No Museu do Instituto de Oceanografia da USP, em São Paulo, há um brinquedo espetacular. Custou US$ 200 mil, e acho que deve valor...

Algas calcárias: debaixo d’água, ajudando a filtrar a atmosfera do planeta

No Museu do Instituto de Oceanografia da USP, em São Paulo, há um brinquedo espetacular. Custou US$ 200 mil, e acho que deve valor cada centavo. Trata-se de um enorme globo de PVC ladeado por quatro retropojetores que, sincronizados, projetam imagens dinâmicas na bola.

O globo tem uns dois metros de diâmetro e fica dependurado a pouco mais de um metro e meio do chão. As imagens projetadas nele são animações de fotos do satélite NOAA. Ali pode-se ver com clareza o movimeto das correntes oceânicas, a evolução dos ciclones e anticiclones atmosféricos e até o vôo dos aviões de carreira, num enorme congestionamento celestial no Hemisfério Norte.

Mas o que mais me chamou a atenção foi uma projeção dos efeitos que o alteração da acidez das chuvas provoca nos bancos de corais que existem ao redor do planeta. A situação hoje, a julgar pelo que vi ali, já é extremamente grave. Os bancos de corais brasileiros, por exemplo, estão todos comprometidos, envenenados pela sujeira que chega ao mar in natura e também pela mudança da acidez das águas oceânicas.

As única exceções são as formações próximas ao arquipélago de Fernando de Noronha. Não é em nada diferente do que acontece no restante do planeta. Mesmo nas localidades mais recônditas do Oceano Índico já há estragos consideráveis.

Ocorre que o mesmo mal que afeta os corais ameaça as algas marinhas que fixam o carbonato de cálcio. Como eu não sou especialista em química, muito menos em biologia marinha, perguntei exaustivamente a quem entende como esse processo de degradação acontece. Para explicar-me, os professores que entrevistei contaram uma longa história, que remonta a tempos imemoriais, em que a vida no planeta ainda estava reduzida a organismos unicelulares de baixa complexidade que podiam ou não se agrupar em colônias.

Para começar, lembraram-me algo que muita gente aprendeu e esqueceu — eu mesmo havia me esquecido disso. Há uma gritante diferença entre algas e corais. Corais são animais que produzem o carbonato de cálcio que vai formando os recifes. Algas são seres fotossintéticos — “plantas”, para facilitar as coisas.

Mas algas e corais muitas vezes aparecem associados. Nos grandes bancos de corais, cerca de metade da superfície é recoberta por algas. Li na dissertação de mestrado do pesquisador Carlos Eduardo Amâncio, produzida para o Instituto de Biociências da USP, que a respiração dos corais produz CO2. As algas utilizam esse gas carbônico para sintetizar o CACO3 — o popular carbonato de cálcio. Ao sintetizar o carbonato de cálcio, as algas coralinas atuariam como autênticos e importantes sequestradores de carbono.

Kinitiro Suguio, o paleoclimatologista que me guiou na incursão em busca de indícios que confirmem o aquecimento global, foi de uma paciência cativante. Ele não se importou de dizer e repetir zilhões de vezes a mesma coisa para mitigar minha ignorância completa no assunto. Ao final, fez-se a luz — uma luzinha tênue, é verdade! — mas consegui o suficiente para compor esta série sobre o aquecimento global.

Uma das viagens que fizemos foi no tempo, e não no espaço. “Ah, esse blogueiro enlouqueceu!”, dirão alguns de vocês, descrentes da possibilidade de se fazer uma viagem no tempo com a tecnologia contemporânea. O equipamento para isso, no entanto, está bem aí, sobre o seu pescoço. Chama-se mente. Viagem mental.

Voltamos um bilhão de anos. Chegamos a um ponto em que respirar era coisa de gente pequena. Havia bem menos oxigênio disperso no ar do que nos dias atuais, em que a concentração média chega a 21 % dos gases atmosféricos.

Não fique acanhado se você não souber identificar o tal CaCO3. Lembre-se da casquinha que envolve os moluscos, as conchinhas que todo mundo um dia catou na praia. Aquilo ali é o carbonato de cálcio, fazendo um exercício de simplificação para tornar o assunto palatável (até porque meu nível de informação não vai muito além disso).

Pois bem: essas concnchinas, que existem aos quintilhões, são verdadeiros depósitos de carbono. Cada uma das moléculas que compõem as conchas tem um átomo de cálcio, um de carbono e três de oxigênio. O que as algas fazem é capturar uma molécula de CO2 (gas carbônico) e fundí-la com um íon de cálcio e outro de oxigênio.

