Big Head

      11/06/2012 #14 Author

      Estou começando a achar que o Jotavê é o próprio Mino Carta…hehehe Quanta ginástica verbal, quanta tergiversação, quanta dialética furada para defender o indefensável. O que a Globo tem a ver com este post? Dio mio, está tudo tão claro, basta se dar o trabalho de ler as edições de Veja sob a batuta do jornalista. Jotavê, querer por o Minhocarta no balaio social-democrata é superestimar seu pensamento e sua trajetória política. Ele passou a falar de Gramsci de uns tempos pra cá e, mesmo assim, demosntrando que não entendeu zorra nenhuma da obra do italiano. É que o pensador italiano virou moda entre no círculo intelectual que ronda o governo petista. Dou o braço a torcer se trouxeres aqui algum texto que revele o pendor social-democrata minocartiano. Faz o seginte, vai no gúgol e põe “Werneck Viana” pra saber do que estou falando. Como bem lembraram as Cartas da Amazônia, Minhocarta teve sua importância para o jornalismo tupiniquim, mas hoje é só um esbirro de um projeto de poder, um reles propagandista, como outrora foi do Governo Médici. O Eurocomunismo e a social-democracia não merecem isso.

  • Rolando

    10/06/2012 #15 Author

    Lembro de quando li o texto de Pérsio Arida, fiquei aliviado ao ler a sensibilidade que ele teve para com o nissei. Muitos dos arrependidos caíram em desgraça.

    No estado de Goiás, que não sei bem por quê, talvez pela proximidade com Brasília ou pelo governo de Mauro Borges, a repressão também foi bastante violenta. Vários garotos foram à TV mostrar-se arrependidos. Dentre eles Allan Kardek Pimentel. Muitos dos arrependidos foram crucificados pelos dois lados, até hoje carregam a pecha de delatores, traidores ou infiltrados, mesmo alguns hoje falecidos. Porém, a militância ressentida e raivosa, jamais parou para pensar que se tratavam de garotos, recém-saídos da militância estudantil indo diretamente integrar grupos da clandestinidade. Sem preparo mental para suportar um interrogatório com torturas e ameaças (imagina os caras falando: você mora em tal rua, sua mãe é fulana, seu irmão é beltrano, e se você não cooperar, eles é que vão pagar).
    Estou cada vez mais convicto de que um mal não se combate com outro mal. Isso vale para o Regime e a luta armada que deu tantos pretextos para a Linha Dura, e que levou tanta desgraça aos moradores rurais e apolíticos de regiões como o Araguaia.

    Responder

    • Jotavê

      10/06/2012 #16 Author

      Era mais ou menos assim que pensavam pessoas como Mino Carta. E é mais ou menos assim que eu também pensava (e ainda penso).

  • Jose Almeida

    10/06/2012 #17 Author

    Do texto desprende-se duas conclusões. Os milicos toruraram e a imprensa, seja a contra gosto como admite o Mino, seja por docilidade como admite o Panuzio, pode ser injusta ao assassinar reputações. Sabemos que os milicos continuam torturando nas delegacias pelo Brasil afora. Será que a imprensa não continua assassinando reputações?

    Responder

  • maisvalia

    10/06/2012 #18 Author

    Se não me engano Pannunzio, pois eu era moleque à época,um vídeo dele “confessando” seus crimes foi exibido nos principais tele-jornais da época.
    Discordo de quase tudo que o Jotavê escreve, mas nesta acho que ele está certo.

    Responder

  • Jailson

    10/06/2012 #19 Author

    Realmente,

    Poupa todos os outros que apoiaram o regime de repressão (principalmente Veja e Rede Globo e seus respectivos editores) e aponta todo o seu arsenal contra Mino Carta, que hoje tem prestado um inestimável serviço ao noso direito de ser bem informado. Parece coisa pessoal. Algo incompreensivel para o Pannuzio, que diferentemente dos outros acusadores, ainda merece o meu respeito profissional.

    Responder

    • Big Head

      11/06/2012 #20 Author

      “Mino Carta, que hoje tem prestado um inestimável serviço ao noso direito de ser bem informado…”

      Otimista inveterado que sou, ainda torço para que este comentário tenha sido escrito no ironic mode. rs

  • Jotavê

    10/06/2012 #21 Author

    Dois grupos de perguntas, e uma sugestão.

    1. Qual foi o tratamento dado pela imprensa em geral ao episódio? Como foi que a TV Globo, por exemplo, abordou o caso? Como foi que a TV Tupi abordou o caso? Como foi que a TV Record abordou o caso? Como foi que a Folha de São Paulo abordou o caso? Como foi que o Estadão abordou o caso? Como foi que o Jornal do Brasil abordou o caso? Como foi que a revista Manchete abordou o caso? Por que nenhuma dessas perguntas é feita?

    2. A abordagem dada pela TV Globo foi menos responsável pela tragédia pessoal desse menino do que a abordagem dada pela revista Veja? A da TV Tupi foi menos responsável por isso? A da TV Record? A da Folha de São Paulo? A do Estadão? A do Jornal do Brasil? A da revista Manchete?

