Demóstenes se foi. Mas ainda há 24 senadores que não veem mal no que ele fez.

Deu o previsto. Mas por um placar que preocupa pela licenciosidade de 24 senadores que, ou votaram contra a cassação (19), ou se abstiveram (5).

Quem são esses caras ? Ninguém jamais saberá. Até porque um sujeito que não vê motivos para condenar alguém tão sobejamente enrolado jamais teria a hombridade de declarar e sustentar publicamente seu voto.

Resta o consolo de saber que 56 senadores — 15 além do que o mínimo necessário — decidiram que Demóstenes não era mesmo digno de permanecer na Câmara Alta brasileira.

Esse placar, suficiente mas ainda assim raquiíico, dada a gravidade do que se comprovou, denota com assertividade que chegou mesmo a hora de acabar com o voto secreto. Vai longe o tempo em que essa prerrogativa tinha a justificativa de proteger parlamentares da pressão dos governos. Hoje, serve mesmo é para acobertar o corporativismo indecente que ainda assola o Congresso.

Com a decisão de hoje, somam dois os senadores afastados por quebra do decoro parlamentar. É um número pequeno, mas ainda assim infinitamente superior ao de condenações pelo Supremo Tribunal Federal, que até hoje não pôs na cadeia nenhum político.

O julgamento dos mensaleiros está aí. Com ele, a corte constitucional terá sua grande chance de sair do zero absoluto.

Comentários

12 thoughts on “Demóstenes se foi. Mas ainda há 24 senadores que não veem mal no que ele fez.

  1. Fábio,
    vc. está sendo otimista demais da conta. Vc. acredita piamente que os 56 que cassaram o Demóstenes realmente querem limpar a casa? Será que eles votariam assim se o réu fosse um senador do PT? Duvido muito.
    Cassação é um decisão eminentmente política. Quantos canalhas já não escaparam do cadafalso por força de suas ligações e cologações? Renan Calheiros, por exemplo.
    O JV disse que todos são obrigados a aceitar recursos financeiros de onde quer que venham. Modus em rebus, caro JV. Ninguém precisa aceitar grana de traficantes de drogas ou de bicheiros. Mas há quem ofereça seus serviços a eles.
    Sds.,
    de MarceloF.

    • O ponto é o seguinte. Se você aceita dinheiro, terá que dar algo em troca. Não tem por onde. Um indivíduo pode contribuir por idealismo. Uma EMPRESA só contribui em duas hipóteses: (i) medo de perder (ii) certeza de ganhar. Em qualquer um dos dois casos, o resultado líquido é o mesmo: superfaturamento, licitações fajutas, informações privilegiadas, e por aí vai.

      Se todo o problema fosse que os políticos “aceitam” dinheiro de criminosos, até que estaríamos bem. O problema é que as regras da política no capitalismo contemporâneo OBRIGAM os políticos a se banditizarem. Já não é opção de poucos. É necessidade para todos – direta ou indiretamente. O bandido não é apenas aquele que DÔA o dinheiro. É aquele que RECEBE. É ele, o deputado, o senador, do governador, o presidente da república, o prefeito, o vereador, que terá que oferecer, em troca das doações de campanha que recebeu, uma fatia do Estado na qual se instalam “homens de confiança” para assaltar os cofres públicos.

    • JV,
      concordo, em parte. Todos os políticos precisam angariar fundos para eleição. Quando uma empresa doa recursos para um (ou vários) candidatos, é óbvio que ela espera ter seus interesses defendidos. De certa forma, isso até é legítimo. ONGs e outras empresas fazem o mesmo, ou manipulam a opinião pública a seu jeito.
      O que me parece perigoso é aceitar dinheiro oriundo de crime. Traficantes, bicheiros, contraventores e larápios em geral querem mais que isso. Querem que o parlamentar barre investigações (ou as informe antes) da polícia federal, querem brechas legais novas para escapar da cadeia, querem imunidades. Isso é incompatível com o direito e com a democracia.
      O ideal seria que as campanhas não custassem nada e que qualquer um pudesse se candidatar, sem a preocupação com recursos financeiros. Só não vejo como operacionalizar essa ideia. Financiamento público? Brincadeira.
      Abs.,
      de MarceloF.

