Eu disse ‘a pedidos’, mas o título correto seria ‘de ordem’.  Escreva no blog.  Escreva no blog.  Esta foi a última coisa que a...

Eu disse ‘a pedidos’, mas o título correto seria ‘de ordem’. 

Escreva no blog. 

Escreva no blog. 

Esta foi a última coisa que a Isa me disse ontem à noite. Na cama. Se fosse no café da manhã, tudo bem, o comentário entrava pelo canal auditivo direito, ecoaria no vácuo em que o mestrado transformou a massa cinzenta e sairia, lépido e livre, pela orelha esquerda. Mas foi na cama.

Quem é ou foi casado – e hoje é melhor usar outro verbo e dizer apenas ‘estou’ casado, porque o casamento virou condição temporária – sabe que ninguém fala besteira na cama. Ou melhor, as besteiras que se dizem na cama são as mais importantes, porque sem elas não há casamento que dure. No duro. E sem o duro, ah, meu amigo, sem ele o casamento é duríssmo, é o mesmo que morar com a mãe aos 40. Pior, porque mãe que é mãe sabe fazer sopa de feijão e nunca tem dor de cabeça.

Podia ter sido em um dos vários telefonemas que trocamos durante o dia. Nestas horas a gente fala de coisas rotineiras, lembra de uma conta a pagar (essa parte é mais monólogo, porque eu estou aqui a convite e passeio, portanto, não tenho qualquer conta a pagar), recorda que esqueceu mais um aniversário de alguém querido no Brasil, discute a última da Marisa, ou até planeja o que vai fazer para o jantar. Aliás, sobre jantar, aqui eles não cozinham ou preparam o jantar. Eles ‘fix’ o jantar. Um amigo do Wal, também casado, de vez em quando comenta o que jantou: ontem à noite a gente fixed macarrão. Coitado, a esposa cozinha tão mal que ele tem de consertar depois. 

Mas também não foi no jantar que a Isa pediu para blogar algo. Foi na cama. E bem naquelas horas, sabe? Tem mulher que fala de tudo nestas horas, grita adjetivos absurdos, inventa metáforas desconsertantes, ameaça te matar, diz palavrões que deixariam enrubecidos Boccaccio (a fama é injusta), Nelson Rodrigues (na verdade, um reacionário assumido) e Carlos Zéfiro (esse sim um mestre da sacanagem). A minha fala: escreva no blog. 

Tá imaginando a cena? Por favor, faça a reconstituição mental. Você lá bem naquela hora, a coisa quase acontecendo, o sangue descendo, você suado, jurando que está mandando muito bem, seus escrotinhos trabalhando a mil para fazer uma boa entrega, e a sua esposa grita: escreva no blog, escreva no blooooooog!!!!

Escreva no blog? Tá (me) gozando? Isso é coisa que se diga na cama? Claro, não preguei o olho a noite toda. E tenho de trabalhar daqui a três horas. Antes disso preciso terminar um dos apêndices da dissertação do mestrado, um trechinho de nada que está empacado há vários dias. E ainda tenho de lavar o banheiro, além da louça do jantar e café da manhã. Mas isso é pouco. Virou bobagem, querela pequena, de menos. Aliás, tudo isso agora é nada, porque a constatação é cabal e definitiva: ela tem mais prazer me lendo do que me comendo.

Alguém tem uma boa indicação de terapeuta na Carolina do Norte? Em último caso, vale até o telefone do Boston Medical Group mais próximo.

Beijos e saudades. Vou à CVS Pharmacy tentar comprar viagra sem a receita.

Marcio Peixoto, editor do blog Oraite nos Isteits, é professor e jornalista em Brasília. Em Asheboro, Carolina do Norte, é marido e dono de casa. Faz mestrado em Educação de Adultos para disfarçar a vida mansa.

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