No Datafolha divulgado hoje há algumas informações que não estão explícitas, mas ainda assim chamam a atenção dos leitores mais atentos. A primeira delas...

No Datafolha divulgado hoje há algumas informações que não estão explícitas, mas ainda assim chamam a atenção dos leitores mais atentos. A primeira delas diz respeito à situação eleitoral de Fernando Haddad. Apesar de o PT e o governo já terem colocado todas as suas fichas na mesa — leia-se Lula, Dilma e Marta Suplicy — , o escolhido de Lula para enfrentar a eleição paulistana não conseguiu, a esta altura, sequer ser alçado ao patamar histórico de votos do partido em São Paulo.

No pleito de 2008, Marta Suplicy obteve 33,06% dos votos válidos no primeiro turno. Quatro anos antes, em 2004, obteve 35,82%. Perdeu depois para José Serra.

Neste momento, a três semanas da eleição, o candidato petista Fernando Haddad se encontra praticamente estacionado em um patamar muito inferior, de 17%, que representa, grosso modo, apenas metade do potencial de votos destinados tradicionalmente à legenda.

Quatro anos atrás, no começo de setembro de 2008, Marta Suplicy era considerada imbatível. Os números do Datafolha revelam que a ex-prefeita tinha 40% das intenções de voto. Kassab e Alckmin disputavam a segunda vaga com uma diferença de apenas 4% entre ambos, mas ainda assim com menos de metade das intenções de voto atribuídas à cabeça-de-chapa do PT.

Oito anos atrás, na mesma altura do processo eleitoral, a diferença entre Marta, que tinha 33% das intenções de voto, e Serra, que liderava e terminou por vencer o pleito, era de apenas 4 pontos percentuais. Marta tinha os 33% historicamente reservados a seu partido. Um terço dos votos.

Este ano, Fernando Haddad patinou no patamar dos nanicos até se descolar deles com o início da campanha pelo rádio e televisão. Mas, pelo que mostram as três últimas sondagens, a curva das preferências já aponta para uma acomodação. Num ponto de inflexão que não é bom para o postulante do Partido dos Trabalhadores — o terceiro lugar.

O que se prevê de agora em diante é um disputa renhida entre tucanos e petistas pela chance de disputar o segundo turno com o azarão Celso Russomanno, que parece ter consolidado sua condição de favorito neste primeiro turno. E a despeito da situação de empate técnico, que torna o resultado virtualmente impossível de se prever, é de se notar que ainda há uma diferença de 3 pontos percentuais em favor de José Serra.

O esforço para dar viabilidade a Haddad é notável. A seu favor estão a máquina federal (com a engajamento de Dilma Rousseff) e o prestígio pessoal de Lula, o patrono do candidato. O uso da máquina fica claro na compensação oferecida a Marta Suplicy por seu engajamento na campanha. Preterida por Lula na escolha do candidato, a ex-prefeita teve que ser agraciada com um cargo no primeiro escalão para subir ao palanque de Haddad. Uma ajuda e tanto — que, não obstante, não se mostrou capaz ainda de vitaminar a chapa petista na medida que se esperava.

Mas é fato que o que se esperava nos meses que decorreram entre o lançamento da candidatura e o início da propaganda eletrônica não aconteceu. Nem o prestígio de Lula, nem o reforço de Marta, nem a forcinha de Dilma foram capazes de devolver ao Partido dos Trabalhadores os votos que historicamente lhe eram destinados.

O que mais intriga no comportamento do eleitor é a ausência de resposta ao esforço de Lula para dar viabilidade eleitoral ao mais importante candidato apresentado por seu partido às eleições deste ano.

O que a maioria dos analistas antevia era que Lula conseguisse não apenas reaver os votos tradicionais da legenda, mas incrementar o cacife do partido com a popularidade que faria dele o grande eleitor deste pleito. E isso, de fato, está longe de acontecer.

Resta, portanto, saber o que foi que aconteceu com a popularidade de Lula. Não há nenhuma dúvida de que ela é enorme. Assim como não restam dúvidas de que, como cabo eleitoral, Lula não tem funcionado como se supunha que funcionaria. A rigor, todo o esforço empreendido em favor de Haddad não agregou, pelo menos até agora, mais que 10 pontos percentuais ao postulanente do PT. E ainda faltam quase 20 pontos percentuais para que a legenda ascenda novamente ao patamar dos 33%.

