Sob o argumento de que não há fato determinado a investigar, o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia, atuou em favor do lobby... Rodrigo Maia cede a lobby da bancada da bala e aborta CPI da Taurus

Sob o argumento de que não há fato determinado a investigar, o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia, atuou em favor do lobby congressual conhecido como Bancada da Bala e livrou empresa Forjas Taurus de ter que responder pela má qualidade das armas que fabrica em uma comissão parlamentar de inquérito. O arquivamento, feito sem alarde, foi determinado no dia 26 de outubro de 2016.
No despacho em que empastelou a investigação, Rodrigo Maia argmentou que os 202 deputados que assinaram o requerimento da CPI “citam casos pontuais, sem demonstrar a repercussão do fato, limitando-se a apontar notícias de televisão  e quatro casos supostamente ocorridos no Distrito Federal e um nos Estados Unidos”.

A argumentação não resiste ao menor questionamento. Um dos “supostos” casos ocorrido no Distrito Federal acaba de ter sua perícia divulgada (baixe a íntegra do documento aqui). E ela é fatal para o único fabricante brasileiro de armamentos leves. Ao analisar o comportamento da pistola Taurus 24/7, que disparou acidentalmente e quase matou agente de polícia civil Luciano Vieira, do Distrito Federal, os peritos brasilienses foram conclusivos: quando a arma cai com a coronha para baixo e o cano para cima, ocorre “o acionamento por inércia da tecla do gatilho, o que permite afirmar que (…) a arma está sujeita à ocorrência de disparos acidentais”.

As reportagens de televisão citadas pelo presidente da Câmara apontam ao menos 44 casos de ferimentos provocados pordisparos involuntários ocorridos em função da queda das pistolas PT 24/7 em vários estados brasileiros. Uma dessas reportagens é de autoria do editor deste blog e pode ser assistida aqui, aqui e aqui. A série Especial Armas, veiculada pelo Jornal da Band em julho do ano passado, não deixa dúvida sobre os problemas de projeto e fabricação das pistolas semi-automáticas que a Taurus fornece para todas as polícias brasileiras.

O caso dos Estados Unidos ao qual o despacho de Rodrigo Maia alude é na verdade a maior mácula comercial da Taurus, que enfrenta mais de 70 processos semelhantes na lerda justiça brasileira. Nos EUA, no entanto, a companha foi obrigada a aceitar um vexaminoso acordo no qual se compromete a recomprar e indenizar todos os consumidores de seus produtos, que lá já provocaram ao menos uma morte e sequelas definitivas em função de seu funcionamento deficiente.

Graças ao lobby poderoso que mantém atuando junto aos Poderes Legislativo e Executivo, a Taurus tem conseguido, a despeito da má qualidade dos produtos que fabrica, manter privilégios que lhe garantem praticamente a exclusividade do mercado de armas leves no Brasil. Isso acontece a despeito de eventos como a vende de seis mil submetralhadoras imprestáveis ao governo do Estado de São Paulo em 2013, o que valeu ao fabricante gaúcho uma penalidade severa e a inabilitação para contratar com as polícia paulistas. Até hoje as armas permanecem encaixotadas nos paióis da PMSP.

Mas para Rodrigo Maia, um parlamentar que cada dia mais demonstra sua vocação para o pequeno e o injustificável, mais vale atender aos interesses do fabricante do que escancarar as mortes e ferimentos que a empresa tem provocado com seus produtos e projetos de baixa qualidade.

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