IGOR GIELOW O Brasil assina amanhã com a França o maior e mais importante acordo militar de sua história recente, comprando inicialmente € 8,5...

IGOR GIELOW

O Brasil assina amanhã com a França o maior e mais importante acordo militar de sua história recente, comprando inicialmente € 8,5 bilhões em submarinos e helicópteros.

Provavelmente esta conta será aumentada em breve pela aquisição de caças franceses, se depender do desejo do Ministério da Defesa.

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy celebram a “parceria estratégica” após a festa do Sete de Setembro. O valor, equivalente a R$ 22,5 bilhões no câmbio de sexta-feira, é muito superior às compras russas feitas pela Venezuela (menos de R$ 10 bilhões) ou aos acordos operacionais dos EUA com a Colômbia.

A preferência pelos caças franceses, um negócio em separado que pode chegar até a R$ 10 bilhões para o fornecimento de 36 aviões, foi confirmada à Folha pelo ministro Nelson Jobim (Defesa). Lula já dera declarações pró-Paris na semana passada, e Jobim diz que a escolha “faz sentido” no escopo de parceria estratégica.

“Ainda espero as considerações da FAB sobre preço e transferência de tecnologia. Eles não farão a escolha, mas indicarão prós e contras de cada avião”, disse Jobim. Concorrem com o Rafale o F-18 americano e o Gripen sueco. Ele conversa com Lula sobre o assunto hoje, indicando que o Ano da França no Brasil pode ser ainda mais festivo para Sarkozy.

O valor do acordo de amanhã, a ser pago em até 20 anos por meio de financiamentos (€ 6,1 bilhões) e desembolsos diretos, equivale a tudo o que está previsto para o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) neste ano. Os termos de financiamento não deverão ser assinados, pois ainda dependem de aprovação final no Congresso Nacional.

O Exército, “patinho feio” até aqui na cesta de compras militares, será contemplado com a assinatura de um protocolo de cooperação com a França para modernizar sua capacidade de combate.

É a principal parceria militar brasileira desde que o governo Getúlio Vargas apoiou os Aliados em troca de um extenso pacote de favores durante a Segunda Guerra Mundial. Em termos de valores relativos ao PIB, pode superar a compra de encouraçados britânicos no início do século 20 ou de armas alemãs na década de 1930.

Não configura uma corrida armamentista clássica, mas um reequipamento generalizado que afeta os países da região no novo cenário geopolítico local, marcado pela retórica agressiva dos países “bolivarianos”.

Com o acordo e a provável aquisição dos caças, o Brasil coloca quase todos os “ovos no mesmo cesto” na área militar. Isso tem suas vantagens. Como parceiro prioritário, o Brasil supostamente terá acesso privilegiado a tecnologias de ponta para capacitar sua indústria. E tecnologia militar transborda para diversos setores civis.

Hoje, apenas França e Rússia dominam um espectro tão completo quanto o dos EUA em termos militares -tanto que Moscou foi namorada pelo governo Lula para acordo semelhante, mas o noivado acabou sendo com Paris.

Tradicionalmente, os franceses buscam o máximo de independência tecnológica dos EUA. Esse não alinhamento é um excelente ponto de venda, uma vez que material militar americano sempre é sujeito a vetos futuros. Não foi por acaso que Hugo Chávez caiu nos braços de Vladimir Putin.

Mas há problemas. O país ficará dependente da França, e de eventuais problemas de escala industrial ou de falta de transferência tecnológica futura. E o argumento do não alinhamento francês é válido para hoje, mas não necessariamente para o futuro. Jobim discorda do risco e por tabela praticamente descarta o americano F-18 da concorrência da FAB.

Os questionamentos são focados principalmente no acordo para a montagem de quatro submarinos convencionais Scorpène (€ 415 milhões cada), a integração do reator brasileiro a um submarino nuclear (€ 2 bilhões) e a construção de uma base e um estaleiro (€ 1,8 bilhão) -mais quase € 1 bilhão numa incerta rubrica de “transferência tecnológica”.

No caso dos convencionais, o acerto enterra mais de 25 anos de parceria com a Alemanha, que gerou os cinco submarinos atuais do país. A nova geração do produto alemão, considerado superior ao Scorpène, algo mais barata e com mais compradores no mundo, chegou a ser aprovada pela Marinha.

“Os submarinos convencionais que fazem parte do contrato com a França não são um projeto à parte, são integrantes do processo de desenvolvimento do submarino nuclear”, diz a nota da Defesa. As novas instalações geram polêmica porque são caras e serão feitas por um parceiro escolhido pelos franceses com ligações estreitas com políticos brasileiros: a construtora Odebrecht.

César Borges (PR-BA), relator e defensor do programa de financiamento na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, recebeu da construtora R$ 200 mil para sua campanha em 2002. Ele nega que a doação tenha influenciado sua decisão.

Jobim concorda que submarino nuclear é uma arma de ataque de longa distância, não de proteção de costa. Há, contudo, a questão do custo de operação, já que no mercado a estimativa é que um modelo nuclear custe o mesmo que dez convencionais para navegar.
No segundo ponto do acordo, da compra de 50 helicópteros de transporte por € 1,85 bilhão, há menos polêmica -apenas a imprecisão de que será uma empresa brasileira a construir os modelos. A Helibrás é subsidiária da fabricante francesa.

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