Tenho acompanhado esparsamente o caso do garoto Sean Goldman. É um caso emblemático pelo que contém de desrespeito aos direitos de uma criança de...

Tenho acompanhado esparsamente o caso do garoto Sean Goldman. É um caso emblemático pelo que contém de desrespeito aos direitos de uma criança de nove anos, vítima de uma situação familiar esdrúxula e, do ponto de vista do respeito às convenções internacionais, aberrante. Mas o que importa mesmo é a situação emocional em que o garoto está colocado. Alvo de uma contenda entre o pai americano e o padrasto brasileiro, Sean tem tido seu metabolismo afetivo exposto em hasta pública sem a menor consideração pelo impacto que isso terá sobre ele no futuro.

Sean nasceu em Red Bank, Nova Jersey, fruto do casamento do americano David Goldman com a brasileira  Bruna Carneiro Ribeiro. Quando ele tinha quatro anos de idade a mãe, já decidida a encerrar o casamento, veio com o garoto para o Brasil e jamais permitiu que ele retornasse. Bruna nunca tentou obter sua tutela na justiça americana. Comunicou a separação ao marido quando já estava em solo brasileiro. E se casou com o respeitabilíssimo advogado Paulo Lins e Silva, filho de uma família aristocrática do Rio de Janeiro.

A contenda judicial se arrasta desde então. Mas foi um infortúnio que selou a sorte de Sean e o colocou no centro de uma arena em que uma guerra judicial transcorre em meio a várias batalhas de mídia. A mãe dele morreu no parto do segundo filho. Sean ficou aos cuidados do padrastro. Tenho certeza de que Paulo Lins e Silva se afeiçoou ao garoto e que lhe devota o mais profundo amor paternal. Imagino a dor que essa família está passando quando se vê na iminência de ter que enviar o menino para o convívio com um pai que ele simplesmente não conhece, com quem jamais conviveu, que não teve oportunidade de conhecer. Para nunca mais vê-lo novamente.

Paulo luta desesperadamente para manter a guarda de Sean. Sua tenacidade é titânica. O caso está nas mãos da Justiça Federal. Já percorreu todas as instâncias e, provavelmente, terá como desfecho a cena triste, num saguão de aeroporto, da despedida da criança que vai sem querer para um lugar onde não quer viver, deixando para trás e para sempre aquela que considera ser sua única família. Mas é o lugar dele: ao lado do pai que não conhece.

Não vou entrar no mérito do processo, que não conheço. Mas quero falar sobre uma das peças, que me chegou por e-mail, enviada pela assessoria de imprensa do escritório que representa a família Lins e Silva no caso. Trata-se de algo que a justiça brasileira não permitiu no curso do processo: a manifestação de vontade da criança.

Os Lins e Silva contrataram uma psicóloga para entrevistar Sean. A sessão foi gravada e degravada. A peça foi anexada ao processo, mas não tem valor na disputa judicial. Serve, basicamente, para municiar a imprensa — daí sua divulgação. Ou seja: serve para gerar comoção, como se o caso já não fosse por si só comovente.

Se você quiser ler a íntegra da degravação, clique aqui. A entrevista, feita pela psicóloga Terezinha Feres-Carneiro, aconteceu no dia 15 passado, no setor de psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia. Logo no começo Sean é advertido de que a consulta será gravada. Ele sabe que o video será exibido a quem vai decidir a questão. Em muito trechos, fala diretamente ao pai americano, manifestando sua vontade de permanecer com a família brasileira.

Sean é instado a desenhar sua família. É por meio desse desenho que ele passa a descrever seus laços afeitvos. Os primeiros personagens mencionados na conversa são os dois avós maternos, Raimundo e Silvana. Em seguida surge a irmã Chiara, de nove meses.  E os avós “paternos”, os pais de Lins e Silva, que é mencionado logo depois. “Esse é meu pai”, diz o menino. “Como ele é que ele chama?”,  indaga a psicóloga. “João Paulo”, responde Sean.

