A origem da barganha eleitoral no Brasil, por Luiza Erundina

Alguns dias após o encontro do ex-presidente Lula com o deputado Paulo Maluf, nos jardins da mansão da rua Costa Rica, na capital, para selar o apoio do PP a Fernando Haddad, candidato a prefeito de São Paulo pelo PT, você já deve ter se perguntado: por que um fato habitual na nossa vida política, a aliança entre partidos com origens, projetos e compromissos antagônicos, causou tanta perplexidade e indignação da maioria dos brasileiros?

É que, desta vez, do modo como se deu e pelo simbolismo que expressou, os limites do razoável e do tolerável foram extrapolados.

Nenhum gesto é tão poderoso e capaz de impactar tanto a opinião pública quanto aquele manifestado publicamente por figuras emblemáticas como as citadas acima.

Daí a preocupação que se deve ter com o sentimento que tais gestos provocam sobretudo nos jovens, visto que a dimensão pedagógica da política exige que ações e atitudes de lideres tenham como perspectiva não apenas a conquista do poder, mas também elevar a consciência e a politização da sociedade.

Contudo, não devemos ficar estarrecidos e paralisados diante do fato consumado. Precisamos, isso sim, levar adiante a inadiável tarefa de reconquistar o poder político na cidade mais importante do país para colocá-lo a serviço, prioritariamente, dos setores populares, que são os mais atingidos pelo caos urbano que existe hoje.

Uma outra lição que se poderia tirar do lamentável episódio: colocar na agenda da sociedade o tema da reforma política e mobilizar forças sociais e políticas para pressionar o Congresso a aprovar uma reforma política que não se restrinja a simples mudanças nas regras eleitorais, como tem ocorrido, mas que repense o sistema político como um todo.

Há mais de uma década, governos, parlamentares e dirigentes partidários são unânimes em afirmar a necessidade premente de uma reforma política. Lamentavelmente, porém, isso não passa de retórica sem efeitos práticos.

A cada legislatura, o Congresso promete e ensaia algumas tentativas que logo se frustram. O debate tem ficado circunscrito a poucos parlamentares e não se consegue consenso sobre aspectos fundamentais de uma verdadeira reforma política.

Ficamos à mercê do que cada parlamentar pensa sobre a questão -quase sempre, um cálculo individualista sobre o que lhe convém, tendo em vista sua própria reeleição.

O parlamentar resiste, portanto, a qualquer mudança das regras sob as quais se elege sucessivas vezes.

No início da atual legislatura, o tema da reforma política voltou à agenda do Congresso, estimulado pelo discurso da presidente Dilma na sessão de instalação dos trabalhos legislativos, em fevereiro de 2011.

Duas comissões especiais foram então criadas para elaborar e apresentar propostas de reforma, uma no Senado, outra na Câmara. Ao mesmo tempo, parlamentares recriaram a Frente Parlamentar pela Reforma Política com Participação Popular, composta por deputados e dezenas de entidades da sociedade civil. Os esforços também se frustraram.

Essa talvez seja a oportunidade para se transformar a enorme e generalizada indignação gerada pela aliança do PT com o PP do Maluf em energia a ser canalizada na criação de um grande movimento em defesa de uma reforma política capaz de eliminar as práticas fisiológicas e barganhas eleitorais que amesquinham a política e afastam dela a juventude e os dignos cidadãos e cidadãs brasileiros.

LUIZA ERUNDINA DE SOUSA, 77, é deputada federal pelo PSB-SP. Foi prefeita de São Paulo entre 1989 e 1992

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – A origem da barganha eleitoral no Brasil – 03/07/2012.

Comentários

4 thoughts on “A origem da barganha eleitoral no Brasil, por Luiza Erundina

  1. Elevar a consciência e a politização da sociedade!
    Um perfeito sofisma para enfeitar um discurso polítiqueiro, nada mais, muito trololó, perda de tempo e falta de senso de realidade!
    Triste ver como representantes populares como Erundina, Lula e Maluf, em ordem alfabética se tornaram figuras inúteis, que não representam nada de novo, senão o continuísmo de um corporativismo perverso!
    Vou montar um museu de cera em São Paulo e estas pessoas serão representadas por latinhas bem fechadas com um aviso: “Não abra!” Esta será a melhor homenagem para estes tipos de representantes populares! Seus eleitores não estão convidados para o lançamento, não entenderão o significado das latinhas!

  2. Fábio,
    o que ela afirma no último parágrafo é inegável: é preciso dar limites à orgia de fisiologismo e barganhas políticas. Mas não há como extingui-la. Apenas essas barganhas devem ser feitas às claras, mediante compromissos interpartidários para gerar um programa de governo a ser seguido de fato. É a barganha ideológioca. Fisiologismo – das nomeações individuais à cessão de ministérios e secretarias – deve ser simplesmente extinto. Basta valorizar a carreira de servidor público e proibir nomeações políticas (ou mantê-las abaixo de mil, no governo federal – são 40 mil hoje).
    Mas quem é que vai botar o guizo no pescoço do gato?
    A própria Tia Erunda nomeou quem quis e quem não quis quando esteve na prefeitura. Quebrou a CMTC, entre outras proezas…
    Sds.,
    de MarceloF.

  3. Luiz Erundina, agora posando de vestal, sabia da parceria com Maluf e concordou com ela, como deixou claro em entrevistas. O que a incomodou foi a foto. Portanto, ao contrário do que ela afirma no artigo, o problema foi o meio, não a mensagem. Como diria um certo político pragmático, “Coliga, mas não fotografa!”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *