Presidente, se eu fosse o senhor, iria ao estádio de Chapecó. Tem um monte de gente esperando o senhor lá. As pessoas estão precisando... Vai lá, Presidente.
Arena Condá

Daniel Isaia/Agência Brasil

Presidente, se eu fosse o senhor, iria ao estádio de Chapecó. Tem um monte de gente esperando o senhor lá. As pessoas estão precisando que alguém tenha um gesto de grandeza. Pode perfeitamente vir do senhor. Basta ter um pouco de coragem. Medo de tomar uma vaia não justifica sua ausência. O senhor vai ficar com fama de covarde.

É um momento de comoção. As pessoas estão muito tristes com o que aconteceu. Realmente tristes, desoladas. Estão se sentindo como se tivessem perdido um irmão mais novo no auge da vida. Elas se emocionaram com o Ministro José Serra, para o senhor ter uma ideia!

Nós vivemos em 1994 um momento muito parecido com este que estamos atravessando agora. Foi quando Ayrton Senna morreu e deixou o País órfão de um líder. Assim como temos agora o senhor, tínhamos na Presidência da República um vice efetivado no cargo graças a um impeachment.

O Itamar Franco não bateu boca com o pai de ninguém. Ao contrário. Ele mandou uma carta muito respeitosa aos pais do Senna. Não foi uma nota gelada, protocolar. “Peço-lhe receber o abraço de um pai que entende seu sofrimento e do presidente da República que expressa o sentimento de toda a Nação”, escreveu o Presidente de então. A tristeza dele a gente pode sentir até hoje ao reler a frase.

Ele foi ao velório. Enfrentou uma multidão dez vezes maior do que os cem mil que são esperados na arena. Um milhão de pessoas. Se ele encarou um milhão, por que o senhor não encararia cem mil?

Não sei se depois desse bate-boca com o sr. Osmar Machado, pai do Felipe, a coisa vai ser fácil para o senhor. Mas ‘Seu’ Osmar tem razão. O senhor e a sua assessoria não deveriam nem ter cogitado não ir à Arena Condá. Muito menos mandar o porta-voz dar um cala-boca no pai do menino. Foi péssimo aquilo. Por que o senhor mesmo não pegou o telefone e ligou para a família? Custava alguma coisa ?

Deve ter um monte de aspones soprando aí no seu ouvido que o senhor não deve ir, que seria péssimo se fosse admoestado pelo público — ainda mais depois do Serra ter sido ovacionado na Colômbia. Mas se o senhor realmente não for, vai ser pior.

Pense bem. Será que alguém vai se aproveitar de uma hora como esta pra fazer um ato político ? Num velório coletivo ? Eu sou capaz de apostar que não. Seria de muito mau gosto. Ainda que as pessoas estejam irritadas com o senhor, especialmente depois dessa história do apartamento do  Geddel .

Duvido que alguém vá transformar este momento tão triste numa manifestação. Mas vai que…

Imagino que tem muito conselheiro soprando no seu ouvido que o senhor não está aí para ser popular, que a sua função é consertar a economia. Vão dizer ao senhor que essa comoção daqui a pouco passa, e que na verdade isso não importa muito porque o senhor é o cara da objetividade, que vai devolver a nossa dignidade debelando essa crise medonha.

Só que não está funcionando desse jeito. Talvez porque essa gente aí na rua com os olhos merejados também precise de atenção. De um afago. Por isso, aceito que há uma possibilidade de que vaiem o senhor no velório. Uma possibilidade, ok ? Mas há uma certeza absoluta: vão crucificá-lo se o senhor não for.

Lembra que o Lula jamais apareceu na cena do último acidente da TAM ? Pois isso provocou um estrago enorme na reputação dele. Ele mandou o Nelson Jobim com um delay gigantesco a São Paulo: Dez dias depois! Ficou para sempre com fama de covarde.

O Obama, em compensação, lustrou sua biografia quando desembarcou em Orlando para abraçar as vítimas da tragédia da boate gay. Ele se encontrou com os parentes dos mortos num ginásio, numa situação bem parecida com essa que o senhor não quer enfrentar.

Percebe a diferença ?

Pois é isso. Eu, se fosse o senhor, não deixaria as famílias enlutadas esperando no velório. Vá entregar essas medalhas lá. Vai ser bem melhor se for assim.

Se for vaiado, paciência.

Comentários