Em busca do aquecimento global II – O mar virou sertão

O que estavam fazendo os bisavós dos tataravós dos seus tataravós seis mil anos atrás ? Se você tem ascendência dos primeiros povos que habitaram o continente, provavelmente eles deveriam estar comendo ostras e mariscos em algum lugar do litoral brasileiro.

A água fértil e a comida farta fizeram com que muitas gerações dos nossos antepassados fixassem suas malocas próximo de praias como as do litoral sul do estado de São Paulo quase ao mesmo tempo em que os povos nômades do deserto africano deitavam as primeiras sementes nas terras ricas do Crescente Fértil.

Mas como é possível saber hoje o que os seus antepassados estavam fazendo tanto tempo atrás ? Simples. Eles deixaram um testemunho dessa passagem e das coisas que faziam — não só aqui, isso aconteceu em praticamente toda a zona costeira do planeta.

Como ainda não havia internet, videogame nem agricultura, eles dedicavam quase todo o tempo útil à coleta de comida. E o que come alguém que vive na beira do mar ? Óbvio: peixes e frutos-do-mar.

Os frutos-do-mar, ostras e outros moluscos saborosos e nutritivos, como se sabe, vêm embalados em conchas formadas de carbonato de cálcio, a matéria-prima da cal e da argamassa. São muito resistentes, mais do que as bitucas de cigarro e as sacolas plásticas de supermercado — resistem quase incólumes à passagem de dezenas de milhares de anos.

Pois nossos tatara-tataravós comiam muitos mariscos. Naquela época não havia campanha pelo banimento das conchas nem projetos sanitários muito eficientes. Eles iam jogando as cascas de ostras e mariscos em um mesmo lugar. Com o passar do tempo, formavam-se morrotes de conchas empilhadas a esmo. Imagine quantas conchas são capazes de comer gerações e mais gerações que foram se sucedendo nos mesmos lugares.

Esses morrotes são os sambaquis. Alguns têm 20, 30 metros de altura e podem ser avistados de longe. Constituem importantes acervos arqueológicos porque dizem muito a respeito dos hábitos alimentares, culturais e até religiosos dos nossos predecessores.

Até bem pouco tempo atrás havia milhares de sambaquis distribuídos pela costa brasileira. Com o tempo eles foram sendo depredados. Em Salvador, por exemplo, cre-se que as primeiras obras de engenharia dos colonizadores europeus foram erguidas com matéria-prima extraída de sambaquis. Queimadas, as conchas produzem a cal, utilizada para fazer a argamassa e também a pintura das paredes de adobe.

Muitos desses sambaquis chegaram incólumes aos nossos dias. Hoje estão protegidos como patrimônio histórico e arqueológico. Só no litoral paulista havia mais de cem. E, apesar da destruição em massa que ocorreu nos últimos 500 anos, ainda há cerca de 30 mapeados e íntegros.

Os sambaquis podem dizer muito acerca da vida no período neolítico.  E não apenas pelo que contêm, mas especialmente por sua localização. É ela que importa para os pesquisadores que tentam reconstituir a história do clima ao longo das várias eras geológicas.

Quem me contou isso foi uma pessoa admirável, o paleoclimatologista Kinitiro Suguio. Ele é um desses pesquisadores apaixonados. Devotou sua vida a decifrar enigmas que brotam do solo ou permanecem guardados no subsolo para  descrever como se comportava o clima muito antes do início da História.

Kinitiro Suguio tem 75 anos de idade e uma disposição invejável. Tanto para a pesquisa em campo quanto para a produção de trabalhos acadêmicos e livros. Fala quatro línguas, escreve bem em todas elas e dedica o pouco tempo que sobra à tradução de textos científicos.

Kinitiro é um dos chamados céticos em relação à hipótese do aquecimeto global. Ele firmou posição a partir de um trabalho extenso de demarcação da linha costeira no neolítico brasileiro. A posição geográfica dos sambaquis foi uma das fontes de dados que ele utilizou para esse fim.

