Incerteza, ansiedade, medo do futuro. Estes foram os primeiros efeitos da decisão do STF que acabou com a obrigatoriedade do diploma para o exercício...

Incerteza, ansiedade, medo do futuro. Estes foram os primeiros efeitos da decisão do STF que acabou com a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. O temor é maior entre os estudante do curso de comunicação social que se preparam para enfrentar um mercado pelo qual vão ter que competir com profissionais egressos de todas as áreas.

Alessandra Santos, que cursa o terceiro semestre de jornalismo no CEUB, em Brasília, diz que às incertezas sobre o mercado se somam outras, de ordem estrutural, derivadas da mudança de paradigma tecnológico que põe em xeque a própria existência dos veículos formais. “Não sabemos se vamos poder trabalhar em um jornal ou se os jornais simplesmente vão desaparecer”, diz a universitária. “Pode ser que a nossa atuação fique restrita aos blogs ou à comunicação interna das empresas”.

Alessandra revela que os estudantes vinham se preparando para a nova realidade porque a exigência do diploma já havia sido suspensa por medida liminar. Segundo ela, nenhum dos colegas, que desembolsam R$ 1 mil pela mensalidade, pensou em trocar de área. “Os professores, em sua maioria, já se manifestavam a favor do fim da exigência”, relata.

Atualmente, segundo dados do INEP, as faculdades jogam no mercado de trabalho 35,5 mil novos jornalistas todos os anos. O número total de estudantes supera 212 mil. Três em cada quatro estudam em faculdades pagas, caras e nem sempre eficientes. O bacharelado em comunicação social é a meta de 4,53% dos universitários brasileiros, perdendo apenas para administração, direito, engenharia e pedagogia.

No interior do Brasil, onde somente agora as redações começam a se profissionalizar, a decisão do STF foi um baque. Um Frutal, MG, a primeira turma de alunos de jornalismo vai se graduar no fim no ano que vem pela unidade local da UEMG — Universidade Estadual de Minas Gerais. Nessa primeira fornada, 16 alunos estão concluindo o curso de jornalismo. Uma das pioneiras, Cinthia Queiroz, lamenta ter sido colhida pelo fim da obrigatoriedade quando se preparava para iniciar seu trabalho de conclusão de curso. Segundo ela, o mercado pequeno é povoado por autodidatas, que concorrem diretamente com os jornalistas.

Alguns veículos já anteciparam que seguirão dando preferência à contratação de profissionais diplomados. É o caso dos Diários Associados, que editam, entre outros, os jornais O Estado de Minas e Correio Braziliense, e também da Rede Globo. Em jornais e empresas tradicionais, dizem os analistas, esta deverá ser a tendência. O advogado trabalhista Rui Meier é uma dessas vozes. “A profissão de jornalista apresenta particularidades que a distinguem de outras profissões e isso deve ser levado em conta. Na imensa maioria dos países não é obrigatório ter formação de jornalista para o exercício da profissão. Os EUA são um exemplo, embora existam diversas e renomadas faculdades de jornalismo no País”. Rui Meier também lembra que o Ministério do Trabalho e os sindicatos já vêm há algum tempo discutindo uma nova regulamentação para a carreira.

Além da exigência do diploma, tradicionalmente as redações são ambientes que não valorizam a formação acadêmica de seus profissionais. Algumas chefias chegam a desestimular iniciativas dos que querem se pós-graduar, pois isso compromete a disponibilidade integral exigida pelas redações. Se títulos acadêmicos tivessem algum valor, provavelmente a jornalista Dora Rocha não estaria enfrentando problemas para se recolocar no mercado de trabalho de Brasília. Ela está há um ano sem emprego fixo. Tem vivido de free-lancers eventuais desde que deixou a TV Senado, quando os terceirizados foram substituídos por concursados.

Dora é formada em artes cênicas, letras e comunicação. Fez a faculdade de jornalismo depois de ter sido mãe, e apenas para se habilitar para funções como a edição e produção dos programas jornalísticos nos quais já trabalhava. Hoje, Dora acha que perdeu um tempo precioso, mas não se arrepende. A preocupação dela é com o que vai acontecer com os novos concursos, que na Capital contratam uma parcela importante da mão-de-obra qualificada disponível. “Não sei se os graduados em jornalismos continuarão tendo preferência ou se terão que disputar com qualquer pessoa, o que é provável que venha a acontecer”, antevê.

Com tantas interrogações para os profissionais que estão no mercado ou que se preparam para ele, tudo indica que um único jornalista da nova safra tem tudo para emplacar — apesar de não receber remuneração específica por seu ofício, outra anomalia previsível em caso de não haver regulamentação. É Luis Inácio Lula da SIlva, que vai assinar uma coluna semanal em jornais que se habilitem a publicá-la. Com os já provados e reiterados laços de apreço pelo trabalho da imprensa, deve ser o único “jornalista” que tem mais de um motivo para comemorar.

 

*A ilustração deste artigo é apócrifa. Agradeço aos autores antecipadamente.


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