Íntegra da entrevista conduzida pela psicóloga Terezinha Carneiro (TC) com Sean Goldman (SRG)   TC: Então Sean, nós estamos vendo que estamos sendo filmados,...

Íntegra da entrevista conduzida pela psicóloga Terezinha Carneiro (TC) com Sean Goldman (SRG)

 

TC: Então Sean, nós estamos vendo que estamos sendo filmados, não é? Porque vai ser importante tudo isso que a gente disser aqui. Eu trabalho lá na PUC atendendo famílias e crianças nas famílias e lá também grava as sessões pra depois a gente entender melhor o que aconteceu, não perder nada da sessão. Por isso que eles estão gravando.

SRG: Mas eles escutam?

TC: Eles escutam. Ah…eles escutam aqui, isso aqui é um microfone e aí do lado de lá eles estão nos vendo, nós não tamo(sic) vendo eles e esse microfone passa o som pra lá. Lá na universidade quando estou atendendo as famílias com os aluno eu às vezes levo as famílias lá atrás do espelho pra ver quem tá observando, explico porque que a gente tá gravando porque aí depois que eu faço isso, todo mundo se desliga do microfone, da câmera, já ficou sabendo o que que é, tá? Então, meu nome é Terezinha, eu sou uma especialista em atendimento de famílias. Família com criança, família com bebê, família com adolescente, família com adulto saindo de casa, famílias em geral que me procuram elas tem alguns problemas, por isso que elas procuram.  Minha profissão é psicóloga, terapeuta de família. Então, as pessoas por que procuram psicólogo?  Porque eles tão(sic) com alguns probleminhas que sozinhas às vezes elas não conseguem resolver. Tá? Então, nesse nosso encontro, nessa nossa sessão, eu queria que você me pudesse falar naturalmente, com toda a liberdade tudo que está passando pela sua cabecinha. O importante aqui hoje é a gente saber como é que você pensa, o que é que você sente, o que que você quer. Eu sei que você tá vivendo um momento de probleminhas, um momento difícil na sua família e eu queria que você começasse Sean, me falando sobre a sua família. Qual é a sua família, como ela é formada, como ela é constituída, a sua família?

SRG: Humm, não entendi a pergunta.

TC: Não? É assim, às vezes eu peço para as pessoas desenharem a família.

SRG: Ah, tá!

TC: Você prefere desenhar a sua família ou me falar?

SRG: (acenou com a cabeça positivamente)

TC: Então tá bem, você vai desenhar pra mim a sua família e depois nós vamos falar do seu desenho. Você prefere com lápis colorido ou lápis preto?

SRG: Colorido.

TC: Colorido. Então pronto, desenha pra mim sua família. Todos os membros da sua família, inclusive você.

SRG: Não tem cor de pele?

TC: Cor de pele? Qual que você acha que é cor de pele?

SRG: A mais parecida é o vermelha

TC: Tá bem. Ah, desculpe.

SRG: Não. Vou fazer o rosto assim branco com o contorno preto.

TC: Você pode fazer do jeito que você quiser, mas depois você vai me falar sobre essas pessoas todas, tá bem?

(Pausa de 58 segundos)

SRG: Eu não sou dos melhores.

TC: Desenhistas? Mas não tem importância, o desenho a gente tá usando Sean, só como uma maneira da gente conversar, da gente se comunicar. Você não precisa ser um desenhista, tá? É só pra gente falar um pouco nesse início sobre a sua família.

(Pausa de 15 segundos)

SRG: Hum, fiz coisa errada aqui.

TC: Ah, não tem importância. Depois você me explica o que que você fez de errado.

SRG: Ah, dá para fazer como uma boca.

TC: Tá bem.

(Pausa de 40 segundos)

TC: Uhum

(Pausa de 90 segundos)

SRG: Dá pra fingir assim como se fosse uma boca?

TC: Tá bem, tá legal, depois você me explica. Acaba de desenhar pra gente conversar um pouquinho sobre o desenho. Tá bem?

SRG: Uhum.

