Um nó na garganta. Um aperto amargurado no peito. E um ponto de interrogação sobre o futuro. É assim que e me sinto depois de...

Um nó na garganta. Um aperto amargurado no peito. E um ponto de interrogação sobre o futuro. É assim que e me sinto depois de quase 30 anos de jornalismo, profissão que eu amo de paixão, apesar de todos os pesares.

Decisão inapelável, irrecorrível. De todo o plenário do Supremo, tivemos a nosso favor apenas o voto do ministro Marco Aurélio. Todos os demais consideraram que o equívoco profissional sobre o qual erigimos nossas carreiras, com o qual pagamos nossas contas, conquistamos nosso respeito era um monstrengo inconstitucional criado pela ditadura que conspuracava a liberdade de imprensa.

“Jornalismo é sacerdócio”, repetia o sábio Fernando Viera de Mello, meu mestre e inspirador dos primeiros anos. Ouvia isso ainda garoto, no começo da década de 80, quando havia uma relação belicosa entre “provisionados” e “diplomados”. Os provisionados eram jornalistas que tinha, formação em outras áreas, ou eram autodidatas provados pelo mercado.

Nas quatro décadas que se passaram desde a regulamentação “autoritária” da profissão o jornalismo melhorou muito. Se há um processo de depuração da política em curso, é graças ao trabalho de apuração desses profissionais que perderam o direito ao registro profissional. Se alguém ainda fala na construção de um país com menos roubalheira, mais ética, com algum altruísmo, também isso se deve ao ideal de tem adotou essa ficção autoritária como sacerdócio e foi à luta.

Fico pensando na situação em que se encontram meus futuros colegas. Aqueles que ainda estão no banco de uma faculdade esperando pelo momento de enfrentar um mercado que agora não tem mais regras, não tem mais piso salarial, que simplesmente não existe mais para quem se preparou para ele. Espero que a Fernanda Muylaert, excelente repórter que eu acabo de capturar para o blog, possa expressar o que se passa no meio acadêmico, de onde ela acaba de ser desembarcada.

Se jornalismo é sacerdócio, agora somos sacerdotes sem templo. Não vai ser fácil sobreviver, pagar as contas, defender postulados éticos que deixaram de vigorar por decisão do pleno do STF. Fico imaginando como será concorrer com biólogos, físicos, analfabetos de outras áreas que virão certamente se colocar como mediadores entre fatos, fontes e a opinião pública.

Mas o mais difícil mesmo vai ser explicar aos meus filhos que agora eu não tenho mais profissão.

Comentários


Sem comentários ainda.

Comente!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *