Matem o mensageiro!

Mate o mensageiro!Parece ser uma unanimidade.

Dez em cada dez defensores do modo petista de governar clamam pela destruição da “velha mídia”, da “imprensa golpista”. O “golpe” que se trama contra os anjos imaculados que mandam hoje no País seria uma “conspiração midiática” de cinco famílias de oligarcas que controlariam a opinião pública.

A ladainha tem sido repetida como um mantra a cada manifestação, em cada post, reunião partidária ou conversa de boteco dessa pretensa esquerda analfabeta e corrupta que infestou nossas instituições — dela ou de seus prepostos.

Para quem trabalha em veículos de comunicação de massa o efeito que isso traz é evidente. Há um claro mal-estar em relação a qualquer profissional da imprensa. Manifestações de hostilidade vão da invasão do set onde um repórter tenta fazer uma transmissão ao vivo até a agressão vil e covarde de jornalistas. Passam pela pichação de prédios que abrigam sedes dos conglomerados de comunicação e por atos de vandalismo explícito.

A onda de ódio à imprensa faz sucesso entre os idiotas, que passam a repetira ladainha do golpe midiático como se ela fosse curar as chagas que a roubalheira espalhou pela administração da coisa pública.

Matem o mensageiro!, bradam os acólitos dos mais vorazes corruptos que o Brasil já teve em toda a sua história. É este o remédio ministrado aos incautos, uma vez que nossa jovem democracia ainda não permite a volta da censura prévia que essa fauna pretende ver restaurada.

Pouco importa que se tungue descaradamente o erário. Pouco interessa se o furto qualificado levou à lona uma estatal do porte da PETROBRAS. O que  irrita mesmo é ver as notícias sobre a tunga nas página nas páginas dos jornais, das revistas e no noticiário das rádios e da televisão.

A que leva isso ? Leva à criminalização da atividade da imprensa. Leva, em última instância, a um modelo de sociedade totalitária, objetivo final dos falsos democratas que antipatizam com a liberdade de expressão. Leva à destruição da instituições republicanas. Leva às ditaduras e ao colapso do processo civilizatório.

São gravíssimas as consequências das hostilidades que abertamente se pregam contra os jornais e os jornalistas — a “mídia”. Basta perceber que não existe no mundo, nem nunca existiu, nem existirá uma sociedade democrática que prescinda de uma imprensa livre e vigorosa. De uma imprensa que não se dobre aos poderosos, não fique de joelhos diante dos governantes.

Assim como não existe, nem nunca existiu, nem nunca existirá uma ditadura que tolere minimamente o fluxo livre de informações. Liberdade de expressão e democracia são gêmeas siameses. Uma não existe sem a outra. Há aí uma clara relação de simbiose.

Essa relação remonta ao século XVIII e à criação de uma esfera pública a partir da crítica literária feita por uma imprensa incipiente no Iluminismo. Foi esse espaço realmente público que criou as condições da superação da nobreza pela burguesia e do feudalismo pelo capitalismo, como muito bem demonstrou Jürgen Habermas no início dos já distantes anos de 1960.

Mesmo quem nunca ouviu falar de Habermas pode compreender a importância da Imprensa para as democracias ocidentais. Richard Nixon foi levado à renúncia graças ao trabalho dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post. O fascismo italiano teve a cerrada oposição de jornalistas liberais. Entre eles Mario Pannunzio, primo distante do autor deste texto.

A restauração da democracia brasileira teve como ponto de partida a morte de Vladimir Herzog. E a derrocada de Collor deveu-se às reportagens investigativas de Veja e Isto É. O Mensalão saiu dos escaninhos da baixa política também pelas páginas de Veja e da Folha de São Paulo, que publicou a histórica entrevista de Roberto Jefferson dando o caminho para a investigação judicial que revelou a face oculta do petismo.

Os anti-mídia devem ter já entabulado a pergunta: quer dizer que o jornalismo praticado no Brasil é perfeito ? A resposta é, definitivamente, não! Há sempre um esqueleto insepulto a justificar as suspeitas. O caso da Escola de Base, por exemplo, ainda assombra o público leigo e os próprios jornalistas.