É claro que ainda é cedo para cravar uma aposta no resultado do primeiro turno. Assim como é improvável que, haja o que houver na campanha, surja ainda um milagre capaz de alterar radicalmente o quadro. A partir de agora, com a consolidação das intenções de voto, o que se espera são pequenas oscilações, inclusive com a possibilidade de inversão dos candidatos que disputam o segundo e terceiro lugares na preferência do eleitorado.

A tese que vem sendo defendida por 10 entre 10 analistas é a de que não há transferência de prestígio — ou a tradução do prestígio em votos — a não ser entre candidaturas análogas. Por esse raciocínio, Lula poderia, sem dificuldade, eleger um poste Presidente da República. Foi o que aconteceu com Dilma Rousseff, a desconhecida auxiliar alçada por ele ao posto de primeira-mandatária brasileira dois anos atrás. Mas não tem como influenciar o eleitor paulistano, que termina por definir seu voto com base em uma cesta de propostas e um menu de candidatos vinculados exclusivamente à seara da comunidade.

Seria, desta forma, um santo milagreiro que só tem poder para promover grandes milagres. Dos pequenos, o eleitor mesmo prefere cuidar, sem a interferência nem o cabresto de quem quer que seja.

O que pouco gente se arrisca a dizer, com medo de errar o prognóstico que vai se desenhando, é que talvez os poderes atribuídos ao ex-presidente não passem de um exagero retórico que vem sendo construído pela reiteração de certos dogmas — especialmente o de que Lula pode tudo. Pelo que se viu até agora, não pode.

Talvez não possa por causa do desgaste sofrido pelo PT desde que a legenda foi associada à corrupção descarada e às piores práticas políticas, agora materializadas com as primeira  condenações de mensaleiros, e à perspectiva de prisão de gente como João Paulo Cunha, José Genoíno, José Dirceu e Delúbio Soares. É claro que o espetáculo propiciado pelo maior julgamento da história do País produz efeitos no eleitor. O que não se sabe, até agora, é qual o tamanho do estrago.

Caso Haddad seja derrotado neste primeiro turno, muitas serão as tentativas de explicar o fracasso. Alguns dirão que o PT está pagando o preço de ter sido colocado por seus próprios dirigentes entre as legendas que protegem criminosos e incentivam a gatunagem em seu próprio proveito. Mas isso não seria suficiente para explicar o malogro.

Outros irão dizer que a escolha de Haddad foi infeliz, que a vitória com alguém já testado como Marta Suplicy seria pule de dez. Mas aí o erro seria de Lula, e não convém atribuir erros a santos.

E sempre haverá quem diga que, quando o santo não produz o milagre, não é por falta de santidade — é por falta de fé do devoto.

