Em dezembro passado o País tomou conhecimento das relações que o então deputado estadual Flávio Bolsonaro mantinha com milicianos do Rio de Janeiro. As... O fantasma de Marielle

Em dezembro passado o País tomou conhecimento das relações que o então deputado estadual Flávio Bolsonaro mantinha com milicianos do Rio de Janeiro. As primeiras revelações vieram no arrasto da investigação do papel exercido pelo motorista Fabrício Queiroz no gabinete do parlamentar. O COAF havia descoberto o caminho da ‘rachadinha’ no gabinete de Flávio, prática patrimonialista que nada mais é do que a apropriação, direta ou indireta, dos salários de fantasmas e assessores em proveito do parlamentar.

Na segunda quinzena de janeiro, a polícia fluminense prendeu o ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega. Ele foi apontado pelo Ministério Público como chefe do famigerado Escritório do Crime, espécie de locadora de mão-de-obra assassina para os mais diversos fins. No mesmo dia em que o miliciano foi preso, o jornal O Globo descobriu que a mãe e uma irmã dele foram funcionárias do gabinete de Flávio Bolsonaro na ALERJ.

O deputado atribuiu tudo a seu motorista, que depois viria a assumir sozinho toda a responsabilidade. A iniciativa de contratar as parentes do bandido fora tomada, sem o conhecimento do parlamentar, por Fabrício Queiroz. Ele teria agido em nome de nobres razões humanitárias: a família do matador de aluguel estaria enfrentado dificuldades financeiras em decorrência dos períodos de encarceramento do Capitão Adriano.

Flávio Bolsonaro , que como o pai já teceu loas a grupos de extermínio, chegou a condecorar na cadeia o mesmo Adriano com a Medalha Tiradentes, a maior honraria concedida pelo Legislativo fluminense. Ele já havia homenageado o atual chefe do Escritório do Crime duas outras vezes por considerá-lo “imbuído de espírito comunitário, o que sempre pautou sua vida profissional, no cumprimento do seu dever de policial militar no atendimento ao cidadão”. Hoje, sabe-se que o “espírito comunitário” se limitava a vender proteção e os “serviços ao cidadão” eram ameaças, coação e assassinato dos moradores da região de Muzema.

Quinze anos se passaram entre a concessão da comenda e a demissão das parentes dos milicianos.. Eduardo Bolsonaro diz, com razão, que não podia adivinhar o que aconteceria muito depois. Mas não há registro de que os Bolsonaro tenham condenado em qualquer tempo as ações das milícias

Ainda que o relacionamento entre milicianos e o gabinete de Flávio Bolsonaro na ALERJ esteja inexoravelmente estabelecido, não se pode imputar a ele, à luz do que se sabe até agora, relação direta com as ações criminosas de milicianos e do Escritório do Crime. Mas a intimidade, as reiterações de natureza, digamos, filosófica, e os vínculos formais de emprego e provimento estão estabelecidos e são claros.

E têm sido agravados pelo silêncio sepulcral do atual senador pelo Rio de Janeiro, o que só faz amplificar as suspeitas de que há algo a ser desvendado nessas conexões. Se tivesse prestado as explicações que lhe foram solicitados pelo Ministério Público, se tivesse comparecido para depor, se tivesse deixado seu faz-tudo Fabrício Queiroz tornar públicas as explicações que o próprio senador declarou serem “totalmente aceitáveis”, talvez as dúvidas que pairam no ar agora tivessem esmaecido. Mas não foi o que aconteceu.

Nesta terça-feria, quando a Polícia Civil prendeu os assassinos de Marielle Franco, descobriu-se que o matador era vizinho de Jair Bolsonaro. E não era apenas isso. De acordo com o delegado Giniton Lages , Ronie Lessa, um sargento da PM que vivia como nababo no condomínio de luxo da Barra da Tijuca, foi sogro de um dos filhos de Bolsonaro. Não se sabe qual deles. Nas redes sociais, especula-se que tenha sido Eduardo — especulações fundamentadas em argumentos de natureza vil e preconceituosa, que não cabe aqui replicar.

Não é possível ir além do que já está estabelecido até agora. O que se sabe é que Flávio Bolsonaro tem relações objetivas com milicianos, que os condecorou e defendeu em vários discursos; e que empregou seus familiares e deu-lhes retaguarda financeira até o ano passado.

