O domingo foi tranquilo na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), responsável por investigar o triplo homicídio que chocou Brasília há uma semana, quando...

O domingo foi tranquilo na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), responsável por investigar o triplo homicídio que chocou Brasília há uma semana, quando foram descobertos os corpos do advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, 73 anos, de sua mulher, Maria Carvalho Mendes Villela, 69, e da empregada do casal Francisca Nascimento da Silva, 58. Os três foram mortos com 72 facadas no apartamento do casal, na 113 Sul. No entanto, o minucioso trabalho de perícia coloca a Polícia Civil bem próxima de elucidar o crime. E, conforme o Correio antecipou ontem, as evidências apontam cada vez vez mais a tese de que o crime foi encomendado.

Na noite de sábado, os investigadores praticamente enterraram a hipótese de o crime ter sido um latrocínio comum (roubo seguido de morte). Apesar de joias terem sido levadas do apartamento 601/602, o assassino (ou assassinos) foi à residência dos Villela com o objetivo de matá-los, e não para praticar um roubo. Além disso, o criminoso tinha a chave do imóvel ou foi reconhecido pela empregada, que pode ter aberto a porta para o algoz — segundo a polícia, Francisca foi a primeira a ser morta, com 22 facadas, quase todas nas costas.

Até mesmo um jovem que já havia sido condenado pela Justiça por roubo com ameaça de morte e ao longo da semana passada chegou a ser investigado deixou de figurar como suspeito. No sábado à noite, ele foi ouvido pela polícia e apresentou um álibi considerado perfeito. O jovem comprovou que no dia 28, data em que os Villela e a empregada foram assassinadas, ele trabalhou das 8h às 18h. Saiu do emprego, em Taguatinga, no início da noite daquela sexta-feira e seguiu para a casa, em Ceilândia. Para isso, apresentou à polícia o cartão de ponto da empresa onde trabalha. O rapaz apresentou ainda o cartão eletrônico com o registro das passagens de ida e volta entre Ceilândia e Taguatinga.

O jovem, que tem 23 anos, chegou a ser investigado por dois motivos. Primeiro, porque no processo em que acabou condenado pela Justiça, seu advogado de defesa foi Augusto Villela, filho de José Guilherme e Maria Villela. No depoimento, que durou cerca de uma hora, ele disse ainda que só viu Augusto duas vezes. Em ambas as ocasiões, o encontro foi no Fórum de Ceilândia.

O segundo indício de que ele poderia estar envolvido no crime veio das imagens captadas pelo circuito de câmeras externas do prédio em frente ao Bloco C. O vídeo mostra dois homens saindo do edifício onde os Villela moravam, um deles com uma mochila nas costas. As características de um deles se parecia com a do rapaz ouvido no sábado.

Na tarde de ontem, o Correio conversou com o rapaz. Por telefone, ele repetiu o que tinha dito à polícia. Disse que pouco depois das 18h do dia 28 saiu do emprego e foi para casa, pois naquele dia não teria aulas na faculdade. O jovem também negou que tivesse sido preso pela polícia como suspeito do crime. “Eu nunca fui preso ou passei na porta da delegacia para falar sobre esse caso”, afirmou. Em 2007, ele foi condenado a cinco anos e quatro meses de prisão em regime semi-aberto, mas ganhou o direito de recorrer da sentença em liberdade.

Cautela

Apesar dos avanços nas investigações, a delegada Martha Vargas, que comanda o trabalho da 1ª DP, prefere a cautela e nega que o criminoso será apresentado amanhã pela polícia. “Não tenho pressa. Não vou correr para depois culpar inocentes e inocentar culpados”, afirmou ontem. Trabalhando intensamente desde a noite da última segunda-feira, neste domingo Martha não colheu depoimentos nem foi ao apartamento do casal Villela.

Dentro da linha de crime sob encomenda, na última quinta-feira a polícia ouviu o depoimento de dois contadores do advogado. O Correio apurou que os policiais quiseram informações sobre o patrimônio e a movimentação bancária do casal. Os investigadores também ouviram várias pessoas ligadas à família, além de parentes. A polícia já descobriu também que, ao contrário do que se pensava, José Guilherme e Maria Villela não chegaram juntos ao apartamento no dia do crime. Ela chegou primeiro, estacionou o carro na garagem e teria sido vista caminhado no pilotis do prédio e entrando na portaria 01/02. Depois, entre 18h e 19h, foi a vez do advogado. Os dois estavam sozinhos, o que descarta a hipótese de algum deles ter sido rendido antes de chegar em casa.

Memória
Dez dias de mistério

O assassinato do advogado José Guilherme Villela, 73 anos, de sua mulher, Maria Carvalho Mendes Villela, 69, e da empregada do casal, Francisca Nascimento da Silva, 58, continua envolto em mistério. A polícia já realizou sete perícias na residência da família, um amplo apartamento na 113 Sul. Foram recolhidas diversas evidências, entre elas impressões digitais, vestígios de sangue e até mesmo uma faca que teria sido usada para matar os três — no total, eles levaram 72 facadas.

Tecnicamente falando, trata-se de um latrocínio (roubo seguido de morte). Isso porque foram levadas várias joias do apartamento e três pessoas foram mortas. No entanto, é cada vez mais remota a possibilidade de o latrocínio ter sido cometido por um assaltante comum. Na avaliação de agentes que atuam no caso, dificilmente um bandido decidiria praticar um assalto no fim da tarde de uma sexta-feira, horário de intensa movimentação no edifício — o risco de ser visto é muito maior.

Além disso, não há qualquer sinal de arrombamento. Quem entrou no apartamento tinha as chaves ou teve a porta aberta por algum dos moradores. Ao deixar o local do crime, o assassino também trancou o apartamento. Para isso, deu duas voltas na chave, mesmo a porta de serviço possuindo uma fechadura que não permite sua abertura pelo lado de fora.

À polícia, moradores e porteiros que trabalham no Bloco C disseram não ter visto qualquer movimento estranho na noite da sexta-feira. Os investigadores ouviram uma testemunha que mora em um prédio vizinho. Além disso, câmeras de vídeo deste mesmo edifício registraram imagens de dois homens correndo, vindo da direção do Bloco C, mas não foi possível identificá-los.

Na sexta-feira, as investigações sofreram uma reviravolta. O principal suspeito — um homem jovem, filho de uma pessoa ligada aos Villela —, que teria ido ao apartamento para roubar as joias, foi deixado em segundo plano, porque a polícia não conseguiu encontrar qualquer prova contra ele, que também conseguiu um álibi considerado forte. Agora, a principal suspeita aponta para um crime sob encomenda.

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