TC: A gente tem várias coisinhas pra conversar. Aí depois do desenho a gente vai conversar. Vai botar cabelo em todo mundo?

(Pausa de 40 segundos)

SRG: Hum, esqueci.

TC: E quem são essas pessoas? Fala pra mim.

SRG: Mas eu ainda não terminei.

TC: Ah, então termina. (Pausa de 15 segundos) Tem que botar todos os membros da tua família.

SRG: Então vou precisar de outra…(mostra a folha de papel)

TC: Será? Não, acho que vai caber, tem essa parte de cima. Bom, vamos tentar botar todo mundo na mesma folha. (Pausa de 19 segundos) Tá faltando alguém?

SRG: Tá faltando os outros dois avós.

TC: Tá bem. Então vamos lá.

SRG: E a minha irmã.

TC: Então, vamos lá.

SRG: Vou colocar a minha irmã aqui.

TC: Tá bem.

SRG: Ainda é um bebezinho.

TC: Um bebezinho? Quantos meses ela tem?

SRG: Nove.

TC: Como é que ela se chama?

SRG: Chiara.

(Pausa de 12 segundos)

TC: E quem tá faltando ainda?

SRG: Meus dois avós, os outros.

TC: Então vamos colocar os outros avós.

(Pausa de 49 segundos)

SRG: Isso daqui ficou muito ruim.

TC: Ué, por que?

SRG: Cadê a mão?

TC: Ah, mas tudo bem. Você não precisa ser um desenhista, eu só quero que você me fale da sua família.

(Pausa de 20 segundos)

SRG: Entrou mais alguém.

TC: Devem ter entrado, né?  Mas nós já sabemos que eles estão lá olhando a gente mesmo. Não tamo(sic) nem ligando pra isso, né?(Pausa de 23 segundos) Hum, agora a família tá completa?

SRG: Tá.

TC: Então vamos identificar pra mim os personagens da família? Quem são as pessoas?

SRG: Ainda falta um tio, mas tudo bem.

TC: Tá, então vamos deixar. Eu já sei que tem tio, você pode falar dele mas no papel não vai caber. Vamos falar dessas pessoas, identifica cada pessoa pra mim. Quem são?

SRG: O vô da parte da mãe.

TC: Como é que é?

SRG: Raimundo.

TC: Raimundo. Coloca então Raimundo. Raimundo é o vô por parte da mãe. Essa é quem?

SRG: Silvana.

TC: Silvana.

SRG: A vó da parte da mãe.

TC: Tá, então coloca o nome da Silvana.

SRG: Esse é meu pai.

TC: Esse é teu pai. Então escreve, o pai. Pai, como é que ele chama?

SRG: João Paulo.

TC: João Paulo, tá.

SRG: Eu não consigo escrever Chiara aqui … então …

TC: Pode fazer iniciais.

SRG: Então vou colocar um C

TC: Um C, Chiara. Tua irmã de nove meses?

SRG: Uhum.

TC: Aqui. Hum, esse é você?

SRG: Esse é …

TC: Esse você falou que são os avós outros, né?

SRG: Ahan.

TC:  São os?

SRG: Os avós … .

TC: Avós paternos, né?

SRG: Ana Lucia.

TC: Ana Lucia. Então coloca. Ana Lucia, e o avô?

SRG: Paulo

TC: Paulo? Paulo. Aqui, como é que é isso aqui? O teu pai tá com a mão atrás do teu ombro. É isso? Assim?

SRG: É, assim.

TC: Assim?

SRG: É.

TC: Amigos? Legal. Que nome você daria para esse desenho?

SRG: Minha família.

TC: De família. É, minha família, tá bom. Então coloca o título. Sempre que eu peço para fazer um desenho, eu peço pra dar um nome para o desenho, colocar um título no desenho.

(Pausa de 90 segundos)

SRG: Dá pra ouvir.

TC: É. Eles estão falando alto né? Vamos prestar atenção lá não. Vamos prestar atenção aqui né? Hum, ainda botou um acento. Muito bem! Caprichando né?

(Pausa de 10 segundos)

SRG: Esse ficou ruim.