Também é possível inferir que os Bolsonaro conheciam intimamente a vida opulenta de Lessa, já que um dos primeiros-rebentos supostamente frequentava a casa do vizinho do pai quando manteve com a filha dele um relacionamento amoroso.O soldo de um sargento chega no máximo a R$ 6,24 mil reais no topo da carreira.

A Primeira-Família tem muitas dificuldades em abordar o assassinato de Marielle. Eduardo Bolsonaro não prestou condolências nem manifestou pesar, como é praxe na morte de pessoas ilustres, caso de Marielle Franco. Ao contrário. Foi para o Twitter e encontrou na tragédia que argumentos para criticar a esquerda e defender os policiais militares, como se pode ver na reprodução abaixo.

Carlos Bolsonaro espalhou tuítes furiosos quando a Mangueira se sagrou campeã do carnaval do Rio de Janeiro trazendo Marielle Franco como personagem central do enredo. “Dizem que a Mangueira tem o presidente preso, envolvimento com tráfico, bicheiros e milícias”, postou o vereador 02 para seus 1,7 milhão de seguidores assim que o resultado foi conhecido. Hidrofóbico quando o assunto é a morte de sua colega de edilidade, Carlos, o pitbull, tem se comportado com a docilidade de seu poodle quando os milicianos em questão são são amigos da família. Até o momento do fechamento deste post, ele ainda não havia se manifestado sobre a prisão do vizinho do pai.

Todas essas evidências, repito, não autorizam nenhuma suposição sobre um eventual envolvimento do clã Bolsonaro na execução de Marielle. Mas elas explicitam uma intimidade perniciosa entre os mundos dessa nova dinastia de políticos e o das milícias que aterrorizam o estado do Rio de Janeiro. Como não foi possível estabelecer o motivo do crime nem encontrar seus mandantes, a investigação tem ainda um árduo trabalho pela frente.

É plausível raciocinar que o mandante e a motivação passem longe da dinastia dos Bolsonaro. Afinal, pode-se considerar que as loas que tecem a grupos de extermínio, os prêmios distribuídos a maus policiais que se envolveram com milícias e tudo o mais que se viu nos últimos dias seja apenas produto de uma cultura familiar de valorização de uma certa ideologia da violência. Ela está presente em cada fala, em cada discurso, em cada manifestação favorável à execução de bandidos e ao uso de armas pela população.

Mas os ataques coléricos do clã a qualquer um que os critique não ajudam em nada a mitigar certas hipóteses que o sectarismo político tem auxiliado a disseminar. Neste contexto foi que surgiu mais um elemento de inquietação . No tuíte em que acusou falsamente a repórter Constança Rezende, do Estadão, de querer derrubá-lo, Bolsonaro atuou involuntariamente de modo a piorar ainda mais o clima de desconfiança. Um dia antes da prisão dos supostos assassinos de Marielle, ele alvejou a jornalista Constança Rezende mirando seu pai, Chico Otávio, um dos melhores repórteres do jornal O Globo.

As perguntas que ficam são: a quem o 00 da família Bolsonaro queria atingir — a repórter do Estadão ou o pai dela ? Por que justamente na véspera da prisão dos assassinos de Marielle e da consagração de Chico Otávio, o jornalista mais empenhado em esclarecer o caso Marielle ? Por que um chefe de Estado utilizaria um clássico e evidente fake news — uma verdadeira cama-de-gato internacional — para fustigar a imprensa ? Tudo isso não deve passar de mera coincidência. Mas, convenhamos, é azar demais, certo ?

O silêncio também não a tem ajudado em nada. Cada dia de despiste, de informações sonegadas, cada depoimento adiado, cada tuíte ensandecido, cada declaração bizarra tem atuado como catalisador de dúvidas que precisam ser sanadas. Isso deve acontecer em benefício do clamor despertado na sociedade pela natureza bárbara do crime, mas também por sua exploração política. E também em benefício do 00, 01, 02 e 03, que devem ter alguma explicação plausível para todos esses fatos e evidências.

Até que isso aconteça, o fantasma de Marielle Franco continuará rondando o condomínio da Barra e os Palácios de Brasília. O melhor a fazer é botar tudo sobre a mesa para exorcizar essa aflição e deixar sua memória descansar em paz, a salvo do vilipêndio de que tem sido alvo.

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