PMs Selvagens e furiosos

Os telejornais da Rede Globo mostraram ontem uma cena de selvageria e barbárie. Depois de dominar uma quarilha de ladrões e evitar um sequestro-relâmpago no Rio de Janeiro, policiais militares levaram os bandidos até um terreno baldio e atiraram contra a perna de um deles. O bandido estava dominado e sem nenhuma possibilidade de se defender.

Foi uma agressão brutal, covarde e desmedida. Os policiais, que poderiam ter encerrado o episódio como heróis, foram à lama, equipararam-se aos bandidos que haviam acabado de prender. O ímpeto dos pitbulls descontrolados só foi desmascarado graças à ação de um cinegrafista amador que filmou toda a cena de barbárie.

Antes que os repórteres tivessem notícia da gravação, uma equipe da emissora entrevistou os PMs na delegacia. O comandante da operacão concedeu uma entrevista gabando-se do revide à “injusta agressão” que teria culminado com um tiro na perna do bandido em um tiroteio que jamais ocorreu. Como é praxe em eventos como esse, nenhum dos inúmeros policiais envolvidos se levantou para denunciar a fraude dos colegas truculentos.

As cenas exibidas pela Globo apenas reiteram as denúncias de que a PM, mal instruída, mal formada e também mal paga, costuma adotar métodos de justiçamento e segue aplicando penas duríssimas — entre eleas a morte sumária — a quem bem entende.

Em São Paulo, cenas parecidas culminaram com a morte do suposto bandido Anderson Minhano em 29 de abril passado. Uma guarnição da ROTA, após a chacina de cinco suspeitos traficantes, sequestrou um deles no bairro da Penha, na Zona Leste do São Paulo, levou-o até a margem erma de um rodovia, torturou, humilhou e finalmente executou o prisioneiro a sangue frio.

Embora não houvesse câmeras registrando a ação bárbara, uma senhora, moradora de um barraco próximo ao local da execução, testemunhou o assassinato e comunicou ao COPOM. Na sede do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, para onde os jagunços da ROTA foram levados depois de detidos, houve um notável esforço da Corregedoria da PM para evitar a prisão em flagrantes dos PMs assassinos.

Já estava decidido que seria lavrado o flagrante apenas do sargento da viatura que levou o corpo de Anderson ao hospital onde o óbito foi registrado. Como o sargento tinha um álibi por não ter participado diretamente do assassinato, os três colegas assassinos sairiam livres e responderiam a processo nas ruas, onde certamente voltariam a atuar como justiceiros e a ameaçar a sociedade. O plano só não funcionou porque o Ministério Público interveio e mandou mudar a combinação, autuando os verdadeiros criminosos de farda.

Execuções e atitudes de justiçamento se repetem por todo o País. Tendem a se tornar mais frequentes com o clamor da sociedade, acuada pelo aumento da criminalidade e descrente do sistema judicial. Isso faz com que muita gente aprove ações desse tipo na crença de que “bandido bom é bandido morto”, frase que se transformou em emblema da ROTA dos anos Maluf.

A consequência da imposição da barbárie por quem deveria proteger a sociedade tem feito estragos terríveis e irreversíveis como a morte do publicitário Ricardo Aquino, ocorrida no dia 18 de julho. Ou do adolescente Bruno Viana, morto em Santos depois que policiais assassinos dispararam 25 tiros contra o carro em que ele seguia por não ter obedecido ao sinal para parar em uma blitz.

Em todos os casos, salta aos olhos o esforços dos pitbulls fardados para maquiar a cena do crime, inventar confrontos que jamais existiram e justificar o ímpeto assassino de  soldados e oficiais que agem de maneira selvagem e furiosa.

A repetição desses registros trágicos revela, com uma incrível assertividade, que o extermínio sistemático se transformou em método de ação das polícia militares. Nas ruas,  as equipes que deveriam zelar pela reparação da ordem pública só fazem produzir catástrofes. São ações tão despudoradas e atrevidas, feitas à luz do dia ou acobertadas pela escuridão dos becos, que parecem ter a aprovação ao menos velada dos comandos.

De onde sai tanta selvageria ?

É certo que as atitudes homicidas desses policiais são aplaudidas por uma parcela da população que deseja se vingar da opressão do crime organizado, que enxerga apenas a morte como punição para quem envereda pelo mundo do crime. E parece não restar dúvida de que existe uma complacência do comando desse animais selvagens travestidos de policiais militares.

O resultado está aí para quem quiser ver: o recrudescimento dos índices de criminalidade, da brutalidade dos criminosos para eliminar testemunhas que possam identificá-los e o aumento da sensação de desproteção de quem depende da polícia para enfrentar a rotina de violência que os governos não conseguem controlar.

