A impressão mais forte nessas primeiras 24 horas em Paramaribo é a de que aqui os brasileiros são vistos sempre como babacas, inúteis e...

A impressão mais forte nessas primeiras 24 horas em Paramaribo é a de que aqui os brasileiros são vistos sempre como babacas, inúteis e mal quistos.

De cara, na chegada, fomos assaltados por um motorista de táxi que nos trouxe do distante aeroporto até o hotel em que estamos hospedados. Ele combinou uma corrida de 50 dólares surinameses. Ficou conosco duas horas além do previsto e cobrou 150 dólares americanos. Ou 420 dólares surinameses.

Estamos saindo daqui a pouco para Albina. A corrida, tratada no saguão do hotel com um taxiata creddenciado, vai custar 300 dólares surinameses. São 300 quilômetros entre a ida e a volta e um dia inteiro de trabalho para ganhar isso.

Todo mundo aqui diz que gosta de brasileiros. Mas não é verdade. Os que eles conhecem, cerca de 18 mil, são todos garimpeiros, gente que chega aqui com uma mão na frente e outra atrás em busca de qualquer oportunidade nas lavras insalubres da fronteira com a Guiana.

Os próprios garimpeiros dizem que eles só encontram emprego porque se submetem a coisas que os surinameses não fazem — como trabalhar no meio do mato, nas piores condições, com uma jornada que vai das 3 da manhã até as 8 da noite interrompida apenas uma vez para um lanche rápido.

O governo do Suriname está aborrecendo a representação diplomática brasileira de pedidos de desculpa. ” Eles nos ligam toda hora pedindo desculpa”, diz um alto funcionário da embaixada do Brasil em Paramaribo. ” É tanto pedido de desculpa que nós mal conseguimos tempo para atender as ligações”.

Mas, na prática, há um componente de xenofobia claro por trás de todas as ações. Ontem à noite o blog testemunhou uma conversa dura entre o secretário-geral da embaixada e um médico do hospital onde estavam as quatro últimas vítimas que ainda permaneciam internadas.

O diplomata brasileiro tentava convencer o médico responsável pelo hospital a manter lá uma das vítimas, um homem esfaqueado que tinha dores terríveis e se sentia à beira da morte. O médico resistiu a toda a argumentação. “Eu estou lhe pedindo formalmente que não mande o paciente para a rua”, dizia o diplomata. “Se esse homem morrer, vai haver um problema sério entre o meu País e o seu”.

O médico redarguiu, e o secretário da embaixada reiterou: “Não se trata apenas de um problema de saúde. Isso é política, entendeu ?”.

O médico não entendeu. Cinco minutos depois, cheio de dores e achando que ia morrer, o paciente foi posto para fora.

Os jornalistas que estão aqui — quatro repórteres, três cinegrafista e um fotógrafo — ouviram do embaixador que não deveriam ir até Albina, onde a tensão ainda é grande. Quando dissemos a ele que não haveria como não ir, ele armou um comboio, escoltado pela polícia federal daqui.

Três dias atrás, quando as autoridades diplomáticas foram até o local do massacre, um dos carros do comboio deles foi atacado por quilombolas. Depois de um acidente na estrada, um grupo de “marrons” se formou. Eles começaram a ameaçar os policiais, que só escaparam da liça depois de disparar tiros para o ar.

Agora estamos de saída. Assim que conseguir uma conexão de internet — a internet aqui é uma das piores que eu já vi — conto para vocês o que eu vi lá em Albina. 

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