TC: Não, ficou legal. Ficou legal, bem legal. Então? Eu queria que você falasse um pouquinho pra mim, né Sean, de como é que é a tua convivência com essa família, vidinha, o seu dia a dia , não só com a família, que que você faz, onde você vai, o colégio.

SRG: Segunda feira tem basquete.

TC: Basquete. Você gosta de jogar basquete?

SRG: Gosto.

TC: Só segundas o basquete?

SRG: Segunda e quarta.

TC: Hum.

SRG: Basquete segunda e quarta. Que eu vou pra pro, eu acordo, às vezes faço o dever.

TC: Que colégio você estuda?

SRG: Escola Parque.

TC: Escola Parque. Bonito lá né?

SRG: Ahan. Eu acordo, às vezes faço dever, ééé, almoço e vou para a escola.  Aí na escola eu estudo.

TC: Tem muitos amigos?

SRG: Tenho.

TC: Qual amigo você gosta mais na escola?

SRG: Ih, tem tantos.

TC: Tantos! Nossa! Muitos que você gosta.

SRG: É.

TC: Em geral você faz o que com teus amigos? Além de encontrar no colégio, você sai com os amigos, faz programa em algum lugar?

SRG: Às vezes.

TC: É? Que tipo de coisa você faz?

SRG: Às vezes  eu…a gente, a gente que resolve.

TC: Na hora vocês resolvem. E com as pessoas dessa família? Que que você costuma fazer, além dessa convivência em casa? Você sai com esses avós?

SRG: Eu saio.

TC: Sai? O que que você faz?

SRG: A gente resolve na hora também.

TC: Resolve na hora também. E com a tua irmãzinha. Como é que é? Você ajuda a cuidar, o que que você faz com a sua irmãzinha?

SRG: É. Eu fico com ela.

TC: Você fica com ela e o que que você faz? Brinca com ela?

SRG: Brinco.

TC: De que que você brinca com ela?

SRG:  Ah, das coisas que ela gosta.

TC: É? Em geral ela gosta de que?

SRG: Ah, eu faço umas brincadeiras nela que eu saio, assim, como se eu estivesse correndo atrás dela e a babá corre de mim, aí ela fica rindo.

TC: Ahan, que legal.

SRG:  Aí é uma brincadeira que ela gosta.

TC: Que ela gosta. Legal, bem legal. Então Sean, essa é a sua família, que você chamou de minha família, que mora aqui no Brasil, né? Mas eu sei que você nasceu lá nos Estados Unidos, em Nova Jersey. Você se lembra de lá? De quando você morava lá?

SRG: Lembro.

TC: Lembra? Do que você lembra?

SRG:  Que era … frio.

TC: Que era frio?

SRG:  É.

TC: Mais o que você se lembra, além de que era frio?

SRG: (Silêncio – Bota a mão na cabeça)

TC: Então, você pode assim, queria dizer pra você, né Sean, que nessa, que nesse nosso encontro, aqui, hoje, é importante que você possa falar tudo o que passa pela sua cabecinha, sem ficar preocupado, sem ficar achando, que isso, né, eu sei que você tá vivendo essa, esse momento difícil, você sabe que nós estamos aqui pra falar também dessa situação, se você fica no Brasil, se você vai para os Estados Unidos e eu queria te dizer assim, que isso é decisão pra adulto, você tem o direito de dar a sua opinião e é muito importante que  a gente possa escutar você, saber o que você sente, saber o que que você quer, mas é importante também, Sean, que você saiba que não é você que vai decidir isso, tá? Isso eu falo sempre pras famílias que eu atendo. Isso é decisão de gente adulta, mas os adultos para decidirem é importante que eles possam levar em consideração o que você quer, o que você pensa.

SRG:  O que eu quero é ficar aqui no Brasil!

TC: Você quer ficar no Brasil?

SRG: Eu quero ficar no Brasil!

TC: Quer ficar no Brasil. E porque que você quer ficar no Brasil? Diz pra mim. Eu até posso entender depois que você me disse que essa é sua família, mas eu queria que você me falasse mais um pouquinho de porque que você quer ficar no Brasil.