O trabalho consiste em colher amostras das conchas dos sambaquis e datá-las pelo método do Carbono-14. Com isso, descobre-se quando eles foram formados. Como ficavam bem perto do mar, a no máximo alguns poucos metros de distância, demarcam exatamente onde estava a linha de maré no passado.

No mapa acima você pode ver exatamente como eram os contornos da costa da região de Iguape/Cananéia/Ilha Comprida, que fica na divisa entre os estados de São Paulo e Paraná. Os pontos vermelhos demrcam onde estão os sambaquis. A área azulada revela onde o mar estava há cerca de seis mil anos. Pelo que se pode ver, ele avançava sobre o continente até ser contido pelas serras a oeste. Depois, foi recuando lentamente até o ponto em que se encontra nos dias de hoje.

De acordo com o professor Kinitiro, o mar estava cinco ou seis metros acima do nível atual quando nossos antepassados comiam frutos-do-mar na beira da praia. E por que estava cinco ou seis metros mais alto ? Porque a Terra estava vivendo um período de aquecimento. Com mais calor na atmosfera, o gelo das calotas polares e das geleiras derrete, fazendo o mar avançar sobre as terras mais baixas.

O processo é muito parecido com o que está acontecendo nos dias de hoje, em que o planeta atravessa outro período de aquecimento. Com a diferença de que naquele tempo os homens não tinham carros, não haviam descoberto o petróleo e eram pouco numerosos.

O que levou o mar a crescer naqueles tempos imemoriais foram condicionantes naturais — os ciclos da atividade solar, as variações da órbita da Terra ao redor do Sol, a inclinação do eixo do planeta. Embora não houvesse o efeito-estufa produzido pelo homem, havia outros fatores naturais atuando sobre o nível dos oceanos. Exatamente como hoje em dia.

A análise dos anéis que se formam no tronco das árvores também revela que, enquanto a temperatura era mais quente e o mar era mais alto, havia muito mais gás carbônico disperso na atmosfera. De acordo com o professor Kinitiro, esses períodos foram muito prolíficos para a vida no planeta.

Como não havia cidades estruturadas, nem universidades, nem climatologistas, o sobe-e-desce do mar não infligia medo a ninguém. A vida era mais ou menos como um domingo na praia. Se as ondas começam a lamber a esteira onde você se refestela no sol, você simplesmente se levanta, pega a tralha toda e recua até um ponto em que a água não molhe o frango e a farofa.

Bem, hoje isso não é tão simpels assim. Nossos predecessores eram nômades, moravam em barracos construídos com madeira e palha e podiam se dar ao luxo de mudar pra lá e pra cá porque não havia cercas nem especulação imobiliária.  Hoje o mundo está cheio demais. E a maior parte da população vive em cidades construídas com ferro e concreto. É praticamente impossível pegar a tralha e subir um pouco mais para salvar o frango e a farofa da civilização ocidental (e da oriental também).

Os cientistas, quase todos, têm notado que o nível do mar, como no período em que nossos ancestrais estavam chegando por aqui, está se elevando. Atribuem isso a fatores antrópicos — palavra que se traduz como a influência do homem sobre o meio-ambiente.

Mas o que denotam os sambaquis, hoje tão distantes das praias, é que isso já aconteceu antes. Sem alarde, sem supresas, sem esse sombrio milenarismo climático que tomou conta dos humanos em função do efeito-estufa.

Se o mar está crescendo, isso só pode estar acontecendo em função do aumento da temperatura do planeta. Esse é um argumento aceito tanto pelos adeptos da hipótese do aquecimento global quanto por seus antagonistas, os cientistas que se autodenominam céticos. A questão que os divide é: por que a temperatura está aumentando (ou pelo menos teria aumentado nos últimos 150 anos) ?

Revolução industrial, consumismo desenfreado, emissões descontroladas de gás carbônico, gente demais no planeta, lixo em profusão, poluição do ar,  dirão os aquecimentistas. Ciclo solar, órbita da Terra, influência da Lua, reiterarão os céticos.O fim dos tempos, a imagem do apocalipse, pensarão os crédulos no global warming. Nada demais, o mesmo de sempre, retorquirão os descrentes.