Comentários

  • Idiossincrasias Policiais

    21/09/2012 #1 Author

    E o que dizer quando morrem PC, PMs, Asps, Muralhas, GCMs, por contrariarem as relações simbióticas entre maus agentes públicos e o PCCSDBosta?
    Embora, na atualidade, o DHPP nunca saiba de nada, por não gozar da mesma liberdade que dos idos tempos, sofrermos com mordaça e cabresto, por força das relações milicianas, lembrando que o pior cego é aquele que não quer ver, e que já foi explicitado em diversos depoimentos de testemunhas presenciais que líderes comunitários foram assassinados por PMs somente por promoverem o bem e tentarem reduzir a desigualdade social!
    Um amigo deles, PM, também filho da mesma comunidade, “irmãos em Cristo”, ficou indignado em saber que seus pares de farda haviam executado covardemente os líderes comunitários, injustificadamente, e mais, sentindo-se aviltado por saber que os algozes fugiram do local em viaturas policiais militares, caracterizadas, em quadrilha, pois os que não mataram recolheram cápsulas e projéteis, reviraram os corpos… e passados alguns instatntes, retornaram para vasculhar os corpos e bolsos, adulterando o local de crime!
    Curiosa e estranhamente, nas entranhas vicerais milicianas, esse PM que muito queria saber e que defendia a legalidade e a honra, foi assassinado, possivelmente, pelos irmãos incestuosos de fardamento!
    Uma luz aos cegos, quais PMs do mesmo batalhão possuem titularidade da motocicleta semelhante a empregada na execução?
    Para o SSP, a insestuosa PM pode adulterar local de crime, subtrair ou manipular provas, levar consigo, depositar ou desaparecer com molotov, cápsulas, projéteis e matar pelo simples e bel prazer de promover a limpeza social, ou à mando do comando ou ao desmando do comando!
    Uns afirmam que a PM está fora de comando e que o oficialato tem medo dos praças!
    Outros afirmam que a PM está muito bem sobre o comando e que os aparentes desmando retraram o rigor da subordinação hierárquica!
    E ou o DHPP e a CORREGEPM nada sabem, ou não nada podem saber, ou não querem saber de nada, ou tudo sabem que de nada sabem!
    Além do tempo, quem saberá me responder?
    E o que dizer quando morrem PC, PMs, Asps, Muralhas, GCMs, por contrariarem as relações simbióticas entre maus agentes públicos e o PCCSDBosta?
    AFINAL, QUEM NÃO REAGE, NÃO MORRE E SE VOCÊ, POLICIAL VOCACIONADO, DIGNO, IDEALISTA, HONESTO, VIRTUOSO, REAGIR CONTRA O SISTEMA, SERÁ MERA FATALIDADE, VOCÊ MORRERÁ JUNTO COM OS SEUS ENTES, OU POR INANIÇÃO OU POR ARMAÇÃO OU POR SANÇÃO!

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  • pinna

    20/09/2012 #2 Author

    ô, “Seo Pafúnncio”

    Cadê você?. Já tem uma semana, até a Dona Rita se aproveitou de sua ausência. Como dizia um antigo personagem do Jô : “você é o chefe/Patrão ? Não? só falo com O chefe/patrão. Eu idem, falar com subalternos(as), súditos e afins ?
    Pannunzio, é mandinga, superstição mesmo. Doutra feita, foi só eu te chamar de Pafúncio, que você se manifestou. Vamô vê se o encantamento ainda vige.
    respeitosamente,

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  • Idiossincrasias Policiais

    20/09/2012 #3 Author

    De: Sala De Imprensa
    Data: 18 de setembro de 2012 19:33
    Assunto: 9157 – solicitação entrevista- Major Marcelino- revista Caros Amigos
    Para:

    “-Segundo denúncia de dois policiais, um da civil e um da militar, há batalhões da polícia militar onde existe uma punição aos policiais que se negam a compactuar com ilegalidades e abusos, como participar de torturas, matanças e entrar para os grupos de extermínio. O nome da punição seria PAO (Pelotão de Apoio Operacional), que seria uma ronda externa do batalhão, ficar 12 horas de pé, sem se alimentar ou ir ao banheiro. A corregedoria tem conhecimento desse tipo de prática?
    A PMESP e a Corregedoria desconhece essa gíria da punição PAO, e hoje nenhum policial se sujeitaria a trabalhar sem poder se alimentar e ir ao banheiro, e denunciaria à própria corregedoria, qualquer desses abusos.