SRG:  Porque aqui eu tenho minha família que eu gosto…

TC: Hum…

SRG:   … a família que é meu pai, a minha irmã …

TC: Uhum …

SRG:  … os meus avós, eu quero ficar aqui!

TC: Como é que você imagina se você fosse pra lá, como é que seria, nos Estados Unidos?

SRG:  Eu não gosto. Nem imagino.

TC: Nem quer imaginar?

SRG:  Nem imagino.

TC: Nem imagina. Nem imagina.

SRG:  Deve ser muito ruim. Eu não vou gostar!

TC: Você não vai gostar? Por que que você acha que não vai gostar?  Me explica um pouquinho que é importante a gente saber isso, o que que passa pela sua cabecinha em relação a esse assunto.

SRG:   Porque aqui eu tenho a minha família, eu não vou gostar porque vou ficar longe da minha família e eu tô acostumado … talvez eu nunca mais veja eles se eu for pra lá.

TC: Humm, você tem medo disso, de nunca mais vê-los?

SRG: E que eu vou pra lá, eu quero ficar aqui.

TC: Uhum. Você não consegue lembrar de nadinha de lá? Da época em que você, você morou lá até os quatro anos, não foi ? Não consegue lembrar de nada?

SRG: (fez o gesto de negativo com a cabeça)

TC: E do David? Do que que você lembra do David?

SRG: É … que ele mudou muito.

TC: Mudou muito?

SRG: Mudou. Ele agora esta se fazendo, de mais ou menos assim, como se fosse sofrido

TC: Humm. Você acha que ele se faz de sofrido? Como é que é isso?

SRG:  Ele agora tá fingindo que ele tá muito sofrido, ele tá fingindo, dá pra perceber.

TC: Você acha que é fingimento, você não acredita muito então?

SRG:  Eu não tenho confiança nele. Ele fala que vai…é…vir me visitar e estragou  meu final de semana, eu tinha uma viagem marcada pro Beach Park e ele estragou meu final de semana falando que ía vim aqui me visitar, aí eu fui ali e fiquei esperando com o, com o advogado lá do Sergio e eu fiquei esperando várias, a gente ficou esperando muito tempo, muito tempo, muito tempo e acabou que ele não apareceu.

TC: Não apareceu?

SRG: Não apareceu.

TC: Depois de ter marcado com você?

SRG: Depois de ter marcado. E essa foi a terceira vez.

TC: Que chato né? A terceira vez que ele marca e não vem. Aí fica difícil de confiar, né?

SRG: É.

TC: Fica difícil confiar. Mas, mas você sabe, né Sean, que ele sendo seu pai biológico, você sabe, né, que ele tem  alguns direitos, né, de te visitar, agora ele marcar essa visitação desse jeito sem te dar garantias de que quando ele vem, ele diz que vem e ele não vem.

SRG:  Não, ele não liga, não avisa.

TC:  Pois é, te deixa muito chateado e eu entendo que você fique chateado. Eu entendo. Isso dificulta até o seu contato com ele, né? Você gostaria de ter algum contato, eu já entendi que você não gostaria de ir morar nos Estados Unidos, isso eu já entendi. Mas você gostaria, assim, de ter algum contato com ele?

SRG:  Não.

TC: Como seu pai biológico?

SRG:   Não.

TC: Nem nenhum contato?

SRG: Nenhum.

TC: Você prefere não ter nenhum contato?

SRG: Prefiro.

TC: Mas você sabe que ele tem direito a esse contato?

SRG:  Eu sei, mas eu não gosto.

TC: Não, eu tô entendendo que você não goste, eu só queria, né, que nem eu tava dizendo que você não precisa ficar preocupado que a tua palavra ela vale muito, a tua palavra, mas você não precisa ficar preocupado, que a decisão final é você que vai tomar. Você gostaria de tomar essa decisão final? Que você tivesse a responsabilidade de tomar essa decisão final?

SRG: A única coisa que eu quero é ficar aqui no Brasil.

TC: Você quer, então pronto.

