O blog dedo-duro da Petrobras

A PETROBRAS, no intuito claro de desmobilizar a cobertura jornalística acerca da CPI que tem como objetivo investigá-la, decidiu quebrar a relação de confidencialidade que envolve consultas feitas por jornalistas sobre negócios da estatal e divulgar as demandas em um blog. Na ausência de justificativas aceitáveis paraa institucionalização da deduragem, a BR tem defendido que “a chamada blogosfera permite uma relação direta entre a fonte divulgadora de informação e leitores, sem a necessidade de filtros”.

Os tais “filtros” que a empresa pretende suprimir não podem ter outro significado que não a mediação feita pela imprensa entre o fato e sua transformação em notícia, produto do processo de elaboração jornalística. Ou seja: a poderosa estatal agora se coloca entre os jornalistas e a opinião pública diretamente, desprezando o papel institucional da imprensa.

Note-se que o time de assessores não se limita a dar publicidade ao que responde, mas também publica as indagações dos repórteres. Ao proceder desta forma, inibe a apuração dos que está sendo investigado pelos jornalistas.

É preciso esclarecer que as indagações encaminhadas à empresa não partem necessariamente de fatos concretos — partem da suposição de sua existência. É dever de todo jornalista ouvir o outro lado de cada questão abordada, obrigação expressa no Artigo XII do Código de Ética, para que a “verdade” possa ser estabelecida.

Ao levar ao “outro lado” fatos em apuração, o repórter não necessariamente estará diante de uma evidência concreta, documentada, inquestionável. Estará apenas tentando estabelecer a veracidade e a materialidade daquilo que lhe chega às mãos como denúncia. E se o que está sendo apurado for uma falsificação  Ou uma fraude? O profissional ético, diante de uma situação dessa natureza, utiliza seu arbítrio para selecionar fatos que devem dos que não devem ser publicados. O que é joio vai para o lixo editorial. O que é trigo vira manchete.

O que faz a PETROBRAS ao divulgar uma indagação ?Não apenas antecipa o conteúdo de uma reportagem, sabotando o “furo”, o inusitado. Mas também cria responsabilidade civil e penal sobre o que está antecipando.

Vamos supor uma situação hipotética. Em Brasília, um político mal intencionado procura um jornalista e lhe passainformações inverídicas sobre contratos da estatal. Ao repórter cabe consultar a empresa sobre o que lhe foi comunicado. No trabalho regular de apuração, o repórter solicita os esclarecimentos e estes lhe são feitos. O material calunioso ou injuroso é então descartado, não aparece no noticiário.

Com a interferência do blog dedo-duro, a indagação do jornalista acaba sendo divulgada no site da própria PETROBRAS. A pergunta vira fato, a apuração vira notícia. A quem cabe a responsabilidade pelo que é publicado? Ao repórter que cumpria seu dever de ouvir o outro lado ou à estatal? Quem é que vai ser processado?

A menos que a PETROBRAS esteja querendo assumir uma responsabilidade que não lhe cabe, só se pode entender o advento dessa página eletrônica como uma tentativa óbvia de esvaziar a cobertura da imprensa.

Melhor faria a estatal se publicasse seus contratos suspeitos na internet para que todos pudessem consultá-los. Assim não haveria nenhuma dúvida sobre o desejo inusitado de dar transparência às relações entre o público e a gigante petroleira.

Por que a PETROBRAS não se utliza desse blog para isso ?

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