No tempo em que estamos — estamos bem distante de hoje, um bilhão de anos atrás, lembra-se ? — encontramos algas trabalhando duro para obter carbono, fazer a fotossíntese e sintetizar o carbonato de cálcio. Como elas conseguiam o CO2 ?

Lembre-se do que acontece quando você abre uma latinha de Coca-Cola. Ali dentro há gas carbônico misturado com o refrigerante. Quando você abre a lata, um pouco dele escapa. Quanto mais fria a lata, menos gas escapa. Quanto mais quente, maior é a bagunça residual. Na natureza é do mesmo jeito. Quanto mais quente a água, menos gas carbonico na dissolvido nela. Quanto mais frio, menos gás carbônico no ar.

Quando as algas terminavam seu ciclo vital, quando morriam, o “esqueleto” de carbonato de cálcio se depositava no fundo dos mares e lagos. Isso acontecia a todo momento. Formaram-se enormes depósitos de algas mortas com seus esqueletinhos perpétuos.

Esse material foi se sedimentando aos poucos. E até hoje pode ser encontrado em abudância por aí. O solo brasileiro é riquíssimo em calcário, utilizado na agricultura, na indústria química, e foi fundamental para a construção do modelo de habitação que adotamos hoje em dia.

Queimado, o calcário libera novamente o CO2 e vira matéria-prima para a fabricação de cimento. In natura, serve para corrigir a acidez do solo e até para a pintura de paredes, que não por acaso são chamadas de “paredes caiadas”.

Mas qual é a relação disso com a sujeira química que lançamos todo dia na atmosfera ?

Existe uma relação — comprovadamente ruim. O CO2 disperso na atmosfera em concentrações cada vez mais altas (há duas vezes mais CO2 no ar do que há dois séculos) é lançado na água do mar pela chuva na forma de ácido carbônico. Esse ácido se combina com outros em sua ação deletéria (dióxido de enxofre e outros venenos formados por íons de hodrigênio e nitrogênio).

Agora, lembre-se do papel do calcário na agricultura. Ele não é utilizado para corrigir a acidez da terra ? Então!, no mar acontece a mesma coisa. O CaCO3 reage com os ácidos que a chuva despeja na água, e que a tornam cada vez mais ácida. E os ácidos o trucidam como um lutador de vale-tudo trucida o outro.

Nesse ambiente cheio de poluentes, o esqueletinho das algas — o mesmo ocorre com os corais — é corroído pelos ácidos e acaba não se depositando no fundo do mar. Os bichinos — corais — e as plantinhas — algas — que deveriam fazer a faxina simplesmente não resistem e entram em colapso.

Na dissertação de Carlos Eduardo Amâncio fiquei sabendo que, até determinado ponto, o aumento da concentração de CO2 pode até favorecer o crescimento das colônias de algas e a fixação do carbono. Mas, de um determinado momento em diante, inverte-se o processo, e as algas não conseguem mais cumprir seu papel de faxineiras. É o que está em curso neste momento, dizem os especialistas. E vai piorar a ponto de quase não termos recifes de corais sadios em 2050.

Agora que já entendemos isso, podemos passar para o outro assunto que prometi abordar neste post: as geleiras. Antes disso, apenas um comentário. Em relação às algas calcárias, fiquei preocupado com o que vai acontecer no futuro. Coitadas: tão trabalhadoras, tão esforçadas, tão importantes, e tão maltratadas.

Até aqui, ponto para os ambientalistas.

Agora vamos para o problema das geleiras. O que isso tem a ver com essas algas ?

Em princípio, nada, nenhuma relação. A não ser o fato de que os adeptos da hipótese do aquecimento global dizem que o mesmo fenômeno — as emissões gigantescas de CO2 na atmosfera — provoca tanto a morte das algas quanto o aquecimento do planeta.

Bem, o que se diz por aí é que as geleiras estão sendo destruídas pelo aquecimento global. E o planeta está esquentando porque o gás carbônico funciona como um cobertor, absorvendo o calor que deveria se dissipar no espaço.

Será que isso é verdade ?

Para começar, um assunto que está dando o que falar na área de comentários. Muitos leitores céticos dizem que o derretimento das geleiras não afetaria o nível dos oceanos. Isso é verdade em termos. Vale para o Polo Norte, mas não vale para as geleiras que ficam sobre áreas continentais. Eles argumentam com o Princípio de Arquimedes, uma lei segundo a qual todo corpo submerso em um fluido sofre um empuxo  para cima igual ao peso de fluido deslocado. 