    -Na denúncia feita pelos policiais, eles explicam como seriam o modus operandi de grupos de extermínio: identificariam-se os chamados “bilões’, que seriam os policiais mais violentos para integrarem os grupos, que seriam chamados para integrar os ‘caixa-dois’, que seriam os grupos de extermínio do batalhão. A corregedoria tem conhecimento desse tipo de denúncia?
    Também não conhecemos a expressão caixa dois como sendo grupo de extermínio, essa gíria é desconhecida na Polícia Militar de São Paulo.
    -Ainda sobre o modus operandi dos grupos de extermínio, há a denúncia de que eles atuariam em sua área de circunscrição, são formados por três integrantes, um deles seria escoltado até um local seguro, tiraria a farda, trocaria por uma de civil e orientaria ou executaria os assassinatos. Na sequencia, uma viatura seria encarregada de recolher as cápsulas para adulterar a cena do crime. A corregedoria tem conhecimento desse tipo de denúncia?
    Também desconhecemos essa conduta e seria estranho quem atua fora da lei respeitar área de circunscrição.
    Haveria, ainda, o uso de ‘kit vela’, que seria uma porção de entorpecente e arma fria colocada na mão do cadáver, para justificar o homicídio. A corregedoria tem conhecimento desse tipo de prática?
    Desconhecemos esse tipo de procedimento, porém se encontrado qualquer tipo de droga ilícita ou arma sem registro serão, com certeza, tomadas as providências cabíveis.
    -A motivação dos grupos de extermínio, seria, de acordo com as denúncias, para baixar os índices de criminalidade dos batalhões. Assim, tais policiais teriam proteção do comando, favorecidos por melhores escalas, bicos e armamentos. A corregedoria tem conhecimento desse tipo de prática?
    Afirmação totalmente incongruente, pois como que para baixar números de roubo, furtos e outro delitos eu estaria aumentando o número de homicídios, o que inclusive não correspondem aos fatos, pois o número de homicídios caiu vertiginosamente no Estado de São Paulo, o que coloca tal “denúncia” sem crédito, pela falta de lógica.
    – O policial civil afirma que os grupos de extermínio são institucionalizados e regionalizados em cada batalhão, que existem em todo o estado de São Paulo. Segundo ele, em cada batalhão tem um grupo de extermínio. O que a corregedoria afirma a respeito?
    Afirma ser inverídica tal afirmação, pois teria que ser um conluio generalizado para a prática de crimes, que rapidamente viria a tona, com provas e denunciantes que não teriam medo de apresentar provas destas condutas.

    -Os policiais e o presidente do Condepe, Ivan Seixas, também revelam que os policiais, tanto civis e militares, que tentam denunciar a existência de grupos de extermínio são perseguidos dentro da corporação. A corregedoria vem recebendo denúncias e reclamações desse tipo?
    Estranha tal afirmação, pois a Corregedoria dá todo o apoio a Policiais Militares que fazem denúncia, e o policial militar sabe disso, e é um profissional treinado e selecionado com a virtude da coragem o que não coaduna com a covardia de denunciar ilícitos graves de forma anônima sem trazer para tal, provas, como gravações, filmagens, nomes dos infratores e as ações criminosas.”

    SEM COMENTAR QUE DIVERSOS POLICIAIS IDÔNEOS E VOCACIONADOS ESTÃO SENDO SILENCIADOS POR MAUS POLICIAIS QUE DEFENDEM SEUS INTERESSES ESCUSOS E CAPITALISTAS A QUALQUER CUSTO!

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  • rosa calixto

    19/09/2012 #4 Author

    Pannunzio estou sentindo falta de um certo movimento no blog. Voce já explicou eu sei. mas este é um momento histórico. Voce não pode ficar fora. E para completar, São paulo, dos bandeirantes, não pode se transformr na São Paulo dos retirantes. É uma história linda que não pode ser perdida. AlÔ, São Paulo. Tem que pensar na cidade. tem que pensar no país. Tem que dar Serra. Por que? Porque Serra sempre foi um exigente admonistrador. competente e honesto. Saiu para pegar o governo…de São Paulo. Não bandonou ninguem. è isso que tem que ser compreendido. E na època já estava o brasil lutando contra os mensaleiros. Alô São Paulo! Sei que no final todos param para pensar. Bons pensamentos queridos. Mas Pannunzio tá devagar. É HISTÒRIA cara!

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  • Antonio

    17/09/2012 #5 Author

    ELEIÇÔES GERAIS EM 2006
    ———————–
    Com Lula no poder o PT elegeu apenas 5 governadores.
    Com Lula no poder o PSDB elegeu 6 governadores.

    ELEIÇÕES GERAIS EM 2010
    ———————–
    Com Lula/Dilma no poder o PT só elegeu 5 governadores.
    Com Lula/Dilma no poder o PSDB pulou de 6 para 8 gov.

