O Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desassombrado pelo vigoroso descarrego do CNJ no último dia 2, foi palco de um incrível fenômeno de...

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desassombrado pelo vigoroso descarrego do CNJ no último dia 2, foi palco de um incrível fenômeno de ressurreição quatro dias depois, na sexta-feira, 6. O fantasma de um desembargador se materializou numa sessão da Turma de Câmara com disposição redobrada para psicografar sentenças beneficiando os deputados estaduais José Geraldo Riva e Pedro Satélite.

O nome da assombração é José Tadeu Cury, que até a semana retrasada era um dos mais aguerridos protetores de Riva, presidente da Assembléia Legislativa. Riva é o líder do grupo político em torno do qual orbita Satélite, que foi efetivamente beneficiado pelo despacho do ectoplasma.

Ao chegar para a reunião daquela tarde, Cury comunicou aos colegas que iria julgar todos os processos pendentes que diziam respeito ao presidente da Assembléia Legislativa. Sua determinação causou um enorme constrangimento aos outros desembargadores, uma vez que, formalmente, ele já não pertencia mais àquela corte. Temendo a repercussão futura que o caso fatalmente teria, os magistrados derrubaram a sessão por falta de quórum.

Se não teve sucesso na última reunião de Câmara da qual participou, Cury agiu com bastante desenvoltura para beneficiar outro parlamentar, o deputado Pedro Satélite, em uma ação milionária que estava sob seus auspícios. O parlamentar é proprietário de uma empresa de ônibus que demandava  com um concorrente o direito de transportar passageiros em linhas cujas concessões não lhe pertencem.

Satélite já havia sido derrotado quatro vezes em juízo. Apesar disso, seus advogados enxergaram na reencarnação de Cury uma oportunidade para mudar fatos já consumados pelo TJ. Decidiram ajuizar uma nova ação e conseguiram fazer com que o processo fosse parar nas mãos do desembargador José Tadeu Cury.

O problema é que José Tadeu Cury foi compulsoriamente aposentado pelo Conselho Nacional de Justiça terça-feira, 2 de março. Na quinta-feira o presidente interino do TJ, desembargador Paulo Cunha, baixou o “ato de aposentação”, publicado no dia seguinte, sexta, no Diário de Justiça, encerrando para sempre a carreira de desembargador de Cury.

Naquela tarde, portanto, Cury já não era mais do que um espectro indigesto pairando sobre o prédio do Tribunal. Sua carreira havia sido abatida. Tornara-se um fantasma desde a véspera.

E não é que ressuscitou ?

Quando os advogados mediúnicos de Satélite protocolaram a inicial, já sabiam a quem ela se destinava. Honrando seus compromissos, o ectoplasma de José Tadeu Cury se materializou e em menos de duas horas, às 17h50, lá estava o despacho. Em vida, o desembargador talvez jamais tenha sido tão rápido e eficiente quanto foi no post-mortem. Gastou apenas 84 minutos para proferir a sentença.

A decisão, ao contrário de todas as anteriores, que proibiam o parlamentar de por seus ônibus nas linhas do concorrente, assegurou-lhe o direito de explorar o trecho. E foi além. O desembargador-fantasma também determinou que o legítimo dono da concessão parasse imediatamente de transportar passageiros na linha em litígio.

E tudo isso numa sexta-feira, dia de Mesa Preta e de oferendas aos exus nas encruzilhadas. Exus que devem ser bastante eficientes, uma vez que prestam serviços ao grupo político que manda no estado há muitos anos.

Não é um exagero lembrar que o esquema Riva já havia sido beneficiado por um morto (leia o post sobre o assunto aqui). O fantasma de Lucas Marques Gomes, enterrado no cemitério Costa Verde em Agosto de 1999, constituiu uma empresa um mês depois de seu falecimento. E foi agraciado com R$ 3,7 milhões em cheques da Assembléia assinados por José Geraldo Riva.

Resta saber agora quanto o pai-de-santo de Satélite cobrou pelo despacho (na acepção ritualística da palavra)  que provocou a Ressurreição do desembargador-fantasma. E também quanto sal grosso será necessário para exorcizar as emanações dos ectoplasmas que ainda assolam o Judiciário matogrossense.

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