Quem quiser pode fazer uma experiência caseira muito simples (que os bebedores de uísque fazem todo santo dia) para verificar sua veracidade. Basta colocar água até a borda de um copo e introduzir nele algumas pedras de gelo. O gelo, que tem densidade menor do que  água líquida, vai boiar. E enquanto ele derreter, nenhum gota mais extravasará a borda do copo.

Nautilus, o primeiro submarino a atravessar a calota polar por baixo.

E por que o Princípio de Arquimedes vale para o Polo Norte ? Porque o Polo Norte é, grosso modo, uma pedra de gelo flutuando no copo de uísque do planeta. Boa parte dele está submersa, como acontece com os icebergs. Apenas a pontinha aparece acima da superfície.

O homem conseguiu atravessar essa imensa boia de gelo em 1958, quando o submarino norte-americano Nautilus foi navegando por baixo até atingir o Polo Norte. Depois, em 1962, foi a vez dos russos.

Mas o que dizer das geleiras dos Himalais, da Gorenlândia e da Europa central ? Se elas derreterem, como prevêem os ambientalistas, a água acumulada vai descer para os vales, rios, lagos e chegar ao mar. E isso é um dos poucos consensos entre os cientistas aquecimentistas e o grupo dos céticos, que os combatem.

Ocorre que os primeiros acreditam que o derretimento já está ocorrendo e em ritmo acelerado. Os céticos desmentem. Dizem que houve um pico de calor, um “interglacial” , que já terminou ou está terminando. E que o derretimento das geleiras não passa de história pra ambientalista dormir.

Quem tem razão ? Hoje, o placar está um a zero para os aquecimentistas. Será que o post vai terminar com um resultado favorável a eles ?

Vamos ver o que se pode afirmar sem a necessidade de tergiversar sobre o clima.

A edição número 19 do Journal of Quaternary Reviews traz um artigo assinado pelo geólogo Richard B. Alley, professor da Universidade do Estado da Pensilvânia, contestando a afirmação de que a temperatura na Groenlândia esteja aumentando. Analisando cilindros de gelo , ele chegou à conclusão de que em todos os períodos interglaciais  (períodos de aquecimento global) dos últimos dez mil anos as temperaturas estavam entre 6 e 10 graus Celsius acima do patamar em que se encontram hoje.

O gráfico aqui embaixo contém uma síntese desses estudos. Observe que, do lado direito, a curva da temperatura está assinalada em vermelho. Essa marca representa o período que transcorreu desde a Revolução Industrial.

Outro estudo, este da Universidade de Illinois em Urbana, conclui que as anomalias na área de cobertura de gelo do Ártico praticamente desapareceram. O pico do degelo aconteceu em 2007, quando houve uma redução de quase 2,5 milhões de quilômetros quadrados. Hoje, de acordo com o estudo, ela está muito próxima de sua média histórica, no mesmo nível em que se encontrava em 1995.

A recuperação do gelo que recobre a calota polar causou transtornos à petroleira Shell. A empresa teve que paralisar o processo de construção de uma plataforma que se preparava para iniciar a exploração de petróleo na costa norte do Alaska em função das piores nevascas da década, registradas em maio último.

Corroborando essas observações, as 3500 boias do sistema Argos, que perscrutam todos os oceanos até uma profundidade de 2 mil metros, não conseguiram apontar nenhuma variação na temperatura da água desde 2003.

A despeito do esforço retórico dos adeptos da hipótese do aquecimento, neste quesito quem está em vantagem são os céticos. Portanto, o post de hoje terminou com um retumbante empate: têm razão os ambientalistas sobre o estrago que as chuvas ácidas provocam entre as algas que trabalham como sequestradores de carbono. Mas têm razão os céticos quando dizem que não há evidência de que a ação humana seja a causa determinante do aquecimento global.

Se, por um lado, esse empate não nos ajuda a firmar um ponto-de-vista definitivo sobre o problema, pelo menos ele tem o condão de abrir espaço para a esperança de que as catástrofes anunciadas para muito breve podem não acontecer. É um enorme conforto existencial para todos os que, como eu, pretendem ver os netos crescerem saudáveis neste maltratado planetinha.

Amanhã vamos discutir outro assunto interessante: a afirmação dos céticos de que, além de não estar esquentando mais, o planeta caminha para uma fase de resfriamento.

Comentários

  • silva

    18/06/2012 #1 Author

    Ótima discussão. O leigo aqui fica cheio de novas dúvidas e agradece por todas elas.

