Brasília tem uma das elites sociais mais inúteis do país. Nas colunas de fofocas o universo é restrito às demonstrações explícitas de fausto e...

Brasília tem uma das elites sociais mais inúteis do país. Nas colunas de fofocas o universo é restrito às demonstrações explícitas de fausto e o que dá o tom é sempre algum assunto fútil. No máximo, entende-se como “obra social” desfiles e regabofes beneficentes feitos por butiques carésimas para amealhar brinquedos quebrados e sacos de arroz com feijão.

Composta, em boa parte, por novos ricos que fizeram fortuna à sombra do Poder — e nem sempre de maneira lícita — a casta mais privilegiada da cidade foi pega em cheio pelas consequências do maior escândalo político da história do Distrito Federal.

O pantenegate finalmente parece ter despertado a atenção das socialites para o fato de que os jornais também têm cadernos de política onde, não raro, seus maridos aparecem em péssima situação. As reações chegam a ser curiosas.

No dia 27 de novembro, um dia depois da deflagração da Operação Caixa de Pandora, a colunista Paula Santana, do Jornal de Brasília, noticiava uma big festa de aniversário de uma criança de cinco anos que aconteceria naquela noite.

A abastança seria tão grande que a coluna antecipava: a festa “será tão impressionante que até o cerimonialista Cesar Serra foi contratado para cuidar da grande tarde. A começar pelo convite de tirar o fôlego, os 300 convidados já podem imaginar o que virá pela frente. A ambientação assinada por Valéria Bittar será pink e reproduzirá o universo de uma bailarina. Haverá miniespetáculo de balé; show da banda Satisfaction, com músicos vestidos de soldadinhos de chumbo; miniboate; minilanchonete; a peça teatral A Revolta da Bailarina, estrelada por Néia e Nando; e até um camarim para as convidadas se fantasiarem”.

Para as dondocas do raissoçaite candango, a colunista mais prestigiada de Brasília avisava: “não será mais necessário entupir as bolsas Chanel de lembrancinhas, como é de costume das convidadas. Cada uma receberá ao final um saco gigante de tule, contendo todas as guloseimas e mimos da festa”.

A festa foi um sucesso retumbante. Sabe quem era a aniversariante ? Era a filha de Durval Barbosa. E a esmerada anfitriã, a esposa (ou ex-esposa) do delator do esquema do pantone.

Dias depois, a esposa de um figurão estrelado, um dos empresários que aparecem nos vídeos abastecendo de panetones os cofres do mesmo Durval, promoveu um evento em sua mansão. Concorridíssimos, os convites para o desfile de apresentação de uma nova coleção de roupas que acabara de chegar a uma loja de Brasília foram feitos de boca em boca.

Desta vez houve mais discrição. As colunas sociais não noticiaram o happening.  Fotógrafos, normalmente alvos do assédio da socialites, foram barrados na porta. Mas o evento bombou. No dia seguinte, o comentário geral das convidadas era sobre as “injustiças” que essa polícia fascínora está cometendo contra pessoas ilustres como o dono da casa.

Cabe ressaltar que pelo menos algumas das senhoras nobres da Corte não sabiam da vida torta de seus maridos. O enriquecimento rápido, o luxo espalhafatoso, o convívio incidental com autoridades suspeitas, nada disso foi capaz de chamar sua atenção.

Um dos casos é emblemático. Às cinco da manhã da sexta-feira 26, quando os policiais federais tocaram a campainha de uma determinada mansão munidos de um mandado de busca e apreensão, a dona da casa quase teve um enfarte. O marido dessa senhroa é um dos mais enrolados assessores do ainda governador José Roberto Arruda.

Como sempre faz, a PF pediu a duas pessoas que passavam pelo local que acompanhassem a operação para servirem de testemunhas. Eram dois humildes jardineiros. Durante as sete horas em que os policiais estiveram vasculhando cada canto da casa, um deles não parou de falar.

— “Tá vendo, Senhora ? Meu pai sempre me ensinou a não me meter em rolo com a polícia. Tem que ter Deus no Coração, ser honesto e não fazer trambique!…”

Para a distinta senhora, a pregação da testemunha foi pior do que a decoberta de que seu marido é um safado que rouba dinheiro público.

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