Juizo Final

” Anunciaram e confirmaram que o mundo ia se acabar.
Por causa disso a minha gente lá em casa começou a rezar.
Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada.
Por causa disso lá em Brasília esta noite não se fez batucada…
…E o tal do mundo não se acabou!”

 

 

Nada descreve melhor o day after da lista de Facchin do que os versos de Assis Valente. Os soldados do armagedon, as bestas do apocalipse, todos eles continuam lá, mandando e desmandando, urdindo e tramando para salvar o traseiro da refrega judicial que certamente virá, que um dia virá.

Por enquanto, o mundo deles não se acabou.

Um terço dos ministros, um terço dos senadores, quase dez por cento dos deputados, os mais bem cotados candidatos às próximas eleições, toda essa gente continua com as rédeas do País na mão.

E o que é mais trágico: conspirando junta em mútuo benefício — ou conspirando abertamente contra o você, o otário que sustenta essa farra e que não suporta mais ver tanta bandalheira grassando por aí.

Conspira-se para mudar o Velho Testamento, pra reescrever o Novo, para abolir o pecado. Se não podem comprar indulências, visto que seu financiadores estão recolhidos, ora, mudem-se as Escrituras.

Esse parece ser o espírito do último dia depois do juízo final. Um espírito de comunhão, de união entre iguais que, a despeito das diferenças aparentes conferidas pelas ideologias, se equiparam na desgraça, na doença da desonestidade, na sua condição de pacientes terminais de um passado que insiste em não passar.

Justo eles, os fidalgos que julgavam poder comprar com seus milhões uma passagem no batel dos anjos, mas se vêm na iminência de serem forçados a remar na barca do inferno, que, como escreveu Gil Vicente, é a única que lhes cabe: “Ó barca, como és ardente! Maldito quem em ti vai!”

Pois os malditos de hoje somam-se em seus pesadelos aos de amanhã para juntos consagrarem a maldição como o único caminho da salvação — maldição que salva, se não a todos, ao menos a eles.

Eles ainda não estão batidos. Eles não foram vencidos. Eles apenas foram constrangidos pelo atrevimento de uma gente que pensa que a política é lugar para almas boas e pessoas que costumam cultuar valores republicanos. Não é.  Ao menos por aqui, é o lugar dos profissionais.

Vocês verão. Vêm aí indultos, anistias e listas fechadas para assegurar-lhes o foro, o decurso do prazo e a prescrição processual. Vem aí o financiamento público para substituir a propina cuja fonte secou de repente. Vem aí o caciquismo dos partidos para assegurar vida longa aos caciques e retirar do povo o poder de julgá-los. Eles não querem apenas anistia judicial, querem anistia eleitoral — e aí, que se dane a representatividade, que se exploda a democracia.

E a quem caberá a reparação ? A quem caberá o sorguimento da moral ? E o futuro da Nação ?

A Deus, certamente, que é a última instância supostamente imune à corrupção endêmica que devasta o Brasil.

O diabo é ser ateu num País de tantos crentes!

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