Não há mal nenhum em formular uma política que permita melhorar a qualidade dos alimentos oferecidos pelo Estado a populações vulneráveis. Mas há... Ração para os pobres: O mal é o que sai da boca do homem, não o que entra

 

Não há mal nenhum em formular uma política que permita melhorar a qualidade dos alimentos oferecidos pelo Estado a populações vulneráveis. Mas há sim um grande problema de natureza moral em se anunciar um programa pretensamente revestido de tamanha nobreza apenas para alimentar o surgimento mais um negócio. Mais ainda quando o outro pilar da proposta do prefeito João Dória Jr. parece ser a produção da ração a partir de matéria-prima que logo se perderia por estar chegando ao prazo máximo de validade.  A má vontade da opinião pública para com a ideia de Dória parece advir do fato de que não é ético nem moral querer lucrar com a fome alheia. Quer financeiramente, quer politicamente.

Outro ponto é a avareza com que o atual prefeito trata a merenda escolar. Se estivesse realmente preocupado com o estado nutricional da população, Dória teria melhorado, e não reduzido, a “ração” servida aos alunos pobres da rede de escolas do município no programa da merenda escolar. No começo do semestre letivo, o prefeito justificou o corte da merenda com o argumento de que comer demais está engordando os alunos. Para combater a obesidade, o alcaide, que agora se sensibiliza de maneira insólita com o combate à desnutrição, cortou a ingesta de carboidratos e proteínas. Dória tem que definir se a população está a morrer de fome ou padece de obesidade mórbida.

É preciso dizer, no entanto, que o uso de concentrados proteicos não é novidade na história da humanidade. Ao contrário. Há vários congêneres bem-intencionados mantidos por instituições como a Igreja dos Mórmons. Eles desenvolveram um suplemento calórico-proteico chamado ATMIT, que é destinado a populações em situação de fome extrema como os miseráveis da Somália.

A diferença da proposta paulistana está em basicamente três fatores. Primeiro, o programa dos mórmons é mantido com o dinheiro dos fiéis. Eles não aceitam doação de dinheiro público. Segundo, a matéria-prima é de primeira qualidade, produzida em suas próprias fazendas ou obtida de fornecedores lícitos. E terceiro, eles são realmente compassivos, não querem lucrar nada com o ATMIT além de cumprir com seu dever de consciência.

Há alguns anos, estive em Salt Lake City para fazer uma série sobre a Igreja dos Mórmons. Pude conhecer seus programas sociais e a força motriz que mantém girando uma gigantesca engrenagem de solidariedade. O vídeo, para quem se interessar, está logo aí acima. Vale a pena assistir para ter claras as incongruências entre as duas propostas. Ressalvo apenas o fato de que sou ateu, sem nenhum interesse pelo proselitismo religioso.

A reportagem pode ajudar a estabelecer a distinção de qualidade entre pessoas realmente bem-intencionadas e outras que, em nome da fome alheia, agem de maneira oportunista e interesseira, visando obter vantagens de qualquer natureza com a exploração de grupos de pessoas vulneráveis.

Também serve para mostrar que de uma proposta com DNA nobre pode nascer uma ideia de jerico.

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