A Rede Globo, velha aliada dos militares durante a ditadura, protagonizou o Caso Proconsult e fraudou a edição do debate ente Collor e Lula em 1989 para ampliar a vantagem de seu candidato, o ex-governador de Alagoas. Também ocultou os comícios das Diretas-Já e apresentou o maior deles, em São Paulo, como uma festa em homenagem ao aniversário da cidade.

Veja chegou a elogiar a Operação Bandeirante em editoriais antes de se engajar em uma campanha pelo restabelecimento das liberdades civis (leia mais sobre isso clicando aqui).

Os fatos pretéritos servem sim como uma espécie de alerta para o público. Deve-se acreditar piamente, cegamente, em tudo que sai nos jornais ? Não, é claro que não. Mas a desconfiança sistemática e apriorística certamente não representa solução para o problema da confiabilidade. Apesar de seus erros — involuntários e dolosos — a imprensa é um dos pilares sobre os quais se sustenta a nossa jovem democracia.

Boa parte das suspeitas sobre a atividade da “mídia” brota das tintas de um tipo curioso de jornalista — aquele que esta serviço de uma causa, ou que alugou sua pena a a uma causa qualquer. Esse jornalista é aquele que conspurca a liberdade, matéria-prima de seu trabalho, porque está preocupado em construir ou legitimar uma farsa para amealhar o apanágio.

Esses tipos constróem ficções simbólicas e estereótipos como o tal PIG, que vem a ser o Partido da Imprensa Golpista. Enquanto avacalham veículos onde eles mesmos trabalhavam até serem banidos do mercado, dão-se ao desplante de generalizar as suspeitas em troca de um bererê de alguma estatal federal.

Os penas-alugadas trabalham para desacreditar o jornalismo formal. O trabalho deles é preparar o terreno para o triunfo de iniciativas fascistas como o tal “controle social da mídia”, eufemismo para mascarar o que realmente se pretende, a volta da censura. Ou devolver ao Estado a condição de delimitador da liberdade editorial com excrescências como a tal “Ley de Medios”, que a Argentina acaba de colocar em desuso.

O modelo ideal de comunicação, para os grupos que tentam criminalizar a “mídia”, é o da Venezuela, onde a pauta é dada pelo governo, o tom é dado pelo governo, o papel é dado pelo governo e a posição editorial é dada pelo governo. Concretamente, o que se tem é um jornalismo de fachada, que só pode tecer loas ao governo — ou não existe porque governo não lhe permitirá.

Se você está engrossando a cantilena dos chorosos que querem a destruição da mídia, faça as contas. Imagine uma sociedade ideal como a que você está ajudando a construir, sem imprensa, sem liberdade de expressão e sem a possibilidade de divergir. Pense bem antes de hostilizar o repórter, de tocar fogo na revista, de demonizar o telejornal. Esse mundo sem liberdade de expressão é um péssimo negócio até para você, que quer acabar com ela apenas para ver o triunfo dos que vêm sendo denunciados no noticiário cotidiano.

Muito melhor do que queimar carros de reportagem é parar de ler a publicação que lhe incomoda. Se você acha que determinado jornal não é honesto, que está manipulando a informação, troque pelo concorrente. É você quem financia a atividade da “mídia”. Não adianta jogar pedra no carro de link do Jornal Nacional e correr para casa para assistir ao Big Brother. Melhor do que chutar o repórter da Globo é parar de ver a novelinha das oito.

Por fim, quero apenas lembrar que governantes geralmente não gostam de jornalistas. Salvo aqueles que costumam chamar presidente de presidentA, numa semântica que explicita uma indigente condição de subserviência. Não é por acaso que o direito à informacão, a liberdade de expressão e o instituto da inviolabilidade da fonte são cláusulas pétreas, estão inscritos no Artigo 5º da Constituição.

Pergunte ao Fernando Henrique Cardoso o que ele pensava dos setoristas que cobriam o Palácio do Planalto. E pergunte a esses setoristas o que escreviam de FHC nos anos de seu governo. Saiba que onde houver um governante e um jornalista honesto, eles provavelmente estarão às turras por quase todo o tempo.

É preciso uma certa iconoclastia. É preciso algum atrevimento. É necessário exercitar os sentidos. É imperativo manter a vigilância. É assim que a imprensa cumpre seu papel.

Que certamente não é o de puxar o saco de quem está no Poder. Muito menos o de esconder o que lhe parece feio apenas porque atinge a facção com a qual você se identifica.

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