O presidente Lula é inquestionavelmente um político diferenciado. Ao iniciar seu último ano de governo, demonstra um inaudito gosto pela arte de governar. Está...

O presidente Lula é inquestionavelmente um político diferenciado. Ao iniciar seu último ano de governo, demonstra um inaudito gosto pela arte de governar. Está motivado como se fosse seu primeiro dia e tem, hoje, plena noção do poder que a Presidência da República lhe confere. No último ano de Sarney, por exemplo, dizia-se que nem o garçom lhe servia mais cafezinho. FHC também estava enfadado.

Mas será que isso é bom ?

Ao mesmo tempo em que se autodelega responsabilidades, o presidente também está sujeito a uma carga maior de problemas. Muitos deles decorrem extamente de sensação de que seu Poder é quase ilimitado.

Em setembro passado, quando o governo brasilerio decidiu participar do plano de retorno de Zelaya à presidência de Honduras, o País aceitou entrar por uma previsível linha de confronto com os organismo internacionais, que viam o problema com outros olhos. Eu estva em Nova York quando o ministro Celso AMorim, na véspera da Assembléia Geral da ONU, anunciou que Zelaya tinha o apoio do governo brasileiro para usar a embaixada como trampolim para voltar à Casa Presidencial de Tegucigalpa.

Quando o clima entre o presidente golpista e o deposto azedou, três dias depois, o chanceler  tentou reunir o Conselho de Segurança da ONU para obter garantias de que a integridade da representação diplomática  não seria violada. Não conseguiu. O ONU despachou o assunto para a OEA, o que se mostrou também inócuo. Começava assim o processo de isolamento da diplomacia brasileira .

No final, o Brasil manteve solitariamente sua posição de apoio incondicional e um homem estigmatizado em seu próprio país. Notadamente corrupto, autoritário e com pretensões golpistas, Zelaya não arregimentou apoio de mais de duzentos seguidores — quase todos pelegos que, assim como no Brasil e na Venezuela, passaram a viver de verbas governamentais generosas em troca do apoio palaqueiro e do silêncio obsequioso.

Enquanto isso, o “golpista” ia dando andamento ao processo eleitoral, legitimado pela participação do próprio partido do presidente deposto. Um adversário de ambos venceu. E o mundo se dobrou ao processo de reinstitucionalização de Honduras, que vai se completar neste janeiro.

O Brasil, antes um país querido por sua respeitosa vocação pacifista, passou a ser visto como uma nação embrionariamente imperialista, com ganas de eleger o futuro para os povos vizinhos.

Enquanto cuidava de meter o bedelho na América Central, Lula se via enredado pela ameaça representada pela CPI da Petrobrás. Arregimentou um exército de mercenários para enfrentar a investigação parlamentar. Deu certo, mas logo a legião logo cobrou a conta. E Lula, que vai terminando sua era como um presidente leniente para com a corrupção, se viu na obrigação de segurar a barra de José Sarney. E dá-lhe tinta na biografia!

A fatura só virá a longo prazo. Para sempre na história, as virtudes de Lula terão que se resumir às conquistas na área econômica — na verdade uma extensão sem novidades do que herdou de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso — e à estatização do coronelismo representada pelo Bolsa Família.

Quando o Supremo Tribunal Federal julgou finalmente o caso Cesare Battisti, a insistência do Ministro Tarso Genro — e por extensão também do presidente Lula — em manter o assassino italiano no Brasil  acabou criando um imbroglio político e jurídico de dimensões ainda não conhecidas. O STF lavou as mãos e passou o bastão ao presidente. Agora ele tem, como queria, o arbítrio de decidir o que quiser. Mas vai ter que se confrontar com as consequências decorrentes de sua decisão.

Se decidir, como quer, manter o italiano no Brasil, pode incorrer em crime de responsabilidade e ainda colocará o Brasil em péssima situação perante a Europa. Até agora Lula ainda não sabe o que fazer com o presidente greco-romano que ganhou do STF. A prova disso é que ele simplesmente não decidiu nada — e seus assessores mais próximos dizem que esse é o sintoma clássico da atitude que Lula tem diante de qualquer necessidade de discernir entre duas alternativas opostas.

Se, ao contrário,  decidir extraditar Battisti, vai enfrentar uma chiadeira enorme da desprestigiada claque petista.

Com a agricultura do País destroçada, Lula também está dividido entre os sem-terra e os latifundiários. Vem empurrando com barriga a revisão dos índices de produtividade prometida ao MST e abominada pelo agronegócio. Chegou a reunir os ministros da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário, ouviu queixas e contrarrazões, mas deixou pra lá. Assim é Lula diante de seus próprios dilemas.

Agora meteu-se em uma confusão dos diabos com o pessoal que veste farda. Assinou “sem ler” o decreto criando a comissão que pretende julgar os militares beneficiados pela Lei da Anistia e quase perdeu todo o primeiro escalão militar.

Quando a fervura ameaçava esfriar, lá vai o presidente novamente se meter em encrenca. Encrenca que, aliás, começou de maneira inusitada no Palácio da Alvorada, quando da visita do presidente francês Nicolas Sarkosy no ano passado.

Ao longo de um almoço conturbado, em que a churrasqueira do palácio quebrou e dona Marisa teve que improvisar um mexidão, Lula decidiu dizer a Sarkozy que o Brasil iria comprar os caças Rafale. Firmou compromisso por escrito. Nem o ministro Nélson jobim, que saiu do mexidão palaciano com uma indigestão, entendeu bem o que o chefe havia feito. Agora o governo anuncia que vai desprezar a opinião dos militares na compra dos caças. Vem mais turbulência por aí.

Diante desse cenário, vale a pena reiterar a pergunta que o Blog havia feito mais cedo: se era pra tomar uma decisão meramente política — e ainda pagar o dobro por isso — por que o governo permitiu que dois anos se passassem em árduas e caras avaliações técnicas ?

Como se vê, é inquestionável que Lula está mandando muito. Pode-se questionar, no entanto, se está mandando bem ou apenas mandando.

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