por Gustavo Chacra, do blog De Beirute a Nova York e enviado especial do Estadão a Porto Príncipe “Pó coronel, a droga da internet...
por Gustavo Chacra, do blog De Beirute a Nova York e enviado especial do Estadão a Porto Príncipe

“Pó coronel, a droga da internet caiu de novo. Será que não tem ninguém da engenharia para arrumar?”, reclamou um jornalista na hora do fechamento para o coronel Alan Santos, responsável pela comunicação social do Exército em Porto Príncipe. Era mais um episódio de um big brother que misturou jornalistas e militares na base brasileira na capital haitiana. Não foi fácil, no começo, a “ocupação” do quartel-general brasileiro no Haiti pelas tropas de jornalistas armados com seus blocos, câmeras e laptops e sem um lugar para ficar em um país arrasado. Fui um dos dois primeiros a chegar, ao lado de repórteres da Folha e de O Globo. Era o início da cobertura do terremoto que deixou dezenas de milhares de mortos.

Ao desembarcar em Porto Príncipe, não tinha idéia de onde poderia dormir ou comer. Os dois melhores hotéis, o Montana e o Christopher, haviam desmoronado, soterrando centenas de pessoas, incluindo a cúpula das Nações Unidas no Haiti. Os restantes estavam condenados, sem falar no risco de tremores secundários. A única salvação era a base militar brasileira, para onde rumei. É uma área ampla, com uma série de prédios pré-fabricados que não sofreram danos no terremoto. Dentro, além dos mais de mil militares, estavam provisoriamente 70 haitianos feridos e os corpos de 14 soldados esperando o translado para o Brasil.

Ao chegar, fui encaminhado, como os outros repórteres, para a sala do G7, como é conhecido o departamento de comunicação social. No começo, os militares não queriam permitir que utilizássemos o sinal de wi-fi e tivemos que nos revezar em um computador para enviar os nossos relatos sobre o terremoto. Tampouco garantiram que teríamos uma cama para dormir. Dissemos que ficaríamos em qualquer lugar, mas que precisávamos dormir na base, certamente o lugar mais seguro e um dos poucos intactos de Porto Príncipe. Quando arrumaram a acomodação, já haviam chegado também repórteres da rede Globo, BAND, Zero Hora e TV Brasil. E a situação da internet tinha se normalizado. O Exército disponibilizou uma rede de wi-fi especialmente para os jornalistas. Em poucas horas, as Forças Armadas já davam todo o apoio logístico para o nosso trabalho, incluindo caronas em carros de patrulha pelas ruas de Porto Príncipe.

Na hora do jantar, um soldado nos levou para o refeitório. E explicou que, de um lado, comiam cabos, soldados e sargentos. Do outro lado, coronéis e generais. No meio, oficiais como capitão, major e tenente. “A comida é a mesma, mas vocês devem se sentar com os oficiais”, disse um sargento. Tudo bem. Comemos arroz, feijão, carne cozida com batata e bebemos suco. Faltava ainda conhecer o quarto. Ou melhor, a tenda com cerca de dez colchões estirados no chão que praticamente dobraram no dia seguinte. Ao contrário do Big Brother da TV, em vez de sair, entravam novos participantes. SBT, IG e revista Veja. Sem falar nos tradutores, que não tinham mais casas. As suas caíram com o terremoto. Todos juntos no mesmo quarto. A não ser pela BAND. Mais prevenido, o repórter Fabio Panuzzio e o cinegrafista Nivaldo Lima levaram as suas barracas e até mesmo uma panela de pressão para cozinhar arroz e feijão e acamparam ao lado da tenda da imprensa. O guia deles, Junior, um haitiano de uns 13 anos, dormiu com a gente e teve que aguentar o ronco de um repórter da concorrência. As mulheres foram acomodadas em um alojamento um pouco melhor, divididas em quartos com dois beliches cada.

E, claro, há a questão do banheiro. Eram vários, espalhados pelo quartel. Deveríamos usar um que era denominado “Uruguai”. Mas, como em todo acampamento de adolescentes, os jornalistas foram descobrindo outros melhores, ainda que um pouco mais distantes do quarto. Com pouco espaço na mochila, muitos, como este repórter, esqueceram da toalha. Sem falar na pasta de dente, que não pôde nem embarcar no aeroporto JFK, em Nova York. Tomávamos banho e nos enxugávamos com a camiseta que havíamos utilizado durante o dia para depois vestir a roupa dentro do box do chuveiro . Eu ainda recebi, depois, uma toalha de rosto, trazida pelo Lourival Santanna. Com os dias, fomos nos adaptando. A equipe do SBT descobriu, por exemplo, que nas acomodações da engenharia serviam doce de leite e coca-cola. No dia seguinte, até mesmo os canais concorrentes já estavam jantando com os engenheiros responsáveis pelos resgates. Em um momento, os militares notaram que, enquanto assistiam a uma reportagem do terremoto no Jornal Nacional, o repórter Rodrigo Alvarez, da rede Globo, estava na mesa ao lado.

Como em um programa de TV, rapidamente foi determinado que um americano da BBC seria o inimigo. Ele estava desde o início na base, mas não falava nada de português. Cometeu o pecado de pedir para um repórter brasileiro fazer silêncio quando entrou no ar. Alguns, brincando, pediam ao coronel para mandar “o gringo embora” porque os americanos não nos deixariam entrar na embaixada deles. “Por que ele não vai para lá?”, afirmavam em tom de gozação. Claro, o tratamento dispensado a uma fotógrafa americana também hospedada na base era diferente, já que ela era bonita. Ou, como diriam os soldados, “acho que vocês já estão há muito tempo neste quartel”. Durante todo o período, não ocorreu nenhum conflito. Jornalistas e militares ficaram amigos. E o coronel virou quase nosso editor. “Vamos fechar que já está tarde”, disse, apressando os repórteres a enviarem suas matérias para poder trancar as portas da sala do G7. Não adiantava. Os repórteres continuavam trabalhando do lado de fora e despertavam antes mesmo da alvorada militar, às 6h da manhã.

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