  2. Não sei quem são esses 24 senadores, nem o que pensam. Mas estou convencido de que, entre eles, há pessoas que simplesmente não conseguem viver contradições tão evidentes quanto aquela envolvida no voto da maioria dos senadores que cassaram o mandato de Demóstenes Torres. A legislação brasileira (semelhante, nisso, à legislação da maioria dos países democráticos do mundo) OBRIGA os políticos a levantarem verdadeiras fortunas junto à iniciativa privada para sustentar suas campanhas políticas. Hoje, é impossível a qualquer político levar adiante um projeto político nacional sem conseguir convencer empresários e lobistas a cacifarem sua carreira. Ninguém pode se dar ao luxo de escolher a dedo seus benfeitores, nem de lhes pedir atestado de bons antecedentes. “Ninguém” quer dizer ninguém, mesmo. O hipócrita senador Eduardo Suplicy nunca perguntou, que eu saiba, de onde vem o dinheiro que seu partido gasta para promover a imagem de seus candidatos em época de eleição. Se ele sabe de onde vem o dinheiro? Ora, bolas! Se até EU sei, como é que um senador da república não haveria de saber? Os que votaram pela cassação de Demóstenes Torres são – TODOS ELES – pulhas. Sabem perfeitamente que Demóstenes só fez aquilo que todos eles são OBRIGADOS a fazer (repito: OBRIGADOS A FAZER!!!) caso queiram levar adiante um projeto de poder dentro das regras instituídas do jogo democrático contemporâneo.

    Nenhum dos que votaram pela absolvição ganhou qualquer coisa com isso: Demóstenes não teria como retribuir-lhes qualquer favor, nem eles podem contar com a benevolência de qualquer um dos colegas em função de seu gesto solitário. Fica aqui minha homenagem a eles – a esse MÍNIMO de decência, que o restante dos senadores não soube exibir. Votaram com a sua consciência, e nada mais. Não quiseram participar da palhaçada. São capazes, como Demóstenes também foi, de arrecadar fundos para campanha, e depois pagar por essa arrecadação do modo como todos nós sabemos que esses favores costumam ser pagos. Não foram hipócritas. Mostraram ter um MÍNIMO de caráter. Parabéns a eles por isso. Fosse aberta a votação, talvez não tivessem tido a coragem de fazer esse gesto, eu sei. Mas é bom saber que, pelo menos ali, na cabine secreta, quando ninguém os via, eles deram à moralidade uma chance minúscula de se manifestar. Os outros, os que votaram pela cassação, estão colados à completa falta de compostura. A imoralidade tornou-se para eles uma segunda natureza. Nem sequer mentem mais para si mesmos, de tão convencidos que estão das próprias mentiras.

    Que nojo de tudo!

  3. É inadimissível que em um país que se diz democrático, o povo não tem o direito de saber quem votou ou não pela cassação do senador Demóstrenes Torres. O voto secreto tem que ser extinto nas câmaras federal, estadual e municipal. O povo tem que saber quem vota contra êle. O voto secreto tem que ser usado apenas pelo povo no dia da eleição. Que venha também o voto facultativo.

  4. O Demóstenes foi uma enorme decepção e teve o que merecia. Mas uma questão é inevitável: qual a moral de boa parte dos representantes da casa presidida por José Sarney e que abriga em seus quadros Fernando Collor e Renan Calheiros para cassar quem quer que seja? Que Demóstenes vá ter suas conversas telefônicas bandidas em outras paradas. O Brasil seguirá o mesmo país desenganado pelo prognóstico maligno da corrupção endêmica.

    Abs

  5. A situação pior é de quem se absteve, porque podem ser identificados. Oa outros vão jurar para a plateia que votaram pela cassação, com certeza.

  6. Concordo com acassação. Mas gostaria de saber a opinião do Sen. Humberto Costa o novo defensor da Etica o que ele acha dos Mensaleiros?
    rsrsrs

  7. QUEM VOTOU CONTRA OU A FAVOR POUCO ME IMPORTA, O QUE SEI É QUE TODOS, TODOS. SÃO UMA CORJA DE S A F A D O S . E OUTRA, CARA, SE VOCE PERGUNTAR PARA TODOS, TODOS DIRÃO QUE VOTARAM CONTRA O SAFADO . LERO-LERO.

  8. Eu vejo como pior a posição dos que se abstiveram. Os que votaram contra tem alguma convicção de que o que ele fez não é punível com a cassação , e os que se abstiveram , o que pensam ?

  9. Fica fácil ser pilantra neste pais. O voto secreto nestas questões deveria ser banido do congresso. Quem foi eleito pelo povo não tem o direito de se esconder por trás das cortinas congressuais e sujas pela corrupção e sem vergonhice reinante. Ou o supremo demonstra que o seu papel de defensor da justiça é de fato revelante, ou em nome de todos devemos nos locupletar também.

  10. Pannunzio,

    Interessante o número 56 (5+6=11).Onde tem o número 11,em eventos públicos,o questionamento é inevitável.

    Pondere comigo:Demóstenes colheu o que plantou.Mas é um arquivo vivo de todas as bandalheiiras ocultas do Senado.

    Será,sem dúvida,um “Julian Assange”,contra esses 56 Senadores que lhe cassaram.

    Duvido que não tenha como meta a vingança.
    Porque tanto os que lhe cassaram como os que lhe apoiaram,são na maioria “farinha do mesmo saco”.

    Uma versão tupiniquim do WikiLeaks,está a caminho.

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