Por Fábio Pannunzio, no Blog do Pannunzio Localizar o ex-deputado brasileiro Wagner do Amaral Salustiano não é uma tarefa fácil. Condenado a quase sete... Bispo Romualdo Panceiro, da IURD, falsificou documento de criança portuguesa que queria ter como filho

Por Fábio Pannunzio, no Blog do Pannunzio

Localizar o ex-deputado brasileiro Wagner do Amaral Salustiano não é uma tarefa fácil. Condenado a quase sete anos de prisão, alvo de uma série de processos decorrentes de negócios malsucedidos, nenhum dos telefones que aparecem em seu nome atendeu as diversas ligações fizemos.

Nos endereços que declara como domicílio,  tampouco há noticias dele.

Os advogados de Wagner Salustiano também são um mistério. Nenhum dos que figuram como patronos de suas muitas causas diz representá-lo no momento. Também não fornecem endereço nem telefone do cliente e de seus defensores atuais. O Blog do Pannunzio não conseguiu contatá-lo.

Vinte anos atrás, Wagner Salustiano era ainda um celebrado parlamentar com proeminência na chamada Bancada Evangélica, grupo de deputados eleitos pela Igreja Universal do Reino de Deus e outras denominações menores interessadas na criação de um espaço político para o movimento neopentecostal.

Salustiano foi duas vezes deputado federal. Encerrou sua carreira como deputado estadual pelo PSDB de São Paulo. Sua glória no parlamento foi efêmera — e talvez forneça a explicação para o sumiço do ex-parlamentar nos dias atuais. Ele foi uma das estrelas de alguns dos maiores escândalos políticos dos anos 1990 e 2000 — o dos Sanguessugas, em Brasília, e o da Nossa Caixa em São Paulo.

Em 1998, Salustiano coordenava as ações da Bancada Evangélica na Câmara Federal. Era um parlamentar atuante e muito solicitado para as tarefas pautadas pela Igreja Universal do Reino de Deus. No dia 28 de maio daquele ano, uma quinta-feira, ele foi o escolhido para uma missão da maior responsabilidade: atestar falsamente o nascimento de uma criança para o bispo Romualdo Panceiro, que então já se projetava como um dos cardeais do bispo Edir Macedo.

O pequeno Fábio, que teve sua identidade fraudada pelo bispo da IURD

A criança objeto da fraude nasceu em Lisboa, capital de Portugal, e foi retirada de um lar mantido pela IURD em Camarate sem autorização da mãe biológica quando tinha apenas um ano e oito meses de idade. Seu nome era Fábio Andrade. Ele e dois irmãos foram deixados no abrigo da Igreja Universal pela segurança social portuguesa. Muito pobre e fragilizada, a mãe não tinha com quem deixar as crianças enquanto ia trabalhar para sustentar sozinha a família.

Fábio era o irmão caçula de Vera e Luis Andrade, que a filha mais nova de Edir Macedo, Viviane, decidiu adotar por recomendação do pai. Como ela não tinha idade suficiente para habilitar-se à adoção nem residência fixa em Portugal, o Papa da IURD decidiu contratar uma mãe-laranja para “representar” Viviane como titular do processo de adoção. A mãe-laranja, que depois se transformou na mãe adotiva formal das três crianças, é a ex-secretária de Edir Macedo na Europa, a angolana Maria Alice Andrade.

Viviane, a filha do bispo, se interessou apenas pelos dois irmãos mais velhos. Rejeitou o mais novo, embora a lei portuguesa não permitisse a separação dos irmãos.  Mas com o estratagema criado para atender aos caprichos da família do bispo, nada representaria um obstáculo.

Fábio, o enjeitado, foi entregue por Edir Macedo a Romualdo Panceiro. Os dois bispos seriam avô e pai dos filhos da mesma mãe — mas eles jamais  teriam qualquer tipo de vínculo formal com esses ‘netos’.

Assim que conseguiu a guarda dos bebês, a secretária de Edir Macedo obteve uma autorização para viajar com eles ao exterior. Assim que conseguiu, embarcou no jatinho do líder da IURD para uma longa viagem. A primeira escala foi no Rio de Janeiro, onde os irmãos foram efetivamente separados.

Fábio foi entregue a Romualdo Panceiro e sua mulher, Márcia Barbosa Panceiro. Depois o avião do bispo seguiu viagem para Los Angeles, onde Luis e Vera foram entregues a Viviane. Ela não tardou a apresentá-los aos fiéis de sua igreja como se fossem seus próprios filhos adotivos.

Fábio Andrade era uma criança encantadora. Romualdo e Márcia rapidamente se apegaram ao menino. A ponto de, no ano seguinte, decidirem eles mesmos forçar uma solução para torná-lo de fato se filho. Como a legislação do Brasil e de Portugal não oferecia nenhuma brecha para tornar isso possível, decidiram enveredar por outro caminho — o caminho da fraude.

