“Viver se sentindo como um refém é horrível. É pior do que muitas sentenças que já dei nesses anos de magistratura.” BARBARA CAROLA HINDERBERGER...
“Viver se sentindo como um refém é horrível. É pior do que muitas sentenças que já dei nesses anos de magistratura.”

BARBARA CAROLA HINDERBERGER CARDOSO DE ALMEIDA

Eu sou juíza e estou ameaçada de morte.

Comecei na magistratura há 20 anos. Há 18, estou aqui em Embu das Artes. Em todos esses anos e por todos os fóruns em que já passei, nunca tive a minha vida ameaçada. Nem mesmo quando julguei grandes processos criminais envolvendo o crime organizado.

Há pouco mais de um mês, ordenei a desocupação imediata de Área de Proteção Ambiental (APA) pertencente à CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). Ela havia sido invadida por integrantes do MTST, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto.

Segui o que manda a legislação ambiental brasileira, uma decisão que favorece a comunidade como um todo, no presente e no futuro.

A partir daí, porém, recebi ameaças de morte, inclusive registradas pela Polícia Militar, por conta de minha sentença favorável à manutenção da APA. Fiquei sinceramente espantada. Nunca imaginei que alguém pudesse tentar me coagir por defender o meio ambiente.

É como o desembargador Roque Mesquita disse em um artigo: “Ser magistrado no Brasil se tornou uma profissão de risco”. Fato. Lamentavelmente, isso está se tornando comum. Você sempre está sujeito a sofrer algum tipo de perseguição ou tentativa de coação, nesse caso traduzida em ameaça de morte.

Quando prestei concurso para a magistratura, nunca me passou pela cabeça que um dia alguém, por causa de uma decisão minha, ficaria tão contrariado a ponto de ameaçar tirar minha vida. Foi muito ruim ouvir uma voz ao telefone ameaçando me matar.

Claro que sinto medo. Sou humana. É normal.

Passei a dispor de escolta policial 24 horas por dia. Nesse período, não podia ir ao shopping sozinha, não podia ir ao mercado nem encontrar os amigos sem um segurança por perto.

O medo é um sentimento tão ruim, tão destruidor, que não contei nem para minha própria mãe o que estava acontecendo. Mas o fato se tornou público, e ela leu nos jornais que a sua filha estava ameaçada de morte.

Curiosamente, o que mais eu sentia além de medo era constrangimento! Fiquei constrangida por tirar policiais das ruas, que estavam trabalhando em prol da segurança da população, para servir à segurança de uma única pessoa: eu.

Quanto mais eu convivia com o medo, mais eu tinha a certeza de que não podia parar. Eu não podia e não posso ceder. Não podia deixar que a Justiça fosse derrotada. A Justiça e eu. Afinal, é o meu dever que a segurança e a ordem social sejam garantidas. Não trabalho para mim, trabalho para todos.

Há 15 dias, dispensei a escolta armada que me protegia.

Viver se sentindo como um refém é horrível. É pior do que muitas sentenças que já dei nesses anos de magistratura. Você não fica mais totalmente relaxada. O medo passa a ser sua companhia. E passou a me acompanhar em todos os lugares.

Mas, para ser magistrada, você tem que ser forte. Ser forte e ter caráter para não ceder às pressões -durante os anos de trabalho, você é pressionada de todas as partes e de todas as formas.

Eu amo a minha profissão. Sou uma juíza considerada linha dura. Faço com que as ordens judiciais sejam cumpridas. E no Brasil é preciso que isso aconteça para que o Estado democrático de Direito não seja abalado. É isso o que defendo.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Eu quero minha liberdade de volta – 13/07/2012.

Comentários

  • PAULO DE TARSO

    13/07/2012 #1 Author

    Lastimável que isto ocorra no Brasil , pois quem deveria estar presos são os bandidos do crime organizado e muitos políticos que acobertam estes criminosos .O Brasil precisa urgente de leis mais duras contra a bandidagem .

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  • Jose Almeida

    13/07/2012 #2 Author

    Depois de um monte de “eu”, o que mais me irrita é alguém defender ardentemente “Estado democrático de Direito”. Tudo agora é esse tal de “Estado democrático de Direito”. 6 morrream em osasco a bala, 3 crianças num incêncio (não ouvi onde), 4 policias suspeito de assassinato foram promovidos, provas contra corruptos são anuladas por tribunais superiores. Se a situação esta tão ruim não é culpa da população. Alguém não esta fazendo seu trabalho direito.

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  • Vivi

    13/07/2012 #3 Author

    Não bastassem os riscos expostos pela magistrada, ainda querem que seus salários sejam escancarados à consulta pública. Concordo que o salário do CARGO seja informado, mas abrir o holerite dos funcionários “X”, “Y” e “Z” é expô-los a sequestros e outras ações criminosas em nome do “direito do cidadão de saber quanto custam os funcionários pagos com o dinheiro de nossos impostos”.

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