Quem tem razão ?

Não sei. Mas os argumentos dos céticos, que hoje lutam para quebrar a hegemonia aquecimentista, não podem simplesmente ser desprezados como têm sido. Até porque os dados que brotam dos sensores dos satélites e das sondas colocam um ponto de interrogação enorme onde antes havia apenas exclamações pró-aquecimento antrópico.

Assim como os alertas dos aquecimentistas. Não é preciso ser climatologista para ver o quanto nosso planetinha tem sido vilipendiado e maltratado. Não é preciso ser ambientalista militante para saber que muitas espécies animais e vegetais estão se extinguindo, que os rios estão sendo envenenados e assoreados.

Daí a querer limitar o crescimento da economia planetária, especialmente num momento de ascensão do chamado Terceiro Mundo, vai uma distância enorme. E será que precisa mesmo ?

Os adeptos da teoria do aquecimento dizem que, com concetrações tão altas de CO2, vai haver um momento em que a Terra dará um coice na humanidade criando uma situação climática insuportável. Se o aumento da temperatura da atmosfera ultrapassar dois graus, o processo estará fora de controle e não conseguiremos mais deter a reação de Gaya, que será terrível e fulminante.

Na base dessa assertiva, a aceitação passiva de que o gás carbônico retém o calor que emana da superfície aquecida pelo sol. Quanto mais carbono disperso, mais quente ficaria o planeta, menores as geleiras, mais alto o nível do mar.  Mas…

Para nosso conforto existencial, pelo menos para um conforto imediato, parece que Gaya é mais indulgente do que crêem os aquecimentistas. Observe o gráfico abaixo e você vai entender o por quê.

Essas linhas foram montadas a partir da observação do nível do mar por vários satélites diferentes. Elas revelam que hove uma elevação de cerca de 3,5 centímetros entre 1993 e 2005, com uma média de 2,66 milímetros de acréscimo anual. Se o ritmo realmente for esse, logo, logo o Rio de Janeiro ficará sem a Zona Sul, Veneza terá sumido do mapa e Nova York se transformará num estuário de concreto.

Mas, antes de se desesperar e oferecer sua cobertura na Vieira Souto a algum desavisado da iminência desse dilúvio pós-moderno, veja com atenção o que acontece com as curvas no canto direito do gráfico. Elas sofrem uma inflexão a partir de 2005 e parecem baixar a partir de então.

A partir do que está exposto no gráfico, os céticos dizem que é possível responder objetivamente a algumas indagações sobre as mudanças climáticas. O mundo esquentou nos últimos anos ? Esquentou. O mar subiu nos últimos anos ? Sim, subiu. A atmosfera continua se aquecendo ? Nos últimos 150 anos, definitivamente sim. Nos últimos dez anos, definitivamente não. O mar continua subindo ? Pelo menos nos últimos sete anos, não. E para onde vai a água, se o mar não está subindo ?

Para saber essa resposta, não deixe de ler o blog amanhã.

 

Comentários

2 thoughts on “Em busca do aquecimento global II – O mar virou sertão

  1. Ops! Correção:

    “os debates que precisam das luzes da honestidade intelectual”.

  2. Enquanto os representantes das gerações alienadas pela Escola de Frankfurt colaboram com a agenda das Fundações mega biolionárias (Ford, MCarthur, Rockfeller…), alguns brasileiros dotados apenas de humildade e bom senso começam a acordar do sono entorpecedor, a que fomos subjugados por essa desonesta engenharia social gramsciana.

    Convido aos “meninos do MSM” a postarem também seus comentários aqui, no Blog do Pannunzio, para “aquecermos” os debates que precisam ser das luzes da honestidade intelectual e da busca sem tréguas da verdade.

    Sou a biônica, “formiga atômica”! (rsrsrs!)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *