O governo Michel Temer tem conseguido um prodígio: errar toda vez que o País enfrenta uma grande comoção ou uma situação de emergência. As... O governo das gafes

Foto: Luiz Nova – Correio Braziliense

O governo Michel Temer tem conseguido um prodígio: errar toda vez que o País enfrenta uma grande comoção ou uma situação de emergência. As gafes, as manifestações inadequadas, as falas deslocadas da realidade e o discurso antiquado e preconceituoso se transformaram em lugares-comuns na crônica do atual presidente.

A primeira delas foi a construção  de um ministério desprovido de mulheres e negros. As críticas foram imediatas e ajudaram a formatar a imagem de machista e retrógrado que afasta Temer ainda mais dos brasileiros de boa renda e escolaridade — justamente onde ele vai pior em relação à sua quase inexistente popularidade.

Mas o comportamento errático do nosso ilustre primeiro-mandatário cuidou de agravar ainda mais as coisas com a declaração desastrada em alusão (não se pode dizer que aquele discurso tenha sido “em homenagem”) à mulher, cujo papel na sociedade Michel Temer relegou aos afazeres domésticos — como se a mulher do século XXI pudesse se dar ao luxo de ser uma dondoca como a primeira-dama Marcela.

Antes disso, porém, Temer comprou sapatos na China que, como se sabe, está matando a indústria calçadista  brasileira.

Na virada do ano, quando os presídios da Região Norte explodiram, o Presidente se manteve inerte por quatro longos dias antes de esboçar uma reação. E quando isso aconteceu, foi novamente um desastre. Em vez de entrar em sintonia com o clima de terror que dominava o País, Temer cometeu outra impropriedade, digamos, semântica, ao reduzir a carnificina a um “acidente pavoroso”. E seguiu adiante.

Na semana passada, ao inaugurar um dos ramais da Transposição do Rio São Francisco, o febeapá reinventado pelo Presidente da República chegou ao ponto de desejar uma enchente para a Paraíba. A fala aconteceu no mesmo momento em que São Paulo naufragava sob um “pavoroso” temporal.

Mas no campo da construção de imagens equivocadas, talvez nada se equipare ao churrasco deste fim-de-semana. Ele improvisou o jantar num dos restaurantes mais caros do Brasil, ao qual levou assessores e diplomatas estrangeiros, para neutralizar os símbolos e os estragos produzidos pela Operação Carne Fraca. E acabou provando que a carne argentina e uruguaia, que é servida na casa, é boa e hígida.

Ao menos uma coisa, no entanto, é digna de nota. Para acudir aos maiores patrocinadores de campanhas eleitorais do País, os conglomerados da indústria frigorífica, Temer agiu rápido. Ora, se a gafe é inevitável, que seja ao menos rápida.

Curioso é observar o movimento dos assessores para tentar diminuir o impacto das besteiras que o chefe faz. A cada manifestação desastrada, segue-se uma nota para negar o óbvio e por sentido nas bobagens ditas por Michel Temer.

É pouco provável que as gafes arranhem a popularidade do titular do Planalto, posto que não se pode arranhar o que praticamente não existe. Mas Temer corre o risco de ser lembrado justamente pelo que não poderia nem deveria ter feito. Por exemplo: nomear ministros com folha corrida maior do que a bíblia e dizer o que não deve nem pode ser dito em respeito à inteligência das pessoas e até à liturgia do cargo que ocupa.

No mais, o prejuízo será pequeno. Tão pequeno quanto ser alçado ao panteão da estultice, eternizado no mesmo andor onde paira soberba a nossa querida — e, supunha-se até bem pouco tempo atrás, imbatível — Dilma Rousseff.

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