Se o padrão de comportamento ético estabelecido por Michel Temer para seus ministros valesse para ele próprio, hoje Temer teria que demitir Temer imediatamente...

Se o padrão de comportamento ético estabelecido por Michel Temer para seus ministros valesse para ele próprio, hoje Temer teria que demitir Temer imediatamente do governo.

No dia 13 de fevereiro, há pouco mais de quatro meses, o Presidente, acuado pela má repercussão da nomeação de Moreira Franco a um posto de ministro para dar-lhe foro privilegiado, fez um pronunciamento anunciando que seu governo tinha finalmente adotado um conjunto de normas de comportamento para o primeiro escalão.

Ele disse: “Se houver denúncia, o que significa um conjunto de provas eventualmente que possam conduzir a seu acolhimento, o ministro que estiver denunciado será afastado provisoriamente. Depois, se acolhida a denúncia e aí sim a pessoa, no caso o ministro, se transforme em réu – estou mencionando os casos da Lava Jato -, se transformando em réu, o afastamento é definitivo”.

Mas entre o Temer de fevereiro e o de hoje há uma transição de eras que transformou o que já não era para valer em letra definitivamente morta: o fator JBS —  a denúncia feita pelo bandido notório que transformou o Presidente da República em chefe de de organização criminosa. E não se fala mais em afastamento, demissão, nada disso.

O Temer de antes parecia ter um mínimo de preocupação com a reputação do governo. Agora, com o topo da pirâmide marcado por denúncias muito mais graves do que as que acometeram seus auxiliares, a conversa é bem outra. Pau que batia em Chico já não bate mais nem em Chico, nem em Francisco.

Com que moral esse presidente, devidamente denunciado, iria assinar a demissão de um subordinado sobre quem pesassem suspeitas tão graves quanto as que pairam sobre o dono da caneta ?

Lá atrás, enquanto o Presidente apresentava ao País seu código de ética de mentirinha, ele dizia o seguinte: “Quero anunciar em caráter definitivo e talvez pela enésima vez que o governo jamais poderá interferir nessa matéria, que corre por conta da Polícia Federal inauguralmente, do Ministério Público e do Judiciário”.

Tudo mudou no cenário moral que orienta o governo. Temer nomeou um ministro para mudar a chefia da Polícia Federal; nomeou dois ministros para se salvar da refrega no TSE; e, na falta de um argumento melhor, tenta equiparar o si o Procurador-Geral da República.

A designação de prepostos para carregar em seu nome malas de dinheiro virou ilação. O próprio trânsito das tais maletas jamais aconteceu, apesar das fotos e dos videos produzidos pela PF. O carregador da mala de Temer, a despeito de estar preso, ainda merece do chefe da organização o apodo de “homem de boa índole”. E o mantra se repete: “não há provas”.

Diante da impossibilidade de explicar minimamente a falta de decoro em conversas tão pouco republicanas com notórios bandidos no valhacouto do Jaburu, o Presidente ataca o chefe da investigação sugerindo que os dois são tão criminosos um quanto o outro.

Um argumento “desprezível ou desprezável”, em se tratando da fonte o maior dignitário na Nação. A desvantagem factual é que uma pérola de oratória temerária como esta não pode ser transformada em vantagem retórica, uma vez que o preposto de Janot não foi visto correndo pelas ruas de São Paulo com uma maleta preta na mão.

Mas Temer não vai demitir Temer. Está ocupado em demitir apaniguados de senadores infiéis ao seu Corão e afastar de comissões parlamentares deputados que ameaçam bandear  de sua turma. Autoimolação, definitivamente, é com os orientais.

Aqui no Brasil, vigora, mais do que nunca, um provérbio em latim que nos foi apresentado um ano e meio atrás, em uma carta dirigida pelo então vice à Presidente que ele iria cassar em seguida:

“Verba volant, scripta manent”. Palavras sem valor que são ditas voam para longe. Só o que está escrito permanece.

Se tanto!

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