    ————————————————————-

    ELEIÇÕES MUNICIPAIS EM 2004
    —————————
    COM Lula NO PODER, O POVO CAIU NO CONTO DO VIGÁRIO E O PT ELEGEU PREFEITOS EM 9 CAPITAIS.

    ELEIÇÕES MUNICIPAIS EM 2008
    —————————
    COM Lula NO PODER, O POVO ACORDOU E O PT DESPENCOU DE 9 PREFEITOS ELEITOS PARA SIMPLESMENTE 5.

    ELEIÇÕES MUNICIPÁIS EM 2012
    —————————
    COM Lula/Dilma NO PODER, SEGUNDO AS ÚLTIMAS PESQUISAS, O PT CAIRÁ DE 5 CAPITAIS PARA SIMPLESMENTE 3, PERDENDO AS DUAS CAPITAIS ONDE TEM GOVERNADORES PETISTAS, É MOLE OU QUER MAIS?

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  • Efeito SERRA e Efeito Alckimin!

    16/09/2012 #6 Author

    Alckmin usa a mesma retórica dos matadores da ditadura

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    MARIA RITA KEHL
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    “Quem não reagiu está vivo”, disse o governador de São Paulo ao defender a ação da Rota na chacina que matou nove supostos bandidos numa chácara em Várzea Paulista, na última quarta-feira, dia 12. Em seguida, tentando aparentar firmeza de estadista, garantiu que a ocorrência será rigorosamente apurada.

    Eu me pergunto se é possível confiar na lisura do inquérito, quando o próprio governador já se apressou em legitimar o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele.

    “Resistência seguida de morte”: assim agentes das Polícias Militares, integrantes do Exército e diversos matadores free-lancer justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985.

    Suprimida a liberdade de imprensa, criminalizadas quaisquer manifestações públicas de protesto, o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dos quais 141 permanecem até hoje desaparecidos e outros 44 nunca tiveram seus corpos devolvidos às famílias –tema atual de investigação pela Comissão Nacional da Verdade).

    Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios, em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes cujos corpos eram entregues às famílias totalmente desfigurados, foram os laudos que atestavam os inúmeros falsos “suicídios”.

    HERZOG

    A impunidade dos matadores era tão garantida que eles não se preocupavam em justificar as marcas de tiros pelas costas, as pancadas na cabeça e os hematomas em várias partes do corpo de prisioneiros “suicidados” sob sua guarda. Assim como não hesitaram em atestar o suicídio por enforcamento com “suspensão incompleta”, na expressão do legista Harry Shibata, em depoimento à Comissão da Verdade, do jornalista Vladimir Herzog numa cela do DOI-Codi, em São Paulo.

    Quando o Estado, que deveria proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais, investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes, ninguém mais está seguro. Engana-se a parcela das pessoas de bem que imaginam que a suposta “mão de ferro” do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora.

    Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer. A falta de transparência das instituições democráticas –qualificação que deveria valer para todas as polícias, mesmo que no Brasil ainda permaneçam como polícias militares– compromete a segurança de todos os cidadãos.

    Vejamos o caso da última chacina cometida pela PM paulista, cujos responsáveis o governador de São Paulo se apressou em defender. Não é preciso comentar a bestialidade da prática, já corriqueira no Brasil, de invariavelmente só atirar para matar –frequentemente com mais de um tiro.

    Além disso, a justificativa apresentada pelo governador tem pelo menos uma óbvia exceção. Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo “tribunal do crime” do PCC na chácara de Várzea Paulista. Ora, não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva, que foi assassinado junto com os outros supostos resistentes.

    Aliás, o “tribunal do crime” acabara de inocentar o acusado: o senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado. E apesar da ausência total de marcas de tiros nos carros da PM, assim como de mortos e feridos do outro lado, o governador não se vexa de utilizar a mesma retórica covarde dos matadores da ditadura –“resistência seguida de morte”, em versão atualizada: “Quem não reagiu está vivo”.

