O lucro da selvageria

Bom, estive fora durante o fim-de-semana. Assisti à luta do UFC. Não mudei de opinião: aquilo é selvageria pura.

O arbítrio dos jovens que se lançam nessa vertigem de imitar os brutamontes bem-sucedidos não me parece ser maior do que o dos galos de briga. Na periferia das grandes cidades, há poucas escolhas possíveis para um garoto pobre: servir ao tráfico matando ou alistar-se como gladiador dessa nova modalidade esportiva.

Há também os virtuosos que conseguem se safar, encontram uma brecha na combalida educação e se tornam cidadão produtivos. Mas esse com certeza é um dos caminhos mais difíceis.

Agora, preciso confessar uma coisa: foi bom ver o Anderson Silva esbofeteando aquele xenófobo arrogante do Chael Sonnen. O cara é um lixo completo.

O que gostei de ver não foi a superação física, que sigo condenando. Mas certamente Chael Sonnen nunca mais dirá que não gosta de Anderson Silva porque ele e as demais crianças brasileiras estavam brincando na lama do Terceiro Mundo enquanto ele jogava videogame com os amigos numa cadeira confortável do Primeiro Mundo.

Desta vez, as pancadas tiveram o condão de repor a ordem na bagunça fascista dessa grande rinha chamada MMA. E Anderson Silva mostrou que, depois de espancar um adversário, pode ser cordial a ponto de puxá-lo pelo braço e pedir o fim das vaias.

Valeu, Anderson Silva. Apesar de eu não gostar do que você faz, adorei o que você fez!

Comentários

12 thoughts on “O lucro da selvageria

  1. Pannunzio, para mim, tudo isso foi um grande jogo de marketing que se deu ao longo dos 2 anos que precederam a luta. Das bravatas do americano à “ombrada” do brasileiro na foto oficial… tudo parte do show.
    Pratiquei artes marciais a vida toda, fui professor de judô durante a faculdade e, para mim, aquilo nada tem a ver com a filosofia dessas artes. A joelhada que o americano levou, já caido, poderia tê-lo matado ou deixado sequelas graves. A explosão de socos que se seguiu não teria parado se o juíz não interrompesse a luta. Com toda sua aparente cordialidade, Anderson Silva, bem como qualquer lutador desse esporte, entra no octógono para, se necessário, matar seu adversário.

  2. Venham administrar uma escola depois da massificação na divulgação desse esporte. Constatarão que crianças de cinco anos já elegeram seus “heróis”, aprenderam que uma joelhada é um golpe infalível e que o Anderson Silva é o máximo. Está difícil! Muito difícil controlar as crianças que teimam em mostrar como se faz uma imobilização. Então ficam as perguntas:

    – Estariam os pais assistindo essa brutalidade na presença dos filhos?

    – Os entusiastas e patrocinadores já consultaram os educadores para saber se esse “esporte” já chegou na escola?

  3. Caro Pannunzio,
    Já lhe ocorreu que as provocações do americano, e mesmo os revides do Anderson, possam ter sido puro jogo de cena, incentivado espertamente pelos managers em busca de mai$ ibope (e executados por eles para justificar os cachês)? Já parou para pensar em quanto de público a menos essa luta teria angariado sem essas provocações? Mesmo no formato mais respeitoso dos revides do Anderson, isso para mim é muito suspeito: não é do feitio dele. Quando a luta acabou e o Anderson abraçou o americano, imagino que eles tenham ficado aliviados com o fim da farsa das provocações. Para mim, essa parte foi completamente artificial. Financeiramente, faz sentido.
    Quanto à comparação com as rinhas, mesmo concordando com parte das suas críticas ao UFC, vejo um problema básico: os galos não entram ali voluntariamente.

  4. Quantos atletas das mais variadas modalidades chegam aos 37 anos, como Anderson Silva, no topo?
    Raras as modalidades com tão longa vida esportiva!

  5. Rinha de briga de galo dá cadeia no Brasil. Mas “seres humanos” se matando dá dinheiro e ibope. Isso é coisa para animais. O que separa essa gente dos bárbaros são somente alguns séculos. Gostei da sua frase final: “Valeu, Anderson Silva. Apesar de eu não gostar do que você faz, adorei o que você fez!”

  6. Uma modalidade de luta que não acha nada de mais que se massacre um adversário caído, não pode ter outro nome que não seja SELVAGERIA!

  7. Então ficamos assim.
    Quem falar mal do patropi, a lindeza maior que Dê abençoou, terra de mulheres maravilhosas e recatadas, paraíso educacional e cultural dos trópicos tropicais, referência universal da honradez e do escrúpulo, maior produtor mundial de doctores honoris causae, berço da lisura e do equilíbrio nos três poderes da república, oásis a ser alcançado pelo brucutus parlamentaristas, Shangri-lá para quem quer se afastar dos defeitos humanos, criadouro de das virtudes, vereda onde os Gersons jamais serão beatificados, deve ser espancado. Onjásiviu?
    E que fique claro para o xenófobo: no ritmo avançado em que caminhamos para a regressão, até atingirmos o objetivo final, a idade da pedra, é bom que você se atine. Apedrejar deve ser menos cansativo e doloroso que socar e desferir joelhadas, mesmo que inocentes.

  8. UFC é um horror! Lutas, qualquer uma delas, é um horror! Primitivo! E não se fala mais nisso! Pelo amor de Deus! Aqui não, né?!

  9. Gostei muito da sua escrita a respeito da luta do Anderson, nao gosto da “troglodisse” do estilo e nem sou chegado a vingancas, mas d certa forma, cada vez que um arrogante cai parece que a alma de tupiniquim fica “lavada”.

  10. Caro Pannunzio

    Permita-me discordar da sua avaliacao.
    Embora concorde em parte a respeito de seus dois artigos, tambem tenho que admitir que o MMA vem evoluindo de maneira a que a tecnica prevaleca sobre a chamada “brutalidade”.
    O sangue que muitas vezes jorra nas lutas de MMA, via de regra, eh resultado de traumas superficiais nas regioes do rosto, que soa altamente vascularizadas e pouco protegidas pelo tecido epitelial.
    Um fratura ou entorse de grau III durante uma partida de futebol nao gera sangramento, mas o trauma interno leva bem nmais tempo para se tratado.
    A verdade eh que, qualquer esporte de contato pode produzir danos graves a saude de seus praticantes.
    Que o diga o futebol americano, que eh o responsavel por traumas graves devido ao nivel de contato intenso e violento durante a sua pratica.
    A prova disso eh que um jogador de futebol americano dificilmente chega aos 35 anos de idade em condicoes fisicas que se possa chamar de saudaveis.

    Abraco, Pannunzio!

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