O quadro que se instalou é terrível também para os policiais, que têm sido vítimas de assassinatos seletivos engendrados por bandidos organizados pelos líderes de agremiações como o PCC, que se transformou em “partido” na periferia conflagrada de São Paulo.

Os números que brotam das estatíticas morbidas da ação policial demonstram com uma clareza cristalina que a imposição do terror dos grupos fardados de extermínio não fará outra coisa que não agravar o problema. Por isso, passou da hora de botar uma focinheira nos pitbulls que agem em nome da imposição da violência legítima.

Essa faculdade não nasceu para subjugar o cidadão,  justiçar as vítimas dos bandidos ou vingar a sociedade. Não há solução fora do respeito à lei e da substituição da ação truculenta pelo exercício da inteligência.

Como o método da vingança e do justiçamento parecem estar arraigados dentro da cultura da ação policial, talvez não haja outro remédio senão extinguir as PMs e fundí-las com as polícias civis, colocando o braço armado ostensivo do Estado sob um único comando a serviço da sociedade, e não contra ela.

Comentários

12 thoughts on “PMs Selvagens e furiosos

  1. Caro Pannunzio

    Cadeia para os maus policiais que agem como bandidos!! Nem mais nem menos.
    Processo judicial neles e cadeia, como se faz em todo pais que se diz civilizado.
    Mas fiquemos com a certeza de que maus policiais sao minoria dentro dessas instituicoes. A grande e silenciosa maioria sai de casa para o servico todos os dias, pondo suas vidas em risco em beneficio da sociedade que eh quem paga seus (baixos) salarios.
    O sistema legal brasileiro precisa ser mais rigiroso com quem infringe a lei, caso contrario, a tendencia de transformar agentes da justica em justiceiros eh muito grande.
    O Brasil eh um pais onde, reconhecidamente, o crime compensa, portanto, estaremos perdendo tempo se centrarmos o debate apenas na questao da acao dos maus policiais.
    Reducao da maioridade penal, adocao da pena de prisao perpetua e o aumento das penas para crimes violentos e aqueles cometidos por agentes publicos eh algo imprescindivel a ser feito para que o Estado retome o controle seguranca publica e a populacao possa se sentir mais protegida e segura.
    E uma informacao para a comantarista Rosaly:
    quartel e delegacia de policia nao sao locais para se desenvolverem acoes sociais em beneficio de quem quer que seja.
    Alias, ali jah se cumpre uma funcao social no tocante as acoes de seguranca publica.

    Abraco, Pannunzio! 😀

  2. Pannunzio, da uma olhada no site do governo de SP, onde há acesso aos salários dos funcionários. Veja que a maioria dos coroneis PMs/SP ganham muito acima do teto constitucional. Dessa forma os demais policiais (praças e policiais civis) não conseguem sequer uma merreca de salario do governador.

  3. Concordo que a polícia deve agir dentro da lei, e não virar “esquadrão de extermínio”.
    Mas, o que vi ontem no JN me chamou atenção por que normalmente o viés da editoria da Globo tende a valorizar as ações no RJ (na segurança e outros setores).
    Ao final da matéria, com o destaque da fala do comandante da polícia do RJ, me pareceu como a verdadeira intenção: destacar que na polícia do RJ quem agir fora da linha é expulso SUMARIAMENTE – diferente de como foram conduzidos os casos que foram noticiados recentemente em SP.
    Alguns pontos a questionar a matéria: a qualidade das imagens do “cinegrafista amador”!; o processo de expulsão sumária do policial (sem inquérito policial-militar?); e, a maior dúvida: será que com todos os policiais do RJ ocorrem o mesmo trâmite, ou só para aqueles que são flagrados por imagens?
    Se, no entanto, isso ocorre realmente, de forma honesta e dentro da legislação, creio que SP deva adotar o mais rápido possível, para assim melhorar ainda mais os índices de segurança e garantir que maus profissionais se mantenham na corporação.

    • Maurício, não sei se vc está sendo irônico, mas todos os servidos públicos na banânia estão super-protegidos e não podem ser demitidos de forma sumária – salvo os que exercem cargo de confiança, os comissionados de livre escolha.

      Haverá uma sindicância, depois um processo administrativo e somente então é que há o desligamento efetivo do servidor. Importa anotar que durante todo este período o funcionário recebe integralmente seus vencimentos, mesmo se ficar em casa o dia inteiro.

      Cumpre anotar, que mesmo depois de demitido, o servidor pode ingressar em Juízo e obter seu cargo de volta e o erário deverá pagar todos os salários em que o funcionário público ficou sem receber com juros e correção.