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  • Jailson

    17/06/2012 #2 Author

    Big,

    Veja que eu não tomei nenhum partido.Nem contra nem a favor. Quando eu coloquei o comentário eu quis dizer que a coisa não é tão simples de se definir. Que alguns de nós leigos temos certezas absolutas, porém a ciencia e renomados cientistas ainda tem dúvidas.

    Porém, a maioria das dúvidas não está relacionada ao aquecimento. Porque para esse tópico PARECE que há maior consenso. A dúvida cientifica é se esse aquecimento está sendo provocado pelo aumento do CO2 que o homem tem aumentado na atmosfera ou se é consequencia de causas naturais. Por exemplo um dos criticos de algumas visões do IPCC, o renomado Professor Tim Ball, disse que acredita no aquecimento global. O que ele não acredita é na influencia do CO2. Também, O Professor Jonh Christy afirma que “é certo que o planeta aqueceu nos ultimos 150 anos, mas é duvidoso afirmar que sua causa é consequencia da atividade humana.

    Como ve meu caro amigo, renomados cientistas tem duvidas. Nós não podemos ter a certeza. Essa foia principal mensagem do meu comentário.

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    • Big Head

      17/06/2012 #3 Author

      Tudo certo, Jailson. É que achei seu comentário meio contraditório ao começar com um argumento de autoridade e terminar no mais puro relativismo anticientífico. Ou bem as instituições ianques listadas por você possuem a chave do templo da verdade sobre o assuno ou então ninguém, à moda do relativismo mezzo anárquico mezzo porralouca do Raulzito, pode arrotar a teoria mais veraz. O fato é que a boa poesia do roqueiro baiano tem servido aos piores embustes, basta pensar na invocação da metamorfose ambulante por quem, no poder, passou a fazer tudo o que satanizava quando era oposição. O fato é que o discurso alarmista do ambientalismo tem sofrido várias baixas, coisa que o All Bore e suas mentiras convenientes não irão reconhecer, por supuesto. Deixemos então as águas rolarem para ver aonde as previsões irão atracar.

  • Big Head

    17/06/2012 #4 Author

    Jaílson, bem científica essa frase do Raulzito, né? Dizer que o debate se dá entre instituições sérias que referendam as hipóteses do aquecimento e da antropogênese e uns poucos cientistas malucos que ousam refutá-las é apostar no obscurantismo e entrar de cabeça na política. O fato é que o discurso alarmista vem sofrendo várias baixas, tanto em termos puramente científicos, com a demonstrações cabais das falhas dos modelos usados para criar as previsões, quanto do ponto de vista do discurso, com gente como o Lovelock reconhecendo o exagero próprio e de seus pares.

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  • Jailson

    16/06/2012 #5 Author

    A Sociedade Americana de Metereologia, que está ligada diretamente aos estudos complexos do clima, concluiu que (i) a atmosfera, oceano e superfície terrestre estã0 aquecendo, (ii) que os seres humanos têm contribuído significativamente para essa mudança, e (iii) que as mudanças climáticas ainda continuarão a ter impactos importantes sobre as sociedades humanas, sobre as economias, sobre os ecossistemas e sobre a vida selvagem ao longo do século 21 (http://www.ametsoc.org/policy/2007climatechange.html).

    Também, a Poderosa Academia Nacional de Ciencias dos Estados Unidos, que dispensa apresentação, afirma que “a maioria dos cientistas concorda que o aquecimento nas últimas décadas tem sido causado principalmente por atividades humanas que
    aumentaram a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera (http://dels-old.nas.edu/dels/rpt_briefs/climate_change_2008_final.pdf).

    Não adianta buscar e citar o pensamento de um ou outro cientista. Acima estamos citando um conjunto de estudiosos, por meio de suas acadmias.

    Para indicar um possível favorecimento a favor da tese do aquecimento global teriamos que imaginar um grande complô entre a grande maioria dos cientitas, inclusive renomados ganhadores de premios Nobel. O que acho improvável.

    Na verdade, na minha concepção existem alguns dados que favorecem o lado que acredita no processo de aqucimento e dados que reforcam a tese dos que refutam as causas antropogenicas.

    Como dizia Raul Seixas, não tem certo nem errado, todo mundo tem razão. Porém, o ponto de vista é que é o ponto da questão.

    Só fico chateado com as expressões petralha, ecotralha ou ecopetralha. Isso é uma discriminação terrivel e inaceitavel, porque como vimos alguns dos mais renomados cientistas defendem a tese do aquecimento.

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