Um doido na Casa Branca

Nunca, jamais , em tempo algum, numa genuína democracia ocidental, alguém ousou ir tão longe em ataques contra a imprensa. Nem Ruy Falcão, nem Franklin Martins, nenhum dos inimigos da imprensa no Brasil sequer sonhou com o que Donald Trump tem feito em suas investidas contra o que chama de mainstream media, ou mídia dominante.

De todas as alegorias do presidente dos Estados Unidos, sua ojeriza à imprensa é de longe a mais persistente. Tem a cara de uma mania, palavra associada a um desequilíbrio mental que faz com que certos desejos não possam ser refreados.

Donald Trump tem se mostrado obcecado em disparar ataques contra a mídia em seu País. Mas nos últimos dias, essa obsessão fez com que seu alvo se movesse da implicância com alguns veículos para o ódio ao instituto da liberdade de imprensa.

“Eles são o inimigo do povo”, vociferou Trump de uma tribuna, ao anunciar que queria acabar com o sigilo da fonte. A investida colérica foi motivada por uma reportagem publicada pelo BuzzFeed, e não por qualquer outro meio do chamado maintsream media. A informação , posteriormente reproduzida por órgãos de imprensa, dava conta de um relatório secreto que mais uma vez apontava relações impróprias entre o atual presidente norte-americano e a Rússia.

O desejo manifesto de Trump de acabar com um dos pilares da liberdade de imprensa vai de encontro a um preceito fundador da própria democracia americana. A Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos proíbe expressamente que o Congresso americano crie leis que restrinjam a liberdade religiosa, de expressão e de imprensa. O texto é o seguinte:

“Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances.”

A Constituição americana também protege o direito ao sigilo da fonte de investidas de napoleãoes de hospício em sua quarta emenda. Ela estabelece que qualquer ação que caracterize busca e apreensão só poderá ser levada a efeito se motivada por fato específico e estiver amparada em um mandado judicial.

Ou seja: para forçar um jornalista a revelar quem lhe deu uma informação, Trump, Hitler, Ruy Falcão ou Lula terão que se valer da ordem de um juiz — e é improvável que um juiz americano despache uma ordem que afronta sua carta magna.

O delírio de Trump, portanto, está sobejamente vetado por seculares cláusulas pétreas, e qualquer iniciativa que possa conspurcar o livre exercício de imprensa será enquadrada como um desrespeito à Constituição dos Estados Unidos. Mesmo o veto à participação de determinados correspondentes acreditados na Casa Branca em eventos de imprensa pode constituir uma violação.

O problema é que, ao tentar domesticar o jornalismo, Donald Trump demonstra que não conhece nada do papel histórico da imprensa. Alguns pensadores contemporâneos, como Jurgen Habermas, asseguram que o folhetim e a crítica literária criaram as condições culturais para o a derrocada do feudalismo e a superação da aristocracia pela burguesia.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos dos dias de hoje, a relação entre imprensa e governantes sempre foi tortuosa. A aversão à crítica e o narcisismo dos poderosos fizeram com que períodos de plena liberdade fossem raros até a promulgação da Constituição de 88.

Getúlio criou o DIP para controlar os jornais. Os generais que governaram o País entre os 60 e os 80 criaram atos institucionais, plantaram censores nas redações e mataram Valdimir Herzog.

A era petista foi rica em tentativas jamais consolidadas de estabelecer mecanismos de triagem de conteúdo e até comitês de controle das atividades da imprensa. Ao final, criou-se o clichê de que a imprensa atua como um partido político reacionário e discricionário, e que por esta razão deveria ser ferozmente combatida.

A nova investida também não vai dar em nada. Governantes passam, princípios fundadores e republicanos ficam porque são valores caros demais para sucumbir à ira e à insanidade de um único homem.

No fim, vai sobrar apenas o arquétipo de um maluco que, tendo conquistado uma multidão de malucos com um discurso maluco, não entendeu que é menor do que os preceitos que o conduziram até onde está.

Pois que sirva de lição aos demais.

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