    CAMORRA

    Ora, do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública do governo do Estado de São Paulo? Sabemos que, depois da onda de assassinatos de policiais a mando do PCC, em maio de 2006, 1.684 jovens foram executados na rua pela polícia, entre chacinas não justificadas e casos de “resistência seguida de morte”, numa ação de vendeta que não faria vergonha à Camorra. Muitos corpos não foram até hoje entregues às famílias e jazem insepultos por aí, tal como aconteceu com jovens militantes de direitos humanos assassinados e desaparecidos no período militar.

    Resistência seguida de morte, não: tortura seguida de ocultação do cadáver. O grupo das Mães de Maio, que há seis anos luta para saber o paradeiro de seus filhos, não tem com quem contar para se proteger das ameaças da própria polícia que deveria ajudá-las a investigar supostos abusos cometidos por uma suposta minoria de maus policiais. No total, a polícia matou 495 pessoas em 2006.

    Desde janeiro deste ano, escreveu Rogério Gentile na Folha de 13/9, a PM da capital matou 170 pessoas, número 33% maior do que os assassinatos da mesma ordem em 2011. O crime organizado, por sua vez, executou 68 policiais. Quem está seguro nessa guerra onde as duas partes agem fora da lei?

    ASSASSINATOS

    A pesquisadora norte-americana Kathry Sikkink revelou que o Brasil foi o único país da América Latina em que o número de assassinatos cometidos pelas polícias militares aumentou, em vez de diminuir, depois do fim da ditadura civil-militar.

    Mudou o perfil socioeconômico dos mortos, torturados e desaparecidos; diminuiu o poder das famílias em mobilizar autoridades para conseguir justiça. Mas a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia.

    Hoje os supostos maus policiais talvez sejam minoria, e não seria difícil apurar suas responsabilidades se houvesse vontade política do governo. No caso do terrorismo de Estado praticado no período investigado pela Comissão da Verdade, mais importante do que revelar os já conhecidos nomes de agentes policiais que se entregaram à barbárie de torturar e assassinar prisioneiros indefesos, é fundamental que se consiga nomear toda a cadeia de mando acima deles.

    Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando?

    Como confiar na seriedade da atual investigação, conduzida depois do veredicto do governador Alckmin, desde logo favorável à ação da polícia? Qual é a lisura que se pode esperar das investigações de graves violações de Direitos Humanos cometidas hoje por agentes do Estado, quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes?

    Não há grande diferença entre a crueldade praticada pelo tráfico contra seis meninos inocentes, no último domingo, no Rio, e a execução de nove homens na quarta, em São Paulo. O inquietante paralelismo entre as ações da polícia e dos bandidos põe a nu o desamparo de toda a população civil diante da violência que tanto pode vir dos bandidos quanto da polícia.

    “Chame o ladrão”, cantava o samba que Chico Buarque compôs sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Hoje “os homens” não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores “suspeitos” das favelas e das periferias para fora dos barracos ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades.

    PELA CULATRA

    Do ponto de vista da segurança pública, este tiro sai pela culatra. “Combater a violência com mais violência é como tentar emagrecer comendo açúcar”, teria dito o grande psicanalista Hélio Pellegrino, morto em 1987.

    E o que é mais grave: hoje, como antes, o Estado deixa de apurar tais crimes e, para evitar aborrecimentos, mente para a população. O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário. O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação –portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar.

    O Estado, ao mentir, perde legitimidade –quem acredita nas “rigorosas apurações” do governador de São Paulo? Quem já viu algum resultado confiável de uma delas? Pensem no abuso da violência policial durante a ação de despejo dos moradores do Pinheirinho… O Estado mente –e desampara os cidadãos, tornando a vida social mais insegura ao desmoralizar a lei. A quem recorrer, então?

