Nos últimos dias, a presidente Dilma Rousseff fez uso indiscriminado de artifícios retóricos (e simbólicos) desprovidos de verdade fática com o objetivo de mascarar...
A quem acreditar queira...

A quem acreditar queira…

Nos últimos dias, a presidente Dilma Rousseff fez uso indiscriminado de artifícios retóricos (e simbólicos) desprovidos de verdade fática com o objetivo de mascarar a real intenção da nomeação do ex-presidente Lula para a chefia da Casa Civil — retirá-lo do alcance da Justiça Federal, remetendo o inquérito da Lava Jato para o Supremo Tribunal Federal.

Para descobrir o que existe de verdade, o que há de mentira nessa história é preciso estabelecer quando surgiu a ideia de dar a Lula foro privilegiado. O assunto aparece em vários trechos dos diálogos mantidos por interlocutores de Lula nos dias que antecederam sua nomeação. Em 8 de março, por exemplo, o tema é objeto de uma conversa entre Lula e o sociólogo Alberto Almeida.

Almeida é enfático ao recomendar ao ex-presidente que recorra à nomeação para o Primeiro Escalão com o objetivo de sair do foco do juiz Sérgio Moro. “Eu acho, tá, tem uma coisa que tá na mão de vocês, é ministério, acabou, porra!”, recomenda o consultor.

Em seguida, Alberto Almeida explicita as razões do conselho que dá ao ex-presidente: “Eles te condenaram efetivamente, tá?! Não tem defesa jurídica que salve, tá?!”

E como se fosse necessário ainda mais ênfase para convencer Lula, o sociólogo arremata: “Faz isso e foda-se! Vai ter porrada? Vão criticar? E daí? Ne porra… Numa boa, você resolve outro problema, que é o problema da governabilidade. Porra, você e DILMA, um depende do outro, cacete!”

“Você resolve outro problema”. Com essa frase, Alberto Almeida estabelece a verdadeira hierarquia das razões que levariam mais tarde Lula à Casa Civil. O primeiro problema era, sem a menor possibilidade de qualquer outra interpretação, a iminência da prisão do líder petista. A governabilidade era apenas uma questão secundária nesse diálogo.

Lula, que parece resistir ao argumento, na verdade admite que a mesma oferta, com o mesmo fim, já lhe havia sido feita pela presidente Dilma Rousseff: “Pra mim é muito difícil essa hipótese. Na verdade, ELA JA OFERECEU, sabe?!”, diz  o ex-presidente. Para em seguida admitir que o assunto seria objeto de deliberação naquele mesmo dia (“ Mas eu vou ter uma conversa hoje, que, depois eu te ligo”).

Alguma dúvida sobre o que era tratado nesse telefonema ? Se houver, uma conversa entre o presidente do PT, Rui Falcão, e o ministro Jaques Wagner pode repor a ordem natural das coisas. Falcão chama o ministro para informa-lo de que uma juíza singular de São Paulo pode, a qualquer momento, decretar a prisão de Lula a pedido do Ministério Público de São Paulo. E pede providências para evitar que isso aconteça. “Alguma iniciativa vocês precisam tomar. Porque tá na mão de uma juíza da quarta vara que não sabe quanto toma decisão, mas pode tomar decisão hoje” alerta o presidente do PT. 

O ministro parece impaciente com a insistência de Rui Falcão. O diálogo entre os dois continua desta forma na transcrição do grampo telefônico:

RUI: A outra coisa é o seguinte: se nomear ele hoje, o que que acontece?

JW: Aí não sei, eu tô por fora.

RUI: Então, consulta isso também…

JW: Mas ele já decidiu?

RUI: Não, mas nós “tamo” todo mundo pressionou ele aqui. FERNANDO HADDAD, todo movimento sindical, todo mundo.

O objetivo da consulta é claro e cristalino. Em face da possibilidade concreta da decretação da prisão de Lula, Rui Falcão quer saber de Wagner se a nomeação imediata de Lula para o ministério de Dilma lhe daria ou não a prerrogativa de foro, neutralizando (ou obstruindo) os efeitos da suposta ordem de prisão eventualmente exarada da juíza singular de São Paulo. Nem a mais libertina hermenêutica é capaz de dar outro sentido a essa conversa.