    3. O fato é o seguinte. Muita gente era CONTRA a tortura, e ao mesmo tempo era CONTRA a opção pela luta armada. A diferença entre a Rede Globo e a revista Veja dos tempos de Mino Carta é que a primeira JAMAIS denunciou a tortura, ao passo que a segunda denunciou. Em reportagem de capa. Com todas as letras. Sem meias palavras. É curioso, no entanto, que Mino Carta, e não Roberto Marinho, seja apresentado hoje como “simpático” aos torturadores.

    Responder

    • Flávio Furtado de Farias

      10/06/2012 #22 Author

      É que você sabe, não é Jotavê, não há jornalismo isento.
      Ser isento é inumano, é trabalho hercúleo.
      O que não significa dizer que não se deva fazer um esforço para isto, não é Pannunzio?

    • Jotavê

      10/06/2012 #23 Author

      Concordo que não existe imparcialidade. Mas existe honestidade intelectual (por oposição à manipulação de dados), existe riqueza argumentativa (por oposição à pobreza ideológica), existe a profundidade (por oposição ao simplismo). Essas oposições têm que ser resgatadas. O Brasil está farto de manipulação ideológica. O estilo Fox News (ou Granma, tanto faz) já deu o que tinha que dar. Queremos inteligência!

    • Flávio Furtado de Farias

      10/06/2012 #24 Author

      Deve-se ter honestidade intelectual. O difícil é separar “desonestidade intelectual” de “desinteligência”.
      Ou seja, quando é que o indivíduo está argumentando utilizando todo seu potencial, ou apenas fingindo não conhecer (ou lembrar de) determinadas informações ou contextos.
      Mas, acho que vale o esforço de ser honesto consigo mesmo e envidar esforços em construções coerentes e com argumentos, evitando as falácias.

    • Justo

      10/06/2012 #25 Author

      Acho que a questão central é que hoje a Rede Globo, diferentemente do Mino Carta não posa em defesa da esquerda, como se jamais tivesse estado do outro lado.
      Simples assim. Todos conhecemos a historia da rede globo. Não há o que se lançar de luz sobre seu passado. Já no caso do Mino Carta a história realmente parece diferente.

    • maisvalia

      10/06/2012 #26 Author

      Cara, ai você pisou na jaca.
      O estilo da Fox News nada tem a ver com o Granma.
      A Fox entrevista quem discorda de suas ideias. O Granma só faz oba oba.
      Não confunda alhos com bugalhos.
      Quer dizer o contrário da Fox diga MSNBC ou não diga nada.

    • Jotavê

      10/06/2012 #27 Author

      Voltaremos ao assunto, Mais Valia. Minha tese, no entanto, é exatamente essa – um órgão de imprensa como a Fox News reproduz a estrutura básica que encontramos num ambiente totalitário. A diferença, claro, é que num país democrático o cidadão tem acesso a OUTRAS fontes de informação além dessa. Mas, considerada isoladamente, não há diferenças substantivas entre uma emissora estatal cubana e a Fox News. Ambas são intelectualmente desonestas.

    • glauco

      11/06/2012 #28 Author

      Você não conhece Cuba, fui lá e vi de perto a “liberdade” que se tem . Ou você não conhece o Gramma, ou não conhece a Fox.

    • Jotavê

      11/06/2012 #29 Author

      Não entendeu meu ponto, Glauco. Ninguém está dizendo que existe liberdade em Cuba. Estou dizendo que não existe espaço para a PLURALIDADE na Fox News. E não existe, mesmo – a não ser como resíduo. A resultante é totalitária.

    • maisvalia

      11/06/2012 #30 Author

      saiu no lugar errado
      Então você nunca assistiu a Fox meu caro, só ouviu falar.
      Os dois lados debatem lá e quebram o pau ao vivo e em cores.
      Assista primeiro e critique depois.
      E não junte o escândalo do Murdoch na Inglaterra com a TV nos EUA.
      O contraponto da Fox, como eu disse, é a MSNBC.

    • Big Head

      11/06/2012 #31 Author

      Totalitária? Menos, Jotavê, menos. A Fox ocupa um espaço legítimo, um nicho redneckiano em meio a uma imprensa majoritariamente liberal, a esquerda possível nos istêites. O fato é que o pensamento conservador, apesar de dominar amplas fatias da polação americana, a ponto de um Rush Limbaugh ser líder de audiência, era subrepresentado na mídia mainstream. A Fox ocupa justamente este espaço. Que mal há nisso? O que isso tem a ver com totalitarismo, minha Santa Hannanh Arendt? Veículos de comunicação com posições ideológicas claras é o que há de mais democrático, ora essa. Caso haja manipulações, que sejam desmascaradas. Condenar um jornal, uma tevê ou uma rádio por suas posições ideológicas é que é uma semente totalitária. Querer impor uma quimérica imparcialidade ou obrigá-las a dar espaço ao “outro lado” também. É claro que temos que louvar espaços que primam pela pluralidade, mas esta é mais uma pedra no jogo, que tem de ter espaço pra todos. O resto é conversa de quem não suporta a liberdade de expressão e quer encabrestá-la.

    • Big Head

      11/06/2012 #32 Author

      Realemente, comparar a Fox com o Granma foi supimpa…

    • Big Head

      11/06/2012 #33 Author

      “Títcher”, você cobra isenção de seu pares da BlogFrog? Claro que não, né.

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