O parto que não houve

Para  levar a efeito seu objetivo, Romualdo Panceiro convocou o líder da Bancada Evangélica da Câmara Federal. Não se sabe por que o então deputado Wagner Salustiano foi escolhido para a tarefa. Mas não é difícil intuir que a presença de um parlamentar federal numa pequena cidade no entorno de São Paulo certamente iria inibir qualquer tipo de suspeita no cartório escolhido para o registro falso.

A IURD, que conhecia muito bem o deputado, sabia que ele se disporia a fazer qualquer coisa, ainda que o que lhe exigiam fosse um  crime tipificado no Art. 242 do Código Penal Brasileiro — dar como seu filho de terceiro. A pena pode chegar a seis anos de prisão. Mas também pode deixar se ser aplicada se um juiz considerar que o crime foi cometido por razões “de reconhecida nobreza”.

O cartório escolhido foi o do Registro Civil de Biritiba-Miriam, cidade onde Romualdo e Márcia jamais residiram. Não se sabe a razão da escolha desse registrador. E nem Romualdo Panceiro, nem a Igreja Universal respondem às perguntas que lhes foram formuladas a respeito desse episódio.

Para além das indagações, a certidão de inteiro teor do registro de Felipe Barbosa Panceiro não deixa nenhuma dúvida a respeito da falsidade perpetrada pelos pretensos pais brasileiros. No dia 28 de maio de 1998, Romualdo e Márcia, acompanhados de deputado Wagner Salustiano e da mulher dele, Suely Aparecida Ayo Salustiano, estiveram no cartório para registrar o nascimento de Felipe Barbosa Panceiro, a identidade brasileira do filho que Edir Macedo mandou trazer irregularmente de Portugal.

O local do parto que não houve: um templo da IURD

O casal  declarou que Felipe Barbosa Panceiro nasceu de parto natural na Avenida Reinaldo Benedito de Melo, 37, em  Biritiba-Mirim, às 22h30 do dia 15 de dezembro de 1994 — quatro anos e meio antes da lavratura do registro. Não foi apresentada Declaração de Nascido Vivo. Para atestar a veracidade da declaração, apenas o testemunho do então deputado e de sua esposa.

Há muitas falhas nesse registro. O cartório poderia ter desconfiado da inexatidão dos dados declarados e solicitado uma diligência para se certificar de sua fidedignidade. Bastaria uma visita ao endereço declarado como local do parto para que se constatasse que ali não existe residência alguma, e sim um templo da Igreja Universal do Reino de Deus.

O fantasma de Felipe Panceiro

Um parto que não houve, ocorrido no endereço de uma igreja, registrado com atraso de quatro anos, tendo como testemunha um deputado picareta e a mulher dele.  Esta é a origem da outra identidade falsa de Fábio Andrade, que passou a ser chamado pelos pretensos pais de Felipe Panceiro.

Nada disso jamais chamou a atenção do cartório onde foi lavrado o registro do nascimento. As autoridades brasileiras jamais desconfiaram. Mas as trapaças feitas com a identidade dessa criança acabaram por definir um destino trágico quinze anos mais tarde.

Viviane e Júlio Freitas, filha e genro de Edir Macedo, acabaram desistindo da experiência da maternidade. Isso aconteceu três anos após a chegada das crianças.  Segundo a baby-sitter da família, elas davam trabalho demais ao casal. O casamento de Viviane e Júlio estava sendo abalado pelo comportamento arredio de Vera e Luis. Que, por isso, quiseram devolver as crianças à casa da IURD.

Mas a devolução daquela mercadoria não era simples nem fácil. A mãe adotiva formal, a secretaria Maria Alice Andrade, não tinha nenhum vínculos com as crianças e muito menos vontade de fazer as vezes de mãe adotiva. Desfazer a adoção, àquela altura seria impossível. Ainda mais diante do fato de que, dos três irmãos ‘pegos’ no Lar de Camarate, apenas dois voltariam. Como prestar contas disso à Justiça de Portugal ? Impossível.

A solução foi forçar Alice a ficar com as três crianças. Como nem a IURD, nem Alice respondem perguntas, não se sabe como foi feito o arranjo. Alice se diz impedida de contar o que houve porque teria feito um acordo financeiro muito vantajoso com uma severa cláusula de confidencialidade que a impediria de quebrar o silêncio. Mas sabe-se que ela e seu antigo patrão tiveram uma briga feia. Ao final da contenda, Alice ficou com as três crianças.

