O avanço graudual do H1N1 ao redor do globo teve o condão de devolver à população e aos governos a tranquilidade necessária para enfrentar...

O avanço graudual do H1N1 ao redor do globo teve o condão de devolver à população e aos governos a tranquilidade necessária para enfrentar a epidemia de gripe suína. Mas há algo que incomoda qualquer um que observe atentamente o mapa da dispersão viral. A letalidade da doença continua despencando — para nossa sorte. Baixou de alarmantes 6% nos primeiros dias (um morto a cada 15 enfermos), quando o virus ainda estava contido dentro das fronteiras mexicanas, para 1,12% no boletim de hoje da OMS. Em 4694 casos confirmados houve 53 mortes (uma morte a cada 88 doentes).

Agora, preste atenção ao mapa acima e perceba que, se os números da doença no México forem desconsiderados, teríamos o seguinte quadro:  3068 pessoas contaminadas, com a ocorrência de 5 mortes. A letalidade baixaria para 0,163% (uma morte a cada 613 doentes) — a terça parte da taxa de mortalidade que se verifica em qualquer epidemia de gripe que, segundo estatísticas de fontes confiáveis, é de 0,5%.

Agora considere apenas o caso do México. Lá houve 1626 casos confirmados, com 48 mortes. A letalidade da doença é de  2,95% (uma morte para cada 33 doentes), 18 vezes maior do que o restante do planeta. Aqui cabe a pergunta: o que mata verdadeiramente é o poder devastador da infecção ou a maneira como os doentes estão sendo tratados ?

É certo que se pode argumentar com a evidência social. Populações mais pobres, como os mexicanos, estão mais vulneráveis aos efeitos deletérios de qualquer tipo de epidemia ou endemia. É impossível não se especular com a constatação de que esse é o fator determinante do perfil de gravidade da doença entre países que têm realidades sociais e econômicas distintas. Basta ver o desastre que o HIV provocou no continente africano, e quão diferente é a realidade em países como o Brasil, que tem um ótimo programa de prevenção e atendimento dos portadores.

A evidência de que a letalidade está vinculada às condições de profilaxia e suporte aos doentes pode levar a outro questionamento. Pelas estatísticas mais recentes, os Estados Unidos são o país com o maior número de registros. Até agora são 2532 casos e 3 mortes (taxa de mortalidade de 0,118%, ou uma morte a cada  844 pessoas que se contaminam). Em condições ótimas, como se pode supor que existam na América do Norte, seria natural esperar um impacto menor do virus sobre a população. E isso pode acabar distorcendo a percepção da realidade para um quadro global de menor drasticidade.

Antes que voltemos a nos assustar, é preciso lembrar que o sistema de saúde americano está depauperado e muita gente sequer tem acesso aos hospitais públicos (caso dos imigrantes clandestinos, que morrem sem assistência por medo da polícia de imigração). Nem mesmo lá existe uma situação ideal — apesar das evidências estatísticas de que o governo está atento, atuante e a população, informada.

Moral da história: podemos ficar tranquilos. Temos razões sólidas para achar que, apesar do pavor inicial, a vida vai seguir normalmente, pelo menos até o surgimento de uma nova epidemia. Nós, brasileiros, levamos alguma vantagem. Estamos habituados a medidas profiláticas e, depois dos tropeços iniciais, o governo está enfrentando bem a situação. Vamos sobreviver e, a não ser por algum fator imponderável, não teremos medidas como o fechamento de escolas e a decretação de feriados sanitários.

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