O vilipêndio de Dona Marisa

Todo os que lêem este blog sabem das minhas críticas ao legado da era lulista. Elas derivam do mau comportamento dos próceres petistas especialmente no que tange à ética na política. Lula foi eleito para mudar a natureza das relações entre o Poder central e os políticos que orbitam em sua periferia. Além de descumprir solenemente a promessa, permitiu que o País fosse abduzido por um sistema em que a tunga, mais do que tolerada, parecia ser recomendada.

Isto posto, quero manifestar a minha mais profunda repulsa pelo que está acontecendo no submundo das redes sociais. Está em curso uma sórdida campanha para atacar a reputação de políticos petistas mirando seus parentes, que nada têm a ver com a disputa eleitoral/partidária/ideológica.

A primeira vítima foi a filha da deputada Maria do Rosário, do PT do Rio Grande do Sul. Ela foi objeto de uma exposição abjeta e sensacionalista feita por um site apócrifo chamado Faca na Caveira, editado provavelmente em Cuiabá, MT. Esse site veicula conteúdos notadamente fascistas. Prega a morte de criminosos e apóia políticos de direita que se insurgem contra os direitos humanos. Também é usado para fazer campanhas nefastas contra políticos de esquerda, especialmente do PT e do PSOL.

A filha de Maria do Rosário, uma adolescente de 16 anos de idade, foi exposta à execração com fotos íntimas e menções a distúrbios psiquiátricos e suicídio. Embora a deputada tenha levado o problema à Polícia Federal, a página permanece no ar até o momento.

Não satisfeitos em apedrejar uma adolescente indefesa, os militantes de extrema-direta investiram contra a imagem de uma morta, Dona Marisa Letícia, que faleceu no começo do mês passado em decorrência de um aneurisma cerebral. Com o propósito de atingir Lula, uma malha de blogs e sites fantasmas foi reunida para viralizar notícias falsas, que no jargão da internet ganharam o apodo de fake news.

Mais do que enxovalhar, o que os detratores da memória da ex-primeira-dama estão fazendo é um autêntico vilipêndio moral. Os primeiros fakes surgiram logo depois do depoimento de Lula à Justiça Federal no Twitter do Movimento Brasil Livre. O post ‘informava’ que Marisa Letícia era beneficiária de uma aposentadoria de R$ 20 mil, e que Lula havia feito gestões junto ao Congresso Nacional, que seria o empregador de Marisa, para fazer jus a uma pensão após a morte da esposa.

Um dia depois de propalar a falsa informação, o próprio MBL foi obrigado a desmenti-la. Publicou uma nota (fac-símile ao lado) admitindo que criara o fato a partir de um vídeo do qual se depreendeu que Lula havia feito menção à suposta aposentadoria durante o depoimento, fato que não ocorreu.

Ocorre que outros sites que se prestam a viralizar esse tipo de empreitada continuaram alardeando a notícia sabidamente falsa. Um deles é o jornalibre.com que, segundo apurações do jornalista Gilberto Dimenstein, é mantido pelo vereador Fernando Holiday, do DEM de São Paulo.

Mesmo depois do desmentido do MBL, o Jornalivre manteve no ar um post malicioso contendo uma atualização da falsa manchete: “Um dia depois de dizer que Marisa recebia 20 mil reais de aposentadoria, Lula foi às ruas defender que sistema não mude”.

“Recebi a informação de que dinheiro público mantém o site-fantasma JornaLivre, porta-voz não oficial do MBL. O dinheiro viria da verba de gabinete do vereador Fernando Holiday, coordenador do MBL”, afirma Dimenstein em sua página no Facebook. “Esse site, que entrou numa lista dos 10 sites brasileiros que disseminam notícias falsas, é usado para atacar, com mentiras, os supostos adversários – e adular os protegidos”, completa o editor do Catraca Livre.

A proximidade entre o vereador e o Jornalivre é inequívoca, com base na análise do conteúdo do material publicado. Mas não há como estabelecer um vínculo formal entre a página eletrônica e o parlamentar do DEM. Não existe um expediente que permita e identificação dos autores dos textos lá publicados e é virtualmente impossível saber a quem pertence o domínio sob o qual o site se abriga, visto que as informações do registro estão sob sigilo.

O fato é que a prática do fake news está se disseminando pela internet brasileira e já descortina o clima sob o qual transcorrerá o pleito de 2018. No ensaio para a campanha que virá, os veículos eletrônicos dessa nova direta cruenta já escolheram seus generais O Jornalivre, desde já, assume sua simpatia voluntariosa pelo prefeito de São Paulo, João Dória, que pretende ver disputando a Presidência da República. Não se sabe ainda o que João Dória acha disso.

Assim como na campanha presidencial americana, o fake news pretende assumir uma proeminência que atue como fator determinante do quadro eleitoral. Por enquanto, no entanto, feito com amadorismo e ódio, esse novo fenômeno foi capaz apenas de revelar sua amoralidade, crueldade e falta de apego a valores republicanos. Se o propósito é escrachar, o veneno não poupa nem a memória dos mortos.

Felizmente a internet deixa rastros indeléveis e, mais cedo ou mais tarde, a investigação policial que já está em curso vai estabelecer com precisão de quem partem os ataques.

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