Jair Bolsonaro levou uma facada enquanto fazia uma passeata em campanha pelo centro de Juiz de Fora. Até aquele momento, a candidatura dele representava... O que há de errado contigo, Bolsonaro ?

Jair Bolsonaro levou uma facada enquanto fazia uma passeata em campanha pelo centro de Juiz de Fora. Até aquele momento, a candidatura dele representava apenas uma possibilidade. O ataque trágico e insano selou definitivamente o futuro do País.

A campanha de Jair Messias Bolsonaro terminou ali. O elemento que o transformou em presidente da República trabalhou sozinho por ele. Chama-se comoção esse valioso cabo eleitoral. Pessoas que até então não nutriam nenhuma simpatia pelo candidato do PSL passaram a considerar sufragá-lo, o que viriam a fazer no dia do pleito, a despeito dele não ter apresentado nenhuma proposta do que faria quando fosse empossado.

Vi isso acontecer dentro da minha própria família. Minha mãe, uma antiga comunista, afilhada de casamento de Luis Carlos Prestes, irmã do cirurgião plástico que mudou o rosto de Carlos Lamarca, escreveu um longo texto confessando sua conversão apaixonada ao Bolsonarismo. Dois dos meus quatro irmãos a seguiram incontinente.

Em silêncio e sem alarde, milhões de pessoas fizeram o mesmo movimento. Não eram eleitores de Bolsonaro, eram eleitores tragados pela piedade e pela compaixão que iam se juntando ao oceano de indignados com a bestialidade do ataque. Assim, muito graças à comoção, o capitão Bolsonaro acabou se transformando em Presidente da República.

Nesta sexta-feira, o neto de Lula morreu. Uma criança de apenas sete anos de idade, que nada tem a ver com a trajetória de vida e as escolhas do avô. A morte comoveu o País. Mas a família Bolsonaro, beneficiária da comoção em outros tempos, não alcançou o que se passou. Não entendeu. Transformou o assunto em mórbida zombaria.

O Infante Eduardo Terceiro foi quem deu o tom da empreitada. O filho caçula empreendeu um ataque desumano — não há outra palavra para qualificá-lo. Afirmou que Lula, a quem chamou de “larápio”, iria ficar “em voga” (em evidência) com a morte do netinho. Zombando da desgraça do ex-presidente, manifestou-se contra a concessão de um direito que a lei assegura a todo preso: o de participar do velório de um descendente.

Eduardo Bolsonaro felizmente não é o Presidente da República — é apenas filho do Presidente. Deste, o que o potocolo previa era uma manifestação de comedimento, ainda que seu coração seja incapaz de enxergar a dor do outro. Mas Bolsonaro Pai, que parece ser uma amálgama do temperamento estranho dos três filhos, ficou calado.

O que se espera de um líder, aclamado pela massa compadecida, num momento triste como esse ? Que se associe ao sentimento da Nação. Que expresse sua humanidade. A hora da morte é também o momento da solidariedade.


Mas Bolsonaro ficou calado. Com tantos assessores, porta-vozes, asseclas e puxa-sacos, não foi capaz de sugerir que alguém escrevesse em seu nome um bilhetinho formal expressando suas condolências à família do ex-presidente — como aliás fizeram tantos inimigos declarados de Lula, de Gilmar Mendes a José Serra.

Muito menos teve o tirocínio de desautorizar o ataque hidrofóbico do filho deputado. Mostrou, com seu silêncio cúmplice, que quem sai aos seus, não degenera. Pai e filhos são produto da mesma massa, do mesmo fermento. E agem como um só corpo.

A incapacidade de enxergar o sofrimento numa situação como essa provoca perdas irreparáveis à imagem da família insensível. Crava a pecha de frios, insensíveis e desumanos. Mas ela acarreta outros problemas, muito maiores do que as feições públicas de gente da estirpe dos Bolsonaro.

O primeiro, e mais grave deles, é a indução do mesmo tipo de comportamento frio e desumano na manada que segue bovinamente o atual Chefe de Estado brasileiro. Os ataques contra o sofrimento da família do menino Arthur se multiplicaram na internet, até o ponto em que uma autoproclamada blogueira chamou a criança morta de “um filho da puta a menos”.

A família presidencial, tanto o patriarca quanto seus estranhos rebentos, mostrou com muita clareza que não sabe distinguir adversário de inimigo, escárnio de compaixão e luto de comemoração. Não tem humanidade. Não é capaz de se somar a sentimentos como aquele do qual o clã se nutriu quando Bolsonaro convalescia na reta final da campanha.

A impiedade dos comportamentos da primeira-família leva necessariamente à pergunta que está na machete deste post: O que há de errado contigo, Bolsonaro ? Por que você e seus filhos são tão frios e desumanos ? Por que vocês não conseguem dar uma dentro ?

A pergunta seguinte, que muita gente está se fazendo, é “como pode ?”, enquanto outros já começam a se perguntar “como pude ?”. É oque se pode inferir das manifestações de desagrado e censura colhidas entre eleitores do atual presidente.

A bravata do terceiro-filho e o silêncio do pai continuam ecoando nas redes sociais e em todas as rodas de cidadãos indignados com tamanha frieza e falta de humanidade. Criam mais uma marca negativa para um governo que vai virando motivo de chacota com os vexames que se repetem dia após dia.

O desgaste é um problema do clã presidencial. Mas as consequências podem ser muito ruins para todos os brasileiros, inclusive os que sufragaram os Bolsonaro.

Ser motivo de piada, insultar reiteradamente certos hábitos, costumes e tradições, só vai consumir capital político de um governo que vai precisar enfrentar problemas como a reforma da previdência social e o combate ao crime organizado.

Não serão a estupidez, a ignorância e os maus modos que vão que irão fazer de Bolsonaro um presidente vitorioso e querido pela população.