Márcio Peixoto, do Blog Oraite nos Steits Márcio era editor e professor universitário em Brasília. Mas decidiu abandonar tudo para viver como marido e dono de casa em  Asheboro,...

Márcio Peixoto, do Blog Oraite nos Steits

Márcio era editor e professor universitário em Brasília. Mas decidiu abandonar tudo para viver como marido e dono de casa em  Asheboro, Carolina do Norte, EUA, onde a mulher dele, Isa, dá aulas e paga as contas da família. Atualmente, embora faça um freela fixo numa loja da Wal-Mart, a função de Márcio é cuidar da casa e da filhinha Marisa. E é sobre essa nova vida de “homem do lar” que ele costuma escrever em seu blog.

 

Ôpa, agora é comigo

 

E depois de criar a Governmental Motors, a maior estatal da indústria automobilística, Barackão pode assumir o controle de outro mega-negócio, o Wal-Bama.

Não sei se a idéia já circula pela cabeça do criador da expressão O Cara, mas aqui nesse mundinho da Carolina do Norte a coisa começa a apertar e sou capaz de dar a sugestão para o mega-power-hiper-porreta-presidente. Desde novembro, quando comecei a trabalhar no mercado do Walter, tenho 32 horas semanais de labuta. Tinha. Semana passada, quando colocaram a escala no mural, eu estava com apenas 28 . Eu trabalho quatro dias por semana, oito horas em cada um deles, perdi uma. 

A explicação é de que o corte foi geral no Wal-Mart, todos os funcionários perderam uma hora diária de trabalho por conta da crise, e a redução vai durar o menor tempo possível. Você tem noção do que isso significa? O Wal tem mais de dois milhões de funcionários. É como se toda a população de Curitiba fosse, como eu, funcionária do supermercado. Vão ser milhões de dólares fora da economia toda semana.

Mas isso não é o pior, porque o meu salário sequer existe no orçamento doméstico. Vai integralmente para pagar o mestrado. Melhor, parte dele, porque é tão pouquinho que tenho de complementar bem mais do que a metade das mensalidades com as verdinhas da minha quase extinta poupança. Para pagar o mestrado a Isa não libera a poupança dela, então, tive de trabalhar. 

O que eu quero mesmo dizer é o que aconteceu ontem. Fui mandado embora. Calma, também não fui demitido. Ainda. O fato é que eu, aliás, todos os funcionários da minha loja foram ‘convidados’ a encerrar seus turnos mais cedo. O Walter faz monitoramento instantâneo das vendas. Começamos o dia 12% abaixo da média, mas a situação foi piorando. Lá pelas quatro da tarde a queda nas vendas bateu 20% e os gerentes começaram a buscar voluntário: ‘gente, quem quer ir embora mais cedo?”. Do jeito que caminham as coisas aqui – tudo está subindo de preço, ninguém pôs o pescoço no laço. Menos horas trabalhadas, cheque menor na quinta-feira.

Meia hora depois, a confirmação: todos tinham de reduzir a carga horária do dia porque as vendas continuavam caindo. A lógica da decisão: menaaaaaas vendas, menor a necessidade de gente para pôr mercadoria na prateleira, não há porque manter funcionários na local. Pegue seu boné e vá para casa, porque a gente precisa reduzir a despesa.

Na equipe em que eu estava trabalhando ontem – éramos seis (ainda existe a coleção Vaga-Lume? Que saudade…) – todos tinham de ir embora duas horas mais cedo e um deveria ser voluntário para abrir mão de três horas de trabalho. Aquela consternação geral. Como o pessoal lá é pai de família e o silêncio sepulcral me atormenta, resolvi me oferecer para perder uma hora a mais, já que aqui sou na verdade dono de casa. Eu trabalharia até 10 da noite, fique até sete.

Isso tudo para chegar ao ponto real: o terror de todo homem casado. 

Meu Deus, vou embora mais cedo?!?!?!? Chegar em casa com antecedência e sem avisar é um risco para qualquer casamento. Pode confessar, não há quem rode a fechadura do apartamento duas, três horas antes do horário previsto sem o, digamos, ânus na mão. Que cena me espera do outro lado desta porta?

É por isso que eu nunca chego sem avisar. Sou daqueles que prefere não saber. Há maridos que se sentem ridicularizados quando descobrem, porque foram efetivamente os últimos a saber. Pois eu não quero ser o útlimo a saber, eu quero simplesmente nunca saber. Se você sabe, por favor, guarde para você. Amigo que é amigo nunca conta. A ignorância é o segredo do casamento. Pode ir atrás dessas relações que duram apenas três, quatro anos. Lá tinha um marido que queria saber de tudo, investigou demais. Eu não sei de nada e estou casado e feliz há quase 15. Pelamordedeus, não me conte.

Sete horas, tenho de bater o cartão e voltar mais cedo. Começo a dirigir para casa, chego lá em 15 minutos, é tempo mais do que suficiente para impedir o flagrante. Bato o telefone para a Isa. Antes, aliás, peço licença ao Nelson Rodrigues para bater o telefone. A frase do senhor das minhas perdições é perfeita: bateu o telefone para casa.

Bato o telefone para a Isa. Secretária eletrônica. Mau sinal (sem trocadilho, o celular operava perfeitamente). E eu dirigindo. Já andei duas milhas, só faltam nove. Ligo de novo, desligado. Piorou. Puta merda, terceiro semáforo aberto logo hoje, vou chegar ainda mais cedo. Telefono mais uma vez. Só faltam três milhas, menos de cinco minutos. E nada. Chego ao condomínio, o carro da Isa está diante do prédio. E nada de atender o telefone. Luz do quarto acesa, dá para ver pela persiana. Demais para mim. Nem parei, passei direto pelo estacionamento e fiz o retorno. De volta ao Wal-Mart, fazer logo as compras do mês. Pronto, emprego e casamento salvos.

 

 

 

 

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