SRG:  Quero!

TC: Que os adultos saibam disso. Que quem vai tomar essa decisão saiba disso.

SRG:  Que todos os juízes, que todas as pessoas saibam.

TC: Que todas as pessoas, os juízes, quem quer que vá trabalhar nesse caso, saibam que o seu desejo é ficar no Brasil.

SRG: Claro.

TC: Isso é importante você poder dizer assim, com essa liberdade, né? Que você, como a gente combinou no início, eu queria que você me falasse o que passa pela sua cabecinha, o que você sente, com toda a liberdade e é isso que você sente. Uhum.

SRG: Se eu for pra lá eu vou começar a quebrar tudo, eu não vou gostar.

TC: Vai quebrar tudo?

SRG: Eu vou ficar maluco.

TC: Não, não vai ficar maluco. Você acha que vai ficar maluco?

SRG: Eu quero ficar aqui no Brasil.

TC: Eu já entendi Sean, eu já entendi. Vamos ver, vamos torcer para as pessoas, os adultos que vão tomar essa decisão, né, poderem entender isso que está se passando dentro de você. Eu entendo, como psicóloga de família, eu entendo que se você me desenha que a sua família são essas pessoas é mais do que legítimo que você queira ficar com essas pessoas, são as pessoas com as quais você tem os seus vínculos, é o seu pai, são os seus avós e a sua irmã, né? É aqui, como você falou, que tá a sua família. Eu entendo, né, a gente precisa ver daqui pra frente, se as pessoas, como eu te disse, não é você que vai decidir, mas a sua opinião é muito importante, vamos ver se os adultos, né Sean, que tem que tomar essa decisão, como é que eles vão lidar, né, bom  que tem até uma, um desenho pra ser mostrado, né, a gente pode até mostrar pras pessoas que estão vendo lá do outro lado como é que você desenhou a sua família, né? Eu queria que você me falasse um pouquinho mais do que, assim, como é que é você que disse: eu quero ficar no Brasil, porque aqui é que eu tenho a minha família, meus amigos, minha vida, eu queria que você falasse um pouquinho mais dessa família, desses amigos e dessa vida. Porque pra nós isso já está claro, mas talvez precise ficar um pouquinho mais claro para outras pessoas, até pessoas que vão influenciar nessa decisão.

SRG:  Aqui, meu avô …

TC: Seu avô. Vamos ver, eu sou velha e só enxergo com óculos Sean, Raimundo

SRG:  Raimundo.  Ele é muito legal, ele faz tudo para eu ficar bem.

TC: Que legal ter um avô assim, hein?

SRG: A minha avó também.

TC: Silvana.

SRG: É. Toda a minha família, faz tudo para eu ficar como eu quero.

TC: Que legal. O que que é esse tudo, quando você fala assim: faz tudo para eu ficar bem. De que que você lembra, sobre-tudo, quando você tá falando isso da, do vô Raimundo e da vó Silvana, por exemplo?

SRG: Quanto eu tô com dor de cabeça, eles pedem na farmácia o remédio.

TC: Uhum.

SRG: Quando eu tô com sono, eles pedem pra pessoa arrumar minha cama para eu dormir.

TC: Uhum.

SRG: É.

TC: Ou seja, estão sempre providenciando o seu bem estar. Cuidando de você. E aqui, esse nucleozinho aqui? Papai, a Chiara e você, como é que é essa relação?

SRG:  Muito boa.

TC: Muito boa. Me conta um pouquinho. O que vocês fazem.

SRG:  A gente vai para o cinema, a gente vai para a praia, a gente viaja junto, a gente faz um monte de coisa.

TC: Uhum. O que que você mais gosta de fazer, quando você está com o teu pai e a Chiara?

SRG: Sair.

TC: O que que é? Sair?

SRG: A gente passear.

TC: Passear. Qual o passeio que você mais gosta?

SRG: A gente vai andar no calçadão, a gente vai no … shopping.

TC: Ai que legal. Em geral saem só vocês três ou vai mais alguém junto?

SRG: Vai a babá.

