As investigações do acidente que abateu o voo 447 vão ficar a cargo do governo francês. A possibilidade de haver sobreviventes, a esta altura,...

As investigações do acidente que abateu o voo 447 vão ficar a cargo do governo francês. A possibilidade de haver sobreviventes, a esta altura, mesmo consideradas todas as formalidades militares, tangencia o zero absoluto. O resgate dos destroços também será feito por navios e aviões franceses. Embora a região onde eles foram encontrados esteja dentro da Zona de Exclusão Marítima Brasileira, está bem distante do mar territorial, círculo imaginário cujo raio se projeta 12 milhas a partir das ilhas São Pedro e São Paulo. Então, por que mobilizar tantos recursos e gastar tanto dinheiro nessa operação ?

Veja o mapa ao lado. Na parte superior há uma linha pontilhada, perpedicular à rota estimada do avião e interceptada por ela no ponto TASIL. Ali termina o espaço aéreo sob jurisdição brasileira. Trocando em miúdos: embora a superfície do mar não seja de soberania brasileira, o espaço aéreo é — até aquele ponto. A partir dali começa a área sob jurisdição do Senagal.

O Brasil tem a obrigação de prestar socorro a todo tipo de embarcação ou aeronave que esteja enfrentando dificuldades nessa enorme região. É juridicametne responsável por operações de busca e salvamento. O que dá muito trabalho aos marinheiros e pilotos brasileiros.

Conversei com o Coronel Jorge amaral, o porta-voz da Aeronáutica escalado para informar aos jornalistas o que está acontecendo. Ele me contou que pelo menos uma vez por mês os aviões Hércules baseados no Norte e Nordeste têm que declolar para atender a um pedido de socorro.

Algum tempo atrás — depois eu vou escvrever mais sobre esse episódio — um Hércules C-130 igualzinho aos que estão destacados para essas bucas teve que socorrer um navegador francês solitário.  O barco dele estava à deriva e fazendo água. Os hércules lançaram um bote salva-vidas para que ele resistisse até a chegada de uma embarcação que pudesse resgatá-lo.

É por isso que a esquadra e a esquadrilha brasileiras estão rondando o meio do Atlântico, o meio do nada em que se constitui aquele deserto molhado. E vão continuar nos próximos dias. Os militares estão excitados com a operação. O Brasil está nas manchetes dos jornais — mesmo que vinculado à uma tragédia dessas proporções.

Depois, alguns barcos e aviões vão continuar esquadirnhando a área. Para ajudar a marinha francesa a recolher os destroços. À espreita de que algum improvável cadáver apareça para confortar os que querem de volta os corpos. E que quase certamente não terão.

Um especialista em medicina hiperbárica me disse que o Ministro Nelson Jobim errou na sua “aula” de patologia hoje à tarde. Segundo ele, a formação de gases em abdomens íntegros não é suficiente para alçar corpos de volta à superfície.

A 4.000 metros de profundidade, estão submetidos a uma pressão de 400 atmosferas. Se os gases forem suficientes para retirá-los do ferro retorcido em que provavelmente se transformou a fuselagem do avião, o volume das bolhas que se formarão na cavidade abdominal dobrará a 2.000 metros, dobrará outra vez a mil metros, depois a 500, outra vez a 250, numa espiral volumétrica exponencial. E essas bolhas crescidas dilacerarão o abdomen e se desprenderão, devolvendo aos corpos uma densidade maior do que a da água do mar e fazendo-os novamente afundar. Por esta razão, conhecida dos mergulhadores da Marinha, não devem aparecer corpos no local do acidente.

Se o Brasil precisasse de uma boa justificativa para não paralisar as buscas, bastaria recorrer a uma palavra. Uma palavra mágica que seria capaz de justificar todos os gastos, os esforços, a expectativa.

Solidariedade.

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