Sean descreve a escola, da qual gosta muito, e os amigos — que são muitos — , as brincadeiras com a irmãzinha, os passeios com os avós pelo calçadão. É aí que começa a parte tenebrosa do caso. Estimulado a falar sobre sua origem, passa a descrever memórias esparsas de um mundo do qual pouco se lembra. De Nova Jersey, apenas o frio. E logo aparece a primeira afirmação categórica. “Eu quero ficar no Brasil”, exclama o garoto. “Porque aqui eu tenho minha família que eu gosto, que é meu pai, minha irmã”… “Como é que você imagina se você fosse para lá, para os Estados Unidos?”, indaga Dra. terezinha. “Deve ser muito ruim. Eu não vou gostar”, responde o menino.

De repente a criança, que não consegue se lembrar de nada, diz que David, tratado pela psicóloga apenas como ‘pai biológico’, mudou muito. “Ele agora tá fingindo que ele tá muito sofrido, ele tá fingindo, dá pra perceber”, diz Sean. Fico me perguntando de onde partem impressões com esse nível de assertividade. De que referencial elas lhe foram trazidas? É inevitável supor que as imagens que compõem a figura paterna lhe chegam pelas fontes que têm acesso a ele — a família brasileira.

Sean diz que o pai está fingindo. A figura que aparece é quase draconiana para uma criança compelida a conviver com um estranho. “Ele estragou  meu final de semana, eu tinha uma viagem marcada pro Beach Park e ele estragou meu final de semana falando que ía vim aqui me visitar (…) e acabou que ele não apareceu”. Um passeio ao paraíso ou uma visita guiada? No universo mental de uma criança, o que tem mais valor? Ao final, a frustração mais do que justiticada pelo encontro que, segundo ele, não houve. Mas por que não houve?

O garoto deixa claro que não quer ter nenhum contato com o “pai biológico”. Reitera e reafirma isso o tempo todo. Fala para a câmera. E ameaça: “se for pra lá eu vou começar a quebrar tudo, eu não vou gostar”. Sean quer ficar com as idas ao shopping, os fins-de-semana num haras, o deleite de pertencer a uma aristocrática e acolhedora família. Não há espaço para David no psiquismo do garoto.

Nem poderia haver. Pelo que contou à terapeuta, eles jamais teve um momento privado com o pai. “Sempre que ele vem fazer uma visita, tem alguém presente”, afirma na entrevista. Visitas que sempre ocorreram no condomínio onde ele mora. Que devem ter sido chatíssimas e muito constrangedoras para todos. A verdade é que, desde que Sean foi abduzido dos Estados Unidos pela mãe, David nunca teve nenhuma chance com o próprio filho.

E talvez nunca tenha, mesmo que o menino volte para Nova Jersey, que é o que deve acontecer. Não há mais nada que possa acontecer além da protelação do desfecho. Como se vê, quanto mais tempo passar, mais arredio o menino Sean vai ficar à imagem do pai. E mesmo que fique no Brasil, no futuro distante, quando ele tiver discernimento suficiente para entender o que aconteceu nos seus primeiros anos de vida, o que será que vai pensar do amor ao mesmo tempo generoso e obsessivo do padrasto que o privou conviver com o “pai biológico”?

O que está em questão nesse caso não é apenas o lugar onde Sean vai reconstruir sua vida. É a possibilidade dessa criança se tornar um adulto feliz em meio a uma adversidade dessa dimensão. Contribuiria muito para isso se a família brasileira tirasse a lide dos jornais e oferecesse a ele o que toda criança inocente tem direito quando é alvo de uma disputa mesquinha como essa, o segredo de justiça.

Se não pode vencer nos tribunais, ao expor as vísceras do menino nos jornais os Lins e Silva estarão condenando Sean a ter um futuro que nenhum pai de verdade deseja para seu filho.

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