TC: A babá vai. Pra cuidar da Chiara que ainda é pequeninha e ainda está nas fraldas. E essa mão aqui, bem no ombro, hein? Como é que é isso? Conta pra mim.

SRG:  É que toda vez a gente anda abraçado, eu e meu pai, mesmo que seja no shopping, em todo lugar.

TC: Que legal, que legal. E aqui, esses outros avós, Ana Lucia ou Luiza? Lucia.

SRG: Lucia.

TC: Ana Lucia e Paulo. Como é que é com esses avós? O que você faz sobre tudo, como é que é com eles?

SRG: O meu avô Paulo, ele tem uma fazenda de cavalos e a gente vai andar de cavalo, vai fazer um monte de coisa. Muito legal!

TC: Que legal. Você vai assim, sempre na fazenda, quantas vezes?

SRG: Sempre não, quando eu quero eu vou.

TC: Uhum. Quando você quer, é só falar que você quer ir pra fazenda, dá pra ir.

SRG:  É, e nos finais de semana.

TC: No final de semana. É aonde a fazenda? Muito longe?

SRG: Não, não sei assim direito aonde é.

TC: É quanto tempo assim, mais ou menos que leva?

SRG: Uma hora e meia.

TC: Uma hora e meia? Pertinho.

SRG: Uma hora e meia ou duas horas ou uma hora.

TC: É perto também né?

SRG:  É.

TC: É bem pertinho. E me fala um pouquinho mais pra mim assim do colégio. Você gosta da Escola Parque? Eu acho que aquela escola é uma escola legal. Agora, você gosta?

SRG:  Uhum. Adoro a Escola Parque.

TC:  Gosta da Escola Parque. Você sempre estudou lá ou antes você estudou em outro lugar?

SRG:  Eu estudei na Escola Americana antes, mas a Escola Americana…eu não curti a Escola Americana.

TC: É, quanto tempo você ficou na Escola Americana?

SRG:  Acho que um ano.

TC: Um ano? E o que que você não gostou lá? Que você não curtiu?

SRG: Lá eu não aprendi a falar Português, era só Inglês.

TC: Só falava Inglês. E aí você queria aprender a falar na escola Português? Porque você falava Português em casa, né?

SRG:  É.

TC: Você achava importante falar inglês pra quando você fosse nos Estados Unidos saber falar inglês, quando você fosse pela Europa, pelos países que falam inglês…

SRG:  Não…

TC: Você não achava isso tão importante. Você pode estudar isso depois, né?

SRG:  É, eu também já sei o básico.

TC: Já sabe o básico. Você consegue entender tudo em inglês?

SRG:  Tudo não.

TC: Não, muita coisa.

SRG:  É.

TC: E do colégio você disse que tinha muitos amigos, mas assim, tem um amigo especial? Eu sei que a gente tem.

SRG: Não.

TC: Tem algum amigo mais chegado assim?

SRG:  Não.

TC: Os mais chegados são quantos amigos, mais ou menos?

SRG:  Ahn, todos.

TC: Todos.  Quando você faz uma festa, você faz festa de aniversário?

SRG:  Ahan.

TC: E aí você convida todos os amigos? Igualmente todos?

SRG:  Uhum.

TC: Na tua turma tem mais meninos ou mais meninas?

SRG:  Mais meninos.

TC: Mais meninos. E você se dá bem tanto com os meninos como com as meninas ou se dá melhor com uns do que com outros?

SRG:  É a mesma coisa.

TC: Mesma coisa. As brincadeiras…

SRG:  São as mesmas.

TC: São as mesmas. Com os meninos  e com as meninas.  Então Sean, tem mais alguma coisa que você gostaria de me falar sobre a sua família, sobre o seu colégio, sobre essa história de fica no Brasil, vai pros Estados Unidos, sobre qualquer outra coisa que você queira falar?

SRG:  Não quero. O que eu quero é respeito.

TC: Respeito? Você está se sentindo desrespeitado?

SRG: David.

TC: Pelo David?

SRG: Pelo David.

TC: Hum.