    A lei é simbólica e deve valer para todos, mas o papel das autoridades deveria ser o de sustentar, com sua transparência, a validade da lei. O Estado que pratica vendetas como uma Camorra destrói as condições de sua própria autoridade, que em consequência disso passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.

    http://fantastico.globo.com/videos/t/edicoes/v/gravacoes-telefonicas-revelam-como-bandidos-julgam-comparsas-no-tribunal-do-crime-em-sp/2142441/

    http://noticias.r7.com/videos/conheca-detalhes-da-operacao-policial-que-deixou-nove-mortos-no-interior-de-sp/idmedia/505676d3fc9b355b57eaef98.html

    http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/rota-deu-61-tiros-em-acao-contra-pcc-20120914.html

    Responder

    • Bem Feito

      17/09/2012 #7 Author

      Minha senhora, com todo respeito que a senhora não merece, todos sabemos que é uma das mais ferrenhas defensoras da Vanguarda do Atraso (os esquerdopatas, esquerdofrênicos e esquerdiotas) juntamente com a patriota Marilena Chauí.
      A casa caiu véia, o bandido Marcos Valério abriu o bico e deu toda a ficha do Mensalão para a Revista Veja, aquela que voces quadrúpedes chamam de esgoto, que já publicou matéria a respeito e posteriormente irá apresentar o vídeo com a confissão do delinquente confirmado o que o mundo sabe: o Lula é o chefão da quadrilha denominda PT.
      Não me admira que a senhora, velha defensora do mentecapto marxismo idiota, não saiba a diferença entre bandidos e pessoas de bens, entre facção do crime organizado e policia militar, pois, aprecia e é conivente com os métodos do banditismo vermelho das ratazanas lulopetistas.
      A casa caiu, e o bêbado vagabundo só não irá mofar na cadeia se o MP não quiser.
      Vcs são a vergonha nacional, mudem-se para CÚba e vivam a vida confortável que o Socialismo Capitalista proporciona para os apaniguados e chefões mafiosos.
      De resto, vão todos para o inferno, junto com os cânceres humanos, Lula, Chavez, Cretina Kichner, Chávez, Coma Andante Fiel, e demais sequazes.

    • Marcjaguar

      18/09/2012 #8 Author

      Caro Pannunzio

      Comecei a ler o texto dessa senhora, mas confesso que quando ela faz referencia aos “supostos inimigos publicos que lutavam pela volta da democracia” foi demais p/ o meu estomago!
      Vai deturpar a verdade e a historia assim na Cuba que a pariu, dna. Maria!!!

  • Amores

    15/09/2012 #9 Author

    O efeito está ai, estamos assistindo o fim do PSDB Paulista.

    Responder

    • Felipão

      17/09/2012 #10 Author

      Ei você do MAV.
      Não. Estamos assistindo é o fim do conto de fadas petista. Ou a morte do Visconde de Sabugosa – Pedrinho cresceu e Visconde morreu. Entendeu ? E o o seu amigo Zé estará no banquinho essa semana. Semana que promete essa !

      A PM de SP nunca tratou bandido com carinho. Sempre foi na bala. O problema é que volta e meia quem leva bala não era bandido – isso sim é que tem que acabar. Bala da PM só deve ter como destinatário bandido.

  • bartolomeu

    14/09/2012 #11 Author

    Triste é constatar que a tal da “presidenta” está caminhando para a vala comum dos negociadores de votos. Para ter o apoio dos evangélicos, vendeu um Ministério ao Bispo Crivella. Para ter mais tempo na propaganda eleitoral, vendeu uma Secretaria Geral de um Ministério a um procurado pela Interpol. E, finalmente, para ter o apoio de uma PETISTA, vendeu o Ministério da Cultura para Dona Marta Suplicy. Daqui a pouco estará começando seus discurso dizendo “nunca antes na história deste país…”

    Responder

  • Wilson Santos

    14/09/2012 #12 Author

    Só uma pergunta: Neste blog só se fala (mal) do PT, Dilma, Lula?
    Ou o Pannunzio já considera o Serra um defunto político ou então tem algum ressentimento contra o PT.

    Responder

    • Big Head

      15/09/2012 #14 Author

      Pannunzio, acho um erro tentar responder quem tenta pautar seu blog, ainda mais quando se nota, pela pergunta, que o autor é leitor da Besta. Quer dizer que críticas ao PT, ao Lula e a Dilma teriam que advir de algum ressentimento? Será que estes personagens não são passíveis de crítica? Parece que o subjornalismo de genuflexão faz escola também entre os leitores. Ô Wilson, faz o seguinte, em vez de ficar perscrutando vã e inutilmente inexistentes motivos emocionais de quem ousa criticar teus semideuses, procura contrargumentar, trazer ao debate opiniões fundadas que, quem sabe?, possa enriquecer a conversa, falô?