Chegamos, finalmente, à véspera do dia da posse. Pouco antes das 13h30, Dilma toma a iniciativa de ligar para Lula. Pede que ele aguarde no aeroporto de Brasília a chegada de um funcionário da Presidência da República que iria lhe entregar um documento. Lula parece surpreso com a comunicação e demora alguns segundo para entender o que Dilma esta lhe comunicando. A sequência de frases é a seguinte:

Dilma: “Lula, deixa eu te falar uma coisa.”
Lula: “Fala, querida. Ahn?”
Dilma: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”
Lula:  “Uhum. Tá bom, tá bom.”
Dilma: “Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.”
Lula: “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando.”
Dilma: “Tá?!”
Lula: “Tá bom.”
Dilma: “Tchau.”
Lula: “Tchau, querida.”

Não há, como se percebe, nenhuma alusão a coleta de assinatura, à necessidade de devolver o papel assinado, nada. “Só usa em caso de necessidade”, assevera a presidente. A única inferência possível aqui é a de que o documento constitui, na verdade, um salvo-conduto para impedir a consecução de um mandado de prisão.

Apanhada em flagrante tentando dificultar a ação da Justiça Federal do Paraná, a presidente Dilma Rousseff tentou usar um recurso de prestidigitação para provar que não estava fazendo o que efetivamente fez. Durante a posse dos ministro, saca do púlpito um documento que reproduz o termo de posse somente com a assinatura de Lula.

De acordo com a presidente, a ausência da assinatura dela tornaria o ato sem efeito para o propósito de revestir Lula de uma blindagem contra atos do juiz Sérgio Moro. A construção desse argumento, no entanto, padece pela falta de verossimilhança. Como explicar que Dilma tenha um documento sem sua assinatura se ela mesma mandou rodar de afogadilho uma edição extra do Diário Oficial às 19h00 daquela noite ?

É claro que, se Lula estava fora de São Paulo e apôs sua assinatura ao documento no começo da tarde, Dilma tem que tê-lo assinado para que o ato de  nomeação, que justificou até a edição extraordinária do Diário Oficial da União, tivesse efeito. Não poderia haver DOU extra sem a assinatura da presidente.

Não é apenas a falta de veracidade que está a destruir a versão fake urdida pelo Planalto. Falta também verossimilhança a essa trama. E nem é preciso descer aos detalhes de uma análise semiológica para que isso fique claro. Há algumas perguntas que seguem sem resposta pelo simples fato de que não há  resposta possível para nenhuma delas: Por que Dilma Rousseff tinha tanta pressa em formalizar a nomeação ? Qual o motivo de tanta preocupação com a coleta de uma assinatura ? O que seria o tal “caso de necessidade” que justificaria o uso do documento enviado por ela a seu antecessor ?

O único elemento capaz de dar lógica a esse contexto fantasioso, criado no desespero do valhacouto em que se transformou o Primeiro Escalão da República, é a necessidade de lançar mão de uma mentira para apresentar algo à opinião pública.

Como se sabe, a ética dos governos petistas não cultiva o uso da verdade como um valor. Dilma foi reeleita ao cabo de uma campanha cuja mensagem central foi construída sobre um reino fantasioso — falsificação que a realidade tratou de desvelar nos primeiro dias do novo governo. Esse fenômeno não é produto de geração espontânea no reino dos governos petistas. É mais fácil entender a ausência de nexo com a realidade a partir da constatação de que há uma cultura da mentira forjada na mais abjeta prática política.

Nos últimos anos, os petistas não têm sido felizes quando confrontados com a realidade. Escândalos como a morte cruel de Celso Daniel, o Mensalão e o Petrolão criaram entre os próceres do partido um profundo desprezo pela verdade — agora, até mesmo pela verossimilhança. Foi assim, usando de maneira desabrida mentiras e meias-verdades, que o projeto de Poder petista sobreviveu aos solavancos de suas próprias contradições morais.

Desta vez, no entanto, a falta de lógica construiu uma falsificação coxa (o trocadilho é inevitável!), claudicante. Tão frágil que não convenceria nem o mais descerebrado dos idiotas.

Talvez a genialidade dos estrategistas palacianos tenha tramado a peça de fancaria pensando exclusivamente nos carolas da mais aguerrida militância — os crentes com a estrela no peito que têm no PT não um partido, mas uma seita religiosa, e que vêm Lula não como um homem cheio de defeitos, mas como um santo de devoção.

Para estes, qualquer coisa basta.

Não se espere, contudo, que os céticos que conformam a maioria da população nos dias de hoje rezem por essa cartilha fantasiosa. O senso comum ainda tem algum discernimento, a despeito do reino de Hades em que se transformou o universo da política.

Comentários

  • Wilson Roberto Longo

    19/03/2016 #1 Author

    Todos ouvimos sua conversa que Moro tornou Pública ela dizer que foi mal interpretada é no minimo Mau Caratismo conduta comim dela e de Lula

    Responder

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