  4. Pois é, os tempos mudaram e as instituições continuam as mesmas, arcaicas, fora do tempo atual, conservam ranços e não é de se admirar que agora se transformaram em pauta de discussões na ONU. A fusão da policia civil com a militar em nada vai adiantar porque nenhuma das duas presta, aliás, a civil presta menos ainda. A modernização da policia não passa pela compra de armas, viaturas e sair em matanças. Pelo menos, no Rio de Janeiro o Secretário de Segurança determinou a expulsão sumária dos policiais envolvidos. E aqui? Tem que haver um expurgo nessas duas polícias e uma seleção de cérebros para a permanência nesse trabalho. Além disso, o serviço de Inteligência deve ficar a cargo de uma polícia secreta totalmente desvinculada da policia civil e militar, porque essas duas policias devem ser espionadas. É uma pena ter que chegar a essa conclusão porque ao invés de saírem matando nossos jovens a policia militar principalmente, deveria fazer um aproximação com a juventude, e batalhar pelo desenvolvimento dos jovens, utilizando seus espaços para o ensino e inclusão dos jovens em áreas estratégicas de produção de riqueza nacional e não permitir que essas riquezas fiquem em mãos estrangeiras. Nesse sentido, seus fuzis deveriam apontar para outra direção.

  5. Fábio, você acha que o MPF deve pedir a substituição do comando das polícias do Rio de Janeiro assim como fez com o Estado de São Paulo?

    • A resposta ã covardia da ação policial foi bem diferente no RJ e em SP. O comando condenou enfaticamente a ação e o secretário prometeu processo e demissão sumários dos PMs. Aqui em SP, o comando veio a público para dizer que a morte do publicitário decorreu de uma ação “tecnicamente correta”. Há uma diferença gritante entre o que se passa em SP e no RJ.

  6. Com relação à notícia, eu entendo que muita gente vai se deliciar com isso no Brasil. Por que? Porque a raiz do problema não são esses fatos, esses fatos são a consequência de leis que ajudam mais o bandido do que o cidadão de bem, e, a Justiça Brasileira que é formada por gente ignorante, de formação duvidosa, indicada por presidente, etc. O povo acaba achando é bom porque o sistema não funciona, está com vírus, vários deles.

  7. Em que pese sua análise, acho que na verdade a violencia não se recrudesceu devido a truculencia de alguns poucos malucos, travestidos de policiais. Creio que a grande mola propulsora da violencia, seja a impunidade, que é o grande mal da sociedade, bem como um conjunto de penas que não refletem a realidade dos crimes, nem a história crininal do apenado, falta de vagas no sistema penal, combinado com a desestrutura das famílias.
    Alem disso, pela análise parece que qualquer policial militar é um louco babando por sangue inocente! O que não condiz com a verdade, sendo que segundo relatório da PM, houve milhões de ococrrencias, atendidas pela instituição e se somarmos os desvios de conduta, são ínfimos se comparados aos numeros de prisão que fizeram, e os confrontos que ocorreram, queiram os defensores dos direitos humanos(?) ou não.
    Desvios acontecem em qualquer instituição (jornalistas corruptos, mentirosos, estão por aí, não?), e quando detectados, são punidos pela instituição! O que não pode é haver prejulgamento, pelo fato d eque são policiais, e devido a isso, qualquer confornto, é matança, armação….o que parece que seu texto induz a essa conculsão.
    Gosto muito desse blog, pois o acho equilibrado e sensato, mas esse texto, em minha opinião, parece um pouco contaminado pela grita de inimigos históricos da PM (Direitos humanos(?), Defensoria (de quem?) Pública, etc…).

  8. que bom que pelo menos em uma vez vc deixou a PMSP de lado ….aliás SP é a cidade mais segura do país em homicídios por 100 000 hab.;;;;;;aqui no RJ o que há é um grande embuste ……….o tráfico funciona normalmente pelo sistema “delivery”…..a PMRJ finge que não vê ………como Serginho Cabral é o queridinho da Gerentona tudo vai bem ……………

  9. Como será que esses PMs maus, brutais e violentos vieram parar em uma sociedade equilibrada e equitativa, sensata e harmoniosa, pacifica e dócil como a nossa???
    Naturalmente os 100.000 brasileiros mortos de modo violento ao ano é obra de ETs e Chupa Cabras…
    ahhh sim,,,ja sei eles devem vir do mesmo mesmo planeta de onde veem os politicos corruptos e picaretas que infernizam a vida dessa boa gente…tem de chamar os MIBs para combater tantos alienigenas malvados é ou não é???

  10. Será que os coleginhas do MPF do Rio vão pedir intervenção federal do estado do Rio de Janeiro e exigir a troca no comando da tropa?

    Ou, os selvagens de lá(RJ), não são tão selvagens quanto os de cá(SP).

    Fica óbvio o viés militantes do MPF e da Defensoria Pùblica paulista, pois, nem no Rio nem em SP é caso para ingerência nos assuntos estaduais.

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