Fábio chegou à casa da mãe adotiva nos EUA muito confuso com relação à própria identidade. Segundo Alice, ele não sabia mais seu nome verdadeiro — pensava ser Felipe Panceiro, filho de um casal de religiosos brasileiros. Não tardou e Alice entrou em guerra com a mulher do bispo Romualdo. Márcia Panceiro chegou a comunicar ao Judiciário português a ocorrência de uma falsificação no processo de adoção das crianças pela funcionária de Edir Macedo, que será tratada posteriormente neste espaço.

O garoto cresceu rebelde, cheio de conflitos. Ao entrar na adolescência, envolveu-se com drogas pesadas. No começo da maturidade, foi novamente exposto à família de Edir Macedo. Chegou a dar testemunhos de sua ruína para servir como estimulo aos fiéis da IURD. Foi apresentado como símbolo de uma resiliência que jamais existiu.

Aos 18 anos de idade, Fábio Andrade morreu de overdose num hotel em Nova York. Estava sozinho. Morreu solitário e infeliz como viveu. Sua morte foi o desfecho trágico de uma biografia indigente de afeto e interesse legítimo pelos desígnios desse jovem.

Ocorre que a identidade brasileira de Fábio Andrade, o personagem Felipe Panceiro, inventado pelo vice-papa da IURD, permanece viva no registro civil. E vai permanecer para sempre, a menos que a Justiça reconheça a falsificação e mande arquivá-la como fraude, que é exatamente do que se trata.

Enquanto isso não acontece, Felipe Barbosa Panceiro é um fantasma a assombrar a alta hierarquia da Igreja universal do Reino de Deus. Para efeitos legais, ele segue existindo. Não pode morrer porque é incorpóreo. Não pode viver porque nunca existiu, a não ser como uma espécie de simulacro de si mesmo.

Os cardeais da IURD, co-responsáveis por essa tragédia, não tiveram altivez suficiente para lidar com suas consequências. Eles ocultaram o quanto puderam a morte de Fábio/Felipe. Atribuíram o incidente fatal a um problema cardíaco. Nunca se desculparam ou admitiram as fraudes e falsificações que lhe impuseram desde antes dos dois anos de idade.

Os crimes cometidos por eles — falsificação de documento público, dar como seu filho de terceiros — já estariam prescritos. Mas olhando em retrospecto, é impossível imaginar que algo tão tenebroso possa passar sem nenhum tipo de punição.

É  disso que vamos tratar no próximo post.

As perguntas que foram enviadas à Assessoria de Imprensa da IURD que permanecem sem resposta:

1)      Como o bispo Romualdo decidiu pela adoção do pequeno Fábio ?

2)      Quando o menor foi trazido para o Brasil, e em que circunstâncias ?

3)      É verdade que Fábio veio para o Brasil no mesmo avião que transportou seus dois irmãos para os Estados Unidos ?

4)      Quem são os pais adotivos de Fábio ?

5)      Houve um processo formal de adoção de Fábio no Brasil ?

6)      Fábio, supostamente filho adotivo do bispo Romualdo, tem um registro de nascimento brasileiro? Caso afirmativo, quem fez a declaração do nascimento ?

7)      Quem é Felipe Barbosa Panceiro, filho de Romualdo e Márcia Panceiro ? Onde nasceu essa criança e em que circunstâncias ? Quantos anos tem e onde vive atualmente ?

8)      Onde estavam Romualdo e Márcia nos anos de 1997 e 1998 ? Onde residiam ?

9)      Márcia Panceiro teve algum filho em sua própria casa em  1994 ? Quem é essa criança ?

10)   O que houve entre Márcia Panceiro e Alice, secretária de Edir Macedo ao tempo das adoções ?

11)   Por que a adoção não se consumou ? O que deu errado ? Por que Fábio foi “devolvido” à secretária do bispo Macedo ?

12)   É verdade que a ordem para devolver Fábio (ou Filipe) a Alice partiu do próprio Edir Macedo ?

13)   Vocês têm um registro do atestado de óbito de Fábio em Nova York ? Podem fornecê-lo ?

14) O bispo Panceiro e sua esposa já residiram na Av. Reinaldo Benedito de Melo, 37, em Biritiba-mirim – SP ?

15) O que ocorreu nesse local na noite de 15/12/1994 ?
16) Qual a relação do casal com o ex-deputado Wagner Salustiano e sua esposa ?
17) A senhora Márcia Barbosa Panceiro tem filhos naturais ? Tem outros filhos adotivos ?
18) Quais foras as testemunhas do nascimento de Felipe Barbosa Panceiro ?

 

Abaixo, os documentos que foram mencionados neste post.

Certidão de Nascimento falsa em nome de Felipe Panceiro

Certidão Felipe Barbosa (3)

 

Certidão de inteiro teor – Fábio Barbosa Panceiro

Certidão Felipe Barbosa - inteiro teor
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