SRG:  Quando…na primeira visita foi com a minha psicóloga.

TC: Ela tava presente, a psicóloga?

SRG: Tava presente.  Sempre que ele vem fazer uma visita, tem alguém presente.

TC: Até hoje é assim?

SRG: Até hoje.

TC: E a primeira foi com a sua psicóloga?

SRG: Foi.

TC: E onde foi? Em que local?

SRG: Sempre é no…no condomínio.

TC: No condomínio onde você mora?

SRG: Ahan.

TC: Tá.

SRG: E quando eu tava de saco cheio, eu falei: eu quero ir embora.

TC: Nessa primeira visita?

SRG: Na primeira visita. Aí ele falou: depois a gente se encontra. Eu falei: não, agora, por hoje chega. E ele: Não! Hoje não chega! Ele…

TC: Te desrespeitou, você acha?

SRG: É.

TC: Desrespeito isso.

SRG: É. Ele também me desrespeitou que eu ia viajar, ele faz uma…uma…ele combina uma coisa e não vai.

TC: Muito chato isso, né Sean? Muito chato. E você já falou isso pro David, que você queria ser mais respeitado por ele?

SRG: Ainda não.

TC: Não? E você gostaria de falar isso pra ele?

SRG: Gostaria.

TC: Então, seria importante…

SRG: …e gostaria que ele visse esse vídeo!

TC: Esse vídeo de agora?

SRG: Talvez.

TC: Ah…isso aí você decide depois.

SRG: É…

TC: …com as pessoas. Eu acho que vai poder ver, porque esse vídeo nós estamos fazendo, com o objetivo principal, Sean, de você falar livremente a sua opinião.

SRG: A minha opinião é que eu quero ficar aqui no Brasil.

TC: Pois é, você já tinha falado, já tá gravado no vídeo. E você repetiu, né? Então você gostaria que o David assistisse a esse vídeo.

SRG: E repito mais uma vez: quero ficar no Brasil!

TC: Quer ficar no Brasil. Eu já entendi isso perfeitamente.

SRG: Mas tem pessoas que daqui a pouco…

TC: …que ainda não…

SRG: …não entenderam…

TC: …que ainda não entenderam. Então, voltando a essa historia do desrespeito, né Sean, a gente quando se sente desrespeitado ou quando tá chateado com o pai, com alguém, com David, com um amigo, com a irmã, sua irmã ainda não dá pra falar, né?

SRG: É.

TC: Mas é muito importante que a gente possa falar o que a gente tá sentido, então, eu acho importante que você possa falar pro David que você se sente assim, né? Não só pro David, mas pro teu amigo, se o teu amigo te desrespeitar você poder dizer pra ele que se sentiu desrespeitado, não é? Porque quando a gente fala o que a gente tá sentindo, fica muito aliviado…

SRG: …tira um peso das costas.

TC: Isso, tira um peso das costas, que nem eu imagino que você esteja tirando um peso das suas costas dizendo o que você pensa aqui hoje, né? Agora, vamos ver como é que as coisas, eu vou torcer para que esse seu desejo de ficar no Brasil…

SRG: …seja cumprido…

TC: …seja realizado, não é? Porque eu tô entendendo…

SRG: …eu também espero…

TC: …que você quer muito ficar no Brasil. Mas, como eu te disse, a decisão não é sua. Essa é uma coisa para adultos decidirem e vamos ver se os adultos, né, vamos ver…

SRG: …vão me escutar…

TC: …vão te escutar, vão ver o que que é melhor pra você, né? Você que contou pra mim e tá gravado no vídeo essa história, história da tua família, sua história no Brasil, né, os vínculos que você tem aqui, a família, os amigos, o colégio, né? Tudo isso é muito importante na vida das pessoas. Tá bem Sean, tem mais alguma coisa ainda que você queira falar?

SRG: Não.

TC: Podemos então encerrar nosso encontro de hoje?

SRG: Tá bom.

TC: Tá bem, então te desejo muito boa sorte, viu?

SRG: Obrigado.

TC: Foi muito legal conhecer você e ter podido ter esse encontro.

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