por Antonio Ozório Leme de Barros(*) Criada em 2009, a Companhia dos Inquietos, núcleo paulistano de produção e pesquisa teatral, trouxe para o público, em abril...

Criada em 2009, a Companhia dos Inquietos, núcleo paulistano de produção e pesquisa teatral, trouxe para o público, em abril de 2011, sua primeira montagem, uma obra do jovem e promissor dramaturgo carioca Jô Bilac (nome artístico de Giovanni Ramalho Bilac),Limpe todo o sangue antes que manche o carpete, apresentada no Espaço Beta do SESC Consolação, trabalho que revelava, por parte dos integrantes do grupo, uma preocupação com a busca de novos caminhos de expressão cênica.

Esse trabalho de pesquisa — no qual despontam as resultantes das atividades do ator Ed Moraes e do diretor e cenógrafo Eric Lenate — tem prosseguimento, agora, com a instigante montagem de Um verão familiar, texto do talentoso João Fábio Cabral, dramaturgo potiguar radicado há quase vinte anos em São Paulo, SP.

Por meio de Um verão familiar, Cabral promove uma extraordinária desconstrução das relações familiais, de modo a romper a grossa crosta que comumente mantém encobertos múltiplos conflitos entre os membros do núcleo básico constituído pelo pai, pela mãe e pelos filhos. O texto, que parece retratar, de início, uma doçura falsa e convencional que flutua diante dos nossos olhos ao se examinar a convivência entre pais e filhos — e que, não raro, oculta a ausência de um diálogo entre estes fundado no reconhecimento honesto e na aceitação serena das diferenças que há entre indivíduos e entre os seus projetos existenciais — cuida de livrar-se, aos poucos, dessa carapaça ilusória para mergulhar em águas tormentosas, das quais emergem relações em que sobressaem manifestações de autoritarismo, de violência (inclusive de natureza sexual), de opressão, de ressentimento e de ódio. Passo a passo, os conflitos que decorrem desse convívio a trilhar caminhos tão tortuosos são expostos em cena; o impacto cênico se remete à assustadora visão de uma fratura exposta.

Cabral parece ter clareza da função social que o seu teatro pode assumir ao nos propor, sem rodeios, a discussão e a revisão da natureza das relações que ocorrem entre os integrantes daquela que é a primeira das sociedades humanas: a família; nessa discussão, nada escapa à visão sem concessões de Cabral, que disseca o comportamento do pai brutal e despótico, da mãe alienada e indefesa e dos filhos devastados pela brutalidade e pela indiferença; Cabral nos conclama a uma reflexão acerca das possibilidades de refundação da família e da revisão do seu conceito, partindo da ideia de que é preciso, inicialmente, desmantelar os fundamentos das relações entre os seus membros para que, num momento posterior, a sua reconstrução possa se dar numa base mais sadia, mais verdadeira, mais respeitosa e mais humana.

A trama nos chega pela ótica do filho que, maltratado e oprimido pelo pai, encontra guarida mais nos cuidados da sua irmã (que se comporta como uma verdadeira Electra, a venerar o pai que a violenta sexualmente) do que nos da sua mãe; pai e mãe não escondem, aliás, uma invencível insatisfação existencial que relacionam, entre outras razões, ao fato de terem tido filhos que não desejavam; nessas cruas exposições de sentimentos e frustrações, Cabral evoca e se aproxima, ao seu modo, do estilo narrativo de Harold Pinter, em cujos textos as relações familiais também explodem à nossa frente.

O filho, narrador do espetáculo, frequentemente se refugia em um tambor cheio de água, como se a buscar aquilo que se acha perdido para sempre: o conforto, a proteção e o aquecimento do âmnio e do líquido amniótico abrigados no interior do útero materno; a imagem, poderosa sob o ponto de vista cênico, lembra o uso de tambores por Samuel Beckett em uma das suas obras-primas, Fin de partie, nos quais os personagens se encontram encerrados, como que a expressar as suas limitações e dependências.

A montagem de Um verão familiar da Companhia dos Inquietos tem uma excelente e segura direção assinada por Eric Lenate (que também é responsável pelo despojado e funcional cenário, no qual desponta um bem empregado ciclorama, que serve de base para a projeção de imagens que comentam e se integram aos diálogos travados no curso da trama); os personagens são magnificamente interpretados por Ed Moraes, João Bourbonnais, Lavínia Pannunzio e Renata Guida, cujos trabalhos evidenciam paciente e disciplinado empenho na composição minuciosa dos seus personagens.

Espetáculo que dignifica a cena paulistana e merece ser visto por todos aqueles que se interessam por um teatro de discussão de ideias, Um verão familiar estará em cartaz no SESC Belenzinho (Rua Padre Adelino nº 1.000, Belenzinho, Capital, SP, telefone 11 2076-9700) até o dia 9 de setembro de 2012 (de quinta-feira a sábado às 21h30 e nos domingos e feriados, às 18h30).

Em tempo: a frase que empreguei no título deste texto, “em memória de tudo aquilo que nos atormenta”, faz parte do espetáculo; para saber em que momento e em que contexto ela é usada, vocês terão de ver a montagem: não quero estragar a magia da encenação.

Antonio Ozório Leme de Barros é procurador de justiça em São Paulo

Comentários

  • João Bourbonnais

    25/08/2012 #1 Author

    Obrigado, Fábio!
    Abraço

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  • SideShow Bob

    21/08/2012 #2 Author

    Off-Topic.

    O Sr. Editor foi à feira de Jatos Executivos que ocorre em São Paulo?

    Já escolheu seu preferido?

    Afinal sei que o Sr. é entusista do tema (quando escrevo tema, refiro-me a aviação e não jatos executivos, pois creio que para um assalariado tais naves estejam um pouco fora do orçamento, embora não conheça a quanto vossas fortunas).

    Sorte!

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  • SideShow Bob

    21/08/2012 #3 Author

    Estava até achando a história batuta e tudo o mais, no entanto, quando li a expressão “Função Social do Teatro”, aí, o negócio já desandou.

    Em minha humilde opinião teatro, e espetáculos públicos em geral tem uma única obrigação: entreter, se for de forma inteligente e instigante melhor, mas é fundamental contar bem uma boa estória.

    Quando os atores (no sentido lato da palavra) do espetáculo estão mais empenhados em construir um “mundo melhor” ou propagandear alguma ideologia do tipo “sou do bem” o negócio tende a desandar a tornar-se enfadonho e caricato (principalmente quando conta com verbas públicas).

    Desde os gregos, passando por Shaekspeare, a missão una do teatro deve ser provocar risos, lágrimas, xingamentos ou pequenas reflexões pessoais. Não creio que o “Teatro do Oprimido” ou o “Teatro de Vanguarda Social” cumpram sua missão de entreter, mas o são antes de mais nada plenipotenciários em sua missão de aborrecer e entediar.

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  • lavívia pannunzio

    21/08/2012 #4 Author

    obrigada pela força.
    espero sua presença lá.
    bjs

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