A economia e a “Síndrome do Deslocamento de Caderno”

Vocês certamente já ouviram falar no Mário Rosa. É um jornalista com larga vivência em redações que hoje ganha a vida como consultor em crises de imagem. Escreveu já três livros e tornou-se um requisitado especialista sempre que alguém muito importante atravessa períodos de turbulência perante a opinião pública.

Em seu primeiro livro, Mário Rosa descreve o que chama de “Síndrome do Deslocamento de Caderno”. Como já faz algum tempo que o li, pode ser que não consiga reproduzir exatamente suas assertivas. Mas a tal síndrome seria um dos indicadores de que algo vai mal em relação à imagem pública de quem, de uma hora para outra, passa a figurar no noticiário em editorias diferentes daquelas onde é citado normalmente.

É assim: se uma empresa costuma frequentar o caderno de negócios dos jornais, logo terá problemas se passar a figurar no de política ou, pior ainda, no noticiário policial. É mau-agouro.

Bem, dito isso, entro no assunto que queria abordar: a economia.

Já há algumas semanas a economia brasileira vem ocupando cada vez mais espaço nos cadernos de política.  Seria a tal “Síndrome do Deslocamento de Caderno” descrita por Mário Rosa ?

As notícias não são boas. Redução do PIB, frustração de expectativas, desemprego incipiente. A GM fechando uma unidade aqui, metalúrgicas que se transformam em importadoras de concorrentes chineses. A coisa não vai bem.

E por que não vai bem ? Não vai bem basicamente porque a Europa faliu e a China, seu principal fornecedor, não tem a quem exportar tudo o que produz. Não tendo a quem vender, não tem  por que comprar. É aí que a vaca da nossa felicidade vai caminhando para o brejo. Somos bons fornecedores de matéria-prima para a indústria chinesa.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu uma longa entrevista para as Páginas Amarelas de Veja esta semana. Foi ao fulcro do problema. Ao longo da era petista, o governo focou no consumo, e não na produção. Agora, faltam-nos condições de competitividade para enfrentar a predatória concorrência global.

O ex-presidente não disse, talvez porque isso poderia parecer um elogio a seus contendores, mas o Brasil conseguiu aguentar o tranco da crise inaugurada em 2008 com o vigor de seu mercado interno. Agora, no entanto, ele não parece ser suficiente para fazer girar a roda virtuosa da economia. Os pátios das fábricas estão lotados. Endividada, a população não tem como comprar carros em número suficiente para assegurar a continuidade da produção nas linhas de montagem. O mesmo ocorre em outros segmentos da economia.

A nova classe média, que cravou conquistas importantes nos últimos anos, vê-se ameaçada de perder a TV de LED para o credor, o carro para a financeira e o emprego para a crise.  E, para quem já teve um dia, a perda de algo pode ser muito mais dolorida.

Com o deslocamento da economia para a editoria de política, resta apenas saber quanto tempo a população vai levar para perceber o efeito previsto por Mário Rosa.

Num ano eleitoral como este, pode ser que ele já esteja começando a se manifestar nos índices risíveis dos candidatos petistas que, a despeito do patrono Lula, não conseguem sair da vala dos nanicos.

É o caso de Fernando Haddad, a maior aposta — e também de maior risco — do ex-presidente Lula.

Comentários

14 thoughts on “A economia e a “Síndrome do Deslocamento de Caderno”

  1. Bem, no caso da Folha, também é preciso considerar o que o jornal chama internamente de “reforma agrária” — a transferência das pautas de macroeconomia, que antes ficavam em Dinheiro (hoje Mercado), para a editoria Poder.

  2. Boa, Pannunzio. Só os obnubilados pelo torpor ufanista do oficialismo, regados a bolsa-isso-bolsa-aquilo, não enxergavam a precariedade do modelo de desenvolvimento ancorado unicamente na explosão do consumo via fartura do crédito. Aos entreguistas e antipatriotas restava evidente que aquilo teria um limite e que o comportamento nouveau-riche do país um dia iria cobrar seu preço. Um bom editorial da Folha de hoje resume bem a ópera-bufa. Enquanto um crescimento verdadeiramente sustentável demanda poupança e investimento, deitamos em berço esplêndido e, nesta terra em que tudo dá – principalmente o governo perdulário, digo eu – apostamos numa economia gastadeira, imprudente e perigosamente sino-dependente. Infelizmente, não existe almoço grátis e iremos pagar pelas nossas equivocadas escolhas.

  3. Até que a teoria faz sentido mas acreditar que o Farol é capaz de dar algum conselho util é forçar a barra. Dizer que os candidatos do PT vão mal é acreditar que o Brasil se resume a SP. O PT tá do mesmo jeito no resto do Brasil e onde os aliados se rebelaram o PT esta na frente, como é o caso de BH e Recife.

    • Farol?? É como aquele blogueiro pago com dinheiro público chama o Fernando Henrique, certo? Ele é ruim até pra dar apelidos. Acho que o cara que colocou a economia do país nos trilhos com o Plano Real pode dar conselhos a hora que quiser. Pena que não será ouvido?
      .

    • Só que se a derrota do candidato do Lullaluf acontecer em SP , será a derrota do SEU GUIA .

  4. Caro Fábio, boa noite,

    que eles estão perdidos, não resta mais nenhuma dúvida. O problema agora é o tamanho da conta e quanto tempo levaremos para pagá-la … pessoalmente acho a maior tortura pagar a conta ouvindo a petralhada e os demais safados da nossa política dizendo que a culpa disso é a “herança maldita”, entre outras sandices … Aí fica difícil …

  5. Mandem a conta para o lula. Não foi ele quem teve aquela brilhante e inovadora idéia de estimular as pessoas a consumirem, mesmo que fosse na base do fiado ?????????

  6. Fábio, boa tarde.
    A explicação da Presidenta para o nosso provável pibinho, dizendo que não importa o tamanho e sim o prazer que ele proporciona, me lembra muito os argumentos daquelas pessoas com pênis diminuto (será que assim passa?).
    Acho que seria o caso da nossa guia rever seus conceitos.
    Francamente….

  7. Só não percebeu isso quem não lê jotnal, mas só lendo mesmo, porque os telejornais estão cegos, mudos e surdos, salvo pela parte econômica e aqueles montes de números e percentuais que só economista gosta e entende. Mas quando você vê um minstro da fazendo aparecendo toda hora para justificar o pibinho, que 10% desse PIB na educação é um “gasto” (sic) que o orçamento não vai suportar e que negociações com funcionários públicos estão paralisadas (com exceção dos professores universitários, que parece não toparam a proposta) é porque a vaca já está no brejo. Só sei que essa classe emergente não vai aceitar muito bem voltar para a antiga classe.

  8. Há tempos eu já vinha cantando esta bola.É uma coisa lógica demais. Exportamos ferro e petroleo. Nosso maior cliente é a China. A China parando …. bom… é outro voo da galinha brasileira.
    Apertem os cintos, o dinheiro sumiu!

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