    • Amores

      15/09/2012 #15 Author

      criticar o psdb do alkimin pode. rs

    • Ricardão

      17/09/2012 #16 Author

      Olá Amores.
      Vai lá nos sites do BESTA/JEG/JED e seja feliz. Aqui você não consegue nada.
      Aliás, que eu saiba o pessoal do MAV está com muita hora extra. Por que será ?

  • rosa calixto

    13/09/2012 #17 Author

    Não é verdade que o povo não está dando a mínima para o mensalão. Em todo lugar que eu vou só se fala nisso. E é grande a expectativa para a semana que entra, quando o núcleo da quadrilha vai ser julgado. E o povo comenta e muito da pressa com que a presidente escolheu o novo ministro para substitur Cesar Peluso. O povo não vai aceitar maracutaias neste que é o julgamento do século no Brasil.

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  • Big Head

    13/09/2012 #18 Author

    Isso, juntamente com os rumos que tem tomado o julgamento do Mensalão, tem exaperado o Messias de Caetés. Um editorial da Folha de hoje faz um resumão das candidaturas petistas nas capitais e mostra uma situação desoladora. O fato é que, apesar de ser ainda muito popular, o Padim Lula vem perdendo paulatinamente sua influência, o que para um incurável ególatra deve ser bem danoso. No Recife, capital do Estado em que nasceu o Salvador, a situação consegue ser pior, pois o candidato empurrado goela abaixo pelo PT, mesmo sendo um figurão d’O Partido, tem ameaçada até sua ida ao 2º turno. Sempre achei superestimada a influência de Lula em pleitos eleitorais. Basta dizer que, detentor de 137% de popularidade, elegeu sua sucessora com pouco mais de 54% dos votos válidos.

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  • JL

    12/09/2012 #19 Author

    Cadê o Lulla???

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  • pinna

    12/09/2012 #20 Author

    Convém lembrar que os milhões de jovens que “fizeram” o ENEM, votam e tem parentes, sem contar evangélicos e católicos

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  • Eder Rodrigues da Silva

    12/09/2012 #21 Author

    Sr. Pannunzio,

    Este é sem duvida um interessante e bem estruturado pensamento. Merece ser relido mais de duas vezes com vagar, para se lançar um parecer.
    A priori, verdade seja dita, que o PT “nunca na história deste país” (rsrs), foi bombardeado e sofreu tamanha pressão.

    P.S. A propósito gostaria de saber se leu a minha sugestão para tema e convidado do Canal Livre.

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  • Marcelo Vitor da Gama

    12/09/2012 #22 Author

    Não exite em seu comentário caro Pannunzio, esse efeito LULA não provado, isso não existe:
    1. As pessoas não estão nem aí com o mensalão, portanto sem efeito prático. (o único efeito é produzido todos os dias nos telejornais)
    2. A tentativa de desconstrução não está funcionando, pela falta de interesse das pessoas.
    3. A candidatura Serra, patina por si só: em minha opinião uma figura política que deve ser esquecida para sempre em nosso país.
    4. Lula é tão Santo, qto FHC, portanto essa figura de linguagem tb não existe.
    5. O seu raio de influência sobre outras figuras políticas é uma incógnita (o de Lula).
    6. Certo é que a figura política de Russomano, é execrável, isso eu tenho certeza, pelas posições políticas de sua vida.

    Um abraço, tenha uma Boa Semana!!

    Coitados de nós!!!

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    • Rolando

      12/09/2012 #23 Author

      Muito cedo para medir que o efeito Lula está sendo inócuo.
      Muito cedo para considerar o quanto Mensalão irá desgastar os PETEBAS.

      Concordo contigo que as pessoas não se importam. Na verdade até agora esse julgamento é o evento mais importante deste século, mas realmente ninguém liga.
      Não ligam de tal forma, que os PETEBAS rosnaram que iam lançar as massas nas ruas se condenados.
      Até agora não vi um trabalhador de verdade perder hora no emprego por conta de passeata a favor dos criminosos de colarinho branco condenados.

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